• Postado por Tiago

Igrejinha é palco de lendas irresistíveis e de acontecimentos que marcaram a região

A igrejinha tá entre as mais antigas da Santa & Bela

Texto: Dagmara Spautz

Fotos: Dagmara Spautz e Felipe Vieira Trojan

Marcada pelo tempo, a pequena construção é lar de lendas e segredos. Localizada no bairro da Barra, o mais antigo de Balneário Camboriú, a capela de Santo Amaro, que já teve o status de matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, assistiu a cidade nascer e crescer, de olhos voltados para o rio Camboriú. As histórias passadas de pai pra filho contam que foi um lugar marcado pelo sofrimento dos escravos. Hoje restaurada, a igrejinha, que tá entre as mais antigas da Santa & Bela, conserva um ar de mistério e é um convite a um passeio pela história.

Nem mesmo os historiadores conseguem definir a data exata em que a igreja começou a ser construída. Ao que tudo indica, a planta da obra teria chegado a estas terras, conhecidas como Arraial do Bom Sucesso, graças à facilidade que os navegadores tinham em atracar seus barcos, no início do século XIX. Mas a empreitada só teria saído do papel no ano de 1849, pelas mãos dos escravos. ?Tem muitas especulações, mas não se sabe determinar o tempo certo?, diz a especialista em história da arte e restauradora Lílian Martins, que participou do processo de restauração da igrejinha.

Como a capela é muito parecida com a de Nossa Senhora das Graças, em Olinda (PE), acredita-se que foram os jesuítas que trouxeram o projeto pra estas terras. ?Tem uma igreja muito parecida no Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, que foi a primeira do estado. Esta teria sido a segunda, mas infelizmente não temos como comprovar?, comenta Lílian.

A confusão com as datas rola porque muitos documentos antigos se perderam com o tempo. O mais provável é que tenham ficado com alguma família, ou então tenham sido destruídos em negociações de terras que nem sempre seguiam o que mandava a lei. ?As igrejas costumavam ter terras ao redor que eram negociadas, nem sempre de maneira legal. Acabavam extraviando documentos importantes para encobrir?, diz a restauradora.

A capela nasceu pra ser grande. Os fundos da construção indicam que ela deveria ter ficado muito maior do que é. ?O plano era de uma igreja matriz, mas com o tempo a comunidade foi crescendo para o outro lado, onde hoje é o centro de Camboriú, e a matriz acabou sendo construída lá?, conta Lílian.

Com a mudança de planos, as obras da igrejinha ficaram paradas por meio século. Prova disso são as paredes desiguais. Ao contrário da maior parte das construções religiosas, que preza pela simetria, na capela de Santo Amaro as janelas do lado direito e esquerdo não seguem a mesma linha. O mais provável é que uma das paredes tenha sido erguida 50 anos antes da outra.

Depois de finalmente pronta, a matriz, que acabou virando capela, precisava de seus padroeiros. Uma imagem barroca de Nossa Senhora do Bom Sucesso, que teria sido dada ao arraial pela família real, ganhou o posto de honra. Mas quem deu nome à construção, no fim das contas, foi uma imagem de Santo Amaro, que guardava a capelinha do antigo cemitério.

Os dois dividem espaço com um Jesus Cristo feito à imagem e semelhança dos colonizadores do litoral. ?O Cristo tem um rosto que segue a arte italiana, mas suas pernas são curtinhas, como é característica dos açorianos?, revela Lílian.

O sino rachado

Outro símbolo da capela é o sino rachado, que hoje repousa silencioso numa redoma de vidro. Reza a lenda que a rachadura teria sido provocada pelos escravos, por conta da abolição da escravatura. A história, que atravessa gerações, diz que assim que ficaram sabendo que eram finalmente homens livres, os escravos badalaram o sino dia e noite, com tanta força, que o pesado bronze rachou.

Lílian diz que é bem pouco provável que isso tenha rolado de verdade. ?Aquele tipo de fissura é muito comum quando o sino cai por deterioração da corda. O mais provável é que tenha sido isso o que aconteceu. A data também é difícil de precisar, porque a notícia da abolição da escravatura pode ter levado alguns anos pra chegar até aqui?, diz a restauradora.

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