• Postado por Tiago

O país no balcão do bar

Garimpando na mídia, em busca do assunto a ser abordado neste comentário semanal, deparei-me com a seção intitulada “Veja essa”, publicada nas páginas 70/71 da revista Veja, com a citação de uma frase atribuída ao Ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, com o seguinte teor: “Dependendo da história que se conta, a opinião pública aplaude até linchamento. Julgamento se faz é com contraditório. Não se faz em bar.”

A frase atraiu a minha atenção especialmente pelos seus dois últimos períodos: “…Julgamento se faz é com contraditório. Não se faz em bar.” Isto em virtude de que há já algum tempo comentei neste espaço as chamadas soluções de “beira de copo”, informadas pela inconsequência e muitas vezes pelo décimo ou vigésimo gole.

Assim, o brasileiro em geral é um “entendido” em futebol; sempre tem um aconselhamento terapêutico para qualquer doença, uma sugestão para um caso pessoal, uma esperteza para qualquer situação e, o que é mais sério, todos entendem de política e administração pública.

A manifestação de tais conhecimentos e entendimentos constitui-se no assunto abordado em outra unanimidade nacional, as rodas de bate-papo, que podem apresentar-se sob variadas formas, características de cada região: em torno do chimarrão, da carneada, do aperitivo, da batida de limão, do chopinho, da cerveja e outras modalidades. A forma pode variar, mas o assunto envolve sempre futebol ou política.

Pessoas há que oferecem excelentes “papos”. Conhecem tudo sobre todos e tudo sobre tudo. O problema é que, por ser relaxante, o papo da rodinha é inconsequente e as afirmativas contidas  nas exposições  são, na sua quase totalidade,  destituídas de qualquer fundamento científico, de difícil aplicação na prática.

São as chamadas soluções de “beira de copo”, informadas pela inconsequência e muitas vezes pelo décimo ou vigésimo gole, repito.

O que se verifica é que sempre surge uma solução: para a fome, para a miséria, para a violência, para o racismo, para o tráfico de drogas e assim por diante.

Nos dias de hoje, com a instalação do “governo cumpanheiro”, têm surgido várias soluções para os vários problemas acima enumerados, as quais aprovadas se revelam de difícil execução por exigirem todo um aparato de providências, ações e investimentos que nem sempre estão à disposição, ou que redundarão em pesadíssimos ônus para os contribuintes.

Só para exemplificar: o fome zero, sem a exigência de nenhuma contraprestação e fiscalização, o emprego das forças armadas no policiamento urbano, a inscrição dos futuros traficantes no serviço militar, a reserva de quotas raciais nas universidades, nas empresas, nos programas televisivos, nas propagandas e várias outras soluções “ideais”.

Tal como fiz em escrito anterior, cerca de quatro anos atrás, relembro a comentarista Dora Kramer quando comentou o caráter etílico dos pronunciamentos presidenciais, citando trechos de um texto da cientista política e pesquisadora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, Luciana Fernandes da Veiga, ao discorrer sobre os improvisos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Esclareceu a colunista que a cientista política, autora do citado trecho, “não critica nem justifica, apenas explica como se estrutura o raciocínio de Lula naqueles discursos…” que, para a colunista, são “cheios de obviedades, imagens pobres, metáforas gastas, megalômanos ou simplesmente tolos, plenos de argumentos desprovidos de nexo causal”, concluindo: “quando improvisa, Lula não tem a pretensão de ser preciso, busca apenas chegar à consonância com o público, assim como se comporta o seu João na conversa corriqueira no balcão do bar ou a dona Maria no portão com a vizinha”.

Concluindo, somente para ilustrar, transcrevo uma recente frase a respeito do que foi afirmado: “Um país que acha petróleo a 6000 metros pode achar avião a 2000.” (Do presidente LI, metendo a sonda petrolífera onde caiu o avião da Air France, no meio do Oceano Atlântico).

Repito meu conselho de cinco anos atrás: “Parece que a “rodinha do  churrasco”, que tanto se reúne na Capital, deveria variar mais o assunto e deixar a política e a administração pública para os horários de expediente, antes mesmo do “happy hour”.

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