• Postado por Tiago

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Filmagens, operações em campo, orkuts falsos. Estas são algumas das táticas que Adriano Gervásio, presidente do Conselho Tutelar de Camboriú, usa para tirar das ruas os tarados e pedófilos responsáveis por tornar a cidade a campeã na região de casos de abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Tirar tarados das ruas? Isso mesmo, o Conselho Tutelar de Camboriú vai além da ação burocrática de encaminhamentos e acompanhamento de menores. Na entrevista que deu aos jornalistas Martha Kienast e Sandro Silva, o jovem advogado revela como ele e sua equipe agem nas investigações, conta o lado sórdido dos crimes e abusos contra menores e adolescentes, fala das dificuldades do conselho e opina sobre o papel da família na prevenção desses crimes. Os cliques são de Felipe Trojan.

DIARINHO – Estamos na semana de combate à violência sexual contra crianças e adolescentes. Entre todos os atendimentos feitos pelo Conselho Tutelar de Camboriú, quantos representam os casos de abusos a crianças e adolescentes?

Adriano – Eu diria que em torno de 10 por cento dos casos. O nosso número de atendimento aqui é muito grande. O número, por dia, não baixa de 30, 40 atendimentos. Daí, quatro são geralmente suspeita de abusos a crianças e adolescentes. [E os outros casos são de quê?] Infrequência escolar, rebeldia, adolescentes que fogem de casa, orientações à família, pedidos de vagas em creches e escolas, solicitação de documentos… Agora, até por esse destaque que tá tendo, o pessoal começa a procurar o conselho tutelar pra qualquer coisa. Às vezes é de responsabilidade da polícia e eles tão vindo procurar o conselho. [Como o que, por exemplo?] Denúncia de tráfico de drogas. ?Olha, lá na minha rua tem uma boca de fumo e ninguém faz nada. Então a gente quer denunciar pro conselho?. Já teve ocasião de a gente estar investigando um caso de abuso e colocamos uma câmera e filmamos um ponto de droga. Mas tava mesmo escrachado. Aí levamos ao conhecimento das autoridades. Mas não é nossa função. É claro, se a gente souber, a gente vai informar. [Qual é, então, a função do conselho tutelar?] É, além de proteger o direito das crianças e dos adolescentes, requisitar os serviços necessários para que essa proteção aconteça e daí fazer os encaminhamentos. O conselho tutelar faz a parte administrativa. Mas tá meio desvirtuada a função do conselho. Se o conselheiro se ater somente ao estatuto da criança e do adolescente e ficar sentado só fazendo requisição, seu trabalho não vai surtir efeito.

DIARINHO – Esta semana, o DIARINHO publicou que Camboriú é a cidade onde mais ocorrem abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Por que isso acontece?

Adriano – Não só em Camboriú. Todas as cidades litorâneas têm um alto índice de abuso e exploração sexual. Só que em Camboriú, o que é que tá acontecendo: muitos dos casos que acontecem em Balneário são meninas de Camboriú ou são os adolescentes de Camboriú. Até por uma questão de localização nossa. Aqui é considerada uma cidade dormitório de uma grande cidade, que é Balneário. Então, os adolescentes aqui, por não terem muita opção ou até uma outra visão, vão para Balneário e acabam caindo na nossa estatística, porque todo o adolescente pego em Balneário, num caso de abuso ou num caso de exploração, automaticamente passa a ser acompanhado por Camboriú, que é o local da residência dele. Mas isso, eu diria, um pouco é…digamos, que a condição financeira das famílias é muito favorável a esse tipo de situação. Teve um caso de pedofilia que a gente desvendou, ocorrido ali em Balneário. Eram, bem dizer, sete adolescentes da mesma rua. Uma rua bem carente aqui do bairro Monte Alegre. Isso tudo vai favorecendo. Uma criança ganha dinheiro fácil, espalha pra uma, espalha pra outra. E têm cidadãos que começam a explorar esse tipo de situação. Pelo número populacional de Camboriú, é alarmante. Antigamente não se ouvia falar tanto nesses casos. No mandato anterior, poucas vezes apareceu algum caso assim. Até porque, um conselheiro, em 2007, ganhava R$ 380. E fazia horário integral. Nunca foi dado o devido valor para um conselheiro tutelar. A gente levou muita sorte de pegar uma época boa de conselho tutelar, de pegar toda uma estrutura que a prefeitura deu. [Esse reconhecimento deu mais estrutura pros conselheiros irem pra rua investigar e isso ajudou a desvendar esses casos?] Isso. [Mas o aumento de número de casos se dá porque vocês estão com uma equipe mais estruturada ou por que a população está um pouco mais consciente e denunciando os crimes?] Na verdade, o trabalho do conselho tutelar de Camboriú é diferenciado dos outros, até porque trabalhamos em rede. A gente tem um livre acesso ao judiciário. O doutor Paulo, que é o juiz da comarca, abre as portas do fórum pra gente. Isso ajuda muito, principalmente quando tem algum caso que estamos meio perdidos, a gente vai lá e busca uma orientação jurídica mais consistente. A prefeitura tem apoiado na parte estrutural. A gente ganhou um veículo zero em 2007, ganhou móveis, computadores… Coisa que na outra gestão do conselho não tinha. Mas falta muita coisa ainda para o nosso conselho ficar 100%. Por exemplo, os programas específicos para as famílias. Uma coisa que a gente vem lutando desde 2007 e não conseguimos implantar ainda. Isso pra nós é uma coisa fundamental. Não adianta a gente tratar de uma adolescente abusada sexualmente, levar ela prum tratamento psicológico e depois ela voltar pra mesma família, pra família que tava explorando ela. Não adianta, né!? [Mas o que falta para implantar esses programas?] Eu acredito que falta um pouco de vontade de muita gente. [Quem é ?muita gente??] Muita gente, no caso, seriam… Os governantes mesmo! Porque já foi reivindicado pelo conselho. O conselho vai e tenta conversar de forma amigável. A prefeita Luzia, agora, abriu a venda e tá enxergando que se ela não apoiar o conselho nesse aspecto não vai sair do papel, vai ficar sempre esse nosso dilema. Eu acredito que agora isso vai acontecer.

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DIARINHO – Onde ocorre a maioria dos crimes? Na escola, em casa, nas igrejas, na rua?

Adriano – A maioria dos casos de abuso e exploração sexual infantil acontece dentro de casa. [Se é dentro de casa, então, normalmente é um familiar. Tem alguém conivente com isso, então?] Às vezes tem a conivência, né!? Um fator relevante, nosso, é a questão de que o agressor, muitas vezes, é quem provê o alimento da residência. O pai, o padastro. Então, a mãe, por não ter uma condição financeira pra poder suprir as necessidades da casa, ela fica acuada, ela não sabe o que fazer. Muitas famílias não são daqui. A maioria dos casos que acontece não são de pessoas de Camboriú. A maioria que eu digo é assim: 90% não são de Camboriú. Se fizer um levantamento em todo o nosso arquivo, olha, tenho certeza que 90% não são de Camboriú, moram aqui mas não são naturais daqui. São famílias vindas de outros estados, outras cidades, que vêm pra Balneário tentar a vida e acabam em Camboriú. [Há um bairro específico onde mais ocorrem casos de abuso a crianças e adolescentes ou é generalizado?] Monte Alegre, Conde Vila Verde e Tabuleiro é onde é o maior foco.

DIARINHO – Como é a figura do tarado? Há um perfil que caracteriza o abusador? Um perfil psicológico ou sócio-econômico?

Adriano – Aqui em Balneário Camboriú, a própria população já é escolada com esse tipo de situação. Ontem, ainda, eu tava aqui no conselho e chegou uma mulher apavorada, dizendo que tinha um homem de branco, bem vestido, com uma menina meio… As palavras que ela usou foram: ?Uma menina meio encardida?. A criança com uma boneca na mão, ele puxando ela pelo braço na rua… Isso despertou a suspeita na comunidade. Então, quer dizer, a comunidade tá alerta a esse tipo de situação. Já vieram na hora e ?olha, vai lá que…?. A gente foi lá, fez rondas mas não conseguiu localizar. A gente vê a preocupação da comunidade nesse aspecto. O que eu vejo, assim, em alguns casos que a gente acompanhou, tarados ou pedófilos geralmente não são pessoas ignorantes, são pessoas com grau de estudo bom, com nível superior, segundo grau completo. São pessoas que sabem o que tão fazendo. Pela internet, é um problema grave que a gente vem enfrentando. Uma ação que eu acho que todos os conselhos deveriam fazer: a gente criou orkuts falsos, os fakes, pra poder interagir com os jovens, ver o que está acontecendo. Daí, quando tem um caso a gente investiga com um fake pra poder chegar até a origem. E isso tem dado resultado. [Quantos casos vocês já pegaram através desse tipo de investigação pela internet?] Olha, aqui em Camboriú uns 10 casos a gente já conseguiu sondar pela internet. [Mas como é praticado o crime?] Sempre tem um aliciamento de menor, de adolescente, daí, tendo a primeira informação a gente começa entrando em sites de amigos, fazendo uma amizade com eles, coloca fotos de adolescente. Mas as fotos que a gente usa não são nada ilegais. Às vezes são fotos nossas de muito tempo atrás que ninguém conhece [Risos]. Então a gente começa fazendo um círculo de amizade e começa a questionar alguns casos. E eles, sem querer, vão abrindo pra gente. [E os casos aqui da região são somente de orkut? Ou tem blog ou outra mídia?] Têm casos de divulgação de fotos por e-mail. [O chat, que é a sala de bate papo na internet, é usado pelo tarado para caçar?] Também. [Como um grande número de crianças e adolescentes têm orkut hoje, quais dicas você dá para os pais?] A fiscalização dos pais é necessária nesses casos. Esse negócio de computador no quarto do filho tem que saber muito bem a hora de colocar. Porque, geralmente, o adolescente não vai ficar teclando na frente dos pais com um desconhecido. A gente vê que são pessoas que tentam manipular a cabeça do adolescente. Porque é fácil: se tu entra no perfil do orkut de uma pessoa tu sabes tudo o que ele gosta. Tá ali. Gosta de foto, gosta de motocross, gosta disso… Daí, eles vão direcionando naquele sentido e o jovem acaba se tornando seu amigo. E, dali pra marcar um encontro e acontecer coisa pior é questão de passos. Então, o cuidado que os pais devem ter nisso é a fiscalização, ter um diálogo aberto com os filhos, conversar, expor essa situação, alertar a eles de que 80% do que circula na internet é mentira, é fasildade. Aquilo ali é uma ilusão. Acho que o diálogo entre pais e filhos é essencial.

DIARINHO ? Uma criança abusada pode se tornar um abusador no futuro?

Adriano ? Com certeza. Já houve casos. A gente atendeu um caso aqui, onde um menino foi abusado, tinha quatro ou cinco anos e quando tinha uns 10 anos abusou de um irmão mais novo. Isso tudo é o resultado da falta de um acompanhamento.

DIARINHO ? Existe alguma estatística que demonstre a recuperação da crianças vítimas de abuso que receberam tratamento e acompanhamento? Há alguma garantia de que a criança submetida a tais tratamentos vai se recuperar e se tornar um adulto sadio e livre de traumas?

Adriano ? Sim. Aqui no nosso município a gente tem o antigo programa Sentinela. Hoje é o Serviço de Enfrentamento à Violência e aos Maus Tratos. Esse programa dá um suporte muito bom. Por quê? Porque a criança é enviada pra lá e é feito todo um acompanhamento da criança, com psicólogos, assistentes sociais. E essa criança tem um acompanhamente por um bom tempo, até a psicóloga achar que ela está recuperada e desligá-la do programa. No programa Sentinela, com certeza há todo esse histórico. O conselho tutelar só solicita os relatórios no caso onde tem, por exemplo, uma determinação judicial de um acompanhamento por seis meses. Naquele prazo ali o conselho tutelar vai acompanhando pra ver se necessita de alguma coisa. [Em média, uma criança fica quanto tempo nesse acompanhamento psicológico depois de sofrer um abuso?] Olha, é difícil dizer. Depende o caso. Tem o caso de uma criança de três anos que foi atacada na frente de casa e foi abusada sexualmente por um desconhecido. Essa criança ainda continua em tratamento. Nós, conselheiros, fomos buscar ela no hospital e era nítido o transtorno da menina. Tanto é que ela ia descendo a escada, eu fui pegar na mão dela e ela ficou branca. Ela não chega mais perto de homem. Um trauma desses pra essa menina vai por anos. Claro que o programa Sentinela vai tentar suprir essa necessidade, só que entram outros fatores. Vai muito da família, também. Eu acredito que para cada caso específico vai um determinado tempo.

DIARINHO ? Em qual idade as crianças são mais vulneráveis? Em Camboriú, a maioria dos casos descobertos está em qual faixa de idade?

Adriano – Tá nessa idade, de cinco a 10 anos.

DIARINHO – A pedofilia é considerada uma doença ou um crime?

Adriano – A pedofilia em si, a denominação, seria uma doença. [Ela tem cura? Tem tratamento?] Esse é um grande erro que eu vejo no sistema, porque um acusado, quando ele é preso por pedofilia, ele não recebe tratamento nenhum. Ele vai pra cadeia, vai cumprir um tanto de pena que a justiça decidir, mas não tem um tratamento específico pro agressor. Esse é um ponto que a gente vem debatendo até nos casos que envolvem crianças e adolescentes abusadores também. Quando tem uma criança ou um adolescente que venha abusar de qualquer forma de outro, tem que ser encaminhado o agressor também, não só a vítima. Se ele está fazendo isso é porque alguma coisa errada com ele tem. Quando é um cidadão formado é diferente. Ele tem o conhecimento, pode ser uma doença, como pode ser sem-vergonhice mesmo. Mas isso aí tem que ser muito bem analisado. Eu vejo que não está sendo feito um trabalho 100% confiável nesse aspecto. Porque, o que acontece com um abusador desses? Não querendo defender, pois jamais vou defender uma pessoa dessas. Mas ele pratica esse crime, vai pra uma instituição carcerária, chega lá dentro, ele vai ser abusado novamente que a gente sabe que acontece. Quer dizer, vai aumentar ainda mais o trauma dele, a revolta dele. Quando ele sair, o que acha que ele vai fazer?

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DIARINHO – Desde março, está instalada no senado uma CPI para investigar uma rede de pedófilos espalhada pelo Brasil. Há parlamentares que defendem o aumento da pena de prisão de 10 para 30 anos. Você acredita que esta medida poderá intimidar os criminosos?

Adriano – Acredito que sim. Até um outro fato que a gente vê é que a justiça peca muito nesse aspecto. Têm casos onde os acusados, com todas as provas e tudo certinho ficam pouco tempo na cadeiai. Eu acho que a justiça deveria dar um peso maior pra esse tipo de ocorrência mesmo. Nem que seja pra servir de exemplo. Porque o conselho tutelar faz a sua parte, a polícia faz a sua parte, chega no judiciário, e o judiciário faz a sua parte em termos. Aí, deixa brecha pra amanhã ou depois ele estar respondendo em liberdade. Isso não vai acabar nunca. Acho que tem que ter uma pena mais rígida sim.

DIARINHO – Há uma rede de informação entre os conselhos tutelares que monitoram a presença de pessoas acusadas de pedofilia nas cidades? Por exemplo, um tarado que responde um processo em liberdade, muda de cidade e o conselho tutelar deste novo local não fica sabendo?

Adriano – Dos agressores não. Eu acredito que seria uma ótima opção se fazer um banco de dados com o nome de todos os agressores e colocar no sistema. Os dados do conselho tutelar funcionam pelo Sipia [Sistema para Infância e Adolescência], que é um programa único pra enviar todos os dados da criança e do adolescente. Quer dizer que do agressor não tem nenhum cadastro… E se você for consultar na página do TJ [Tribunal de Justiça, na internet] vai dar segredo de justiça, não vai aparecer. Então chega lá na cidade, o fulano de tal vai querer saber que ele é suspeito de alguma coisa, vai consultar e não vai aparecer nada.

DIARINHO – Se boa parte dos casos acontece dentro de casa, como denunciar o abuso? Há um disque-denúncia? E como deve-se proceder caso alguém flagre um atentado violento ao pudor ou algo mais grave?

Adriano – Nesses casos, pode ser comunicado ao conselho tutelar pelo 3365-5251 ou pelo telefone de plantão, que fica ligado 24 horas: 9968-6372. Isso aqui em Camboriú. E têm casos também de denúncias no disque 100, que é em nível federal. Vai pra Brasília essa ligação e retorna uma via pro Ministério Público, uma pra delegacia e uma pro conselho tutelar. [E a pessoa tem que se identificar? Dar nome?] Não é necessária a identificação. Muita gente não denuncia com medo de se envolver. Jamais vocês vão ouvir o conselho tutelar dizer que foi fulano de tal que denunciou. Isso é uma regra que deve ser cumprida na íntegra, pra preservar quem denuncia. [O serviço do disque 100 atende às denúncias no momento em que o fato está ocorrendo?] O disque 100 é mais demorado, mas depende da ligação e da situação. A gente já recebeu ligações de Brasília onde os encarregados do disque 100 ligam direto pro celular do conselho e dizem: ?acabei de receber uma ligação, é na rua tal, endereço tal e por favor, vão lá e deem uma verificada agora que a mulher estava desesperada?. Dependendo do grau da denúncia, eles entram em contato por telefone imediatamente. Outros casos deixam a desejar, demora uma semana. E isso vem prejudicar porque poderia ser preso em flagrante, se fosse o caso. Poderia ser tomada uma medida mais imediata. Mas geralmente, o disque 100 é pra esse tipo de denúncia, mais pra investigação.

DIARINHO – Há o risco de alguém fazer uma denúncia falsa com o objetivo de prejudicar um inimigo ou um desafeto e acabar prejudicando uma pessoa inocente?

Adriano ? Não, porque o conselho tutelar toma uma série de cuidados pra não pecar nessa parte. A gente sabe que, se resolver mil casos de forma exemplar e fizer um erro desse, todo nosso trabalho vai por água abaixo. A gente primeiro tenta abordar a situação, procurar o número de provas exatas pra chegar lá e não ter contestação, pra depois alarmar. Um caso de abuso, quando há suspeita de uma criança estar sendo abusada sexualmente, a gente não vai diretamente na casa. Se vocês olharem, no nosso carro foi tirada toda a plotagem e só tem um adesivo imantado na porta. Quando é um tipo de investigação diferenciada a gente retira, até pra não expor a criança. No nosso carro foi colocado insulfilm pra não mostrar quem está dentro do carro, proteger a identidade da criança. As vezes tu vai levar pra fazer uma solicitação de vaga de creche e eles acham que é abuso. Aqui em Camboriú tá assim, onde parou o carro do conselho já é um balaio. Sei que muita gente faz denuncia falsa. O número de denuncias falsas é grande, geralmente por atrito entre marido e mulher. A mulher quer tirar o marido de dentro de casa e vai lá e denuncia ele por abuso. [Quantos por mês?] Nos plantões é o que mais dá. [Final de semana, madrugada?] Isso. No mínimo uns 50 casos por mês são denúncias falsas. [Como vocês conseguem separar o joio do trigo?] Já começa pela ligação. Quando começa com intriga a ligação já vem de madrugada. Às vezes viu a mulher ou o homem no bailão, saiu, e começa a confusão por ali. Para todos os casos é dada a mesma atenção. Não é apenas pela simples ligação que a gente vai dizer: esse não é verdade. É feito todo um acompanhamento. Só que isso detém um tempo maior do conselho, sobrecarrega os conselheiros. Nesses casos, quando a gente tem uma certa desconfiança, alerta que a denúncia tem que ser verdadeira, caso contrário é uma comunicação falsa de crime. Isso pode repercutir contra o denunciante. Ali, a gente já tem uma sondagem boa. Muitos dizem: ?ah, então deixa assim, eu não vou denunciar?. Mas mesmo assim a gente faz um acompanhamento e verifica.

DIARINHO – Casos de prostituição infantil. há em Camboriú?

Adriano Temos. [De onde vem e como acontecem?] Geralmente são pessoas de fora ou até mesmo do município com alto poder aquisitivo. [Há uma rede de exploradores? Ou é individual?] A gente não conseguiu identificar uma rede ainda. Mas casos individuais foram muitos. Parece que se tornou uma prática comum aqui em Camboriú. Não digo que a sociedade vai aceitar, mas é que tem muitos pais que… Teve um caso que a gente pegou, em Balneário, de uma menina de 11 anos. Sai seis horas da tarde de uma sexta-feira e volta segunda-feira de manhã pra casa, é impossível que um pai desse não saiba o que está acontecendo com ela. Depois chega com dinheiro em casa. Só que daí vem o outro lado, o lado financeiro. A família não tem o que comer. A menina chega e numa tarde, numa noite, ela ganhava R$ 70, R$ 80. Se bobear, o pai que trabalhava em qualquer outra função ganhava menos que a menina de 11 anos. Eles vão por esse lado, pelo lado financeiro e acabam invertendo os valores familiares. Isso é uma grande preocupação nossa. Acho que tem que ser feito um trabalho mais ostensivo nessa parte.

DIARINHO – Como agem os outros órgãos e instituições no combate à pedofilia? O conselho tutelar tem parceira firmada com alguma outra instituição?

ADRIANO – Não. Neste caso somente com o programa Sentinela. Fora isso, a gente trabalha muito com o setor da educação, que é uma ótima fonte pro conselho tutelar. [Fonte de informação de abusos?] É. Porque nada melhor que o professor, que convive o ano todo com a criança, pra identificar uma mudança de comportamento. Os PSFs [Programas de Saúde da Família], que são esses da saúde, que vão de casa em casa, em muitos casos eles passam pro conselho tutelar. Às vezes, nem só casos de abuso, mas casos de negligência, de maus tratos. Eles identificam e repassam pro conselho tutelar. A gente tem buscado essas informações na interação com as escolas. Todos os setores dentro do município que o conselho tutelar puder averiguar e buscar essas informações, eu acho que é bem vindo. Acho que muitos conselhos tutelares pecam nesse aspecto. Eles não querem estar presentes na rede municipal e estadual de ensino. Porque se começar pelas escolas você acha muita coisa. Nós aqui, desde que assumimos o conselho tutelar em 2007, a gente sempre participa da reunião de pais, a APP, Conseg [conselho comunitário de segurança pública], tudo. O que a gente vê é que vai lá, dá duas palavrinhas, passa o nosso recado e após a reunião sempre vem alguma denúncia. Muita gente não tem coragem pra vir denunciar, mas se você ir até o local dele, ele se sente seguro e acaba efetuando a denúncia. [O conselho tutelar de Camboriú tem quantos integrantes?] Cinco conselheiros. [E dá conta de todo o serviço?] É complicado. O estatuto da criança determina que tem que ser um número múltiplo de 100. Quando chegar a 100 mil habitantes, a gente vai poder ter outro conselho. Só que até lá somos em cinco conselheiros pra atender Camboriú, que hoje tem 60 mil habitantes. A carga de trabalho de um conselheiro tutelar é muito alta. A gente faz em torno de 110 horas semanais. Não tem uma legislação específica. Na verdade o conselheiro não é nada. Se for procurar na lei, ele não é nada. Porque não é funcionário público. Ele não é regido pela CLT [consolidação das leis do trabalho], ele não tem direito a hora extra, não é nada… Tem um projeto de emenda na câmara que já foi aprovado e agora falta só o sancionamento do presidente, que vai regulamentar a função de conselheiro como funcionário liberal. Pra ter os direitos trabalhistas. O conselheiro fica três anos – atualmente o mandado é de três anos – prorrogáveis por mais três. E tu sai dali, tu não tem direito a nada. É uma profissão que muitas vezes, expõe o conselheiro a risco, a gente já recebeu aqui muitas ligações, ameaças de morte. No começo a gente até se preocupou bastante. A gente começa a pensar: ?será que vale a pena o que eu estou fazendo??. Os caras ligando: ?Tu tens família?. [Houve algum conselheiro agredido?] Já houve alguns casos onde eles enfrentaram o conselheiro só que a orientação que os nossos conselheiros têm é de não revidar. Qualquer ameaça, qualquer situação onde põe em risco a integridade física do conselheiro, recua, vem e pede o auxílio da polícia. A polícia aqui em Camboriú faz um papel bem prestativo pro conselho tutelar. Quando a gente pede, eles sempre estão presentes.

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DIARINHO – O que estaria faltando pra uma ação mais eficiente contra os pedófilos?

ADRIANOO que faltaria mesmo é uma forma de punição mais exemplar. Maior compromisso das autoridades, tanto em nível municipal, como estadual e federal. Criar programas específicos pra esse tipo de caso. A gente vê, como tem a CPI da Pedofilia, que agora estão dando um valor. A mídia ajuda muito nesses casos. E eu vejo que isso ficou enrustido por muito tempo. Esse foi o grande prejuízo, porque muita gente não dava bola pra isso. Acho que a partir do momento que isso começou a criar um destaque, começaram a aparecer os casos. Falta maior divulgação, maior orientação. Acho que nas escolas poderia ter um encaminhamento maior, uma matéria específica a respeito dos direitos da criança e do adolescente. Formas de reconhecer a vítima ou o abusador. Acho que é uma série de fatores que deveriam ser levantados e colocados em prática. [Há muitos casos de impunidade?] Bastante. Ontem [18 de maio], a gente estava numa reunião com o pessoal do Conseg a respeito desse possível toque de recolher e foi colocado que a maior dificuldade do judiciário é a falta de provas. Já houve casos verídicos e que a mãe foi lá, retirou a queixa e disse que era mentira. E a gente averiguar e descobrir que a mãe recebeu uma bolada pra retirar a queixa. E o conselho teve que dizer: ?se a mãe retirou, nós vamos denunciar e vamos denunciar a mãe junto?. Só que, no fim, não conseguimos provar. Que tipo de mãe é essa? A mãe que vai contra a filha por causa de dinheiro! Mas aqui em Camboriú, os casos que o conselho levantou e levou ao judiciário, que foi feito um trabalho padrão, nenhum ficou impune. [Quantas condenações de 2007 pra cá?] Não acompanho diretamente todos os casos, mas de outubro de 2007 a janeiro de 2008 foram efetuadas 14 prisões em Camboriú. A gente montou uma forma de trabalho que começou a dar resultado. Eu acredito que hoje, aqui em Camboriú, já passam de 50 condenações. [Todos permanecem presos?] Muitos já estão soltos. Isso é uma coisa que revolta a gente. [Muitos quanto? Mais da metade dos 50?] Provavelmente.

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