• Postado por Tiago

“Tenho duas teorias sobre amizade verdadeira. A primeira, de que amigos de fé a gente raramente faz depois de uma determinada (e tenra) idade. A segunda, a de que uma amizade, para ser considerada inabalável, precisa ser posta à prova por algum desentendimento, para ressurgir depois mais firme do que nunca.

Parceiros de festa, companheiros de trabalho, isso nós temos aos montes. Costumamos chamar todo mundo de amigo por convenção, esquecendo que nem sempre pessoas que superficialmente conhecemos merecem esse status.  Amigo de verdade, aquele de dividir um cachorro-quente de rua quando nenhum dos dois tem dinheiro e ainda achar graça disso, esse é uma raridade.

Talvez por causa de uma certa dose de ingenuidade e de falta de malícia, acredito que quanto mais jovens somos, mais fortes são os vínculos de amizade formados. As minhas amizades mais antigas vêm da primeira infância, quando tinha em torno de sete, oito anos. Passei boa parte da vida convivendo com pessoas que foram fundamentais para a minha formação e com quem tenho a felicidade de manter contato ainda hoje, mesmo morando longe. Quando somos crianças ou muito jovens, ainda não possuímos treinamento para suspeitar das intenções de aproximação dos outros. Somos, isso sim e desde cedo, bastante críticos e competitivos em nossas relações sociais, mas ainda não o suficiente para afastar os laços de amizade puros.

Já mais crescidinhos, influenciados pelas regras do mundo cão, erguemos barreiras enormes de proteção e dificilmente deixamos alguém passar sem antes investigar as razões do interesse deste alguém por nós. É preciso investir tempo e dar provas seguidas de fidelidade para passar à categoria de amigo depois de uma certa idade. O ressabio se justifica, porque a essa altura do campeonato é normal e esperado que tenhamos levado algumas lambadas da vida de alguns “amigos de fotografia” (aqueles que só aparecem para fazer pose, e, na hora do vamos ver, desaparecem), e todo cuidado é pouco.  Não que seja impossível surgir uma amizade sincera na fase madura da vida, mas acho que essa é uma relação de inversa proporcionalidade: quanto mais velhos ficamos, mais o funil se estreita e mais difícil é formar novas amizades verdadeiras, pelos cacoetes, desconfianças e recalques que alimentamos ao longo de toda a vida.

Mas, superada a dificuldade inicial de formar um vínculo genuíno, a amizade precisa passar pelo teste de um estremecimento, um desentendimento, uma briga, para confirmar o seu valor. Para se reconhecerem amigas até debaixo d’água, não pode haver entre as pessoas constrangimento algum para discutir, debater, se estranhar e, logo mais, voltar às boas. Se não, fica tudo muito falso, muito ‘para inglês ver’.

Numa relação autêntica não há espaço para ter medo de se expor ou para o embate de ideias e pontos de vista – tudo dentro dos limites da civilidade, é claro. Para mim, amigos precisam se sentir livres e à vontade principalmente para brigar se for necessário, sem receio de se mostrar de verdade por medo de perder o carinho do outro.

Por fim, há ainda um teste fatal que põe em cheque qualquer amizade, que é o de pedir dinheiro emprestado. Um conselho: empreste uma vez só e jamais espere o pagamento de volta. Mesmo os melhores amigos podem dar calote, e se adimplência fosse requisito para manter relacionamentos duradouros, o mundo certamente estaria quebrado.”

Ass: Daiana Franco Nogueira

(Transcrito ipsis litteris)

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