• Postado por Tiago

Numa coisa a política é democrática: não importa o partido, cedo ou tarde, o cidadão acaba se arrependendo de ter dado poder a quem prometia ser o salvador da pátria. Não só porque a salvação nunca rolou, mas porque até o político mais casto acaba se transformando num lobo esfomeado quando se vê gerindo a bufunfa pública. Nestes 30 anos de história, o DIARINHO já presenciou a ascensão e queda de muita otoridade, sem deixar passar um nisco sequer de sujeira pra debaixo do tapete. Pois os mandantes vêm e vão, mas o jornal continua como o quarto poder, fiscalizando sem medo de botar o dedo na ferida ou a merda no ventilador.

No final dos anos 70, quando o Diário do Litoral foi fundado, ainda eram poucas as denúncias feitas pela imprensa porque rolava patrulha da ditadura militar. Ainda assim, o fundador do DIARINHO, Dalmo Vieira, logo cedo, imprimiu seu estilo desafiador. Em dezembro de 1979, o jornal denunciava o primeiro ?trem da alegria? da casa do povo. Dez vereadores de Itajaí e seis de Camboriú tinham ido passear na capital de Pernambuco, Recife, com dindim público. No editorial Dalmo lamentou que não existissem mais vereadores por amor à causa, como Olíndio de Souza e Adolfo Cabral, que nem recebiam salário. Dalmo também não perdoou o prefeito da época, Amílcar Gazaniga, por não largar o osso. Isso porque seu mandato foi esticado em dois anos pelos militares. Em vez de acabar em 1981, acabou em 1983.

Assim como tudo na vida, a política também passa por fases. No começo dos anos 80, a bronca do jornal era com as presepadas de Amílcar Gazaniga, que não fez seu sucessor nas eleições de 1982. Arnaldo Schmitt, do MDB, venceu João Watzko, da Arena (partido dos militares) e ex-chefe de gabinete de Gazaniga, com uma campanha modesta. Sua surpreendente vitória deu início ao próximo capítulo da política peixeira: a era Arnaldo Schmitt.

Com a missão de mostrar serviço e mostrar à população seu poder de renovação, Arnaldo foi com tudo nas contas deixadas pelo antecessor. Em junho de 1983, botou Gazaniga no pau por ter deixado uma baita dívida pelo não asfaltamento da avenida Beira-Rio. E como língua não tem osso, dois anos depois, Amílcar devolveu a gentileza denunciando a corrupção no governo emedebista. Em outubro de 1985, ele denunciou que a prefeitura repassou indevidamente dois bilhões de cruzeiros do departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) para os flagelados da enchente. E tomou as dores do governador Esperidião Amin, quando Arnaldo disse que tinha dado 150 milhões pra Balneário e 1 bi e 700 milhões pra Blumenau fazer a reconstrução depois das cheias de 83 e 84, e apenas 10 milhões pra Itajaí. Nas contas de Gazaniga, Amin tinha dado seis bi.

Fogo amigo

Mas brigar com o desafeto político é coisa corriqueira. Surpresa mesmo rolou quando Arnaldo começou a disparar sua metralhadora giratória contra o próprio vice. Em novembro de 1983, o prefeito deu entrada na câmara com um projeto de lei pra tirar as funções fiscalizadoras do vice, Círio Arnoldo Vicente, que ele mesmo tinha dado no começo do mandato. Círio também era o presidente da Fepevi, atual Univali, e, em agosto do ano seguinte, Arnaldo pediu a cassação de Círio por causa de treta nas contas da faculdade. O rombo chegava a 200 milhões de cruzeiros.

Em fevereiro de 1985, Arnaldo garantiu as eleições diretas na Fepevi e o novo presidente interino da entidade, Pedro Severino, denunciou que a dívida passava de 1 bi. Quando as eleições foram realizadas, três meses depois, Edson Vilella já contabilizava 1,7 bi em dívidas.

Inimigo nº 1

A coisa ficou preta pro lado de Arnaldo Schmitt quando os empresários da city fizeram uma pesada campanha contra ele em agosto de 1987. A associação comercial, os sindicatos da indústria da pesca e dos empregados do comércio, o comércio atacadista de petróleo e o conselho de usuários do porto e veículos de carga anunciaram que o prefeito era o inimigo nº 1 da cidade. Tudo porque Arnaldo declarou que o porto, a pesca e o petróleo davam mais prejuízo do que benefício. Nesta época, a mão-de-obra do porto era estimada em 10 mil pessoas. A briga foi feia e se arrastou por meses. Os empresários chegaram a lançar um jornal (Folha de Itajaí) só pra espinafrar o prefeito, que não era de levar desaforo pra casa.

Arnaldo também comprou briga, em julho de 1984, com os ecologistas da associação Itajaiense de Preservação Ambiental (Assipan), cuja sede ficava numa sala da casa da cultura. O prefeito despejou a entidade, que no anterior tinha sido considerada de utilidade pública. Os ecologistas ficaram irados, acamparam em frente e entraram com mandado de segurança contra o despejo. A repressão nem esperou o julgamento do papéli e desmontou o acampamento na marra, dois dias depois.

Arnaldo fez seu sucessor – João Macagnan, que lhe agradeceu dando um carguinho na prefa. Mas as coisas continuavam pretas pro seu lado, a ponto do baita apê duplex que Arnaldo tinha no edifício Catarinense ir à leilão, em 1992, por falta de pagamento.

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