• Postado por Tiago

Sob o título “O país das vacas sagradas” o jornalista, advogado, escritor e pintor, Mauro Chaves publicou no jornal “O Estado de São Paulo” artigo onde, após lembrar alguns comportamentos de figuras divulgadas nacionalmente, denuncia a instituição das “vacas sagradas”, qualificativo atribuído a algumas destas personalidades, independentemente do real talento que possuam e que são colocadas acima das demais pessoas, tornando-se completamente intocáveis, não passíveis de críticas ou contestação.

O característico da incriticabilidade e da incontestabilidade torna passíveis de repúdio e até mesmo de linchamento moral a qualquer um que formular a mínima insinuação crítica ao personagem, mesmo que sejam formuladas da forma mais respeitosa e até mesmo com finalidade construtiva.

Ao contrário das “vacas sagradas”, lembrou o articulista um sem número de outras figuras que se destacam, ou já se destacaram por inúmeros méritos e que se tornaram também nacionalmente conhecidas as quais, entretanto, são exemplarmente “esnobadas” pelas pessoas e até mesmo pelos comunicadores.

Os exemplos alinhados ao longo do artigo definem bem a distinção lembrada. Veja-se:

“Um presidente que morreu antes de tomar posse – e que teve como qualidades maiores a habilidade de fazer costuras políticas, de se manter no poder, apesar das intempéries, de se utilizar de todos os velhos expedientes de movimentação partidária que podem ser enfeixados, na história política do país, no simples significado do termo ‘esperteza’ – passou a ser considerado, post-mortem, o maior gênio, de todos os tempos, da política e da administração pública brasileira – e como tal deve voltar, qual el rei dom Sebastião, encarnado na pessoa de um seu descendente, para veneração incontestável de seus conterrâneos.”

Ao contrário, tomando-se o denominado “rei do futebol”: “cujos feitos (comprovados pelas estatísticas) são mundialmente conhecidos como inigualáveis – pelo menos nos próximos cem anos – aqui se minimiza e substitui por críticas banais de comportamento.”

O autor lembrou ainda alguns outros exemplos como “aquele que muitos consideram o melhor arquiteto do Brasil e do mundo”, cujo talento não o impediu de realizar “prédios públicos tão inóspitos, contrários ao meio ambiente, fechados (sem janelas), com luz artificial e ar-condicionado permanentes em cidade ensolarada e ventilada, além de outros prédios logo transformados em ruínas modernas – embora lindos, como esculturas, mas sem a mínima funcionalidade para o conforto das pessoas.”

O artigo no seu todo está a retratar uma das grandes realidades brasileiras. Nunca antes neste país o mérito foi tão desprezado. A verificação do conhecimento individual deixou de ser valor para o ingresso em várias atividades de aperfeiçoamento das pessoas.

Reservam-se vagas nas escolas, no trabalho, no cinema e até nas telenovelas, a serem preenchidas por critérios vários, tais como a cor da pele, descendência nativa, descendência natural e, como não poderia deixar de ser, simpatia partidária.

Entretanto, não pense o leitor que a culpa é só dos políticos. Lógico que a eles deverá ser creditada a maior parcela de responsabilidade, não pela falta de leis boas, mas pela excelência dos seus ensinamentos sobre as melhores maneiras de burlá-las.

Grande culpa cabe também à mídia que na ânsia de atrair mais admiradores ou sintonizadores não poupa elogios e adjetivos para um sem número de personalidades que outro atributo não tem a não ser um par de pernas bem torneadas ou uma cara bonita, ou ainda, uma coleção de “casos” e escândalos para alimentar as colunas de “fofocas”.

É graças a tais veículos de comunicação que o rebanho sagrado cresce a olhos vistos, proporcionando a toda a população uma noção errada de ética e valores a serem prestigiados.

Encerro valendo-me ainda da conclusão de Mauro Chaves: “O problema maior é que o país das vacas sagradas também pode ser aquele em que se cultivam e consagram os valores permanentes da mediocridade.”

Álvaro Brandão

* bacharel em Direito, mestre em Ciência Jurídica, na área de concentração em fundamentos do direito positivo, pela Univali.

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