• 30 jan 2010
  • Postado por Tiago
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O Entrevistão-Debate do DIARINHO sobre Patrimônio Histórico foi dividido nos temas políticas públicas, alternativas pra preservação, projeto Borda d?água, restauração e manutenção e 150 anos de Itajaí. Os jornalistas elaboraram perguntas específicas dentro desses temas para cada um dos entrevistados e, orientados por esses questionamentos, os especialistas fizeram o debate.

POLÍTICAS PÚBLICAS

DIARINHO ? Atualmente, o que a prefeitura de Itajaí tem feito pra preservação do patrimônio histórico da cidade?

Darlan Pereira Cordeiro ? Nós encontramos uma situação complicada no final da enchente. Não houve uma transição efetiva de governo. Nós tivemos que tomar ciência do que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, cuidar da cidade. Foi uma grande tragédia e a administração teve que dar conta disso: cuidar, limpar, reorganizar a cidade. O patrimônio cultural, neste sentido, não ficou de lado, mas também enfrentou o mesmo problema. Posso citar uma situação concreta que foi a Casa Mello, que fica ao lado da Casa Lins, que sofreu com a enchente. Parte dela ruiu durante a enchente, ficou no meio da rua e quando nós assumimos tivemos que fazer uma contenção daquilo ali. Tivemos que cuidar daquele patrimônio que foi tombado em 2005 e que é um dos mais importantes da cidade pela antiguidade, pela história, pela questão arquitetônica. Aí tivemos que correr pra, meio que emergencialmente, conter a destruição dela. Fizemos um escoramento, porque aquilo é um móvel que não nos pertence, não pertence ao município ainda – há um processo judicial neste sentido e há uma pessoa que reivindica usucapião. Antes de nós assumirmos, esse processo já vinha acontecendo. O professor Beto [Severino] lutou bastante neste sentido à frente da fundação pra tentar trazer este patrimônio pro município, e essa luta continua. Acreditamos que vá se tornar um bem do município. [Além da Casa Mello, alguma outra casa sofreu com a enchente de 2008?] Em termos de patrimônio histórico tombado não houve nenhuma outra que tivesse o mesmo prejuízo da Casa Mello. A Casa Lins entrou um pouco de água, o Museu Histórico, que é o Palácio Marcos Konder, por incrível que pareça, mesmo estando localizado ali na Hercílio Luz, não sofreu com a enchente, não houve penetração de água. A gente tem um subsolo abaixo do nível da rua, mas não entrou água, somente uma linhazinha de água, mas nada que pudesse trazer um prejuízo maior. Que eu tenha conhecimento, nenhum outro imóvel sofreu com a enchente.

DIARINHO ? Embora Itajaí seja a sede do projeto Cidade Revelada, que discute e incentiva políticas urbanísticas e de preservação do patrimônio histórico, a gente não vê a aplicação das discussões levantadas pelo projeto na condução da administração da cidade. Ana Bela, o que falta pra essa discussão mais acadêmica ser aplicada pelas administrações públicas para a preservação de nosso patrimônio?

Ana Bela Machado ? A Cidade Revelada foi um marco, faz parte de uma época, mas as coisas continuam se processando. Ele foi criado num momento em que não havia absolutamente nada sobre isso em Itajaí e arredores. Foi um momento bom. O Cidade Revelada começou de uma maneira muito simples, domiciliar, muito a nível de município, mas sem que nós percebêssemos acabou se transformando num evento internacional, fazendo parte de várias agendas de universidades. Universidade do Porto, de Lisboa, de Havana, do Paraná, Rio de Janeiro, da Univali, Buenos Aires. Enfim, isso aconteceu sem a gente perceber. Mas o que acontece com as políticas públicas é que ultimamente as cidades têm passado por cataclismas, por intempéries muito grandes. A natureza tem se rebelado extremamente contra o homem. Há momentos em que você tem que colocar [recursos] pra construção de casas, ruas, saneamento básico, e você tem que decidir o que é mais importante: conservar o patrimônio histórico, que é uma coisa importante, as pessoas precisam ter isso, ou você colocar empreendimentos, pessoas, mão-de-obra e conhecimento técnico e científico numa enchente. Pagar pessoas pra que venham, pois nós não temos técnicos na cidade que digam que o morro tal vai cair, que tal coisa é impermeável. Isto custa dinheiro. Então, fazer política em cima do patrimônio histórico é uma maldade muito grande contra a população. Você primeiro tem que preparar as pessoas e depois a cidade. As pessoas têm que estar íntegras, com local pra dormir, trabalhar, estudar, pra depois perceberem que a cidade que elas têm, tem um manancial enorme de patrimônio cultural, não só arquitetônico, mas de uma forma geral. [A gente não corre o risco de terminar com esse manancial de patrimônio histórico até que as pessoas se conscientizem disso, já que vemos tanta derrubada por aí?] Não corre o risco e vou te dizer o porquê, com relação a Itajaí. Vocês hoje têm sorte de ter neste momento o maior número de conhecedores por metro quadrado, aqui nesta sala [do entrevistão]. Se depender de nós, isso não vai acontecer, porque nós temos a memória. O Darlan está aí e não me deixa mentir, o Beto com publicações, dona Marlene, eu também, enfim, essas memórias permanecem. E nós temos uma casa, que é Museu Histórico, que é o Arquivo Histórico. E mesmo que ele desapareça de uma hora pra outra, nós temos alguns acervos em outros lugares. Conforme há uma solidariedade de mandar recursos pras cidades que são atingidas por catástrofes, também há solidariedade em recolher documentos. E Itajaí é uma cidade que tem ramificações com outras partes do mundo, e é fácil de conseguir, não se preocupe (risos). [Mas nós não corremos o risco então de Itajaí ter seu patrimônio histórico deixado em segundo plano?] Ele já está em segundo plano há muito tempo e isso é evidente. Não por culpa de ninguém, em absolutamente. É como eu disse no início. Você tem que enviar recursos aonde eles são necessários e urgentes naquele momento. Não faz o menor sentido você gastar 150 mil reais num evento sobre patrimônio histórico e ter casas na Murta que foram por água abaixo. Eu seria a primeira a ser contra isso. Seria ótimo que tivesse dinheiro pra tudo, mas hoje você não tem nem pessoas pra fazer isso, nem local.

DIARINHO ? Beto Severino, você como ex-superintendente da fundação Genésio Miranda Lins poderia confirmar se houve ou não transição especificamente na sua pasta?

José Roberto Severino ? No caso específico nosso, o Darlan era funcionário da casa e todos os relatórios ele conhecia, e a gente teve uma longa conversa sobre as políticas que vinham sendo aplicadas. Então, no caso específico da fundação Genésio Miranda Lins houve transição. Mas houve a enchente e as pessoas não estavam, você não as encontrava. Os funcionários da fundação, colocamos todos à disposição do trabalho com a enchente, exceto a equipe de arquitetos, que estava trabalhando num projeto da Casa da Cultura. Nós ficamos até o último momento dedicados à causa da enchente. Nós produzimos os relatórios, que são três documentos volumosos: um relatório do setor de comunicação; um relatório completo de todos os trabalhos, atividades, programas, projetos, entrevistas da fundação; e um relatório financeiro, que diz respeito a todo o desenvolvimento orçamentário dos quatro anos. Nesse sentido, a transição ocorreu do ponto de vista formal. Não houve aquele acompanhamento que se esperava, das pessoas ficarem juntas nas secretarias, mesmo porque elas estavam num estado de emergência. No casso específico nosso, tivemos uma longa conversa, Darlan e eu, e fui passando todos os programas que a gente fazia parte.

DIARINHO ? Continuando com o Beto Severino, você acha que existe um engajamento entre nossa universidade, que mantém um curso de Arquitetura e Urbanismo, e as administrações que passaram por Itajaí nos últimos anos?

Beto Severino ? Eu sou egresso da Univali, tanto como aluno, como professor. E falando desse tempo em que eu sou professor, sempre fui extensionista. Que é algo, nas universidades, considerado um trabalho de segunda categoria, não é o mais bem visto. A pesquisa sempre tem um andar acima do ensino da extensão. Os cursos em que eu trabalhei, eu sempre tive alunos envolvidos em projetos. O nosso trabalho, por exemplo, de memória dos bairros, depois que eu assumi como superintendente, já era algo que vinha de um trabalho de extensão da universidade. Com relação ao curso de Arquitetura, em especial, durante a minha gestão, eu tive a participação de vários alunos, estagiários, que nos ajudaram a fazer muitas coisas de arquitetura. Mas também tivemos alunos de História, de Jornalismo, de Publicidade, de Direito, da Informática. Na fundação Genésio Miranda Lins, durante quatro anos, nós tivemos 16 estagiários, mais os seis de Arquitetura que vieram na fase de elaboração dos projetos da Casa da Cultura. Do meu ponto de vista, isso sempre foi uma realidade. O que não era uma realidade, de ambas as partes, era isso ser uma política pública. É sempre muito pela vontade das pessoas, do professor dedicado, do diretor do museu dedicado. Mas, do ponto de vista da participação efetiva, ela sempre houve. A universidade nunca se isentou e nem se ausentou, ela sempre esteve presente. Em alguns setores, mais. Saúde, por exemplo, muito. Educação, menos. Nós brigávamos muito pra que o segmento da licenciatura pudesse ser complementar das políticas de educação do município, que eu acho que seria um avanço enorme, mas na verdade isso nunca se efetivou. [E de onde veio a resistência pra que dessas conversas não fosse elaborado um programa, da administração ou da universidade?] Na verdade, são duas estruturas muito pesadas. Tanto na Univali, quanto na administração municipal, existem muitos níveis decisórios e não é algo muito fácil de se fazer. Suponhamos que o executivo concorda, mas lá no legislativo tem um impedimento. Outra hora o legislativo propõe, mas o executivo diz que falta recurso. Hora a procuradoria levanta o senão. Você tem inúmeras situações, não é só de uma pessoa. Mas do ponto de vista de potencialidade, é uma potência enorme o que a universidade é capaz de fazer junto com o município. Acho que ela tem um papel central, mas falta um programa definido, em que os segmentos todos superem as dificuldades.

DIARINHO ? Um dos argumentos levantados pelas construtoras que cobiçam terrenos onde estão casarões históricos é que as construções geram empregos e ?modernizam? a cidade. Dona Marlene Rothbarth, o que se pode fazer pra conscientizar a população pra importância da preservação de nossa história?

Marlene Rothbarth ? Acho que investir em educação patrimonial. Eu sou uma das pessoas que mais defende isso. Há por trás disso uma história toda sobre patrimônio histórico. Ele é muito comentado, mas a estrutura governamental e a burocracia muitas vezes impedem que aconteça esse trabalho. Nós vemos que não há uma certeza desse patrimônio, tendo em vista os problemas que a gente encontra. [Quais problemas?] As dificuldades pra poder manter o patrimônio e pra também tombar esse patrimônio. Há uma intervenção estranha, que a gente não determina aonde, e nós vemos que às vezes falta uma legislação que possa dar apoio à essa certificação. As construtoras, por exemplo, vão fazer uma obra, demolir o patrimônio histórico, e o próprio proprietário não é informado da importância daquele patrimônio. Esses últimos casarões na Olímpio de Miranda Júnior, eram duas casas que estavam sendo trabalhadas pra que fossem tombadas, mas por causa dessa burocracia toda foi se levando, levando, mas no fim não existiu um apoio legal que possa impedir [a demolição]. Aí entra outro interesse, que é o imobiliário, e vemos que, de uma forma geral, o proprietário de um bem histórico herdou aquele imóvel ou então alguém o adquiriu e não sabe nada da história do imóvel. [E como essa consciência, essa conscientização pode ser levada adiante?] Vejo como um ponto de referência, até contrariando um pouco os colegas aqui, o Cidade Revelada. Mas é um projeto que deveria atingir o todo e não somente aqueles que já entendem de patrimônio. Eu sempre trabalhei em cima disso, meu trabalho agora é de conscientização, e precisamos divulgar o patrimônio da cidade. [A senhora acha que o Cidade Revelada ficou muito em cima da discussão acadêmica e não atinge a população em geral?] O que nós vemos nas ruas são as pessoas ficarem com pena porque estão demolindo o patrimônio. Pena não é o nosso problema. O nosso problema é garantir a proteção do patrimônio. Politicamente, existe uma porção de dificuldades pra que esse patrimônio seja conservado, tombado. Falta conscientização e valorização desse patrimônio. Eu vejo que uma das forças maiores pra que se faça isso é a própria administração pública. Porque quando a administração pública quer, ela faz.

Beto Severino ? Eu gostaria só de fazer um complemento. A dona Marlene citou duas edificações que foram demolidas e que faziam parte de um levantamento. Nós tínhamos feito um levantamento de 180 edificações. Quando o levantamento tava sendo encaminhado, nós tivemos a sorte de ter o plano diretor acontecendo. Eu, sinceramente, não consigo entender por que a justiça de Itajaí acatou a ideia de que o plano diretor tinha que ser revogado. Achei um equívoco enorme. As pessoas que tomaram essa decisão marcaram profundamente a cidade por um viés de desenvolvimentismo equivocado. Durante o tempo que nós tínhamos a potência, quando o prefeito dizia ?nós vamos manter?, ninguém demolia as casas, a gente conseguiu mantê-las de pé. Aquelas que caíram, receberam multa e nós conseguimos autuar de uma maneira bastante efetiva, porque tinha o aval do conselho de patrimônio e havia uma força, essa força política. A partir do momento em que houve a virada e nós perdemos as eleições, no último ano houve uma espécie de mudança de ventos e a justiça começou a entender que aquele plano diretor não era adequado, o que pra mim foi um jogo muito político. O movimento verde destruiu o plano diretor e a história vai dizer isso pra nós daqui um tempo. Os grupos verdes vieram em torno de uma ideia de que a praia Brava não tava contempalada dentro do plano diretor e o implodiu como um todo. Aconteceu que todo um esforço de quatro anos e até mais foi prejudicado. Nós tínhamos um levantamento fantástico, que não era fruto só do governo Volnei [Morastoni, ex-prefeito de Itajaí], era fruto da sociedade itajaiense. Quando implodiu-se a questão ambiental, eu fui até o Ministério Público e entreguei um levantamento do patrimônio e disse: ?Isso aqui não está equivocado. Eu quero que o senhor olhe esse material e gostaria que o senhor levasse em conta?. Eu levei as atas do conselho de patrimônio, mostrando que há participação da sociedade. E o que aconteceu? Entraram com pedidos na justiça e os juízes deferiam a demolição. Eles não eram tombados, mas eram protegidos por um princípio, uma ideia que está por trás. O conselho de patrimônio teve que julgar situações em que às vezes um membro do conselho era da família de alguém que tinha uma edificação que iria ser demolida pra construir um edifício. Cria-se um impasse na hora em que a propriedade privada se choca com o interesse público. [E as multas são brandas também?] São brandas sim.

Darlan Cordeiro ? Se você puder me deixar fazer uma interferência neste sentido. O conselho de patrimônio vem trabalhando na criação de um fundo. Nós temos trabalhado muito e o projeto-lei tá pronto. São 49 artigos que mostram exatamente esse trabalho, além de conscientizar o proprietário, também oferecer vantagens pra ele. Nós somos humanos e sabemos que não há vantagem nenhuma hoje de uma pessoa conservar um bem desse tipo. Uma casa que tem 100 anos, que requer uma restauração, um investimento muito alto em técnicos e estudos neste sentido. Em Itajaí, o proprietário não tem. E o que ele tem de vantagem hoje? Tem isenção de impostos, e isso é muito pouco. Isso não incentiva, não estimula e não é suficiente. Pensando nessas questões, a procuradoria geral do município, representada pelo Fábio Cadó, que é o nosso procurador municipal dentro do conselho, elaborou esse projeto-lei e acreditamos que até fevereiro o projeto esteja pronto pra ser encaminhado. O que esse projeto tem de novo em termos de legislação de proteção de patrimônio? Primeiro, ele usa uma coisa que nem eu conhecia, que é a tal da transferência de potencial construtivo. Ou seja, se o plano diretor prevê que nessa rua o gabarito é de oito andares, e você tem um imóvel tombado, você pode vender esses oito andares que não existem oficialmente, mas você pode vender o valor que custaria realmente, pra outros imóveis que serão construídos. Então o proprietário ganha e com isso ele vai ter que investir no patrimônio que tem, além da questão educacional, que a dona Marlene tanto mencionou. A gente acredita que é isso mesmo, não dá só pra cobrar, pra proibir, tem que educar e também oferecer algo. Além disso, o fundo também vai prever multas pra outras situações. A gente acredita que isso realmente vai incentivar e modificar esse pensamento de especulação imobiliária, de desespero por vender os imóveis na Lauro Müller, que são valiosíssimos, pra construir somente prédios. O desenvolvimento de uma cidade não se dá somente através de prédios, mas também através de sua história, que mantém sua identidade cultural.

ALTERNATIVAS PARA

A PRESERVAÇÃO

DIARINHO ? Os proprietários de casarões históricos, ante a possibilidade do tombamento de seu imóvel, muitas vezes preferem antes demolir o casarão, porque temem que a sua casa tombada perca o valor de mercado. Beto Severino, que alternativas você vê pra preservação desse patrimônio? O poder público poderia comprar essas casas e usá-las pra instalação de prédios públicos, por exemplo?

Beto Severino ? Acho que isso que o Darlan acabou de colocar é uma coisa que a gente vive discutindo no conselho de patrimônio já há um certo tempo, que é a criação do fundo. Isso é importante, o fundo é um primeiro passo, e com multas mais severas para que você possa, também tendo o fundo, de alguma maneira contribuir com isso. No caso específico de Itajaí, muitos dos edifícios tombados já são públicos. São os casos do Museu, da Casa Lins, a Casa da Cultura. Agora, temos outros que são públicos, mas não são do município e nem do estado. É o caso da Cúria, proprietária da igreja Matriz, da Imaculada [Conceição] e a igrejinha de Cabeçudas [Santa Terezinha]. Essas edificações são públicas, no sentido de frequentadas, mas pertencem à Cúria. E temos muitas edificações que são privadas. Eu não acho, não sou partidário da ideia de que tudo deva ser do estado, que todas as edificações devam ser públicas. O proprietário pode conservar a edificação por conta própria, quando tiver condições, mas também com ajuda quando for necessário. A grande questão é que a gente amplie o foco no patrimônio para além da área histórica central. Ela se espalha pela cidade e a gente precisa ter políticas afirmativas. É um outro caminho, mas que exige do poder público uma ação. Dependendo da situação, a ação é diferente. Um exemplo é que temos nos molhes toda uma ambiência de Cabeçudas. Aquilo é paisagem e é patrimônio. A gente tem que lutar pra que não aconteça a depredação de toda aquela área verde no entorno da igrejinha e aquele fundo dos molhes que a gente consegue ver. Não é o fato da coisa ser pública ou privada que vai garantir. O que vai garantir é que nós tenhamos o olhar atento pra que aquilo que a sociedade entende como interessante de ser preservado, seja preservado.

DIARINHO ? Aproveitando todas essas situações citadas, gostaríamos de saber do Darlan Cordeiro qual é o norte da fundação Genésio Miranda Lins na sua gestão, nesta questão de preservação do patrimônio histórico?

Darlan Cordeiro ? É exatamente o que eu já falei, a educação patrimonial. Vimos aqui uma série de exemplos e quando falo sobre patrimônio histórico, sobre esses problemas, a gente vê que alguns não querem ouvir. A conscientização é uma coisa muito séria, porque informação a gente tem passado. A gente já alcançou algumas esferas, mas têm algumas outras que ainda não conseguimos. Também temos uma preocupação muito grande com a preservação física. Como estávamos falando aqui sobre o patrimônio histórico, se deve estar relacionado sempre ao estado e se o estado deve cuidar disso, eu concordo com o Beto. Não é tudo que tem que ser propriedade do estado, as pessoas têm que ter essa consciência e ajudar o estado, se não fica naquela cúpula e não é por aí, não é esse o objetivo.

DIARINHO – Ana Bela, na tua opinião o que deve ser feito pra dar vida, por exemplo, à região central de Itajaí onde existem casarões históricos a serem preservados?

Ana Bela ? Uma coisa que a gente percebe é que não adianta você restaurar através do proprietário, através do poder público, e deixar fechado. Eu sou a favor de voltar a dar vida ao centro, não só o nosso, mas a todos. O que aconteceu com o boom do comércio? O centro passou a ser utilizado pra lojas, escritórios, e ele tem um período de vida, que é o horário comercial. Daquele horário em diante você não vê mais ninguém, não existe um bar, com algumas exceções, não existe um café, um jornaleiro, por exemplo, as coisas morrem. Você vê um senhor ali na Hercílio Luz por volta das 22h, com um ferro baixando todas as portas de ferro das lojas. Isso me dá uma dor, porque é como se você estivesse fechando os olhos da cidade e impedindo os pedestres de ver. Na maioria das vezes essas lojas são instaladas em edifícios da década de 60 e 70, mas não mora ninguém ali. Então eu e inúmeras pessoas somos a favor que volte a ter vida no centro, ou seja, vai recuperar o imóvel ou não vai recuperar, vai pintar, vai ver a instalação elétrica, pois todos eles são deficitários de instalação elétrica. Isso gera um risco muito grande de incêndio, porque geralmente os assoalhos são de madeira, os forros são de madeira e o telhado não é conservado. Então, se você povoa o centro da cidade, o que vai acontecer? Você vai ter mais vida noturna, mesmo que as pessoas não tenham bares, até porque você tem que controlar os horários de som pra não atrapalhar as pessoas que eventualmente moram ali. Os imóveis vão se conservar mais tempo. Se você arruma as casas, recupera, restaura, revitaliza, reunifica, as pessoas podem voltar a morar ali. Você dando vida ao lugar, você vai fazer com que a cidade seja até um pouco mais suave com ela mesma e as pessoas que não moram naquele lugar possam frequentar, possam passar pelas ruas e perceber coisas que não viam, por exemplo, há dois anos. [Mas essa responsabilidade seria do município?] Não creio que seja do município e sim do próprio proprietário. Eu não vejo vantagem de você ter uma loja de roupa no térreo e no primeiro pavimento você ter um grande almoxarifado daquela loja de roupa, pois seria mais fácil alugar o imóvel.

DIARINHO ? Dona Marlene, um dos fatores motivadores pra preservação do casario da cidade é o apelo da questão turística. A senhora acha que isso funciona na prática? Acha que os turistas gostam das cidades que preservam a sua história? É mostrada pro turista a nossa história?

Marlene Rothbarth ? O turista em geral procura exatamente esses pontos históricos. Quando a gente viaja em excursão, isso aí se nota perfeitamente. Agora em Itajaí eu vejo uma grande dificuldade, primeiro porque não existe um plano de turismo e segundo não existe um plano de preservação do patrimônio. Antes de fazer um plano integrado, como foi dito naquele entrevistão do DIARINHO com as lideranças municipais, acho que o poder público deveria exigir que a fundação Cultural, por exemplo, fizesse um plano de preservação de patrimônio. Isso é uma coisa que leva algum tempo, é um valor muito importante. Às vezes eu tenho visto meu filho, que tem uma banca de jornal, e às vezes a cidade toda está fechada e as pessoas param ali e perguntam onde é que tem alguma coisa de patrimônio histórico na cidade para que possam ver. Então, é preciso que haja, por exemplo, um incentivo, primeiro fazer a preservação. Eles [turistas] vão ver o que no nosso patrimônio está praticamente desmoralizado, vamos dizer assim. A partir do ponto que nós já estamos com esse plano pronto, tá tudo prontinho, aí sim oferecer no desembarque ali no píer um tour pela cidade e mostrar exatamente isso. É o que se faz quando a gente viaja, é isso que nós queremos ver. Mas enquanto não tivermos nosso patrimônio preservado, conservado, nós não temos nada a oferecer.

DIARINHO ? O projeto Borda d?água, idealizado pelo arquiteto Dalmo Vieira Filho há quase 10 anos, previa uma série de ações que pretendiam dar vida ao centro de Itajaí, revitalizando a área central da cidade, que acabou de certa forma sendo ?engolida? pelo crescimento do porto. Ana Bela, por que o projeto jamais saiu do papel, apesar de ser elogiado por todos os administradores recentes de Itajaí?

Ana Bela ? Porque falta investimento e falta uma pessoa empreendedora que consiga enxergar a cidade daqui a 10 anos. Se você não conseguir olhar o futuro, você vai ser igual a cavalo de corrida, você só vê o seu pé ali na frente, mas você tem que olhar o amanhã. O futuro é esse rio, é essa borda d?água, a qual o Dalmo tão bem nomeou. Com tudo que ele já tinha programado e com tudo funcionando, o projeto, além de transformar a cidade num cartão postal, vai dar vida a todos os lugares que algumas pessoas têm receio de passar à noite. É um projeto conhecido inclusive fora do Brasil. Por que ele não é feito? Porque eu acho que as pessoas têm que se conscientizar que a cidade não é propriedade de uma pessoa só. A cidade é propriedade de quem nela mora, de quem paga os seus impostos, de quem se preocupa. A cidade pertence a todos nós, não a A, B ou C. O projeto é bom, é do partido verde e amarelo, cor de rosa, não importa, é pra cidade, vamos fazer! [A senhora acredita que o pontapé inicial deve partir da iniciativa privada nesse caso do Borda d?água?] O projeto esta fora do meu conhecimento há uns dois ou três anos, então eu não sei se o Dalmo acrescentou alguma coisa, se ele retirou, não sei em que posição está. Eu sei que o projeto tanto pode ser feito com a iniciativa privada ou com a iniciativa pública. Ele vai abranger áreas públicas e eu tenho certeza que a marinha não vai se opor. Então eu acho que tem que ser feito sim, se as empresas podem participar ótimo, elas podem descontar 30% em projeto cultural, existe isso na cidade, existe uma lei que você pode patrocinar projetos culturais, e existe outra lei também que faz com que o projeto aconteça. Lei nós não temos necessidade, só precisamos aplicá-las e o projeto Borda d?água, se pelo menos 10% for colocado em prática, com certeza vai ser muito bom pra toda a cidade.

Marlene Rothbarth – Mas quem vai fazer isso?

Ana Bela ? Olha dona Marlene, é isso que eu tô dizendo. Eu não posso discutir parcerias sem saber como estão os cofres públicos ultimamente.

DIARINHO ? E por que o incentivo à atividade turística e à preservação da história da cidade não caminham juntos em Itajaí? A pergunta é pro Beto Severino.

Beto Severino ? É um desafio, é difícil mesmo. Temos que começar um trabalho desde às escolas, fazer os alunos e as pessoas se integrarem realmente. Porque o turismo não pode ser uma coisa predatória. Então o que tá acontecendo hoje: os navios chegam aqui e esses turistas são largados na cidade. Parece que a gente botou ?Detefon?, eles ficam iguais baratas, rodando pela cidade tontos, sem destino. A Amfri [Associação dos Municípios da Região da Foz do Rio Itajaí] fez agora um guia turístico da região, da macrorregião, tentando identificar os pontos turísticos, mas eu tenho a impressão que isso não tem conexão direta com o município, não sei como que está. Mas a impressão que dá é que as coisas são feitas em instâncias separadas. Isso aqui não é culpa de ninguém, eu só estou dizendo que parece que não há um diálogo entre o segmento estadual, municipal e federal. Aí vai uma sugestão pro conselho de patrimônio, que saia gente da fundação Genésio Miranda Lins para o conselho de turismo. Outro ponto é a profissionalização. Nós não temos a integração com o jovem que pode ter um potencial emprego no futuro. Teria que ser feito um trabalho de médio prazo, isso não é da noite pro dia, tem que qualificar as pessoas, tem que mostrar.

DIARINHO ? Dona Marlene, a senhora, como membro atuante da sociedade na questão da preservação, acredita que as novas gerações podem despertar de alguma forma pra importância dessa questão?

Marlene Rothbarth – Eu acho que se as pessoas de hoje fizerem algum trabalho: de educação patrimonial, divulgação e de conscientização, elas serão os nossos futuros preservadores e conservadores. [Infelizmente, muita gente acha que o progresso pressupõe a derrubada do que é antigo e que a construção de mais e mais prédios é significado de crescimento. Como podemos prosperar economicamente e manter de pé a história de nossa cidade?] Nós temos visto exemplos na Europa, no Canadá, EUA, de preservação sem interferência das construções dos prédios. Não sou obrigada a demolir um prédio para construir um grande edifício. Nós temos ainda, em Itajaí, muitos terrenos vazios no centro da cidade e ninguém se interessa para a construção. O problema não está na construção, o problema está na conscientização do proprietário para não demolir o imóvel. Nós tivemos a visita de técnicos da Alemanha há muitos anos e eles nos conscientizaram muito bem disso. Frankfurt foi praticamente destruída, durante a 2ª Guerra Mundial, e eles não fizeram nenhum prédio novo onde foi destruído. Eles reconstruíram, restauraram e isso que temos que ter consciência. A cidade de Frankfurt tem um pulmão ambiental, que é a floresta, e que ninguém mexe dela, e ao redor da cidade antiga é que são construídos os grandes prédios. Ninguém saiu prejudicado com isso e a história permanece. Não é demolindo que vamos fazer o desenvolvimento da cidade. A cidade precisa ter história e ela precisa ter passado, presente, para projetar o futuro.

Darlan Cordeiro – Há um problema muito grande, que a gente identifica, de individualismo. Todo mundo quer construir na Lauro Müller, para ver o mar de pertinho. Constrói nas ruas de trás que você também vai ver. Porque tudo deve ser para o bem da coletividade, para o usufruto da coletividade e para o turista também. O que eu percebo é essa vontade: ?Eu quero ter uma vista privilegiada?. Vou citar o Rio de Janeiro, Copacabana, tem uma casa só na quadra da praia, o resto é tudo prédio. Quem está atrás não vê. [Balneário Camboriú também…]

RESTAURAÇÃO E MANUTENÇÃO

DIARINHO – Dona Marlene, uma das construções históricas que mais lamentou-se a derrubada foi a do antigo bar da Trude, na Hercílio Luz, esquina com a avenida República Argentina. Recentemente, uma construtora presenteou a cidade com casinholas de compensado que fazem as vezes de réplicas de construções históricas e de seus antigos comércios. Teve quem achasse ótima a ideia e teve também quem a achasse de gosto duvidoso. Como a senhora enxergou esse imbróglio?

Marlene Rothbarth – De fato, ele tem o seu ponto positivo porque fez as pessoas se lembrarem de coisas do passado. Segundo, eu fiz um livro específico sobre isso, sobre o Armazém do Asseburg, e quando eu vi aquelas construções ali, eu me perguntei: ?Por que é que não fizeram a réplica do próprio armazém? Por que fizeram casinhas que não tem nada a ver??. O bar da Trude não era aquela casinha. A sorveteria Dois Irmãos não era aquela casinha ? ela fica numa sala da Olímpio de Miranda Júnior. Esteticamente, achei de mau gosto. Mas trouxe algum benefício, ponto positivo, porque trouxe a memória. Isso é muito importante. Eu já disse, para uma pessoa que precisava ouvir, que ela deveria ter feito exatamente a réplica do armazém. Este armazém poderia ter sido restaurado, com um belo de um projeto feito pela faculdade arquitetura, foi até apresentado num Cidade Revelada. Mas a prefeitura, o governo, não quis comprar, não pode comprar.

Darlan Cordeiro – O dono não quis…

Marlene Rothbarth – Foi um processo de 10 anos, para depois o desembargador assinar, dizendo que o prédio estava em condições precárias, não tinha condições de restaurar. Eu vejo isso como falta de interesse, falta de conscientização do valor do patrimônio. Aquilo ali era o retrato de Itajaí. São as quatro casas que faziam o retrato de Itajaí, do começo de Itajaí. De um lado, Armazém do Asseburg, do lado de lá, a construção de 1904, do Bruno Malburg. Na outra esquina era a velha casa Malburg, e do lado de cá nós temos o prédio do Olímpio. No centro, a igrejinha. Aquilo ali era o centro de Itajaí. Impossível que alguém, com um pouco de sensibilidade, não fizesse tudo para preservar. O bar ?Pau do Meio? era tão fácil de fazerem. Ele se chama assim exatamente porque tinha uma árvore no meio. Veja só essa pessoa: eles preservaram uma árvore e fizeram o telhado em volta, e a árvore ficou ali. Então ele se chamava realmente ?Restaurante Itajaí?, mas era conhecido como restaurante Pau do Meio.

DIARINHO ? Beto Severino, essa questão das réplicas não pode incentivar a derrubada do que resta dos casarões históricos sob o pretexto de que se pode depois construir suas réplicas? Não corremos o risco de em breve morar numa cidade cenográfica, onde tudo é de mentirinha?

Beto Severino – Do ponto de vista legal, não pode, né. A gente tem uma legislação que garante isso. Pode incentivar sim o lado errado da coisa. [A gente não corre o risco de viver numa cidade cenográfica?] Aquilo ali é cenográfico. Como disse a dona Marlene, eu a princípio sou contrário a isso, mas por outro lado trouxe a ideia de preservação. O mote agora, já que foi construído isso, era a gente vincular aquelas réplicas à ideia de preservação que já existe. Me preocupa, porque ele está vindo num momento que é da comemoração dos 150 anos. Eu presenciei dois lugares em que isso foi nefasto, que foi o caso de Blumenau e Joinville. Os institutos criados para os 150 anos destas duas cidades geraram acervos mal geridos pela iniciativa privada. Geralmente, estes institutos caem nas mãos de pessoas que sabem gerir recursos, mas não sabem gerir patrimônio, e acabou gerando problemas. Temos problemas sérios em Joinville até hoje com acervos enormes que foram acumulados dentro dessa lógica da réplica. Foram feitas várias réplicas de coisas que geraram acervos que pertencem agora ao município. Esse aspecto, a sociedade tem que ficar atenta exatamente para não repetir aqui dois exemplos negativos, que temos em cidades vizinhas. São cidades que têm patrimônio importante, têm uma história interessante, mas com o interesse equívoco. A ideia da réplica, ao mesmo tempo que se tem o lado positivo, como disse dona Marlene, tem o lado negativo. Efetivamente porque dá uma impressão que aquilo é a realidade. Aí, você tem razão: é um risco. Estamos andando numa linha muito tênue entre o que é patrimônio efetivamente e o que é pastiche. Para andar nessa linha tênue sem cair no lado equivocado, é necessário que haja uma vigilância da sociedade, da imprensa, pra que não aconteça o que aconteceu nos municípios vizinhos. Do ponto de vista do local, o proprietário não quis vender, na verdade, o terreno onde foram instaladas as casinhas. [A família Aducci?] Não sei o nome dele, mas não quis vender. Acontece que vem a questão da justiça, da maneira que entende as coisas. Porque um desembargador ou qualquer outra autoridade do judiciário tem que primar pela questão do patrimônio e não pela propriedade. A ideia ali de uma edificação que representa o marco inicial da cidade, nós temos o marco zero na praça, nós temos um entorno fantástico de edificações, que representam o marco zero do município, que está de alguma maneira desprezando isso.

DIARINHO ? Darlan, por que a restauração da Casa da Cultura está acontecendo de maneira tão demorada? Há artistas revoltados pela demora da reforma e pela falta de um local apropriado para os trabalhos deles.

Darlan Cordeiro – Primeiro justificando o assunto anterior, não é réplica da casa, é uma referência. Por isso, a questão ?vale a pena derrubar porque depois se faz réplica? não é bem assim. [É uma fachada…] Não é réplica, é uma referência. Segundo, eu consegui entender, e daí é uma responsabilidade da fundação e do conselho, transformar exatamente essa questão que se reavivou a memória local, para justamente fazer política pública no sentido de avisar as pessoas. ?Olha, como vale a pena ter o patrimônio edificado preservado…? Isso é o mais produtivo neste sentido. Temos que pegar carona e transformar numa coisa positiva. Eu também não acho muito bonito aquilo ali não, mas acho que tem todas essas coisas positivas. Voltando à questão do prédio da Olímpio de Miranda, que foi uma coisa inevitável, por conta de um entendimento judicial, do poder judiciário entendendo que ele deveria derrubar. O patrimônio estava tombado, mas o juiz entendeu que deveria derrubar. O que aconteceu, gerou toda uma polêmica na cidade e as pessoas começaram a ver, tanto que o presidente da câmara de vereadores propôs uma audiência pública sobre patrimônio. Não justificando que tenha sido derrubado, mas serviu para alguma coisa. Voltando à pergunta sobre a Casa da Cultura, é a fundação Cultural que cuida disso, mas o conselho também está a par, como presidente do conselho posso falar neste sentido. A Casa da Cultura tinha um projeto que não estava finalizado para o reparo. Havia alguns problemas no projeto, pequenas questões de detalhamento, aberturas, que foram confluídas. Depois, outra equipe finalizou o projeto de restauro. Isso levou um tempo. Em seguida, teve o movimento que chamamos a imprensa, comunidade artística da cidade, que foi aquele movimento na frente da casa para o restauro. Porque o que aconteceu: tínhamos o projeto, não tínhamos recurso. Depois com a adequação do projeto foi para a ordem de R$ 1 milhão, R$ 1 milhão e 100. Agora, daquele movimento para cá, alguns recursos já foram conseguidos, através da Weg, Bradesco, algumas empresas que já estão trabalhando, e o próprio município que vai investir.Tem um valor que veio também de uma emenda parlamentar do deputado Décio Lima. O que se fez num primeiro momento foi a contenção. Agora foi feito o processo licitatório.

DIARINHO – Ana Bela, fazendo um inventário dos casarões que restam ainda em Itajaí, nesta data significativa que se aproxima, os 150 anos da cidade, qual seriam, na sua opinião, os casarões que precisam ser preservados a todo custo? O que fazer para preservá-los?

Ana Bela – Olha, eu acho que a gente não pode perder nada. Tem duas casas na Pedro Ferreira que estão caindo. Aquilo é terrível, porque existe oficina mecânica, com carros parados em cima de um pavimento de madeira, aquilo é um crime, praticamente. Porque não recuperar aquela casa, a família não tem a menor condição, e alugar? Você tem que limitar o que é mais urgente no momento, mas não deve-se perder nada, porque chega uma hora e você faz aquela terrível pergunta: ?Eu preciso me orgulhar do que nesta cidade? Qual é o meu legado? O que quero transmitir as futuras gerações??

ITAJAÍ – 150 ANOS

DIARINHO ? Para finalizarmos o entrevistão, uma pergunta em comum para todos. Em relação ao patrimônio histórico, qual seria o presente ideal para Itajaí, nestes 150 anos?

Darlan Cordeiro – Em termos de fundação Genésio de Miranda Lins, nós temos alguns presentes interessantes. Primeiro, a restauração da Casa Lins. O segundo presente também é uma promessa e uma cobrança, com muita propriedade, da câmara de vereadores, a acessibilidade do Museu Histórico de Itajaí. O terceiro, a fiscalização dos portos que será restaurada e se transformará no Museu do Porto e da Pesca, segundo o superintendente nos informou. Quarto presente, que é um desejo antigo da cidade, junto com a fundação Cultural e outros parceiros, é o Museu de Arte de Itajaí. A pedra fundamental será lançada esse ano. O Museu Arqueológico de Itajaí, na Itaipava, a gente inaugura este ano, está em funcionamento, mas faltava algum detalhe.

Marlene Rothbarth – Olha, eu queria urgência no plano diretor. Nós sentimos muita dificuldade de garantir alguém que esteja sempre à disposição para fazer alguma coisa pelo patrimônio. A fundação Genésio Miranda Lins, quando tem um secretário para fazer a nossas atas, no outro mês já foi embora. Eu queria sugerir ao senhor prefeito que nomeasse um secretário, ele só seria o secretário dos conselhos, como nós tínhamos antigamente. Ele teria que dar conta dos projetos e das atas, que ele seja a pessoa indicada pelo superintendente em atendê-lo nas reivindicações e nessa parte burocrática que é muito grande. Eu pediria uma grande força de vontade dos nossos governantes para restaurar o patrimônio público já tombado, e que ele fizesse um esforço para ter um plano de restauração, que tivesse parceria com a Univali e ACII [Associação Empresarial de Itajaí], que são os dois pesos pesados que a prefeitura sempre contou para fazer alguma coisa. Gostaria que a administração do porto conseguisse fazer o avanço do entorno do prédio da fiscalização dos portos, que a própria Teconvi pudesse dar de presente para Itajaí e expandir aquele espaço, que eles já colocaram ali do ladinho.

Ana Bela – Recursos, muitos recursos. Porque com recursos você tem bons projetos executados, você tem bons profissionais, você consegue fazer a cidade caminhar bem.

Beto Severino – A gente falou pouco aqui de uma das dimensões da Genésio, que é a salvaguarda dos documentos da cidade, que é uma das dimensões do patrimônio. Existe um plano de gestão documental importante. É um dos lugares que cuida da documentação e eu pediria, para os 150 anos, que a gente pudesse ver mantida, em política pública, a preservação destes documentos, com preservação da memória e riquíssimo patrimônio arquitetônico. Que a gente pudesse ver essa cidade maravilhosa preservada.

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