• Postado por Tiago

Marta Sousa Costa

Meu sogro costumava contar que, quando menino, talvez com oito anos, se apaixonara perdidamente por um carrinho que vira numa vitrine. Seus pais, contudo, embora tivessem condições de realizar o desejo, consideraram que o sonho infantil não valia tantos contos de réis. Disposto a realizar o seu intento, começou a economizar, guardando todo trocado com que fosse presenteado. Após longo tempo, conseguiu acumular a quantia necessária. Com o dinheiro na mão, lá foi o menino realizar o sonho, sabendo que o carrinho continuava na vitrine da loja. Diante da vitrine, namorou uma última vez o lindo carrinho; depois, pensou, pensou e, em vez de colocar a mão no bolso para pegar a importância duramente economizada, deu meia volta e seguiu para casa.

Quando lembrava a cena, meu sogro repetia: “É preciso saber resistir”. Muitas vezes argumentei que deveria ter realizado o desejo, quanto teria se divertido com o tal carrinho. Ao que ele respondia: “Foi maior o prazer de conseguir resistir”.

Passaram-se anos. Empolgada com a publicação do terceiro livro, surgiu oportunidade de fazer o lançamento em São Paulo, justamente na Livraria Cultura, onde eu tentara, em outras oportunidades, sem sucesso, por ser insuficiente o número de pessoas conhecidas a quem enviar convites, na capital paulista. Pois, dessa vez, houve concordância, sem dificuldades.

Entre as opções oferecidas, pareceu mais interessante a do Shopping Villa Lobos, em Pinheiros, que eu não conhecia, mas todos afirmavam ser excelente. Talvez por delicadeza, ninguém comentou o fato de que, dependendo do dia e do horário, o trânsito poderia ser problema. O filho, aliás, comentou, mas sem colocar maiores empecilhos, decerto pela mesma preocupação em não atrapalhar a realização do meu sonho.

Contudo, por cautela, decidi conhecer o shopping e a livraria, de antemão. Haveria o lançamento de um livro, naquela noite, e o responsável pelo serviço de bufê sugeriu que fossemos até lá, como seus convidados.

O convite era para as 19h, como seria o meu, mas saímos às 20h, de táxi, em concessão ao horário de pique. Logo o trânsito trancou e o táxi mais ficava parado que andava. Esse é o problema de São Paulo _ contornado, geralmente, pela escolha de horários para se deslocar a cada lugar. Nas horas de pique, melhor nem tentar. Só que o lançamento seria das 19h às 21h30.

Após cerca de quarenta e cinco minutos, chegamos lá. Encantei-me com o shopping, com a livraria, apreciei o serviço de bufê, tudo maravilhoso, não fosse o trânsito, naquele horário. Para facilitar, o filho sugeriu fazer no sábado, às 11h da manhã, mas, por ser outubro, sábados e domingos estavam reservados às crianças.

Surgiu o nome de outra livraria, que poderia liberar qualquer dia e horário. No entanto, ao fazer contato, surgiram novas dificuldades e, de repente, o lançamento se transformou em problema.

Passei o final de semana pensando e então lembrei do meu sogro. Pena que ele não possa ouvir que, colocado tudo na balança, pesou principalmente o incômodo que causaria aos amigos que se julgassem na obrigação de comparecer, e por isso desisti do lançamento em São Paulo. Desisti numa boa, contente, da mesma forma que ele, quando olhou o carrinho que tanto queria e considerou que não valia a pena.

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