• Postado por Tiago

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?O folclore é nosso. Não é só meu, é nosso.  É o catarinense, é o boi-de-mamão?

Ele mal passou pelos bancos escolares. Aprendeu a ler e a escrever com a ajuda da mãe, mas aos 89 anos seu Arnaldo José Pereira tem muito a ensinar para qualquer letrado. O popular seu Cueca não deixou a falta de visão e o fato de ter perdido quase todos os dedos tirar sua alegria de viver. Driblou todas as dificuldades pra fazer a criançada rir e até se apavorar com o boi-de-mamão. Mesmo sem ganhar dinheiro e, muitas vezes, tirando a grana do próprio bolso, ele investiu na brincadeira que há 23 anos é atração garantida na Marejada. Nesta entrevista às jornalistas Fabrícia Prado e Franciele Marcon, seu Cueca contou causos e com simplicidade falou da falta de apoio dos órgãos públicos e dos empresários à brincadeira do boi-de-mamão. Relembrou a emoção que foi se apresentar em Brasília e da alegria que os pirralhos trazem pra sua vida. Claro que não deixou de falar como ganhou este curioso apelido. As fotos deste simpático, e bom de memória, senhor são de Felipe VT.

DIARINHO – Como o senhor conheceu e como passou a gostar do boi-de-mamão?

Arnoldo Cueca – Eu comecei a brincar com o boi-de-mamão com o meu pai, quando eu tinha uns 10 anos. [Como era feito o boi-de-mamão na sua infância?] Esse boi-de-mamão era feito com uma caveira de um animal que morria, a gente pegava nos pastos, não existia mangueiras, então pra fazer os arcos (do corpo do boi), a gente usava bambu. Pra vestir o boi – como era uma brincadeira de pobre e naquele tempo não existia roupa pronta, era tudo feito por costureira ? a gente pedia pra vovó ou pra titia um lençol e botava em cima do boi pra sair brincando de casa em casa. A brincadeira começava em novembro e ia até dia 20 de janeiro. Não existia festa junina, a festa de igreja era de ano a ano, então só se brincava assim: de casa em casa. Daí brincava na casa do Pedro, do João e tomava café com coruja, que é a rosca de polvilho.

Com 15 anos eu mesmo comecei a fazer o boi, chamava meus colegas e a gente brincava. A música era feita só com tambor, não tinha orquestra nenhuma. Uma pessoa tocava o tambor, três ou quatro cantavam as músicas do boi e tinha um vaqueiro, que ia tirando os versos. [E o senhor sempre foi o tirador de versos?] Sim, sempre fui tirador de versos, desde pequeno…

DIARINHO – Como as pessoas recebiam o boi em casa?

Arnoldo Cueca – Quando a gente ia brincar nas casas pedia pro dono abrir a porta. Se a casa fosse grande, a gente ficava na sala, mas se fosse pequena, ele abria a porta e a gente brincava no terreiro. Naquela época não existia luz elétrica, tinha uma luz de querosene que a gente chamava de pomboca, o dono da casa colocava duas pombocas na beira da casa e a gente brincava na rua. Enquanto isso, a dona da casa tava na cozinha batendo uma gemada que era pra gente comer com coruja.

DIARINHO – O senhor descende de portugueses?

Arnoldo Cueca – Não, a família do meu pai é de origem italiana e por parte de mãe eles são de origem espanhola. [Mas o boi-de-mamão é de origem portuguesa, não é?] Sim. O boi-de-mamão quem trouxe aqui pro nosso estado foram os portugueses. Eles não chamavam de boi-de-mamão, mas de boi-mama, contavam meus avós e bisavós.

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DIARINHO – O senhor teve uma fábrica de brinquedos, por que fechou?

Arnoldo Cueca – Sim, tinha. De 15 em 15 dias eu levava um caminhão-baú carregado daqui pro Oeste, mas depois começaram a entrar esses brinquedos do Paraguai. Se eu fazia um carrinho que custava R$ 5 naquele tempo, um do Paraguai custava R$ 2 ou R$ 1, então eu não pude guentar. Daí fui obrigado a fechar.

DIARINHO – O senhor ficou afastado do boi-de-mamão por um tempo?

Arnoldo Cueca – Depois de um certo tempo eu casei e parei com essa brincadeira. Fui trabalhar na fábrica de cimento assim que ela começou a fazer os prédios – onde fiquei por 18 anos. Entrei lá como marceneiro e costumava ir pra Itapema nos finais de semana porque trabalhava na construção da casa de um dos diretores da fábrica. Num domingo que eu tava lá, o meu filho mais moço, que já tinha 10 anos, arrumou uma caveira num pasto, um lençol e uns tecidos pra enrolar a cabeça do boi e com uns amigos começaram a fazer um boi-de-mamão. Daí ajudei eles a fazer o boi, ensinei como brincar e fui acompanhando nas casas.

Numa dessas casas, uma senhora italiana fez um chocalho com pedrinha numa lata de leite Ninho, entregou pro marido e eles se juntaram ao boi; passamos por uma venda onde o dono deu umas garrafas de gasosa (refrigerante) pras crianças e fomos todos juntos pra casa do meu amigo Calinho, onde brincamos até às 10 da noite.

Na segunda-feira, o diretor da fábrica me chamou, disse que tinha ouvido falar da brincadeira, pediu pra eu explicar como que era. Mas eu disse pra ele que já tinha parado com isso. Nessa época, eu era encarregado da carpintaria na fábrica e ele mandou eu ir na carpintaria construir o boi pra apresentar pra uns amigos dele que vinham de São Paulo no final de semana seguinte, acompanhado pela banda de música da fábrica de cimento.

Depois disso, há 25 anos, a dona Amanda era diretora do Afonso Niehues, me convidou pra fazer um folclore com o boi-de-mamão no colégio. Eu disse que não queria mais, mas ela insistiu. A patroa (esposa) também e eu acabei indo. Ali fizemos tudo, dança do arco, pau-de-fita e brincamos no colégio por anos. Quando surgiu a primeira Marejada, me chamaram para colocar o grupo lá e eu fui o primeiro a colocar um grupo de folclore dentro da Marejada.

DIARINHO – E como foi sua trajetória na Marejada?

Arnoldo Cueca – Até hoje, são 23 Marejadas, ainda não falhei uma Marejada. Só que agora eu tô saindo na Marejada só com os dois bois-de-mamão, dois cavalinhos e a bernunça. Porque eu tinha uma diretora que deu em passar a mão e fui obrigado a tirar ela. Isso faz quase dois anos. Depois eu coloquei o Dagoberto como coordenador, que é um cara muito honesto, mas mora longe, trabalha muito e a gente quase não tem tempo de ensaiar. Logo que ele entrou nós, já estivemos nos apresentando em São Paulo por três dias.

DIARINHO – O senhor já apresentou o boi-de-mamão em Brasília, como foi isso?

Arnoldo Cueca – No tempo da outra diretora, nós tivemos uma semana em Brasília. Em Brasília, todos os anos tem a Festa dos Estados, Santa Catarina queria participar e qualquer município podia ir pra lá. Então Itajaí participou e me levaram. Em cinco dias eu fiz 10 apresentações. Fomos pra Brasília com seis meninos e seis meninas mais o grupo Tarrafa Elétrica, que foi junto pra tocar as músicas. Eu tinha 15 meninos e 15 meninas, mas não pude levar todos. [O pessoal de Brasília gostou de boi-de-mamão catarinense?] ÔÔôô! Fomos aplaudidos por mais de mil e quinhentas pessoas. A cabo de 15 dias que eu tinha chegado aqui, recebi uma carta do coordenador da festa em Brasília dizendo que o grupo de boi-de-mamão tinha tirado primeiro lugar, foi o que fez mais sucesso. Essa carta foi parar na mão do prefeito (Volnei) e do Acyr.

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DIARINHO – E como está a situação do boi-de-mamão na Marejada?

Arnoldo Cueca – Todo ano eu faço a Marejada, mas a coisa ficou ruim de uns anos pra cá na festa pra mim porque eu sou pobre, ganho só um salário. No tempo do Arnaldo (Schmidt) eu cheguei a tirar um casal de crianças da rua, que a mãe me pediu, e botei no grupo. Mas quando o Arnaldo saiu e entrou o Jandir ? que hoje é prefeito outra vez ? eu fui obrigado a tirar aquelas duas crianças porque eu não conseguia mais aguentar (financeiramente). Porque quando eu fazia a Marejada antes, eu fazia os 18 dias, depois (que o Arnaldo saiu) me davam só quatro ou cinco dias e tive que despachar aquelas crianças, que foram embora para São Paulo. Não sobrava um dinheirinho pra investir no grupo. E agora continua a mesma coisa: são 10 dias de Marejada, mas só deram cinco dias de apresentação.

DIARINHO – O senhor não brinca mais nas casas como fazia antigamente?

Arnoldo Cueca – Não, não brinco. Eu devia fazer isso, arrumar um que tocasse o tambor, fazer a mesma coisa, que fazia de primeiro: cantar nas portas. A mesma coisa que fazia o Terno de Reis, que é cantado nas portas. O Terno de Reis de hoje, que fazem até cd de Terno de Reis, pra mim não é Terno de Reis, é um coral. O Terno de Reis verdadeiro é só um tirador de verso e os dois cantadores. As duas vozes, primeira e segunda. O que a gente cantava, eles tinham que escutar pra eles cantarem também a mesma música, os mesmos versos que a gente tirava. Eu já fiz muito Terno de Reis, até me pediram para fazer um para cantar aqui na igreja (São Cristóvão) e a letra era assim: ?25 de dezembro, uma jovem deu à luz, na cidade de Belém nasceu o menino Jesus. É o filho de Maria, que por nós morreu na cruz?. A turma se levantava e batia palmas. E eu tirava versos. Às vezes, eu me lembro de fazer isso nas casas, como vocês tavam falando. [O senhor acha que as pessoas iriam receber bem?] Com certeza iriam receber. Se eu te fizer um Terno de Reis ou um boi-de-mamão, vão receber. [O senhor acha que as pessoas ainda dão valor para o folclore, que elas gostam ainda?] Sim. Não é para me prosear, mas ontem, lá na Marejada, tava uma banda de música daqui, o cara até muito conhecido meu, só tinha umas quatro pessoas na frente. Quando eles terminaram, era para nós entrar. Eram 10 horas da noite, era pra nós começar. Quando nós entramos, eu anunciei que era o boi-de-mamão, aí o povo veio todo, batendo palma. Não é para eu me prosear, mas o povo acha que no eu cantar, chamo a atenção das pessoas.

DIARINHO – Na sua opinião, deveria ter mais espaço para o boi-de-mamão na Marejada?

Arnoldo Cueca – O Arnaldo (ex-prefeito) me dava a Marejada toda, naquele tempo eram 18 dias. Então até sobrava um pouco de dinheiro e eu fazia um passeio com as crianças, ia para Cascaneia ou Carolina, e a despesa era toda por conta do grupo. Neste tempo eu não tinha coordenadora nem coordenador, era só eu sozinho. Daí, de lá pra cá, não deu mais. [Hoje o senhor só ganha as cinco noites, que o grupo se apresenta?] É. Este ano o Dagoberto arrumou primeiro três dias, depois ele arrumou cinco dias. Já fizemos três apresentações, agora temos mais dois dias.

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DIARINHO – O senhor acha que falta apoio da prefeitura para o folclore do boi-de-mamão?

Arnoldo Cueca – Falta apoio. Pra mim, falta apoio. Tanto que essa coordenadora que eu botei, ela teve três anos. Primeiro eu era sozinho, depois ela entrou e começou a ?passar a mão? e eu nem sei como tá, mas tenho certeza que é como eles dizem. O Dagoberto já fez dois projetos e os projetos não passaram porque o meu nome tá sujo na fundação Cultural. E eu nunca fiquei devendo nada pra ninguém. Comprei neste comércio toda a vida, até hoje não veio ninguém na minha porta pedir um tostão. Mas este último projeto que ela fez, deu R$ 13 mil e ela não chegou a comprar R$ 2 mil pro grupo. O resto ela embolsou.

DIARINHO – Dos prefeitos que passaram por Itajaí, qual o que mais ajudou o grupo?

Arnoldo Cueca – O prefeito foi o Arnaldo. Terminava a Marejada, eu terminava de fazer minha apresentação, eu subia, onde tinha aquele moinho, o escritório era lá em cima, e eles perguntavam: ?já terminou??. Eu falava, ?já?, e eles: ?tá aqui o teu cheque?. No outro dia já podia receber. Agora tem vezes que leva 15 dias. Tem vezes que leva um mês e tem vezes que pagam em duas, quatro vezes. Este ano não sei. Este ano tá com o Dagoberto, não sei como vai acontecer.

DIARINHO – Hoje o grupo não tem nenhuma verba do governo? Como vocês se mantêm?

Arnoldo Cueca – Não recebemos dinheiro de ninguém. Às vezes tem gente que diz para que eu faça um pedido para o pessoal, para cada um ajudar com uns R$ 5, R$ 1 ou R$ 2 por mês. Mas eu tenho vergonha, porque são capazes de pensar que eu estou pedindo pra eu comer. [Nenhum empresário ajuda o grupo?] Não, nenhum empresário ajuda. [O senhor paga as despesas do grupo com a sua aposentadoria?] Não, não pago com a minha aposentadoria, que é só um salário. No dia que eu faço uma apresentação, eu recebo e pago os músicos. Primeiro, eu fazia apresentação até de graça nas escolas. Eu só exigia o lanche das crianças. Quando o Volnei ganhou, o Maneca (do PT) fez uma festa na Itaipava e me convidou pra fazer apresentação, mas ele não ia pagar nada. Eu levei as crianças todas. Eu tinha só um tocador que tocava violão, porque os outros dois que eu tinha faleceram, então eu levei ele e falei: ?não se vai ganhar nada lá, só vai ter tudo por conta, churrasco, bebida..?. Fomos lá e fizemos, tivemos o dia todo lá. O cara ainda trouxe uma bolsa com um bocado de coisa dentro, a senhora dele também trouxe um bocado de coisa dentro. Quinze dias depois, ele bateu aqui na minha porta. [O Maneca?] Não, o cara do violão. Ele veio dizer: ?e o dinheiro lá??. Então eu disse pra ele: ?eu não disse pra ti que era de graça, que era só pelo churrasco??. Ele disse: ?será que ficou por aquilo mesmo?. Aí eu fui saber que ele trouxe 10 churrascos e oito latinhas de cervejas. Eu disse que pra ele e pra patroa dele, 10 churrascos davam para a semana toda e eram um bom pagamento. Daí ele disse: ?mas eu pensei que saia mais alguma coisa?. Eu me aborreci, fui lá no quarto, passei a mão nuns trocadinhos e dei R$ 30 do meu bolso pra ela e disse ?some?. [Quantas crianças tem no grupo?] Hoje tem, mais ou menos, oito crianças no grupo. [Todas as roupas para as apresentações são bancadas pelos pais delas?] Não, a roupa nós temos. No primeiro projeto que a coordenadora fez, ela ganhou muita roupa. No tempo do Arnaldo, eu falava com o Acyr e o Acyr falava com o Renato, que era quem mandava na Marejada, e eles mandavam fazer. As primeiras roupas eram vermelhas, depois eram verdes e são as roupas que  as crianças usam até hoje. Tenho muitas roupas aqui e tenho muitas crianças que saíram e ainda não entregaram as roupas. Eu preciso ir atrás dessas crianças.

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DIARINHO – O senhor tem medo que com o tempo o boi-de-mamão acabe?

Arnoldo Cueca – Se o Dagoberto não continuar, o boi-de-mamão, que é o boi-de-mamão verdadeiro, cantando e tirando verso, se acaba. [Hoje só as crianças que estão no grupo, os adultos quase não participam, falta o envolvimento dos adultos?] Eu queria arrumar, por exemplo, uns seis moços e umas seis moças, que já chegava para fazer o grupo de pau-de-fita, a dança do arco. Eu estou apresentando mais, porque falta gente. Além disso, se eu pudesse andar, mas infelizmente faz um ano e seis meses que me saiu um queimor na virilha e seguiu na perna toda. Fui em seis médicos e falaram: ?a sua perna não tem mais doutor que dê jeito?. Secou o líquido da virilha e da perna toda, então de noite eu me deito, após uma hora, já me começa a doer. Eu passo a mão no joelho, ele estala e parece uma engrenagem que não tem óleo.

DIARINHO – [O senhor fez inúmeras apresentações em todas essas décadas. Qual foi a apresentação que mais lhe emocionou?]

Arnoldo Cueca – A que mais me emocionou foi em Brasília. [Por que?] Por causa do povo que assistiu e depois vinha me abraçar, me agradecer. Tem a bernunça, tem a música da bernunça e junto dela brincam três pessoas maiores. Ali vai um menino que leva uma bernuncinha. Tirando o verso, eu mando ela engolir outro menino da plateia, pra depois chamar a doutora pra fazer o parto ? isso tudo em verso ? e sai a bernuncinha. Tem criança que tem medo. O toureiro andava atrás de outra criança, um já tava lá dentro, e precisava outra entrar para fazer a bernuncinha. Tinha um senhor sentado na frente, o povo era barbaridade, e o toureiro foi lá e falou com o menino sentado no meio dos pais. O pai falou: ?vai, vai?, e mandou o menino ir. O menino entrou pela boca da bernunça, lá dentro vestiu outra roupa e saiu. Eu cantando e terminando a brincadeira. No final fui agradecer ao pai, e ele que disse: ?eu que agradeço, porque isso aí vai ficar na história.? O dia que a bernunça engoliu o filho dele.

DIARINHO – O pessoal da Tarrafa Elétrica sempre se apresenta com o senhor. O que o senhor acha…

Arnoldo Cueca – Não, não. É muito difícil deles se apresentarem. [Mas eles têm um interesse bem grande no boi-de-mamão?] Não, já tiveram. São muito meus amigos, muito amigo do Dagoberto, mas quando essa coordenadora saiu, eu convidei ele (o vocalista) pra entrar de vice e o Dagoberto para entrar de secretário e coordenador. Pra levar a criança em casa tarde da noite e tal. Ele disse: ?sim, pode deixar?. Teve só três ou quatro dias, e depois deixou até o Dagoberto na mão. Agora é só o Dagoberto que tá cuidando, não temos o apoio de mais ninguém.

DIARINHO – O senhor acha que outra pessoa vai conseguir dar continuidade no trabalho que o senhor começou?

Arnoldo Cueca – Quando terminar a Marejada, eu vou mandar chamar o meu filho, que foi quem fez o documento do grupo. Eu não queria fazer, queria deixar como era, mas ele trouxe dois advogados e fizeram o documento. No final da Marejada vou chamar o Dagoberto, se ele quiser levar para continuar, ele pode levar. A bicharada (os bonecos) tá toda aqui dentro e eu desisto. [O senhor vai se aposentar do boi-de-mamão?] Eu vou ficar aposentado, não vou fazer mais nada. O boi-de-mamão, não é por ser meu, mas é como o pessoal diz: ?eu deixando o boi-de-mamão, deixando de tirar verso, acabou-se o boi-de-mamão?. O boi-de-mamão tem que ter os que cantam, mas tem que ter os que tiram versos também. [O senhor não tem um substituto para tirar versos ainda?] Não, não tenho. Até agora não encontrei ninguém que soubesse tirar verso ainda. [Corre o risco que com a sua aposentadoria, o boi-de-mamão acabe?] Corre! Mas eu acho que o Dagoberto vai dar um jeito. Porque é como diz o povo, eu chamo a atenção. Quando eu entro, cumprimento o pessoal, já digo que vou apresentar o nosso folclore. O folclore é nosso. Não é só meu, é nosso. É o catarinense, é o boi-de-mamão. O pessoal acha que eu chamo a atenção, e agradece. Tem hora que eu canto e digo: ?nas costas não posso levar vocês, mas levo vocês dentro do meu coração?. Todo mundo aplaude e gosta. Eu vou fazer 90 anos dia 29 de fevereiro, então o Dagoberto vai continuar ou então vai se acabar.

DIARINHO – Como o senhor perdeu a visão?

Arnoldo Cueca – Desde pequeno, entre oito e 10 anos, começou. O pessoal antigo chamava de picada na vista. Eu andava 10, 15 dias com o lenço na minha vista, me ardia. Então eu sempre enxerguei bem dessa (da esquerda), essa não sentia mais (a direita). Quando trabalhei na fábrica de cimento, pra olhar bem uma madeira, o pessoal precisava fechar uma vista. Eu não precisava, porque só tinha uma só. Um cara do escritório da empresa, um dia, soube da minha visão e entendeu de me encostar. Mas eu dizia: ?não, eu não quero?. O meu médico era o Hélio Zaguini, pra trocar todo o ano a lente (do óculos). Mas ele dizia que eu tinha que me encostar. Então fui para o Hélio Zaguini e o Hélio Zaguini sempre queria me encostar, e eu nunca quis. E então ele me encostou. Tive encostado cinco dias, no final fui para Florianópolis. Cheguei na junta médica do INPS, tinha três pessoas esperando pelo médico. Era uma casa velha de madeira e os caras estavam encostados esperando por ele. Eles falaram pra mim ?esse médico é um animal, ele não sabe nada, senhor?. Naquele tempo, eu enxergava bem, ele começou a escrever, escrever e disse que eu tava em condição de trabalhar. Aí, eu bati nas costas dele: ?o doutor tem razão?. Eu tô encostado obrigado, mas toda vida trabalhei. Tô trabalhando há anos só com essa vista e com essa vista eu enxergo pelas duas. Lá no INPS, em Florianópolis, ainda falaram que eu tinha direito de recorrer. Eu disse pra eles: ?não, não, eu não quero. Eu quero é trabalhar?. Eu entreguei o documento pra seção pessoal da fábrica de cimento e no outro dia eu voltei a trabalhar.

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DIARI NHO – Os dedos o senhor perdeu na época da fábrica de cimento ou na sua fábrica de brinquedos?

Arnoldo Cueca – Esse dedo aqui (mostrado a mão), eu perdi na fábrica de cimento, numa máquina que se chama topia. Eu tava trabalhando, o encosto correu e pegou o dedo, cortou. Me colocaram no hospital, fiquei dois dias junto com outras pessoas, não tava em quarto particular. No outro dia o diretor da empresa foi lá, porque gostava muito de mim, e disse pro médico: ?eu quero que tire essa pessoa daí e a coloque num quarto sozinho?. A companhia paga. Mas eu disse pode deixar, seu Ivo (o diretor). Eu fiquei mais uns três dias e vim-me embora. Depois vim praqui (apontando para o local onde ficava a fábrica de brinquedos) e comecei a trabalhar. Botei uma serra, ela era muito grande e coloquei um encosto na frente, só pra ver a serra e empurrar o sarrafo, a madeira, pra não vir o farelo nos olhos. Botei um rapaz pra ensinar, o sarrafo começava a tremer e eu fui ensinar. Quando fui levar a mão, ao invés de levar a mão no sarrafo, levei a mão direto na serra e a serra cortou direitinho os dois dedos. Ficou tudo em cima da mesa. Cheguei na porta de casa e gritei pra nega (a esposa): ?me dá um pano aí?. Ela jogou a toalha e perguntou: ?o que é isso??. ?Eu cortei os dedos?. Ela queria ver, mas eu disse: ?me dá um pano e fica ali?. O guri foi chamar um táxi e nisso passou um colega meu: ?o que foi isso??. Cortei os meus dedos e ele disse: ?embarca aqui, que vou te levar no médico?. Tive uns dias no hospital e depois saí. Depois, no dia Sete de Setembro, naquele tempo, as crianças faziam festa com bandeirinhas e precisavam daqueles sarrafinhos. Aí veio umas meninas pedir pra eu fazer uns sarrafinhos pra elas. Eu fui fazer e o sarrafo ia caindo, fui pegar, em vez de pegar o sarrafo, levei a mão e cortou esses dedos daqui. Muita gente achava, se eu tivesse empregado, que eu tinha cortado por querer, pra poder receber a indenização. E assim ficou: ficou os dedos todos cortados. Quando eu vou na igreja e coloco a mão no banco da frente, às vezes, tem umas meninas, uns meninos e começam a olhar pra minha mão.

DIARINHO – Por que o seu apelido é Cueca?

Arnoldo Cueca – Esse meu apelido, o negócio foi assim. Há uns 50 anos, eu morava na Fazenda, perto do cemitério, onde hoje tem um prédio velho, grande, que fizeram há muito tempo e nunca acabaram. Antigamente, aquilo ali era tudo um gramado, não existia casa, no ponto de ônibus não tinha nada de casa. Não tinha nada. Então eles fizeram um time e eu gostava de jogar futebol de grama. Fizeram o time e me convidaram. Eu entrei no time e fizeram um torneio, mas no dia eu esqueci e tinha saído, e eu morava perto. Quando cheguei em casa, a falecida mulher disse: ?ô rapaz, o técnico já teve aqui te chamando pra ir jogar no torneio?. Naquele tempo, a cueca da gente se chamava ceroula, mesma coisa que fosse uma bermuda hoje. Eu cheguei com pressa no vestuário, dobrei a ceroula e vesti o calção do jogo. Coloquei a chuteira, a camisa e fui pro campo. Comecei a chutar, chutar e daqui a pouco a cueca foi descendo, foi descendo e passou do calção. A turma gritava: ?joga cueca!?. Numa hora marquei um gol e a turma: ?gol, gol do cueca?. Um cara da minha turma disse: ?o rapaz, repara como tu tá?. Eu disse: ?agora deixa assim mesmo?. Foi onde eu peguei o apelido de cueca. Muita gente chega ali na frente e fala: ?você não sabe onde mora o seu Arnoldo?. Eles falam: ?não, não conheço?. Daí falam: ?o seu Arnoldo Cueca?. ?Ah! Mora ali naquela casinha?.

DIARINHO – Todos estes anos que o senhor trabalhou com o boi-de-mamão, a gente já viu que ganhou pouco dinheiro e tirou do bolso pra investir no grupo, mas para a sua vida, o que o boi-de-mamão trouxe?

Arnoldo Cueca – Pra mim trouxe muita alegria. Mesmo depois destes 25 anos e esses anos que comecei a trabalhar com crianças, no pau-de-fita, na dança do arco… Até no tirar verso, eu sempre dizia: ?trabalhando com crianças, é coisa que me dou bem. No meio dessas crianças, eu fico criança também?. Eu gostava e gosto de trabalhar com criança e trabalhar com este boi-de-mamão. Mas apoio de prefeitura eu nunca tive. O único que me deu um apoio foi o Arnaldo (ex-prefeito), que não precisava projeto para fazer roupas. Esse boi-de-mamão me trouxe e tá me trazendo muita alegria.

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3 Respostas to “Arnoldo José Pereira: Organizador do boi-de-mamão peixeiro”

  1. mignon Diz:

    Falta de apoio, incentivo a continuidade do folclore vai deixar as festas regionais sem graça, as lembranças de quando criança, dos pais, avós…. ficarão somente na memória dos mais antigos.
    Onde está nossa cultura… se acabando. Aos nossos governantes pedimos somente apoio, incentivo. Não deixem morrer a nossa história.

  2. reserva Diz:

    E… lamentavel… neste país só se pensa em obter lucros com os super faturamentos e as roubalheiras deste país e não dando valor as memórias e cultura é um país sem memória e sem cultura para as próximas gerações, é muito triste, não só em Itajaí, mas quase em todo o Brasíl.

  3. Teconvi Terminal de Cont Diz:

    Parabéns Seu Cueca, pela vontade de trabalhar e fazer a diferença mesmo sem o apoio da grande maioria. Que algum empreário conciente observe este apelo silencioso e incentive este bonito trabalho, que bem financiado pode tirar muitas crianças e adolescentes das ruas.

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