• Postado por Tiago

A vasta cabeleira loira e o alto astral não dão pistas do drama que Éder Ceccon, revelado pelo Itajaí Esporte Clube, em 1999, passou no começo do ano passado. Dono de um potente chute de esquerda, Éder recebeu a notícia que mudaria sua vida e carreira no futebol, em maio de 2008: o jogador criado no bairro Itaipava, em Itajaí, tava com câncer.

Ainda no Criciúma, em agosto de 2007, Éder começou a sentir dores. “Pedi pra sair do Criciúma porque não conseguia treinar, não conseguia cabecear. Os médicos do Criciúma acharam que poderia ser hérnia de disco”, lembra.

Com a saída do Tigre, o atacante voltou a Itajaí pra defender o Marcílio Dias, no Catarinão 2008. Antes, ainda fez exames de sangue no time da terra do carvão, que não apontaram nada.

Pelo Marinheiro, Éder estreou no segundo turno do Catarinense e fez dupla de ataque com Genílson, ex-Figueirense e Avaí. Com três gols no campeonato, Éder fez sua última partida, antes de descobrir a doença, no dia 15 de abril, quando entrou no intervalo da derrota pro Brusque por 2 a 1, pela última rodada, no Gigantão. “Depois do campeonato fiz uma tomografia e foi constatado um tumor maligno no mediastino, região do tórax. Já tava com câncer, mas só descobri com a tomografia”, conta.

No Criciúma, quando o câncer nem passava pela cabeça do jogador, Éder revela que tomava injeção toda semana, além de anti-inflamatório todos os dias, por sete meses. “Eram 24 horas de dor. No banho, eu não conseguia lavar o cabelo”.

O medo da morte

Hoje com 26 anos, Éder não pensou em outra coisa quando ficou sabendo da doença. “Na primeira vez que escutei, perguntei pra médica quantos dias eu tinha de vida. Pensei que ia morrer, que não tinha mais escapatória”, revela.

Como na maioria dos casos de câncer, Éder também teve que enfrentar a quimioterapia, tratamento todo feito em Itajaí, que começou em junho de 2008. “Depois da sexta sessão, já havia sumido parte do tumor. A quimio dói, arde, queima, dá ânsia de vômito, mas acredito muito em Deus e pensava: ‘se eu tô sofrendo, a doença vai sofrer mais, eu vou me curar’”, fala Éder, que terminou a quimioterapia em novembro, após 12 sessões.

Diferente de muitas pessoas que fazem quimio, Éder não chegou a perder todo o cabelo, mas mesmo assim decidiu raspar. E quem ajudou nessa tarefa foi sua esposa Caroline, com quem é casado há três anos. “Foi um choque, um susto muito grande. Pensávamos que câncer era uma sentença de morte, mas depois ficamos aliviados”, diz Carol.

Maior companheira de Éder, a mãe Marinês Ceccon foi outra que sofreu com a doença do filho. “Foi difícil no começo, todo mundo pensou na morte. Mas a fé é maior. Agora ele tá aí, cheio de saúde”, fala a mamãe.

Retorno ao futebol

Apelidado de Canhão da Itaipava pelo radialista Renato Paneli, na época em que fez vários gols no amador peixeiro, a maioria de fora da área, lance que viraria sua marca registrada, Éder partiu do Itajaí pro São Paulo, antes de uma passagem pelo Joinville. Depois do tricolor paulista, Éder também jogou no Japão, Avaí, Santos, Paysandu, Juventude e no Konyaspor, da Turquia. “Quando joga, tem um monte de amigos, agora poucos ficaram”, lasca.

Com o término da radioterapia, tratamento feito pra acabar divez com o câncer, em fevereiro deste ano, Éder foi liberado pra voltar a jogar e, em março, foi pro Juventude, onde só ficou treinando. “Não aceitei a proposta porque o salário não convinha. Tinha que pagar pra morar em Caxias do Sul”, conta.

Além do time gaúcho, Éder recebeu propostas do Anápolis/GO, ABC/RN, Treze/PB e de times turcos, mas sempre esbarrou no preconceito. “Quando falo que tinha câncer, os clubes ficam com o pé atrás. Pro Belenenses, de Portugal, tava certo pra ir, mas o salário era um antes de saberem da doença. Tentei jogar em Santa Catarina, mas nenhum clube abriu as portas, nem Joinville nem Avaí, nenhum time que passei. Mas só de estar vivo podia até nem voltar mais”, desabafa.

Feliz por recuperar a “vida normal”, Éder garante que não ficou triste pelas portas fechadas. “Não fica mágoa, fiquei surpreendido. Mas estou feliz em estar bem. Tô bem, já posso voltar a jogar, preciso de uns 30 dias pra entrar em forma”, diz ele, que completa. “Sempre coloquei o futebol em primeiro lugar”.

Obrigado a fazer acompanhamento médico pelos próximos cinco anos, Éder tem em sua sobrinha Camile um dos principais motivos pela melhora. “Ela sofreu muito comigo, eu xingava ela sem querer por causa do estresse”, fala Éder, que é recompensado. “Agora tô bem feliz porque o tio melhorou”, diz Camile.

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