• 06 fev 2010
  • Postado por Tiago

Dalva Maria Rhenius

Naturalidade: Itajaí

Idade: 55 anos

Estado civil: Casada

Formação: Geografia pela Univali e curso incompleto de Letras também pela Univali

Cargos que ocupa: Vice-prefeita de Itajaí e reassumirá até março a secretaria de Saúde da prefeitura

João José da Silva

Naturalidade: Laguna/ SC. Veio para Itajaí em 1956

Idade: 74 anos

Estado civil: Casado

Formação: Economia pela pontifícia Universidade Católica [PUC] de Porto Alegre e Administração pela Univali

Cargos que ocupa: Presidente do conselho Municipal de Saúde de Itajaí e dirigente da associação dos Portadores de Atrite do Vale do Itajaí [Apavi]

Arlete Terezinha Desen

Soprano

Naturalidade: Santo Amaro da Imperatriz/SC. Veio em 1982 para Itajaí

Idade: 52 anos

Estado civil: Casada

Formação: Enfermeira sanitarista pela universidade de Concórdia e mestre em Educação pela universidade Federal do Paraná

Cargo que ocupa: Coordenadora do centro de Ciências da Saúde da universidade do Vale do Itajaí [Univali]

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DIARINHO – O primeiro dos temas a ser abordado, que é a ponta final do sistema de saúde, é o atendimento nos postos e a quantidade de exames solicitados e acumulados, ainda por fazer. A pergunta vai para o presidente do conselho Municipal de Saúde [Comusa]. Chegam ao Comusa as reclamações de filas extensas nos postos e a demora no agendamento e na entrega de exames? E, se chegam, como é que o conselho tem encaminhado essas reclamações para que tais problemas sejam resolvidos?

João – Bom, oficialmente, essas reclamações não têm chegado lá no conselho. Até porque estou assumindo agora a presidência do conselho Municipal de Saúde. Na verdade, a população não tem usado as nossas assembleias, que são públicas, para ir lá apresentar suas reclamações, seus protestos, as suas reivindicações. Mas o Comusa é uma instância para ouvir, para receber os usuários do sistema único de saúde para que façam as suas reclamações, as suas reivindicações. A gente tem conhecimento. A gente sabe. Não temos ainda um estado de atendimento ótimo ao público, até porque a demanda é muito grande, é maior do que a oferta de serviço. Mas é um trabalho que vem sendo feito, vem sendo construído, vem evoluindo bastante mesmo nas unidades de saúde. Mas nunca se chega a atender de forma satisfatória toda essa demanda, entende!? Agora, sobre o ponto básico da sua pergunta, não há uma reclamação direta ao conselho Municipal de Saúde.

DIARINHO – O senhor deve ter recebido um relatório da gestão anterior do Comusa e, se recebeu, a reclamação sobre as filas e as demoras dos exames não constam desse relatório?

João – Não! A gente tem conhecimento disso aí porque acompanha de perto essa situação nas unidades de saúde, nos serviços oferecidos, né!? E por isso sabe que a demanda é maior que a oferta dos serviços e que, evidentemente, tem demora. É que, na verdade, o usuário do serviço do SUS quer ser atendido no dia em que ele vai lá e nem sempre é assim, porque tem que obedecer a uma agenda no serviço. Mas como a demanda é muito grande essa agenda tá sujeita a essa demora no atendimento.

DIARINHO – Vice-prefeita Dalva, o agendamento telefônico de consultas, que havia na administração passada, não resolveu em parte esse problema nas filas dos postos de saúde? E, se é que tenha resolvido, por que é que foi suspenso? E, em relação aos exames, o por que da demora no agendamento e na entrega dos resultados? Continua havendo, ainda, a necessidade de pacientes de Itajaí migrarem para Florianópolis para fazerem os exames de alta complexidade ou a cidade já consegue dar conta dessa demanda?

Dalva – Bom, quero dizer que nada foi suspenso. O que foi suspenso foi de outubro a dezembro quando Itajaí sofreu com as enchentes. Um exemplo é o raio-X. Nós tínhamos 18 mil raios-X pendentes. Hoje a gente faz uma média de cinco mil atendimentos ao mês, o que acaba ainda não sendo suficiente, porque nós temos um número reduzido de prestadores de serviço. A exemplo do hospital Marieta, que faz para a região da Amfri [Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí, que comporta 11 cidades], a exemplo da clínica São Lucas, que privilegia os pacientes de câncer. Então isso acaba refletindo na rede pública, especialmente lá no PA do São Vicente. Isso, estou me referindo ao raio-X. O que pra mim é um exemplo muito grande, porque é uma média de cinco mil atendimentos ao mês. Entre Natal e Ano Novo foram feitos 750 raios-X. Mas hoje esse serviço já não comporta e precisaríamos ter mais prestadores de serviço na cidade. Está aberto o credenciamento universal para prestadores de serviços. Um exemplo é a colonoscopia [Exame feito para analisar o instestino grosso, em que uma sonda é inserida no ânus do paciente]. Quando nós chegamos, além de ter uma demanda muito grande, entre novembro e dezembro estava praticamente tudo parado, inclusive o agendamento de consultas. Com isso acumulou enormemente. Priorizamos os atrasados, mas não conseguimos ainda colocar em dia os que foram chegando.

DIARINHO – Qual é o gargalo nos exames?

Dalva – O raio-X tem essa demanda louca, né!? Eu como prefeita, agora nesses últimos 18 dias, dei entrada no processo de licitação para a nossa Upa, a unidade de pronto-atendimento da grande Cordeiros. Compramos o terreno neste ano, já vai ser edificada e ali vai ter um raio-X, também. Porque eu entendo que o serviço público tem que buscar esses exames pra si, porque se depender apenas do prestador ele não dá conta. O prestador, normalmente, não quer fazer porque o preço que o SUS paga é muito pouco. Em Itajaí, com a graça de Deus e o conselho pode me respaldar quanto a isso, ninguém recebe com preço diferenciado. Nós pagamos com base na tabela do SUS, e isso é raro aí pelo estado. Aí, na verdade, há poucos prestadores. Dentro da colonoscopia, quando chegamos, lá no início do ano passado, nós tínhamos só um prestador, em Blumenau, que fazia esse exame. Abrimos o credenciamento e hoje temos um prestador aqui em Itajaí, mas ainda é insuficiente. Há uma gama bastante grande, mas ainda inferior à demanda que se precisa. E esse estudo a gente tem e por isso vai aprimorar no decorrer deste ano.

DIARINHO – Em relação ao agendamento de consultas nos postos, então hoje ainda é possível agendar uma consulta ou um retorno via telefone? Não precisa mais se descolar ao postinho de madrugada?

Dalva – Nunca parou. Desde o dia 1º de janeiro nós fizemos esse agendamento via unidade de saúde. Só que tem que melhorar. Até o final deste mês, todas as farmácias, os dispensários, toda a rede vai dispensar um medicamento e cá no almoxarifado já vai sendo dada a baixa. Consequentemente, o almoxarifado vai saber que lá na unidade do Promorar tem só 10 comprimidos e que eles têm que repor com maior rapidez isso. Agora vão ser a segunda etapa e terceira etapas. Nessa segunda etapa está sendo feito um cadastramento de todas as pessoas que estão no programa de saúde da família para fazermos o cartão magnético. Não tem mais como fugirmos a isso. E por quê? Hoje nós temos a pactuação com os municípios vizinhos, mas muita gente ainda vem de outra cidade com endereço aqui de Itajaí, consulta aqui. Essa pessoa faz os exames, vai pro especialista. E por quê? Porque ela entra como moradora de Itajaí. E nós, com o cartão magnético, vamos ter a posição real, que nunca tivemos na história, do que gastamos com as pessoas de Itajaí. E tem, também, algo que está sendo piloto. A gente não divulgou e estou dizendo aqui pela primeira vez. A unidade da Murta ela hoje tem um prontuário do paciente na mesa do médico. Hoje tem um grande número de pessoas que faz exames e não vai buscar. Marca a consulta e não vai. Aí, deixa vago esse lugar e o médico acaba ficando ocioso. Aí, puxando o prontuário, o médico sabe que a dona Maria tá consultando na Murta ali naquele dia mas que há 15 dias ela não foi buscar um exame pedido por um médico de outra unidade. E se ela não foi buscar, ela tem que ir buscar, pois tem que apresentar esse exame para ele. Isso evita que se faça o exame novamente. Evita que pegue um remédio aqui, pegue um remédio lá e pegue um remédio cá. Na verdade, nós temos que ter a reorganização do serviço. Itajaí foi é e, se não tomarmos providências, será sempre a cidade que vai acolher tudo e todos.

DIARINHO – Professora Arlete Soprano, na visão da academia qual seria o sistema ideal de atendimento à população na rede municipal de saúde visando essa agilidade?

Arlete – Olha, eu acho que Itajaí tem uma rede de saúde invejável. É admirável a estrutura de saúde que tem o município de Itajaí. Se o cidadão precisar procurar uma unidade de saúde ele acha o serviço andando a pé no máximo em 15 minutos. Mas é justamente isso o que a Dalva fala. É o que tá ocorrendo no momento e isso tende ainda a ocorrer por um tempo, até que o cidadão tome um pouco mais de consciência daquilo que é realmente importante. Algumas vezes os serviços são duplicados e a questão não avança em termos de conquistas e de melhoria do fluxo. Eu entendo que se nós caminharmos para um trabalho mais educativo, de formação de grupos e fortalecendo esse trabalho que a rede já iniciou há algum tempo, nós vamos avançar e nós vamos diminuir essas filas. Nós, na Univali, também temos laboratório em que atendemos pacientes do SUS, temos uma unidade de saúde que compartilhamos com a secretaria Municipal de Saúde. Temos uma parceria e a gente percebe isso. O paciente vai, consulta e não vem trazer os exames. A consulta tá agendada com um especialista e o paciente não vai. E isso tudo tem um custo, um custo altíssimo. Outras pessoas que têm doenças mais graves precisariam desse atendimento. Agora, o cidadão, que busca ter a plenitude dos seus direitos e está plenamente com a razão quanto a isso, é preciso que tenha um pouco mais de consciência. Dentro da universidade nós trabalhamos com essa perspectiva, de focar o trabalho de educação e saúde, o trabalho de prevenção, o trabalho de formação de grupos.

DIARINHO – Essa falta de presença nas consultas não seria justamente pela demora no atendimento? Não estaria faltando um acompanhamento da rede nesse período entre o agendamento da consulta e o dia do atendimento?

Arlete – Hoje, com a estratégia da Saúde da Família, pela qual a secretaria de Saúde tem estruturado seus serviços, com os profissionais, o médico, presentes oito horas na unidade de saúde, isso está um pouco mais difícil de acontecer. O que acontece é que às vezes o cidadão busca o mesmo atendimento em vários locais porque ele não acredita que vá ter aquela solução para seu problema logo. E isso atrapalha tudo. É complicado quando se tenta fazer dessa maneira. Mas acontece. O acesso à saúde tá universalizado, mas agora o serviço precisa ser focado em determinadas especialidades e o cidadão precisa acreditar que aquilo funcione. O SUS é um serviço brilhante. Não é ruim. O atendimento é muito bom, as esquipes são e estão sendo preparadas cada vez mais para esse aprimoramento. E aí acho que a academia pode entrar também ajudando a qualificar o pessoal da rede. Aliás, também uma boa parte dos funcionários da rede é egressa da universidade. O curso de enfermagem vai fazer 30 anos agora em 2010.

DIARINHO – Professora, na sua opinião o programa da Saúde da Família [PSF] é bom? Como política pública ele realmente funciona?

Arlete – Eu acho que sim. Funciona e funciona muito! Ele tem, sem dúvida nenhuma, uma penetração na comunidade. Muitas vezes as pessoas dizem: ?Ah! Não quero receber, não quero que venham na minha casa. Quando eu precisar eu vou lá no posto?. Mas o programa Saúde da Família é uma grande estratégia. Ele precisa ser melhorado, precisa ser compreendido pela população, mas ele é uma grande estratégia.

DIARINHO – Você acha que falta essa educação junto à população para que receba os profissionais do programa?

Arlete – Acho que precisa haver uma compreensão. É um processo histórico. Se a gente for analisar, é uma estratégia recente em termos de história. Então, pra população é um trabalho importante. Alguém está olhando para aquelas famílias, alguém tá olhando para aquele paciente que está acamado, alguém está vendo o que está acontecendo com o idoso que está sendo maltratado… Então tem gente olhando! Agora, nós não conseguiremos fazer isso em toda sua amplitude se a gente não focar alguns aspectos mais importantes. E às vezes a demanda da unidade é tão grande, que as pessoas não conseguem fazer todo esse trabalho.

DIARINHO – Qual seria a situação ideal? Onde o programa Saúde da Família falha e acerta hoje?

Arlete – Talvez a Dalva tenha mais elementos para responder isso. Mas como cidadã e como dirigente do centro de Ciências da Saúde da universidade, a gente percebe o avanço ocorrido no acesso da população ao serviço de saúde. Esse olhar mais direto do profissional médico, que fica lá as oito horas de trabalho, essa relação dele com a comunidade, a relação do enfermeiro, do auxiliar e de toda equipe de saúde que com a comunidade, com a família, com os seus pacientes… Esse vínculo é uma coisa muito importante. Por que é assim: ?Ele é o meu médico?, ?o meu médido de família disse tal coisa?. Quando essa relação se fortalece, o grau de confiança aumenta. Então o paciente não precisa mais sair correndo lá da Fazenda e ir lá no São Vicente procurar um médico melhor. Ele tem o médico dele, que vai na casa se for preciso, que acompanha, que dá respostas, que pede os exames.

DIARINHO – O DIARINHO recebe denúncias de que os médicos ficam nos postos de saúde e não fazem as visitas às comunidades, como está previsto no estatuto do programa. O Comusa também recebe esse tipo de denúncia e tem fiscalizado?

João – Bom, o conselho não tem recebido esse tipo de denúncia como eu disse inicialmente. Eu acho, como disse agora há pouco a professora Arlete, que está faltando é o esclarecimento do povo, dos usuários. Até porque esse programa da Saúde Família é um evento novo. O programa ainda tá se desenvolvendo mas é muito, muito bom.

DIARINHO – O Comusa não está um pouco afastado da comunidade?

João – Na verdade o conselho Municipal de Saúde não atua diretamente com o usuário, na residência do usuário. Ele não tem essa atribuição. Existem outros departamentos na área da saúde que atuam nesse sentido.

DIARINHO – E qual seria a atribuição do Comusa, então?

João – O conselho é um órgão que colabora com a secretaria da Saúde nos aspectos dos programas de saúde, na organização, na estrutura, na fiscalização, na aprovação dos programas de saúde. Ele não é responsável pela execução. A execução cabe à secretaria e ao pessoal da Saúde.

DIARINHO – Nesse papel importante que o conselho tem, que é o de fiscalizador e o de também apontar caminhos para a saúde pública, não tá faltando os conselheiros irem até à comunidade para dizer que o Comusa existe e é um instrumento importante da organização social para pressionar os dirigentes públicos? Até para que o Comusa possa ser mais atuante?

João – O conselho tem uma oportunidade única quando realiza as conferências municipais de saúde. Que é quando ele vai aos bairros fazer as reuniões, ouvir diretamente o usuário, o povo que usa o SUS. É a oportunidade de ouvir essas reclamações diretamente e levar para a conferência. Fora disso, o conselho Municipal de Saúde não tem essa responsabilidade de ir diretamente até a comunidade. Até porque o conselho é formado por elementos voluntários. São pessoas da comunidade, que têm seus compromissos, e por isso não têm essa disponibilidade e nem essa responsabilidade de fazer essa fiscalização in loco. Até porque o conselho não dispõe de verbas para custear esse trabalho. Ele não tem verbas pra isso. Então, na verdade, isso só acontece quando a gente realiza a conferência municipal de saúde. O ano que vem provavelmente nós teremos essa conferência.

Arlete – Eu gostaria de complementar. Eu também sou conselheira e vejo a participação dos membros do conselho como muito importante nesse trabalho de acompanhamento, de desenvolvimento nas ações de saúde no município. De modo geral, os conselheiros são pessoas da comunidade bastante críticas e que trazem, sim, seus problemas de uma maneira muito direta e fazem valer sua representação. O conselho Municipal de Saúde, que o seu João preside, tem um papel importante. Temos todos que lidar – e somos todos, eu, Dalva e seu João, membros do conselho – com questões bem críticas. E o conselho é muito rigoroso. E nada passa barato. É uma disputa. Não no sentido de cada um puxar prum lado, mas sim um disputa no sentido de querer trazer, de fazer valer o direito do cidadão.

DIARINHO – Professora, qual o ponto mais nevrálgico da saúde de Itajaí debatido no conselho? Qual o dedo na ferida? Em qual situação o conselho tem cobrado mais, tem debatido mais?

Arlete – Não sei, o seu João tem mais experiência que eu nessa questão. Mas no acompanhamento das ações da secretaria, na forma como são distribuídos os programas? Há um apelo para que a coisa funcione. E a secretaria vem fazendo a sua parte e sabe o quanto tem de exigência por trás dessas ações, porque tem o conselho que está ali para acompanhar o desenvolvimento de todo esse trabalho. Mas, assim, eu diria que o conselho de Saúde é um conselho bem crítico, participativo e ele acompanha as ações que são feitas, os serviços… Tem o cuidado para que não se tenha nenhuma preferência.

DIARINHO – A comunidade poderia participar mais do Conselho?

Arlete – Eu acho que a comunidade está devidamente representada.

Dalva – Posso dar um dedinho aí? Ali dentro do conselho tem representação de praticamente todos os bairros. Automaticamente, seus membros trazem para o conselho aquilo que é necessário. Nos bairros também têm os conselhos locais de Saúde, que têm representação dentro do conselho. Nós temos um plano de saúde. Esse plano é feito a várias mãos, pelo conselho Municipal de Saúde, departamentos da secretaria de Saúde e a comunidade envolvida através do conselho. Então nós temos metas a seguir. Agora, é claro que às vezes as metas fogem da guia, a exemplo do surto da gripe A que houve, a exemplo de outras endemias ou pandemias que surgem. Mas é pautado naquilo e a secretaria de Saúde cumpre aquilo que foi planejado dentro daquele plano. E aí o pessoal diz que a Dalva só fala em enchente. Claro, seu sou obrigada a falar porque nós ainda estamos sentindo na pele. Houve toda uma desorganização do serviço por conta disso. As unidades estavam desorganizadas, as pessoas que trabalhavam nas unidades também tiveram suas casas cheias de água. Também estavam com raiva. Elas não estavam em seu normal de atendimento. Isso tudo nós temos que relevar. O seu João não era o presidente do Comusa na época, era um outro presidente. O seu João assumiu agora. Houve um retrocesso, tudo por causa da enchente. [Mas o que falta ainda?) Acho que falta como um todo. Falta da Univali, falta da Secretaria, falta investir em campanha de publicidade. Ano passado nós fizemos um folder explicativo sobre todas as unidades e todos os serviços. E pedíamos que as pessoas fossem ao PS só em casa de emergência. Resolveu? Deu uma grande aliviada.

DIARINHO: Quantas equipes de PSF (Programa Saúde da Família) Itajaí tem hoje e as estatísticas demonstram que o programa realmente tem funcionado? Que tipo de doenças diminuiram nesse período?

Dalva – Hoje nós sabemos quantos hipertensos têm em determinado bairro. E ele já recebe medicamento contínuo. Isso não é desse governo e nem do outro. Isso é lá de trás e a coisa funciona. Porque nós sabemos disso? Através do PSF que faz esse trabalho. Uma coisa boa é essas academias ao ar livre. Isso é nota mil. Estamos implantando mais quatro. Acho que vai faltar praça pra colocarmos. Porque tem que incentivar caminhada. O PSF é justo pra isso. Pra trabalhar com caminhada, junto com professores de educação física que farão os exercícios. O Itajaí Ativo, ano passado, não parou. Nós não tínhamos o projeto do progama porque ele não foi encaminhado em 2008. Agora já recebemos o novo projeto e o município implantou. Ano passado teve 829 pessoas participando. Ainda é pouco: 38% apenas dos interessados. Ainda precisamos mais, porque ainda tem bairro que precisa, tipo o São João, que têm bastantes idosos. [Onde hoje o PSF está pecando?] Ele está pecando hoje porque ele precisa ser mais atrelado com a comunidade. [Os médicos captaram a essência do PSF? Os enfermeiros têm essa relação até na própria história da profissão e da própria formação? Os médicos do Brasil, tradicionalmente, vêm de uma classe economicamente diferente, de uma classe superior. Eles captaram a essência do programa?] Ainda temos problemas. Eu vejo com muito bons olhos esse programa, o Peti, que os profissionais saem de dentro da sala de aula e vão lá ajudar a comunidade, com a supervisão de um médico formado. É um programa da universidade, secretaria de Saúde e Governo Federal. Isso é o nosso futuro.

Arlete – O profissional médico hoje está muito mais comprometido do que no passado. Hoje, o campo de atuação rico é as unidades.

DIARINHO ? Boa parte desses pacientes que acaba no pronto-socorro do Marieta não poderia ter seus problemas resolvidos nas unidades de saúde da prefeitura? No caso das crianças, também não poderia haver uma triagem nos postos antes da chegada ao pronto socorro do Pequeno Anjo?

Dalva ? Pode, mas isso é muito cultural. Eu falava com uma pessoa, que sua filha teve um corte no dedo. Foi atendida no Pequeno Anjo rapidamente. Que bom, nota 10. Mas ela poderia ter sido atendida na unidade de saúde. A gente pergunta: ?O senhor foi na unidade??. E ele responde: ?Não, eu fui na hospital porque lá é mais rapidinho?. Isso é muito cultural. Mas não é só isso. Mesmo quando ele pode resolver lá na sua base ou no PA do São Vicente, ele acaba vindo para os hospitais porque é mais rápido. Mas muita coisa poderia ser resolvida na unidade de saúde. [Como fazer pra mudar isso?] Eu acho que a referência e a contra-referência ainda é uma medida, mas ela vai ser devagar. Mas ainda é a melhor, com certeza. A pessoa que esteve no PS, ela tem muito mais urgência de ser atendida no dia seguinte nos postos do que aquela que vai na unidade. Claro que vai ser perguntado e diagnosticado ali, mas ela precisa dessa contra-referência pra não ficar indo e vindo. Depois ela também recebe a orientação que deve procurar a unidade. Gradativamente, a gente vai estar retornando a isso.

DIARINHO ? O conselho debate este problema? Seria falta de investimento do hospital ou falha no sistema municipal? Qual a proposta da comunidade?

João – Dentro do conselho se discute toda a política de saúde. Até porque dentro do conselho temos várias comissões que atuam em várias áreas. O conselho se reúne por várias razões e as comissões foram recém-formadas. As comissões vão nos locais acompanhar, atuar e fiscalizar as políticas de saúde. De acordo com o trabalho realizado, o profissional emite um relatório. E, depois, numa assembléia, se discute o relatório e se aprova. Ai se cobram as medidas da secretaria de Saúde ou dos responsáveis pela execução do programa. Ou ainda do hospital. Quando os assuntos chegam ao nosso conhecimento, a comissão vai lá e vê de perto. Porque não se pode só ouvir uma crítica sem fundamento, a crítica tem que ter fundamento.

DIARINHO ? Os serviços de extensão da universidade não poderiam ajudar a desafogar o atendimento no pronto-socorro? A universidade não poderia ser mais ativa nesse sentido?

Arlete ? Olha, eu entendo que esta é uma questão cultural, como a Dalva havia falado. Os prontos-socorros do Marieta e do Pequeno Anjo têm uma demanda muito maior, porque têm mais serviços, até por conta do horário de atendimento. Eu entendo que todo e qualquer trabalho educativo e de prevenção que podemos fazer junto com a comunidade, nós vamos melhorar esse fluxo. Na medida que o cidadão se sente acolhido naquele serviço, do qual ele é originário, ele também vai passar pra dar um olhadinha. A tendência é ir pro PS porque tem algo mais grave. Têm alguns avanços. Mas, sem dúvida nenhuma, a universidade pode ajudar. Temos alguns programas na própria rádio e TV. Com o pessoal da comunicação dá pra pensar em trabalhos conjuntos e dentro das disciplinas específicas, dentro das Ciências da Saúde.

DIARINHO ? Quais as doenças infectocontagiosas que hoje mais preocupam os profissionais da secretaria de Saúde? Itajaí é mesmo uma das principais no ranking nacional de Aids, hanseníase e tuberculose? A gripe A foi totalmente superada ou no inverno poderemos ter novos surtos?

Dalva ? Já foi uma das principais desse ranking. Ano passado, como secretária da Saúde, recebi uma prêmio do ministério da Saúde. Foram R$ 40 mil depositados em conta para o fundo municipal da saúde, pela qualidade da atenção básica. E olha que particularmente eu acho que temos que melhorar muito. Mas isso deu um fôlego pra trabalharmos muito mais. Voltando às doenças infectocontagiosas. Da Aids não somos mais o primeiro. Mas não importa, porque fomos o primeiro. Porque fomos o serviço que iniciou o diagnóstico. Eu lembro, em 1980, quando surgiu o primeiro paciente de Aids, em Itajaí, ele morreu dentro do hospital Marieta. Era uma doença muito grave que começava a se falar mundo a fora. Com isso, começou a se estruturar um serviço e que depois passou pro Codim. A partir daí começamos a receber gente de tudo o quanto é lugar pra fazer o diagnóstico. Essas pessoas não queriam que em sua cidade alguém descobrisse. Eu me lembro que veio ministro pra região e pessoas que queriam dar dinheiro pra Itajaí por causa deste problema. Foi bom e foi ruim [risos]. Hoje, nós temos os programas de redução de danos, o Bem-me-quer, tanto os que cuidam das mulheres, dos homens, meninos e dos jovens. Que buscam essas pessoas e orientam. A tuberculose tem um grande número também. [E a gripe A foi totalmente superada ou no inverno podemos ter mais um surto?] A secretaria de Saúde, as unidades, a universidade e o hospital foram de uma eficiência nota mil. Ninguém morreu vítima de crime em nossa cidade. E isso foi à toa? Não foi. Fomos o primeiro a abrir uma central de gripe no bairro São João e quando se tinha uma suspeita nós já começamos com o tratamento; tínhamos profissionas que iam até as casas. Todo mundo entrou na luta. E tem mais: deveríamos ampliar isso para o próximo ano. Porque lá no passado não tinha o diagnóstico de gripe A, mas já se morria muita gente pela gripe. [O município vai receber as vacinas, o estado já está adquirindo?] O município já está recebendo as orientações. Mas só.

DIARINHO ? Este surto, essa grande comoção, em relação à gripe A, a academia vê como exagero ou a doença era mesmo perigosa?

Arlete – Olha, as duas coisas. A gente não sabia lidar com uma coisa de tanta proporção. Então, parabenizo a todos: secretaria de Saúde, todos os profissionais, Univali, à população. A forma como cada um absorveu a questão da gripe A foi realmente um grande exercício. Nós não tínhamos referências mundiais de atuação naquele momento. Cada um fez o que pode. Na minha vida profissional ? e tenho 35 anos de profissão – foi a primeira vez que vi uma epidemia de tão grandes proporções. Embora não tenham ocorrido óbitos aqui, houve muitos outros em vários locais. Itajaí se organizou muito rapidamente e de uma forma muito eficiente. Vejo como o maior desafio que os profissionais de saúde enfrentaram, até hoje, em suas vidas. Então, pra mim que sou sanitarista, vivi isso de uma maneira muito intensa. [Isso foi mais importante para testar este sistema ou para combater a doença?] Eu acho que houve de tudo. Ele nos testou, provocou esse desafio e combateu. Os hábitos têm que ser incorporados. Os hábitos higiênicos estavam realmente deixados de lado. Isso tem que ser incorporado na vida de cada um. Não era somente com o vírus que nós estávamos lidando, mas com o pânico da população. O pânico de todos, inclusive, de nós [Refere-se aos profissionais de saúde].

DIARINHO ? Seu João, como o conselho tem analisado, quando se discute orçamento para o município, a prevenção e o combate as doenças infectocontagiosas?

João – Bom, no conselho a parte orçamentária não se chega a ter uma discussão nesses termos. Porque o orçamento é definido pela Saúde e apenas se submete à apreciação e aprovação do conselho. Nós não temos esses estudos aprofundados de onde vão ser gastos esses valores e como vão ser gastos. O município que determina onde vai gastar, onde há necessidade e o conselho apenas discute a aplicação desses recursos e recomenda. Depois, o conselho acompanha exatamente como ele foi aplicado e se obedecem aqueles critérios que estão no orçamento. [Mas o conselho tem um papel, inclusive, anterior ao orçamento…]

Dalva – Isso é com o plano. O plano é tudo. Ele é estudado a várias mãos, o que vamos aplicar em prevenção e ações.

Arlete – Ele é feito a muitas mãos sim, mas apresentado ao conselho. O conselho aprova esse plano, discute, implementa.

DIARINHO – Qual a preocupação do conselho com as doenças infecto-contagiosas?

João – O conselho, assim como os outros órgãos e a comunidade, tem uma preocupação constante com esse tema. O conselho tem acompanhado esse trabalho da saúde, essas ações da saúde e aprova, recomenda ou pode até sugerir alterações de programas. O conselho, é bom que se fique registrado, é um órgão independente, ele não está subordinado à Saúde. Ele é vinculado, mas independente. Dentro do conselho tem uma composição de 50% dos usuários de saúde, representados pelos conselhos municipais de saúde, associação de portadores de patologia, entre outros. Os outros 50% são divididos entre administração da Saúde, trabalhadores da área da Saúde, prestadores de serviço. [Pra 2010, o conselho chegou a fazer alguma deliberação, pedir alguma mudança no orçamento da Saúde?] Não. O conselho não fica alheio nem sobre as ações da saúde e nem sobre as verbas que são aplicadas. O conselho faz esse acompanhamento, faz estudos e faz o seu parecer. Depois e submete à apreciação de todos os conselheiros. Eu, antes de ser presidente, era presidente da comissão de avaliação e acompanhamento do Plano Municipal de Saúde e fazia sempre o relatório das análises das contas do trimestre, fazendo um comparativo com trimestre anterior e do mesmo período do ano passado. A gente analisa também o percentual de gastos e quanto o município está investindo na área da saúde. [Qual o setor que está precisando de mais dinheiro na área da saúde?] Eu acho que a saúde é sempre deficitária. Os recursos que chegam não são suficientes. Sempre há carência de recursos.

Arlete – De qualquer maneira e, Dalva, não me interprete mal, pois a rede de saúde está muito bem estrutura, nós temos um número expressivo de servidores, mas num momento futuro seria interessante ofertar qualificação para esses profissionais. Daí a universidade poderia estar mais presente.

Dalva – Mas já estão sendo qualificados.

Arlete – Mas precisaria tornar este processo um pouco mais amplo para poder, junto com a comunidade, torná-lo mais eficaz, para que os serviços possam ser mais resolutivos. Envolver a todos numa nova cultura de atendimento.

DIARINHO ? Vice-prefeita, qual o modelo de políticas públicas praticada pela secretaria quando o assunto é prevenção e promoção de saúde?

Dalva – Primeiro diagnosticar o problema e tratar ele. Por exemplo, na tuberculose, se precisar buscar o paciente, que se busque o paciente. Esse é um modelo de atenção voltado como um todo. [Mas na prevenção mesmo, para programas como o Itajaí Ativo. Programas mesmo de prevenção e promoção da saúde?] É buscar essas pessoas, inclui-las no meio. [Essa sua fala não passa a ideia de que a gente está indo resolver o problema, como gestor de saúde, só depois que a doença é diagnosticada? Não seria importante trabalhar para que essa doença não ocorresse?] Isso é prevenção, que já falamos no começo. Aí eu digo que a capacitação permanente dos profissionais, ela é importante neste momento. É preciso levar a prevenção à população. [A senhora falou no início do programa Itajaí Ativo, ele deve voltar em 2010 com toda a sua potência?] Em 2009, ele já atendeu 829 pessoas. [Mas ele não aconteceu em algumas unidades, como no bairro Cordeiros. Esse ano, ele volta à ativa em todos os postos?] Ele não terminou 2009 sem. Ele começou sem em 2009. Ele volta porque nós temos uma parceria com a fundação Municipal de Esportes e, com essa parceria, os professores de educação física irão trabalhar com não só com isso, mas com as caminhadas também.

DIARINHO ? Para o conselho, o investimento em prevenção e promoção de saúde está a contento?

João – Pode ser melhorado, mas são investimentos muito pesados. A prevenção passa por um programa de reformulação do município, passa pelo esgoto sanitário. Não se pode pensar em prevenção de saúde, quando se tem valas abertas na cidade, com o esgoto a céu-aberto. A prevenção passa também por programa de alimentação.

DIARINHO ? A universidade apresenta propostas pros gestores públicos de ações que visam a prevenção e a promoção de saúde da população? E também faz ações diretas na comunidade?

Arlete – Olha, a nossa luta é sempre, na formação, fazer valer o modelo de gestão do sistema Único de Saúde [SUS]. A nossa luta é para que o nosso aluno, o nosso egresso, ele compreenda e incorpore os princípios do SUS. [O SUS tem essa área de prevenção? Porque ele parece que trabalha mais para apagar o fogo…] Não. Ele é o melhor e maior programa de saúde do mundo. Ele abrange todas as áreas. Quando eu estou tomando essa água, eu estou tomando porque o SUS está presente nela. Por causa da vigilância sanitária, vigilância epidemiológica. Ele está presente em todas as nossas ações. A gente acha isso normal, é obrigação e tal. Só que por traz disso tem um conjunto de ações, que advém toda essa diretriz nacional. Ele é completo, mas o que se precisa é que todos nós, de uma forma comprometida e responsável, possamos inserir essas ações em toda a sua potência. O caminho é esse, mas tem que ser pra valer.

Dalva – O SUS é promoção, proteção e recuperação da saúde.

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A saúde de Itajaí não vai bem. Ao menos na visão de quem usa o sistema e vive reclamando das filas extensas nos postos de saúde e na demora para o agendamento e entrega de resultados de exames. Foi pra analisar esses e outros males e apontar caminhos para o futuro da saúde pública de Itajaí, que o DIARINHO reuniu neste entrevistão-debate três dos principais atores do setor na cidade: Dalva Rhenius, vice-prefeita e que voltará a assumir a secretaria de Saúde; João José da Silva, representante da comunidade e presidente do conselho Municipal de Saúde [Comusa]; a enfermeira Arlete Soprano, coordenadora do centro de Ciências da Saúde da Univali. A médica Denise Cruz, diretora clínica do hospital Marieta, também estava escalada para o debate, mas teve que sair às pressas para um atendimento de emergência minutos antes do entrevistão começar. Pra saber qual o diagnóstico que os entrevistados fazem do SUS e quais remédios prescrevem para o sistema público de saúde, dê uma folheada nas páginas seguintes e tome doses cavalares de informação. Fique tranquilo que não há contra-indicação.

As regras do jogo (Entrevistão-debate sobre saúde)

Esta edição Entrevistão-debate do DIARINHO foram abordados cinco temas que podem ser considerados os mais importantes quando o assunto é saúde pública: atendimento nos postinhos e demora no agendamento e resultado de exames; programa Saúde da Família; prevenção e promoção de saúde; doenças infectocontagiosas; e pronto-socorro dos hospitais Marieta e Pequeno Anjo. Cada um dos temas resultou em uma renca de perguntas formuladas pelos jornalistas, que foram respondidas e debatidas pelos três bambambãs da saúde na cidade.

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  • 30 jan 2010
  • Postado por Tiago
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O Entrevistão-Debate do DIARINHO sobre Patrimônio Histórico foi dividido nos temas políticas públicas, alternativas pra preservação, projeto Borda d?água, restauração e manutenção e 150 anos de Itajaí. Os jornalistas elaboraram perguntas específicas dentro desses temas para cada um dos entrevistados e, orientados por esses questionamentos, os especialistas fizeram o debate.

POLÍTICAS PÚBLICAS

DIARINHO ? Atualmente, o que a prefeitura de Itajaí tem feito pra preservação do patrimônio histórico da cidade?

Darlan Pereira Cordeiro ? Nós encontramos uma situação complicada no final da enchente. Não houve uma transição efetiva de governo. Nós tivemos que tomar ciência do que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, cuidar da cidade. Foi uma grande tragédia e a administração teve que dar conta disso: cuidar, limpar, reorganizar a cidade. O patrimônio cultural, neste sentido, não ficou de lado, mas também enfrentou o mesmo problema. Posso citar uma situação concreta que foi a Casa Mello, que fica ao lado da Casa Lins, que sofreu com a enchente. Parte dela ruiu durante a enchente, ficou no meio da rua e quando nós assumimos tivemos que fazer uma contenção daquilo ali. Tivemos que cuidar daquele patrimônio que foi tombado em 2005 e que é um dos mais importantes da cidade pela antiguidade, pela história, pela questão arquitetônica. Aí tivemos que correr pra, meio que emergencialmente, conter a destruição dela. Fizemos um escoramento, porque aquilo é um móvel que não nos pertence, não pertence ao município ainda – há um processo judicial neste sentido e há uma pessoa que reivindica usucapião. Antes de nós assumirmos, esse processo já vinha acontecendo. O professor Beto [Severino] lutou bastante neste sentido à frente da fundação pra tentar trazer este patrimônio pro município, e essa luta continua. Acreditamos que vá se tornar um bem do município. [Além da Casa Mello, alguma outra casa sofreu com a enchente de 2008?] Em termos de patrimônio histórico tombado não houve nenhuma outra que tivesse o mesmo prejuízo da Casa Mello. A Casa Lins entrou um pouco de água, o Museu Histórico, que é o Palácio Marcos Konder, por incrível que pareça, mesmo estando localizado ali na Hercílio Luz, não sofreu com a enchente, não houve penetração de água. A gente tem um subsolo abaixo do nível da rua, mas não entrou água, somente uma linhazinha de água, mas nada que pudesse trazer um prejuízo maior. Que eu tenha conhecimento, nenhum outro imóvel sofreu com a enchente.

DIARINHO ? Embora Itajaí seja a sede do projeto Cidade Revelada, que discute e incentiva políticas urbanísticas e de preservação do patrimônio histórico, a gente não vê a aplicação das discussões levantadas pelo projeto na condução da administração da cidade. Ana Bela, o que falta pra essa discussão mais acadêmica ser aplicada pelas administrações públicas para a preservação de nosso patrimônio?

Ana Bela Machado ? A Cidade Revelada foi um marco, faz parte de uma época, mas as coisas continuam se processando. Ele foi criado num momento em que não havia absolutamente nada sobre isso em Itajaí e arredores. Foi um momento bom. O Cidade Revelada começou de uma maneira muito simples, domiciliar, muito a nível de município, mas sem que nós percebêssemos acabou se transformando num evento internacional, fazendo parte de várias agendas de universidades. Universidade do Porto, de Lisboa, de Havana, do Paraná, Rio de Janeiro, da Univali, Buenos Aires. Enfim, isso aconteceu sem a gente perceber. Mas o que acontece com as políticas públicas é que ultimamente as cidades têm passado por cataclismas, por intempéries muito grandes. A natureza tem se rebelado extremamente contra o homem. Há momentos em que você tem que colocar [recursos] pra construção de casas, ruas, saneamento básico, e você tem que decidir o que é mais importante: conservar o patrimônio histórico, que é uma coisa importante, as pessoas precisam ter isso, ou você colocar empreendimentos, pessoas, mão-de-obra e conhecimento técnico e científico numa enchente. Pagar pessoas pra que venham, pois nós não temos técnicos na cidade que digam que o morro tal vai cair, que tal coisa é impermeável. Isto custa dinheiro. Então, fazer política em cima do patrimônio histórico é uma maldade muito grande contra a população. Você primeiro tem que preparar as pessoas e depois a cidade. As pessoas têm que estar íntegras, com local pra dormir, trabalhar, estudar, pra depois perceberem que a cidade que elas têm, tem um manancial enorme de patrimônio cultural, não só arquitetônico, mas de uma forma geral. [A gente não corre o risco de terminar com esse manancial de patrimônio histórico até que as pessoas se conscientizem disso, já que vemos tanta derrubada por aí?] Não corre o risco e vou te dizer o porquê, com relação a Itajaí. Vocês hoje têm sorte de ter neste momento o maior número de conhecedores por metro quadrado, aqui nesta sala [do entrevistão]. Se depender de nós, isso não vai acontecer, porque nós temos a memória. O Darlan está aí e não me deixa mentir, o Beto com publicações, dona Marlene, eu também, enfim, essas memórias permanecem. E nós temos uma casa, que é Museu Histórico, que é o Arquivo Histórico. E mesmo que ele desapareça de uma hora pra outra, nós temos alguns acervos em outros lugares. Conforme há uma solidariedade de mandar recursos pras cidades que são atingidas por catástrofes, também há solidariedade em recolher documentos. E Itajaí é uma cidade que tem ramificações com outras partes do mundo, e é fácil de conseguir, não se preocupe (risos). [Mas nós não corremos o risco então de Itajaí ter seu patrimônio histórico deixado em segundo plano?] Ele já está em segundo plano há muito tempo e isso é evidente. Não por culpa de ninguém, em absolutamente. É como eu disse no início. Você tem que enviar recursos aonde eles são necessários e urgentes naquele momento. Não faz o menor sentido você gastar 150 mil reais num evento sobre patrimônio histórico e ter casas na Murta que foram por água abaixo. Eu seria a primeira a ser contra isso. Seria ótimo que tivesse dinheiro pra tudo, mas hoje você não tem nem pessoas pra fazer isso, nem local.

DIARINHO ? Beto Severino, você como ex-superintendente da fundação Genésio Miranda Lins poderia confirmar se houve ou não transição especificamente na sua pasta?

José Roberto Severino ? No caso específico nosso, o Darlan era funcionário da casa e todos os relatórios ele conhecia, e a gente teve uma longa conversa sobre as políticas que vinham sendo aplicadas. Então, no caso específico da fundação Genésio Miranda Lins houve transição. Mas houve a enchente e as pessoas não estavam, você não as encontrava. Os funcionários da fundação, colocamos todos à disposição do trabalho com a enchente, exceto a equipe de arquitetos, que estava trabalhando num projeto da Casa da Cultura. Nós ficamos até o último momento dedicados à causa da enchente. Nós produzimos os relatórios, que são três documentos volumosos: um relatório do setor de comunicação; um relatório completo de todos os trabalhos, atividades, programas, projetos, entrevistas da fundação; e um relatório financeiro, que diz respeito a todo o desenvolvimento orçamentário dos quatro anos. Nesse sentido, a transição ocorreu do ponto de vista formal. Não houve aquele acompanhamento que se esperava, das pessoas ficarem juntas nas secretarias, mesmo porque elas estavam num estado de emergência. No casso específico nosso, tivemos uma longa conversa, Darlan e eu, e fui passando todos os programas que a gente fazia parte.

DIARINHO ? Continuando com o Beto Severino, você acha que existe um engajamento entre nossa universidade, que mantém um curso de Arquitetura e Urbanismo, e as administrações que passaram por Itajaí nos últimos anos?

Beto Severino ? Eu sou egresso da Univali, tanto como aluno, como professor. E falando desse tempo em que eu sou professor, sempre fui extensionista. Que é algo, nas universidades, considerado um trabalho de segunda categoria, não é o mais bem visto. A pesquisa sempre tem um andar acima do ensino da extensão. Os cursos em que eu trabalhei, eu sempre tive alunos envolvidos em projetos. O nosso trabalho, por exemplo, de memória dos bairros, depois que eu assumi como superintendente, já era algo que vinha de um trabalho de extensão da universidade. Com relação ao curso de Arquitetura, em especial, durante a minha gestão, eu tive a participação de vários alunos, estagiários, que nos ajudaram a fazer muitas coisas de arquitetura. Mas também tivemos alunos de História, de Jornalismo, de Publicidade, de Direito, da Informática. Na fundação Genésio Miranda Lins, durante quatro anos, nós tivemos 16 estagiários, mais os seis de Arquitetura que vieram na fase de elaboração dos projetos da Casa da Cultura. Do meu ponto de vista, isso sempre foi uma realidade. O que não era uma realidade, de ambas as partes, era isso ser uma política pública. É sempre muito pela vontade das pessoas, do professor dedicado, do diretor do museu dedicado. Mas, do ponto de vista da participação efetiva, ela sempre houve. A universidade nunca se isentou e nem se ausentou, ela sempre esteve presente. Em alguns setores, mais. Saúde, por exemplo, muito. Educação, menos. Nós brigávamos muito pra que o segmento da licenciatura pudesse ser complementar das políticas de educação do município, que eu acho que seria um avanço enorme, mas na verdade isso nunca se efetivou. [E de onde veio a resistência pra que dessas conversas não fosse elaborado um programa, da administração ou da universidade?] Na verdade, são duas estruturas muito pesadas. Tanto na Univali, quanto na administração municipal, existem muitos níveis decisórios e não é algo muito fácil de se fazer. Suponhamos que o executivo concorda, mas lá no legislativo tem um impedimento. Outra hora o legislativo propõe, mas o executivo diz que falta recurso. Hora a procuradoria levanta o senão. Você tem inúmeras situações, não é só de uma pessoa. Mas do ponto de vista de potencialidade, é uma potência enorme o que a universidade é capaz de fazer junto com o município. Acho que ela tem um papel central, mas falta um programa definido, em que os segmentos todos superem as dificuldades.

DIARINHO ? Um dos argumentos levantados pelas construtoras que cobiçam terrenos onde estão casarões históricos é que as construções geram empregos e ?modernizam? a cidade. Dona Marlene Rothbarth, o que se pode fazer pra conscientizar a população pra importância da preservação de nossa história?

Marlene Rothbarth ? Acho que investir em educação patrimonial. Eu sou uma das pessoas que mais defende isso. Há por trás disso uma história toda sobre patrimônio histórico. Ele é muito comentado, mas a estrutura governamental e a burocracia muitas vezes impedem que aconteça esse trabalho. Nós vemos que não há uma certeza desse patrimônio, tendo em vista os problemas que a gente encontra. [Quais problemas?] As dificuldades pra poder manter o patrimônio e pra também tombar esse patrimônio. Há uma intervenção estranha, que a gente não determina aonde, e nós vemos que às vezes falta uma legislação que possa dar apoio à essa certificação. As construtoras, por exemplo, vão fazer uma obra, demolir o patrimônio histórico, e o próprio proprietário não é informado da importância daquele patrimônio. Esses últimos casarões na Olímpio de Miranda Júnior, eram duas casas que estavam sendo trabalhadas pra que fossem tombadas, mas por causa dessa burocracia toda foi se levando, levando, mas no fim não existiu um apoio legal que possa impedir [a demolição]. Aí entra outro interesse, que é o imobiliário, e vemos que, de uma forma geral, o proprietário de um bem histórico herdou aquele imóvel ou então alguém o adquiriu e não sabe nada da história do imóvel. [E como essa consciência, essa conscientização pode ser levada adiante?] Vejo como um ponto de referência, até contrariando um pouco os colegas aqui, o Cidade Revelada. Mas é um projeto que deveria atingir o todo e não somente aqueles que já entendem de patrimônio. Eu sempre trabalhei em cima disso, meu trabalho agora é de conscientização, e precisamos divulgar o patrimônio da cidade. [A senhora acha que o Cidade Revelada ficou muito em cima da discussão acadêmica e não atinge a população em geral?] O que nós vemos nas ruas são as pessoas ficarem com pena porque estão demolindo o patrimônio. Pena não é o nosso problema. O nosso problema é garantir a proteção do patrimônio. Politicamente, existe uma porção de dificuldades pra que esse patrimônio seja conservado, tombado. Falta conscientização e valorização desse patrimônio. Eu vejo que uma das forças maiores pra que se faça isso é a própria administração pública. Porque quando a administração pública quer, ela faz.

Beto Severino ? Eu gostaria só de fazer um complemento. A dona Marlene citou duas edificações que foram demolidas e que faziam parte de um levantamento. Nós tínhamos feito um levantamento de 180 edificações. Quando o levantamento tava sendo encaminhado, nós tivemos a sorte de ter o plano diretor acontecendo. Eu, sinceramente, não consigo entender por que a justiça de Itajaí acatou a ideia de que o plano diretor tinha que ser revogado. Achei um equívoco enorme. As pessoas que tomaram essa decisão marcaram profundamente a cidade por um viés de desenvolvimentismo equivocado. Durante o tempo que nós tínhamos a potência, quando o prefeito dizia ?nós vamos manter?, ninguém demolia as casas, a gente conseguiu mantê-las de pé. Aquelas que caíram, receberam multa e nós conseguimos autuar de uma maneira bastante efetiva, porque tinha o aval do conselho de patrimônio e havia uma força, essa força política. A partir do momento em que houve a virada e nós perdemos as eleições, no último ano houve uma espécie de mudança de ventos e a justiça começou a entender que aquele plano diretor não era adequado, o que pra mim foi um jogo muito político. O movimento verde destruiu o plano diretor e a história vai dizer isso pra nós daqui um tempo. Os grupos verdes vieram em torno de uma ideia de que a praia Brava não tava contempalada dentro do plano diretor e o implodiu como um todo. Aconteceu que todo um esforço de quatro anos e até mais foi prejudicado. Nós tínhamos um levantamento fantástico, que não era fruto só do governo Volnei [Morastoni, ex-prefeito de Itajaí], era fruto da sociedade itajaiense. Quando implodiu-se a questão ambiental, eu fui até o Ministério Público e entreguei um levantamento do patrimônio e disse: ?Isso aqui não está equivocado. Eu quero que o senhor olhe esse material e gostaria que o senhor levasse em conta?. Eu levei as atas do conselho de patrimônio, mostrando que há participação da sociedade. E o que aconteceu? Entraram com pedidos na justiça e os juízes deferiam a demolição. Eles não eram tombados, mas eram protegidos por um princípio, uma ideia que está por trás. O conselho de patrimônio teve que julgar situações em que às vezes um membro do conselho era da família de alguém que tinha uma edificação que iria ser demolida pra construir um edifício. Cria-se um impasse na hora em que a propriedade privada se choca com o interesse público. [E as multas são brandas também?] São brandas sim.

Darlan Cordeiro ? Se você puder me deixar fazer uma interferência neste sentido. O conselho de patrimônio vem trabalhando na criação de um fundo. Nós temos trabalhado muito e o projeto-lei tá pronto. São 49 artigos que mostram exatamente esse trabalho, além de conscientizar o proprietário, também oferecer vantagens pra ele. Nós somos humanos e sabemos que não há vantagem nenhuma hoje de uma pessoa conservar um bem desse tipo. Uma casa que tem 100 anos, que requer uma restauração, um investimento muito alto em técnicos e estudos neste sentido. Em Itajaí, o proprietário não tem. E o que ele tem de vantagem hoje? Tem isenção de impostos, e isso é muito pouco. Isso não incentiva, não estimula e não é suficiente. Pensando nessas questões, a procuradoria geral do município, representada pelo Fábio Cadó, que é o nosso procurador municipal dentro do conselho, elaborou esse projeto-lei e acreditamos que até fevereiro o projeto esteja pronto pra ser encaminhado. O que esse projeto tem de novo em termos de legislação de proteção de patrimônio? Primeiro, ele usa uma coisa que nem eu conhecia, que é a tal da transferência de potencial construtivo. Ou seja, se o plano diretor prevê que nessa rua o gabarito é de oito andares, e você tem um imóvel tombado, você pode vender esses oito andares que não existem oficialmente, mas você pode vender o valor que custaria realmente, pra outros imóveis que serão construídos. Então o proprietário ganha e com isso ele vai ter que investir no patrimônio que tem, além da questão educacional, que a dona Marlene tanto mencionou. A gente acredita que é isso mesmo, não dá só pra cobrar, pra proibir, tem que educar e também oferecer algo. Além disso, o fundo também vai prever multas pra outras situações. A gente acredita que isso realmente vai incentivar e modificar esse pensamento de especulação imobiliária, de desespero por vender os imóveis na Lauro Müller, que são valiosíssimos, pra construir somente prédios. O desenvolvimento de uma cidade não se dá somente através de prédios, mas também através de sua história, que mantém sua identidade cultural.

ALTERNATIVAS PARA

A PRESERVAÇÃO

DIARINHO ? Os proprietários de casarões históricos, ante a possibilidade do tombamento de seu imóvel, muitas vezes preferem antes demolir o casarão, porque temem que a sua casa tombada perca o valor de mercado. Beto Severino, que alternativas você vê pra preservação desse patrimônio? O poder público poderia comprar essas casas e usá-las pra instalação de prédios públicos, por exemplo?

Beto Severino ? Acho que isso que o Darlan acabou de colocar é uma coisa que a gente vive discutindo no conselho de patrimônio já há um certo tempo, que é a criação do fundo. Isso é importante, o fundo é um primeiro passo, e com multas mais severas para que você possa, também tendo o fundo, de alguma maneira contribuir com isso. No caso específico de Itajaí, muitos dos edifícios tombados já são públicos. São os casos do Museu, da Casa Lins, a Casa da Cultura. Agora, temos outros que são públicos, mas não são do município e nem do estado. É o caso da Cúria, proprietária da igreja Matriz, da Imaculada [Conceição] e a igrejinha de Cabeçudas [Santa Terezinha]. Essas edificações são públicas, no sentido de frequentadas, mas pertencem à Cúria. E temos muitas edificações que são privadas. Eu não acho, não sou partidário da ideia de que tudo deva ser do estado, que todas as edificações devam ser públicas. O proprietário pode conservar a edificação por conta própria, quando tiver condições, mas também com ajuda quando for necessário. A grande questão é que a gente amplie o foco no patrimônio para além da área histórica central. Ela se espalha pela cidade e a gente precisa ter políticas afirmativas. É um outro caminho, mas que exige do poder público uma ação. Dependendo da situação, a ação é diferente. Um exemplo é que temos nos molhes toda uma ambiência de Cabeçudas. Aquilo é paisagem e é patrimônio. A gente tem que lutar pra que não aconteça a depredação de toda aquela área verde no entorno da igrejinha e aquele fundo dos molhes que a gente consegue ver. Não é o fato da coisa ser pública ou privada que vai garantir. O que vai garantir é que nós tenhamos o olhar atento pra que aquilo que a sociedade entende como interessante de ser preservado, seja preservado.

DIARINHO ? Aproveitando todas essas situações citadas, gostaríamos de saber do Darlan Cordeiro qual é o norte da fundação Genésio Miranda Lins na sua gestão, nesta questão de preservação do patrimônio histórico?

Darlan Cordeiro ? É exatamente o que eu já falei, a educação patrimonial. Vimos aqui uma série de exemplos e quando falo sobre patrimônio histórico, sobre esses problemas, a gente vê que alguns não querem ouvir. A conscientização é uma coisa muito séria, porque informação a gente tem passado. A gente já alcançou algumas esferas, mas têm algumas outras que ainda não conseguimos. Também temos uma preocupação muito grande com a preservação física. Como estávamos falando aqui sobre o patrimônio histórico, se deve estar relacionado sempre ao estado e se o estado deve cuidar disso, eu concordo com o Beto. Não é tudo que tem que ser propriedade do estado, as pessoas têm que ter essa consciência e ajudar o estado, se não fica naquela cúpula e não é por aí, não é esse o objetivo.

DIARINHO – Ana Bela, na tua opinião o que deve ser feito pra dar vida, por exemplo, à região central de Itajaí onde existem casarões históricos a serem preservados?

Ana Bela ? Uma coisa que a gente percebe é que não adianta você restaurar através do proprietário, através do poder público, e deixar fechado. Eu sou a favor de voltar a dar vida ao centro, não só o nosso, mas a todos. O que aconteceu com o boom do comércio? O centro passou a ser utilizado pra lojas, escritórios, e ele tem um período de vida, que é o horário comercial. Daquele horário em diante você não vê mais ninguém, não existe um bar, com algumas exceções, não existe um café, um jornaleiro, por exemplo, as coisas morrem. Você vê um senhor ali na Hercílio Luz por volta das 22h, com um ferro baixando todas as portas de ferro das lojas. Isso me dá uma dor, porque é como se você estivesse fechando os olhos da cidade e impedindo os pedestres de ver. Na maioria das vezes essas lojas são instaladas em edifícios da década de 60 e 70, mas não mora ninguém ali. Então eu e inúmeras pessoas somos a favor que volte a ter vida no centro, ou seja, vai recuperar o imóvel ou não vai recuperar, vai pintar, vai ver a instalação elétrica, pois todos eles são deficitários de instalação elétrica. Isso gera um risco muito grande de incêndio, porque geralmente os assoalhos são de madeira, os forros são de madeira e o telhado não é conservado. Então, se você povoa o centro da cidade, o que vai acontecer? Você vai ter mais vida noturna, mesmo que as pessoas não tenham bares, até porque você tem que controlar os horários de som pra não atrapalhar as pessoas que eventualmente moram ali. Os imóveis vão se conservar mais tempo. Se você arruma as casas, recupera, restaura, revitaliza, reunifica, as pessoas podem voltar a morar ali. Você dando vida ao lugar, você vai fazer com que a cidade seja até um pouco mais suave com ela mesma e as pessoas que não moram naquele lugar possam frequentar, possam passar pelas ruas e perceber coisas que não viam, por exemplo, há dois anos. [Mas essa responsabilidade seria do município?] Não creio que seja do município e sim do próprio proprietário. Eu não vejo vantagem de você ter uma loja de roupa no térreo e no primeiro pavimento você ter um grande almoxarifado daquela loja de roupa, pois seria mais fácil alugar o imóvel.

DIARINHO ? Dona Marlene, um dos fatores motivadores pra preservação do casario da cidade é o apelo da questão turística. A senhora acha que isso funciona na prática? Acha que os turistas gostam das cidades que preservam a sua história? É mostrada pro turista a nossa história?

Marlene Rothbarth ? O turista em geral procura exatamente esses pontos históricos. Quando a gente viaja em excursão, isso aí se nota perfeitamente. Agora em Itajaí eu vejo uma grande dificuldade, primeiro porque não existe um plano de turismo e segundo não existe um plano de preservação do patrimônio. Antes de fazer um plano integrado, como foi dito naquele entrevistão do DIARINHO com as lideranças municipais, acho que o poder público deveria exigir que a fundação Cultural, por exemplo, fizesse um plano de preservação de patrimônio. Isso é uma coisa que leva algum tempo, é um valor muito importante. Às vezes eu tenho visto meu filho, que tem uma banca de jornal, e às vezes a cidade toda está fechada e as pessoas param ali e perguntam onde é que tem alguma coisa de patrimônio histórico na cidade para que possam ver. Então, é preciso que haja, por exemplo, um incentivo, primeiro fazer a preservação. Eles [turistas] vão ver o que no nosso patrimônio está praticamente desmoralizado, vamos dizer assim. A partir do ponto que nós já estamos com esse plano pronto, tá tudo prontinho, aí sim oferecer no desembarque ali no píer um tour pela cidade e mostrar exatamente isso. É o que se faz quando a gente viaja, é isso que nós queremos ver. Mas enquanto não tivermos nosso patrimônio preservado, conservado, nós não temos nada a oferecer.

DIARINHO ? O projeto Borda d?água, idealizado pelo arquiteto Dalmo Vieira Filho há quase 10 anos, previa uma série de ações que pretendiam dar vida ao centro de Itajaí, revitalizando a área central da cidade, que acabou de certa forma sendo ?engolida? pelo crescimento do porto. Ana Bela, por que o projeto jamais saiu do papel, apesar de ser elogiado por todos os administradores recentes de Itajaí?

Ana Bela ? Porque falta investimento e falta uma pessoa empreendedora que consiga enxergar a cidade daqui a 10 anos. Se você não conseguir olhar o futuro, você vai ser igual a cavalo de corrida, você só vê o seu pé ali na frente, mas você tem que olhar o amanhã. O futuro é esse rio, é essa borda d?água, a qual o Dalmo tão bem nomeou. Com tudo que ele já tinha programado e com tudo funcionando, o projeto, além de transformar a cidade num cartão postal, vai dar vida a todos os lugares que algumas pessoas têm receio de passar à noite. É um projeto conhecido inclusive fora do Brasil. Por que ele não é feito? Porque eu acho que as pessoas têm que se conscientizar que a cidade não é propriedade de uma pessoa só. A cidade é propriedade de quem nela mora, de quem paga os seus impostos, de quem se preocupa. A cidade pertence a todos nós, não a A, B ou C. O projeto é bom, é do partido verde e amarelo, cor de rosa, não importa, é pra cidade, vamos fazer! [A senhora acredita que o pontapé inicial deve partir da iniciativa privada nesse caso do Borda d?água?] O projeto esta fora do meu conhecimento há uns dois ou três anos, então eu não sei se o Dalmo acrescentou alguma coisa, se ele retirou, não sei em que posição está. Eu sei que o projeto tanto pode ser feito com a iniciativa privada ou com a iniciativa pública. Ele vai abranger áreas públicas e eu tenho certeza que a marinha não vai se opor. Então eu acho que tem que ser feito sim, se as empresas podem participar ótimo, elas podem descontar 30% em projeto cultural, existe isso na cidade, existe uma lei que você pode patrocinar projetos culturais, e existe outra lei também que faz com que o projeto aconteça. Lei nós não temos necessidade, só precisamos aplicá-las e o projeto Borda d?água, se pelo menos 10% for colocado em prática, com certeza vai ser muito bom pra toda a cidade.

Marlene Rothbarth – Mas quem vai fazer isso?

Ana Bela ? Olha dona Marlene, é isso que eu tô dizendo. Eu não posso discutir parcerias sem saber como estão os cofres públicos ultimamente.

DIARINHO ? E por que o incentivo à atividade turística e à preservação da história da cidade não caminham juntos em Itajaí? A pergunta é pro Beto Severino.

Beto Severino ? É um desafio, é difícil mesmo. Temos que começar um trabalho desde às escolas, fazer os alunos e as pessoas se integrarem realmente. Porque o turismo não pode ser uma coisa predatória. Então o que tá acontecendo hoje: os navios chegam aqui e esses turistas são largados na cidade. Parece que a gente botou ?Detefon?, eles ficam iguais baratas, rodando pela cidade tontos, sem destino. A Amfri [Associação dos Municípios da Região da Foz do Rio Itajaí] fez agora um guia turístico da região, da macrorregião, tentando identificar os pontos turísticos, mas eu tenho a impressão que isso não tem conexão direta com o município, não sei como que está. Mas a impressão que dá é que as coisas são feitas em instâncias separadas. Isso aqui não é culpa de ninguém, eu só estou dizendo que parece que não há um diálogo entre o segmento estadual, municipal e federal. Aí vai uma sugestão pro conselho de patrimônio, que saia gente da fundação Genésio Miranda Lins para o conselho de turismo. Outro ponto é a profissionalização. Nós não temos a integração com o jovem que pode ter um potencial emprego no futuro. Teria que ser feito um trabalho de médio prazo, isso não é da noite pro dia, tem que qualificar as pessoas, tem que mostrar.

DIARINHO ? Dona Marlene, a senhora, como membro atuante da sociedade na questão da preservação, acredita que as novas gerações podem despertar de alguma forma pra importância dessa questão?

Marlene Rothbarth – Eu acho que se as pessoas de hoje fizerem algum trabalho: de educação patrimonial, divulgação e de conscientização, elas serão os nossos futuros preservadores e conservadores. [Infelizmente, muita gente acha que o progresso pressupõe a derrubada do que é antigo e que a construção de mais e mais prédios é significado de crescimento. Como podemos prosperar economicamente e manter de pé a história de nossa cidade?] Nós temos visto exemplos na Europa, no Canadá, EUA, de preservação sem interferência das construções dos prédios. Não sou obrigada a demolir um prédio para construir um grande edifício. Nós temos ainda, em Itajaí, muitos terrenos vazios no centro da cidade e ninguém se interessa para a construção. O problema não está na construção, o problema está na conscientização do proprietário para não demolir o imóvel. Nós tivemos a visita de técnicos da Alemanha há muitos anos e eles nos conscientizaram muito bem disso. Frankfurt foi praticamente destruída, durante a 2ª Guerra Mundial, e eles não fizeram nenhum prédio novo onde foi destruído. Eles reconstruíram, restauraram e isso que temos que ter consciência. A cidade de Frankfurt tem um pulmão ambiental, que é a floresta, e que ninguém mexe dela, e ao redor da cidade antiga é que são construídos os grandes prédios. Ninguém saiu prejudicado com isso e a história permanece. Não é demolindo que vamos fazer o desenvolvimento da cidade. A cidade precisa ter história e ela precisa ter passado, presente, para projetar o futuro.

Darlan Cordeiro – Há um problema muito grande, que a gente identifica, de individualismo. Todo mundo quer construir na Lauro Müller, para ver o mar de pertinho. Constrói nas ruas de trás que você também vai ver. Porque tudo deve ser para o bem da coletividade, para o usufruto da coletividade e para o turista também. O que eu percebo é essa vontade: ?Eu quero ter uma vista privilegiada?. Vou citar o Rio de Janeiro, Copacabana, tem uma casa só na quadra da praia, o resto é tudo prédio. Quem está atrás não vê. [Balneário Camboriú também…]

RESTAURAÇÃO E MANUTENÇÃO

DIARINHO – Dona Marlene, uma das construções históricas que mais lamentou-se a derrubada foi a do antigo bar da Trude, na Hercílio Luz, esquina com a avenida República Argentina. Recentemente, uma construtora presenteou a cidade com casinholas de compensado que fazem as vezes de réplicas de construções históricas e de seus antigos comércios. Teve quem achasse ótima a ideia e teve também quem a achasse de gosto duvidoso. Como a senhora enxergou esse imbróglio?

Marlene Rothbarth – De fato, ele tem o seu ponto positivo porque fez as pessoas se lembrarem de coisas do passado. Segundo, eu fiz um livro específico sobre isso, sobre o Armazém do Asseburg, e quando eu vi aquelas construções ali, eu me perguntei: ?Por que é que não fizeram a réplica do próprio armazém? Por que fizeram casinhas que não tem nada a ver??. O bar da Trude não era aquela casinha. A sorveteria Dois Irmãos não era aquela casinha ? ela fica numa sala da Olímpio de Miranda Júnior. Esteticamente, achei de mau gosto. Mas trouxe algum benefício, ponto positivo, porque trouxe a memória. Isso é muito importante. Eu já disse, para uma pessoa que precisava ouvir, que ela deveria ter feito exatamente a réplica do armazém. Este armazém poderia ter sido restaurado, com um belo de um projeto feito pela faculdade arquitetura, foi até apresentado num Cidade Revelada. Mas a prefeitura, o governo, não quis comprar, não pode comprar.

Darlan Cordeiro – O dono não quis…

Marlene Rothbarth – Foi um processo de 10 anos, para depois o desembargador assinar, dizendo que o prédio estava em condições precárias, não tinha condições de restaurar. Eu vejo isso como falta de interesse, falta de conscientização do valor do patrimônio. Aquilo ali era o retrato de Itajaí. São as quatro casas que faziam o retrato de Itajaí, do começo de Itajaí. De um lado, Armazém do Asseburg, do lado de lá, a construção de 1904, do Bruno Malburg. Na outra esquina era a velha casa Malburg, e do lado de cá nós temos o prédio do Olímpio. No centro, a igrejinha. Aquilo ali era o centro de Itajaí. Impossível que alguém, com um pouco de sensibilidade, não fizesse tudo para preservar. O bar ?Pau do Meio? era tão fácil de fazerem. Ele se chama assim exatamente porque tinha uma árvore no meio. Veja só essa pessoa: eles preservaram uma árvore e fizeram o telhado em volta, e a árvore ficou ali. Então ele se chamava realmente ?Restaurante Itajaí?, mas era conhecido como restaurante Pau do Meio.

DIARINHO ? Beto Severino, essa questão das réplicas não pode incentivar a derrubada do que resta dos casarões históricos sob o pretexto de que se pode depois construir suas réplicas? Não corremos o risco de em breve morar numa cidade cenográfica, onde tudo é de mentirinha?

Beto Severino – Do ponto de vista legal, não pode, né. A gente tem uma legislação que garante isso. Pode incentivar sim o lado errado da coisa. [A gente não corre o risco de viver numa cidade cenográfica?] Aquilo ali é cenográfico. Como disse a dona Marlene, eu a princípio sou contrário a isso, mas por outro lado trouxe a ideia de preservação. O mote agora, já que foi construído isso, era a gente vincular aquelas réplicas à ideia de preservação que já existe. Me preocupa, porque ele está vindo num momento que é da comemoração dos 150 anos. Eu presenciei dois lugares em que isso foi nefasto, que foi o caso de Blumenau e Joinville. Os institutos criados para os 150 anos destas duas cidades geraram acervos mal geridos pela iniciativa privada. Geralmente, estes institutos caem nas mãos de pessoas que sabem gerir recursos, mas não sabem gerir patrimônio, e acabou gerando problemas. Temos problemas sérios em Joinville até hoje com acervos enormes que foram acumulados dentro dessa lógica da réplica. Foram feitas várias réplicas de coisas que geraram acervos que pertencem agora ao município. Esse aspecto, a sociedade tem que ficar atenta exatamente para não repetir aqui dois exemplos negativos, que temos em cidades vizinhas. São cidades que têm patrimônio importante, têm uma história interessante, mas com o interesse equívoco. A ideia da réplica, ao mesmo tempo que se tem o lado positivo, como disse dona Marlene, tem o lado negativo. Efetivamente porque dá uma impressão que aquilo é a realidade. Aí, você tem razão: é um risco. Estamos andando numa linha muito tênue entre o que é patrimônio efetivamente e o que é pastiche. Para andar nessa linha tênue sem cair no lado equivocado, é necessário que haja uma vigilância da sociedade, da imprensa, pra que não aconteça o que aconteceu nos municípios vizinhos. Do ponto de vista do local, o proprietário não quis vender, na verdade, o terreno onde foram instaladas as casinhas. [A família Aducci?] Não sei o nome dele, mas não quis vender. Acontece que vem a questão da justiça, da maneira que entende as coisas. Porque um desembargador ou qualquer outra autoridade do judiciário tem que primar pela questão do patrimônio e não pela propriedade. A ideia ali de uma edificação que representa o marco inicial da cidade, nós temos o marco zero na praça, nós temos um entorno fantástico de edificações, que representam o marco zero do município, que está de alguma maneira desprezando isso.

DIARINHO ? Darlan, por que a restauração da Casa da Cultura está acontecendo de maneira tão demorada? Há artistas revoltados pela demora da reforma e pela falta de um local apropriado para os trabalhos deles.

Darlan Cordeiro – Primeiro justificando o assunto anterior, não é réplica da casa, é uma referência. Por isso, a questão ?vale a pena derrubar porque depois se faz réplica? não é bem assim. [É uma fachada…] Não é réplica, é uma referência. Segundo, eu consegui entender, e daí é uma responsabilidade da fundação e do conselho, transformar exatamente essa questão que se reavivou a memória local, para justamente fazer política pública no sentido de avisar as pessoas. ?Olha, como vale a pena ter o patrimônio edificado preservado…? Isso é o mais produtivo neste sentido. Temos que pegar carona e transformar numa coisa positiva. Eu também não acho muito bonito aquilo ali não, mas acho que tem todas essas coisas positivas. Voltando à questão do prédio da Olímpio de Miranda, que foi uma coisa inevitável, por conta de um entendimento judicial, do poder judiciário entendendo que ele deveria derrubar. O patrimônio estava tombado, mas o juiz entendeu que deveria derrubar. O que aconteceu, gerou toda uma polêmica na cidade e as pessoas começaram a ver, tanto que o presidente da câmara de vereadores propôs uma audiência pública sobre patrimônio. Não justificando que tenha sido derrubado, mas serviu para alguma coisa. Voltando à pergunta sobre a Casa da Cultura, é a fundação Cultural que cuida disso, mas o conselho também está a par, como presidente do conselho posso falar neste sentido. A Casa da Cultura tinha um projeto que não estava finalizado para o reparo. Havia alguns problemas no projeto, pequenas questões de detalhamento, aberturas, que foram confluídas. Depois, outra equipe finalizou o projeto de restauro. Isso levou um tempo. Em seguida, teve o movimento que chamamos a imprensa, comunidade artística da cidade, que foi aquele movimento na frente da casa para o restauro. Porque o que aconteceu: tínhamos o projeto, não tínhamos recurso. Depois com a adequação do projeto foi para a ordem de R$ 1 milhão, R$ 1 milhão e 100. Agora, daquele movimento para cá, alguns recursos já foram conseguidos, através da Weg, Bradesco, algumas empresas que já estão trabalhando, e o próprio município que vai investir.Tem um valor que veio também de uma emenda parlamentar do deputado Décio Lima. O que se fez num primeiro momento foi a contenção. Agora foi feito o processo licitatório.

DIARINHO – Ana Bela, fazendo um inventário dos casarões que restam ainda em Itajaí, nesta data significativa que se aproxima, os 150 anos da cidade, qual seriam, na sua opinião, os casarões que precisam ser preservados a todo custo? O que fazer para preservá-los?

Ana Bela – Olha, eu acho que a gente não pode perder nada. Tem duas casas na Pedro Ferreira que estão caindo. Aquilo é terrível, porque existe oficina mecânica, com carros parados em cima de um pavimento de madeira, aquilo é um crime, praticamente. Porque não recuperar aquela casa, a família não tem a menor condição, e alugar? Você tem que limitar o que é mais urgente no momento, mas não deve-se perder nada, porque chega uma hora e você faz aquela terrível pergunta: ?Eu preciso me orgulhar do que nesta cidade? Qual é o meu legado? O que quero transmitir as futuras gerações??

ITAJAÍ – 150 ANOS

DIARINHO ? Para finalizarmos o entrevistão, uma pergunta em comum para todos. Em relação ao patrimônio histórico, qual seria o presente ideal para Itajaí, nestes 150 anos?

Darlan Cordeiro – Em termos de fundação Genésio de Miranda Lins, nós temos alguns presentes interessantes. Primeiro, a restauração da Casa Lins. O segundo presente também é uma promessa e uma cobrança, com muita propriedade, da câmara de vereadores, a acessibilidade do Museu Histórico de Itajaí. O terceiro, a fiscalização dos portos que será restaurada e se transformará no Museu do Porto e da Pesca, segundo o superintendente nos informou. Quarto presente, que é um desejo antigo da cidade, junto com a fundação Cultural e outros parceiros, é o Museu de Arte de Itajaí. A pedra fundamental será lançada esse ano. O Museu Arqueológico de Itajaí, na Itaipava, a gente inaugura este ano, está em funcionamento, mas faltava algum detalhe.

Marlene Rothbarth – Olha, eu queria urgência no plano diretor. Nós sentimos muita dificuldade de garantir alguém que esteja sempre à disposição para fazer alguma coisa pelo patrimônio. A fundação Genésio Miranda Lins, quando tem um secretário para fazer a nossas atas, no outro mês já foi embora. Eu queria sugerir ao senhor prefeito que nomeasse um secretário, ele só seria o secretário dos conselhos, como nós tínhamos antigamente. Ele teria que dar conta dos projetos e das atas, que ele seja a pessoa indicada pelo superintendente em atendê-lo nas reivindicações e nessa parte burocrática que é muito grande. Eu pediria uma grande força de vontade dos nossos governantes para restaurar o patrimônio público já tombado, e que ele fizesse um esforço para ter um plano de restauração, que tivesse parceria com a Univali e ACII [Associação Empresarial de Itajaí], que são os dois pesos pesados que a prefeitura sempre contou para fazer alguma coisa. Gostaria que a administração do porto conseguisse fazer o avanço do entorno do prédio da fiscalização dos portos, que a própria Teconvi pudesse dar de presente para Itajaí e expandir aquele espaço, que eles já colocaram ali do ladinho.

Ana Bela – Recursos, muitos recursos. Porque com recursos você tem bons projetos executados, você tem bons profissionais, você consegue fazer a cidade caminhar bem.

Beto Severino – A gente falou pouco aqui de uma das dimensões da Genésio, que é a salvaguarda dos documentos da cidade, que é uma das dimensões do patrimônio. Existe um plano de gestão documental importante. É um dos lugares que cuida da documentação e eu pediria, para os 150 anos, que a gente pudesse ver mantida, em política pública, a preservação destes documentos, com preservação da memória e riquíssimo patrimônio arquitetônico. Que a gente pudesse ver essa cidade maravilhosa preservada.

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  • 30 jan 2010
  • Postado por Tiago

O Patrimônio Histórico de uma cidade nada mais é do que um bem móvel, imóvel ou natural, que tem valor significativo pra sociedade, podendo ser estético, artístico, documental, científico, social, espiritual ou ecológico. E numa cidade como Itajaí, que está a poucos meses de completar 150 anos, há muito o que se debater sobre o tema.

Pensando nisso, o DIARINHO promoveu mais um Entrevistão-Debate, sabatinando quatro conhecedores desta área. Os convidados são o superintendente da fundação Genésio Miranda Lins, Darlan Cordeiro; o ex-mandachuva da pasta e hoje professor na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, Beto Severino; a escritora Marlene Rothbarth; e a professora e pesquisadora Ana Bela Machado.

A entrevista foi concedida aos jornalistas Anderson Silva, Franciele Marcon e Marcelo Roggia. Foram levantados diversos questionamentos relacionados ao Patrimônio Histórico, como a dificuldade pra aplicação de políticas públicas eficazes, os problemas pra restauração e manutenção dos casarões e os compromissos que podem ser assumidos daqui pra frente, pra que a história da cidade seja olhada com mais cuidado e carinho por todos que aqui vivem. As fotos são de Felipe VT. O vídeo está no site www.diarinho.com.br.

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Os entrevistados

Darlan Pereira Cordeiro

Naturalidade: Rio de Janeiro/RJ

Idade: 43 anos. Sem filhos

Estado civil: Solteiro

Formação: Bacharel em Arqueologia pela Universidade Estácio de Sá, e mestrando em Ciências e Tecnologia Ambiental pela Univali

Cargos que ocupa: Arqueólogo concursado da fundação Genésio Miranda Lins. Atual superintendente da fundação Genésio Miranda Lins

José Roberto Severino

Naturalidade: Itajaí/SC

Idade: 43 anos. Pai de um filho

Estado civil: Casado

Formação: Bacharel em História pela Univali, mestre em História pela Ufsc e doutor em História pela USP

Cargos que ocupa: professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia

Marlene Dalva da Silva Rothbarth

Naturalidade: Itajaí/SC

Idade: 76 anos. Mãe de cinco filhos

Estado civil: Viúva

Formação: Licenciatura em Pedagogia pela Univali, com especialização em Administração Escolar

Cargos que ocupa: escritora

Ana Bela Machado

Naturalidade: Lisboa/Portugal

Idade: 50 anos. Mãe de dois filhos

Estado civil: Casada

Formação: Bacharel em História pela Univali, com especialização em

Gerenciamento de Centros Históricos pela Universidade do Porto, em Portugal

Cargo que ocupa: Professora e pesquisadora

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  • 23 jan 2010
  • Postado por Tiago

Falar sobre Meio Ambiente, em Itajaí, é falar em problemas. Áreas de preservação não demarcadas, construções com licenciamento suspeito, ocupações irregulares, plano diretor suspenso pela justiça. Sobram assuntos polêmicos. No ano em que Itajaí caminha para os seus 150 anos, o DIARINHO acredita que é hora de assumirmos um compromisso público para resolução destes conflitos e para o planejamento do futuro de nossa cidade. Por este motivo, promovemos mais um Entrevistão-Debate, desta vez sobre Meio Ambiente. Os convidados foram o superintendente da Famai, Nilton Dauer, o secretário de Urbanismo, Paulo Praun, a presidente da ong Unibrava, Cláudia Severo, e o representante da Procuradoria da República em Itajaí, Roger Fabre. Os jornalistas Franciele Marcon, Marcelo Roggia e Sandro Silva foram responsáveis por cutucar o pessoal que pensa e comanda a questão ambiental em Itajaí. As fotos são de Felipe VT. O vídeo você confere no www.diarinho.com.br. Click para continuar »

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  • 16 jan 2010
  • Postado por Tiago

DIARINHO – Com o crescimento da cidade e a presença cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho, a demanda de vagas na educação infantil tende a aumentar cada vez mais. Como fazer pra suprir a demanda das creches, já que já faltam vagas hoje, e proporcionar uma educação de qualidade nesse início de vida escolar das crianças?

Maria Heidemann – Esse é o grande desafio do sistema municipal, que tem a educação infantil como responsabilidade exclusiva sua, a partir da nova LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação]. A partir dessa lei a educação infantil entrou no quadro da educação, pois até então ela estava vinculada à assistência social. As mulheres estão fortemente no mercado e isso faz com que a demanda da educação infantil seja diária. A cada momento surge uma necessidade e nós trabalhamos contra essa demanda diuturnamente. Além de ter essa necessidade urgente de três mil vagas, essa é a educação mais cara que se tem. Porque nós trabalhamos com uma criança que, em tese, já entra pra período integral. Pra turmas que se constituem de um número menor de alunos, que vai de 12 a 25 crianças, dependendo da idade. Turmas que precisam de um professor com dedicação de 40 horas e mais dois agentes de atividade em educação, um no período da manhã e outro no período da tarde. Num lugar onde é servida alimentação completa, material de higiene, limpeza e por aí vai. Diante desse quadro, uma criança chega a custar para nós, em média, cinco mil reais por ano. E o custo dessa criança pelo Fundeb [Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação] está em trono de 1,4 mil reais por ano. Então o investimento do município é muito grande. É uma política injusta. Ficamos com a pior parte e temos que ficar buscando soluções. Durante o ano que passou, nós conseguimos matricular apenas 400 novas crianças. Diante do quadro difícil que tínhamos, o município investiu 32% daqueles recursos destinados à educação, que constitucionalmente seriam 25%. Nós não conseguimos ampliar escolas. Fizemos a nossa tarefa: organizamos, estruturamos e melhoramos o que podíamos. E o que vamos fazer agora? Em primeiro lugar nós temos a criação de oito novas unidades de educação infantil distribuídas em toda a cidade, começando pelo Espinheiros, vindo até a praia Brava e Fazenda. Além disso, fomos fazer o nosso dever de casa junto ao ministério da Educação e ao FNDE [Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação], fazendo o nosso plano de ação articulada que é um planejamento sem o qual você não adianta pedir recursos que você não vai receber.

DIARINHO – Sempre foi clássico no movimento sindical a luta por creche para que as mães trabalhadoras possam deixar os seus filhos e irem ao mercado de trabalho. O sindicato tem pressionado os dirigentes públicos para o aumento do número de creches? O que está sendo ofertado para o futuro é suficiente para dar conta dessa demanda?

Marcus Sodré – A gente esteve num embate com os dirigentes municipais de educação na câmara de vereadores, na audiência pública que discutiu a municipalização do ensino fundamental. Esse é um dos pontos que nos leva a combater a municipalização porque é uma das áreas que mais exige investimentos. Isso vai sobrar, no caso de Santa Catarina, pro ente da federação que menos arrecada. A responsabilidade única e exclusiva da rede municipal é o ensino infantil. A gente sabe que praticamente nenhum município consegue atender 100% da demanda. Infelizmente, pela postura do governo do estado, a gente não tem conseguido. Nós estamos há dois anos sem conseguir nenhum tipo de audiência com o secretário estadual da Educação. Nós temos feito lutas mais gerais que caminham no sentido de preservar e buscar o aumento de matrículas na educação infantil.

DIARINHO – Onde é que está a academia nesse momento em que a sociedade pede mais creches para as crianças? Qual é o papel da universidade nisso?

Marialva Spengler – A universidade tem se preocupado muito, tanto é que o nosso curso de formação de professores prioriza a formação para o atendimento de zero a seis anos. Nós temos, no nosso curso, na grade curricular do curso de Pedagogia, uma carga bem grande para que o professor tenha conhecimento para poder trabalhar com essa clientela. Discute-se muito a situação da educação infantil. A gente sabe que é necessário as crianças terem uma escola que não só educa, mas que cuida e brinca, especialmente. Nós discutimos muito isso dentro das nossas aulas, que a educação infantil tem que servir para a socialização da criança e não para ensinar o bê-á-bá, como acontecia tempos atrás. A criança tem que brincar e interagir com outras crianças. Eu, como mãe e como professora, acho que os primeiros anos da criança devem ser ao lado da família. Infelizmente, hoje a família não tem mais condições de fazer isso e a gente já está vendo o reflexo dessa situação na nossa sociedade. Não tem escola que possa substituir o aconchego do lar. Tem criança de um mês que já vai pras escolas infantis. Eu acho isso lastimável.

DIARINHO – Na educação há basicamente duas correntes teóricas, uma que dá mais ênfase ao desenvolvimento humano do aluno e outra que preconiza o ensino técnico e profissionalizante, com vistas a inserir a pessoa no mercado de trabalho. Qual deve ser a opção de educação pública? Ou existe como fazer as duas coisas ao mesmo tempo?

Maria Heidemann – Eu penso que a formação deveria ser mista. Principalmente nas séries finais do ensino fundamental, adentrando o nível médio. Deveria entrar ainda com fundamentos humanísticos, mas também com uma orientação para o trabalho. Um dos grandes problemas que a gente encontra é na qualificação profissional. O mercado existe, existe uma necessidade, uma exigência, mas não existe essa qualificação. A rede municipal prepara para o trabalho no sentido de ser um bom leitor, um bom escritor, alguém que calcula bem, que são elementos fundamentais para a inclusão no mercado de trabalho. Vamos entrar agora com um projeto de educação integrada. Fala-se muito da formação em tempo integral, o que é sonho pra nós. Se eu tenho dificuldade de atender a todos no tempo parcial, imagina falar em tempo integral. Eu desisto da ideia de tempo integral e parto para um ideia de educação integral. Já temos um projeto e vamos trabalhar na perspectiva da intersetorialidade. Uma educação transversal dentro do próprio governo, buscando, no período de contraturno, o desenvolvimento de outras habilidades e conhecimentos que o aluno precisa para a vida dele.

DIARINHO – Com o suporte que o estado dá para a formação dos professores hoje é possível acatar a proposta de educação mista defendida pela professora Maria Heidemann?

Marcus Sodré – Eu penso que não é possível a gente querer educar as pessoas como no início da revolução industrial, só para apertar parafuso, só com a educação técnica. Até porque esse trabalhador vai estar envolvido e vai ter que tomar decisões no cotidiano do seu trabalho. O problema é que hoje na educação, dentro desse projeto implementado em todos os níveis de governo com o modelo neoliberal, a preocupação não é a formação em si, seja ela técnica ou humanista. Na verdade, o que se busca hoje na educação é simplesmente dar o básico do básico do conhecimento para que essas pessoas entrem no mercado de trabalho e, por si próprias, elas busquem a sua qualificação. A gente tem visto que isso tem sido um desastre completo. Antigamente, se a fábrica comprava uma máquina nova, ela dava qualificação pro trabalhador operar essa máquina. Hoje a indústria compara a máquina e diz: ?Eu vou contratar um operário especializado em qualquer lugar do Brasil pra que ele opere essa máquina. Os que eu tenho aqui não têm essa formação e não é minha obrigação dar essa formação?. O que a gente tem visto é essa falta de qualificação do trabalhador, que é jogada exclusivamente nas costas dele. É colocado como se fosse culpa dele. Por outro lado, as pessoas não veem que o desenvolvimento tecnológico é extremamente acelerado. Com o salário que as pessoas têm hoje, elas mal conseguem se manter. Eu acho que o estado busca investir cada vez menos na educação. Enquanto nós tivermos no Brasil a educação orientada por políticas de fundo [Fundeb, FNDE], ela não avança porque vai ser sempre um recurso muito menor do que o necessário pra investir. Outros países que conseguiram avançar em educação foi a partir da política de percentual do PIB [Produto Interno Bruto] pra investir na educação. Enquanto nós não invertermos essa lógica, a educação no Brasil não avança. Seja do ponto de vista da formação técnica, seja do ponto de vista da formação humanista, de nenhuma maneira a educação avança nesse sentido.

DIARINHO – A professora acredita que com a formação proporcionada hoje nas universidades, os nossos professores têm capacidade de lecionar dessa maneira mista, unindo o ensino técnico e o humanista?

Marialva Spengler – É cobrada do profissional a competência técnica dele. Eu vou ensinar, eu tenho que saber o que eu vou ensinar. Eu vou trabalhar, eu tenho que saber no que eu vou trabalhar. Há a necessidade de qualificar o profissional para o mercado de trabalho, só que isso só não basta. Você tem que qualificar o profissional, na escola comum ou na escola profissionalizante, mas ele também tem que ter essa outra parte humanística para ele se manter no mercado de trabalho. Porque hoje, qualquer página de jornal que você abre para ler sobre o mercado de trabalho diz que o profissional tem que ter competência técnica, mas ele também tem que saber se relacionar com os seus pares. Saber lidar com gente. Eu sempre digo para os meus alunos que onde tem gente, tem confusão. Porque as pessoas têm ideias diferentes e então entram em conflito, entram em atrito. Mas esse não é o problema. O problema é não saber administrar esses atritos, essas confusões que acontecem no mercado de trabalho. Aí que falta a parte dos relacionamentos afetivos, relacionamentos inter e intrapessoais…

DIARINHO – Qual a importância da inclusão das novas tecnologias nos processos de ensino e aprendizagem?

Marialva Spengler ? Agora pegaram o meu ponto fraco. Eu sou que nem o Roberto Carlos, eu não sou contra o progresso, mas apelo pro bom senso. Eu acho maravilhoso tudo o que nós temos aí, porém, isso tem que estar a serviço nosso e não nós a serviço da tecnologia. Nós nos tornamos escravos. Em vez de aproveitarmos essa tecnologia para nos aperfeiçoarmos, para melhorar o nosso trabalho, nós não vivemos mais sem fazer uma pesquisa na internet. Nós não podemos fazer nenhum trabalho se a gente não consegue acessar a internet. Nós nos tornamos dependentes da tecnologia. A gente percebe muitos alunos que não conseguem mais fazer nada se eles não carregarem a maquininha deles para cima e para baixo. [Mas há uma maneira de usar isso sem se deixar escravizar?] Há. Eu acho que há. Nós estamos procurando essa maneira. A maneira é ter outras formas de acessar o conhecimento. A gente não pode ficar só em cima das teclas, tem que vislumbrar outras coisas. Leituras de livros, livros mesmo, de papel, lazer, as crianças tem que ter ocupação e elas se ocupam do que está na frente delas. Se nós oferecermos outros tipos de ocupação, outras formas de aquisição de conhecimento, elas vão acessar.

DIARINHO – Os professores estão preparados pra novas tecnologias?

Maria Heidemann – Tenho que dizer que realmente estamos escravos. Na rede municipal nós temos ainda dificuldade. Os nossos alunos têm acesso facilitadíssimo e o nosso professor tem medo de usar. E como ele não sabe usar, ele tem medo de orientar para o uso. Isso freia um pouco o uso, mas por outro lado se perde algumas possibilidades de melhorar. [Até porque algumas pessoas só vão ter na escola essa oportunidade de ter contato com a nova tecnologia…] Sim. E hoje, nas escolas, ainda estamos com algumas dificuldades, mas cada vez mais essa tecnologia está entrando na escola. A tecnologia não dá pra deixar sem porque também é uma forma de preparar para o mercado de trabalho. A maioria não tem condições de fazer cursinho, mas na escola aprende a dominar o instrumento da informática. Tem o aspecto positivo.

DIARINHO – Demorou pro estado abandonar o giz e o quadro e entrar nesse mundo virtual?

Marcus Sodré – Na minha opinião não demorou, está demorando. Na prática, nós continuamos com o quadro e o giz. Quando se fala em nova tecnologia, eu sinto falta de uma velha tecnologia que é o dvd. Eu não diria que o professor tem medo da tecnologia. Na verdade, o professor vive numa perspectiva de acúmulo de carga horária de trabalho. Eu leciono 50 horas e conheço pouquíssimas pessoas que têm menos de 60 horas, porque com o salário de 40 horas semanais de trabalho não é possível viver. Nós nos obrigamos a trabalhar a jornada máxima, que são 60 horas, quando alguns não dão o jeitinho brasileiro de trabalhar 70 ou 80 horas. Eu diria que não é medo em si da tecnologia. Nós temos falta de recursos para que esses profissionais tenham acesso à tecnologia. [E já foi feita essa conversa com o estado sobre essa necessidade de renovação?] Esse governo trouxe uma pessoa para a secretaria de Educação que sabe ganhar dinheiro com educação muito bem. Não só com educação, mas também em Brasília, pelo que a gente viu no noticiário, que criou ao redor da secretaria de Educação um corpo de burocratas que não ouve a comunidade escolar, não ouve os trabalhadores da educação. Mesmo em algumas escolas onde existe o laboratório de informática o acesso é bastante limitado porque o professor não tem o tempo necessário para se preparar. Foi aprovada em 2008 a lei do piso salarial nacional para o magistério público e essa lei foi questionada pelo nosso governador na justiça. Essa lei tinha uma coisa que pra nós é fundamental, que era a ampliação da hora atividade do professor para 33%. Isso permitiria que nós tivéssemos mais tempo para preparar as aulas, para corrigir, refazer o planejamento, incluir as novas tecnologias, buscar usar mais o laboratório de informática nas escolas em que ele existe.

DIARINHO – Muitas crianças crescem com computadores em casa e têm uma visão completamente diferente do acesso à informação do que aquelas – que também são muitas – que ainda não possuem essa tecnologia. Como fazer, na escola, pra não atrasar o desenvolvimento daqueles que já usam o computador e também não excluir os demais?

Marcus Sodré – A gente sabe que na rede estadual e na municipal existem muitas crianças ainda que não têm contato com o PC. Daí a importância de nós termos essa tecnologia na escola. É inexorável o uso do computador porque ele está no cotidiano, seja na padaria, no supermercado, em todos os lugares, nas lojas, pra não falar da indústria. O computador está presente. Os nossos alunos se formando ou nem se formando, tendo certa idade, vão trabalhar e vão precisar saber usar essa tecnologia. Só que nós vamos precisar de um número maior de computadores. Não basta nós termos 10 computadores para atender toda a escola, que tem 1,2 mil alunos. Não dá para ter 10 computadores para atender uma sala onde existem 40, 45 crianças. É uma média de quatro crianças por computador. Precisamos ter, além do professor das disciplinas, uma pessoa habilitada em computação para trabalhar nas escolas.

DIARINHO – Professora, esse desafio é de quem está no dia-a-dia, no cotidiano da escola. O professor se pergunta: ?E aí, como é que eu vou ensinar quem já está avançado nesse conhecimento e também quem nunca viu as novas tecnologias?? É um desafio ainda de quem dirige e faz as políticas de educação, que tem que dar esse suporte. Mas também é um desafio para quem forma os educadores. A universidade tem pensado sobre isso? Essa situação é uma demanda presente, uma preocupação? E como tem sido destrinchado esse problema?

Marialva Spengler ? Por incrível que pareça nós recebemos na universidade alunos, ainda, que também não sabem lidar com essa tecnologia. Agora os nossos cursos de formação de professores não têm mais matrícula presencial. Os últimos ingressos, os últimos semestres, foram todos à distância. Então eles são obrigados a conhecer um pouco dessa tecnologia para acompanhar as aulas. Mas quando ingressam no curso eles não sabem nada! Então eles próprios vão ter que ir se virando, sem professor, mas com um amigo, com alguém da família que sabe, para poderem acompanhar as aulas. Porque eles têm fórum de discussão, daí têm que entrar no sistema para poder acompanhar. Eles têm trabalhos para postar. Eles têm aulas para poderem acompanhar. Por isso eles têm que conhecer. E eles têm uma disciplina de tecnologia da informação. Então o aluno tem que se virar. Ele tem que dar um jeito. [Mas, professora, uma coisa é alguém com 20, 30, 40 anos ou 50, que seja, como existem aí universitários nessa idade, indo buscar esse novo conhecimento, aprendendo novas tecnologias, outra é uma criança de sete, oito, nove ou 10 anos que se depara com essa situação. Uma coisa é um adulto buscar um novo conhecimento, outra coisa é uma criança, filha de um trabalhador, que jamais viu um computador na frente…] Mas se tu pões um computador na frente de uma criança com sete ou oito anos, ela vai destrinchar com muito mais facilidade do que um adulto de 30, 40 anos. O adulto, como disse a professor Maria Heidemann, tem medo de mexer no computador. A criança é curiosa. Ela, num instantinho, já destrincha tudo.

DIARINHO – Vamos falar de temas antigos. Os professores continuam reclamando das mesmas coisas que reclamavam há 20 anos: baixos salários, pouca estrutura na sala de aula, pouco incentivo à formação e atualização profissional. O que temos que fazer para que, daqui a 20 anos, o professor não esteja reclamando ainda das mesmas coisas?

Marcus Sodré – Acho que a essência, aí, é a forma de financiamento da educação. Ou talvez a vontade política de fazer. Dinheiro o Brasil tem. Estamos aí há 20 anos, 30 anos, 40 anos reivindicando as mesmas coisas. Por quê? Porque não existe essa vontade política de fazer. Criou-se nos últimos anos essa política de fundos como forma de financiamento da educação e que já se mostrou insuficiente. Não financia nada. O valor do custo-aluno é muito abaixo da realidade. Enquanto a gente não inverter essa lógica, pra nós não tem solução: nós vamos continuar brigando por salário, nós vamos continuar brigando por mais tempo pra preparar as aulas com qualidade. Isso, se a gente está pensando realmente em uma educação de qualidade, em uma educação transformadora, uma educação global e não só pontual ou técnica. Na prática, a minha opinião é essa: existe a necessidade fundamental, primeiro, de ter a vontade política de fazer e segundo de inverter essa lógica aí. [Além dos fundos, existe a possibilidade de ter outra origem de recursos?] Então, se tiver uma vontade política, na minha opinião, sim. Porque a gente precisa vincular os investimentos em educação, obviamente também em saúde, talvez segurança, em relação a um percentual de investimento do PIB. Isso é plenamente possível, desde que se inverta a lógica que está instalada no país inteiro, que é a lógica neoliberal do estado mínimo. A gente está vendo cada vez mais o estado investir menos nas áreas sociais. Pra nós, trabalhadores da educação, a educação não muda em Santa Catarina e no Brasil inteiro enquanto não mudar essa lógica de estado mínimo, de investimento cada vez menor e não maior em educação. O resto é discurso político de candidato. Não se faz educação sem investimentos.

DIARINHO – A professora acha que há a possibilidade do estado [governos federal, estadual e municipal] aumentar o investimento em educação? Não utopicamente. Existe realmente essa possibilidade, existe essa margem orçamentária ou quem sabe o estado deve abrir mão de certos pedaços da formação para ter mais recursos e focar em partes específicas?

Maria Heidemann – Eu concordo até quando se fala em vontade política. Eu hoje, pela primeira vez, ocupo um cargo político. Pela primeira vez eu estou ocupando um cargo de decisão, em que tenho poder de decisão. Pela primeira vez em Itajaí a educação fez o seu orçamento e eu fui a fundo. Porque nós, na educação, estamos acostumados a fazer o que os outros pensam. Eles pensam e nós fizemos. Então, se o contador diz que pode, a gente faz. E o que é que a gente fez? Peguei um grupo meu, que disse: ?Todo mundo vai estudar e vamos ver o que a gente pode fazer com esse dinheiro que está orçado para a educação?.

Enquanto o custo-aluno estiver como está, em torno de R$ 1,7 mil por ano, quando no município, na realidade, este aluno custa em torno de R$ 3 mil, nós não temos condições de fazer milagres. Enquanto não se modificar essa questão desses 18% [para o investimento em educação] no nível federal – e são 18% de determinados impostos e não do orçamento inteiro! -, e 25% nos estados e municípios, nós ficamos amarrados a essa condição financeira. Eu queria ser aquela pessoa que pudesse fazer a diferença. É um sonho, é sonho! Nós vivemos com recursos próprios, com aquilo que está no orçamento, com aquilo que é permitido pelas legislações hierarquicamente superiores. E é dentro dessa administração financeira que o município tem que trabalhar e dar conta daquilo que a população espera, precisa e paga pra isso.

DIARINHO – A universidade, o curso de pedagogia, não pensa muito no que diz respeito à gestão da educação ou existe alguma proposta teórica para mudar essa questão do financiamento da educação?

Marialva Spengler – Na verdade, gestão é um tema novo que está sendo discutido no curso de pedagogia. Hoje os pedagogos estão saindo da universidade habilitados para trabalhar. Devem sair habilitados para trabalhar como gestores. [Mas, professora, o curso de pedagogia com habilitação em administração escolar não é antigo? Ele não pensava na gestão como um todo?] É, é antigo. Mas o administrador escolar, naquela época, era o fazedor, não era o pensador. Hoje ele é pra ser o pensador. A professora Maria Heidemann é administradora escolar, mas ela trabalhou na escola fazendo o que outros decidiam. E hoje se pensa no gestor como aquele que realmente faz toda a gestão da escola. Só que até isso ser implantado, para fazer diferença na escola, vai demorar mais uns 20 anos. As coisas na educação são muito lerdas. Por isso nós estamos 20, 30, 40 anos reclamando realmente das mesmas coisas, porque elas demoram a ser operacionalizadas. Tudo continua a mesma coisa. Eu não fiz a diferença. A gente ia para Florianópolis, nas assembleias que tinha lá, nas passeatas, ia levantar bandeira e essas coisas, e a professora Ideli Salvatti, que é a nossa senadora hoje, ela também levantava a voz sobre essas mesmas coisas. Ela foi eleita e eu pergunto pra vocês: o que mudou na educação? E ela foi eleita com propostas para realmente fazer a diferença pra educação. E qual é a diferença que ela está fazendo? Ela está seguindo o caminho dos outros, infelizmente. Eu tenho vergonha de dizer isso, mas é o que está acontecendo. Então, realmente, o professor Marcus está com a razão quando fala que falta vontade política. Dinheiro existe. Existe dinheiro. Mas é mal administrado, ele não é bem dividido. Ele não é aproveitado da forma como deveria ser. Infelizmente, vai pro bolso daqueles que não precisam.

DIARINHO – Mas, professora Marialva, nós temos na história brasileira grandes educadores, como o antropólogo Darci Ribeiro, que teve uma função importante na modernização da educação brasileira, na formulação da lei de diretrizes e base, como Cristóvão Buarque, que é um grande nome da educação brasileira…

Maria Heidemann – Paulo Freire, que foi secretário de educação da cidade de São Paulo…

DIARINHO – Mas não houve grandes mudanças quando esses grandes nomes foram gestores da educação, com exceção do Rio de Janeiro, quando Darci Ribeiro influenciou a criação dos Cieps, que aqui a gente chama de CAIC e que foi uma revolução na década de 80. Mas parou por aí. Então esse problema da educação não seria estrutural? Não deveria partir dos trabalhadores da educação as mudanças?

Marialva Spengler – Isso eu também queria dizer. Quero completar colocando isso. Enquanto nós só reclamarmos, a coisa não avança, porque a coisa vai ficar só da boca pra fora. Tem que ter ações. Nós temos que agir. Mas como é que nós vamos agir? A Ideli Salvatti agiu. Chegou lá no topo, quase no topo. Mas e daí?

DIARINHO – Como você vê a situação dos professores que chegam para trabalhar com você? Eles estão preparados? A universidade os está formando adequadamente? Eles chegam aptos para lecionar?

Marcus Sodré – Eu tenho visto em alguns cursos – não sei precisar em qual universidade que eles estão cursando -, mas esses cursos têm o período de estágio. Na universidade onde eu estudei, a universidade Católica de Santos, eles chamavam de estágio supervisionado. O meu estágio supervisionado na verdade não foi estágio. A professora encarregada de supervisionar o meu estágio ela francamente nos disse que não tinha condição de fazê-lo, seja por falta de pagamento por parte da universidade ou por diversos outros fatores, pelo número de alunos, etc. Então, na prática, eu não tive o estágio. Eu terminei agora dezembro com três alunos-professores de uma universidade aqui da região, estagiários, que foram para a sala de aula, assistiram algumas aulas e depois ministraram duas ou três aulas como parte do estágio supervisionado. Mas a supervisão do estágio ficou a meu cargo, porque a professora não apareceu. Na verdade, eu creio que o aprender a lecionar é a prática. Eu tive minhas dificuldades. Eu tive que ir me adaptando, seja ao ritmo da escola e dos alunos, porque cada nível de ensino é uma forma de se relacionar e de ensinar diferente. Eu ainda não tenho uma opinião formada a respeito dessa questão do ensino à distância. A princípio, eu tenho muitas ressalvas porque eu cursei a universidade presencial e acho que, por mais que se tenha os fóruns de debate na internet durante os cursos de formação à distância, o convívio e a troca que esse convívio diário permite é muito superior a qualquer troca.

DIARINHO – Por que os professores não aparecem pra fazer a supervisão dos estágios?

Marialva Spengler ? O professor responsável pelo estágio teria que acompanhar o aluno em, pelo menos, uma das aulas. Mas o que acontece? Nós somos professores horistas. Nós ganhamos para trabalhar quatro ou seis horas/aula na prática docente e essas horas são utilizadas na sala de aula para orientação dos alunos. Quando uns alunos vão para a prática, normalmente, nós estamos atendendo outros alunos. Então nós temos que ir em horários extras. Normalmente as aulas de prática na universidade são noturnas e os alunos vão durante o dia para o estágio nas escolas. Eu tenho possibilidade de ir porque eu não tenho outra atividade durante o dia, mas muitos professores têm outras atividades e não podem ir. Eu vou no meu horário livre, eu vou com o meu carro, eu gasto com combustível. Eu facilito pro aluno: se ele mora lá em Bombinhas, eu vou lá na cidade pelo menos em uma aula dele. Converso com a direção, converso com a professora. Eu posso fazer isso. Eu faço isso em atenção ao meu aluno. Ele merece ser acompanhado. E eu ainda tenho que pedir desculpas porque não faço a supervisão que ele merece. [Falta então estrutura da universidade?] A universidade até diz que dá estrutura, mas não existe. Na prática não existe. É a boa vontade de cada um de nós. Vocês podem conversar com qualquer professor de prática docente ou estágio que vão encontrar essa dificuldade.

DIARINHO – Os professores estão vindo mal formados pra sala de aula? De quem é essa responsabilidade? É a academia que não está formando direito? É o estado que não se preocupa em cobrar essa formação? Ou a culpa é do próprio professor?

Maria Heidemann – A formação é deficitária porque eu entendo que há a falta de confronto ou um equilíbrio entre teoria e prática. O nosso professor sabe fazer discurso. Tanto que ele passa nos concursos e esses concursos não são feitos por qualquer pessoa. É uma elite da universidade que faz a prova. O professor chega a passar com nota 10. Uma professora, um dia desses, me tirou do sério. Ela disse: ?A senhora tem que ter paciência comigo, é o meu primeiro ano de magistério?. Eu respondi: ?E se a senhora fosse diante de um médico e o médico errasse, ele também poderia dizer que era para ter paciência com ele porque era o primeiro ano dele como médico?? Eu vejo muitas crianças sendo mortas na sua autoconfiança, na sua autoestima, quando isso acontece. Não culpo o professor, não. Na formação inicial tem esse problema da teoria versus a prática, que é muito bem resolvido em outras áreas – na medicina e em outras áreas. Nenhum dentista trabalha como dentista antes de ser formado. O professor trabalha. E ele cria certos conceitos e o professor, na universidade, não consegue modificar esses conceitos. Na educação, eu cansei de escutar de grandes chefes meus: ?O caminho se faz ao caminhar. A gente aprende a fazer, fazendo?. Mas na educação eu não posso. Eu estou prejudicando. A formação dos professores atualmente se dá, na verdade, no interior da escola. [Mas é um problema de opção? Não é comum ver pessoas dizendo que querem ser professoras, que querem ensinar as crianças que vão ser o futuro do Brasil. Elas vão para o magistério e para a pedagogia porque é mais fácil o ingresso na universidade e porque têm um salário garantido depois que passam num concurso…] Eu vou falar da minha classe e é duro que a gente tenha que também falar dessas coisas. Boa parte busca isso também. Um campo mais viável, mais possível e mais seguro. É pouco que se ganha, mas é garantido. Infelizmente, tem esse aspecto. Eu sou professora, nasci disso e me fiz disso. Eu não tenho um tostão fora disso e vivo feliz dentro desse trabalho, sou muito feliz como professora. Eu vejo que muita gente tem se desencantado pela educação. Tem vocação, gosta, e tem se desencantado. Pessoas de conhecimento, de fundamento, que lutaram pela educação e não conseguiram ver as suas intenções e os seus ideais realizados.

DIARINHO – Do meio para o final do século passado, era determinante para quem quisesse vencer na vida fazer um curso superior. Nos últimos anos, porém, mesmo com o canudo em mãos, muita gente tem tido dificuldade de se inserir no mercado de trabalho e pior: dificuldade de obter retorno financeiro do dinheiro que investiu para cursar a universidade. Para encerrar então o nosso debate, que conselho vocês dariam, hoje, para um adolescente que está se preparando para escolher o seu rumo profissional?

Marcus Sodré – Antes é preciso dizer algumas coisas. Em todas as profissões nós temos bons e maus profissionais. Se o médico faz uma especialização, vai trabalhar naquela especialização e vai ter uma renda razoável, no mínimo. O professor que faz a especialização e o professor que faz mestrado na rede pública estadual, ele tem um acréscimo de 100 reais no salário. A professora Marialva comentou sobre a ex-professora Ideli que acabou eleita senadora e que poderia fazer a diferença e não fez. Eu diria mais. Eu diria que durante duas décadas a classe trabalhadora desse país construiu um projeto político e um partido político que colocou no imaginário popular que, quando chegasse ao poder, faria a diferença. Esse partido conseguiu chegar ao poder e o que nós temos visto é mais do mesmo. Do ponto de vista político e econômico, o governo Lula tem simplesmente dado continuidade à política neoliberal implementada pelo Fernando Henrique e pelo PSDB. As coisas não mudam no Brasil porque o sistema está podre. O que nós temos visto é o estado financiar a iniciativa privada. O governo federal tem um projeto de educação que é o ProUni, que compra vagas nas universidades privadas. Em vez de usar todos esses recursos pra ampliar e construir novos campi de universidades públicas, ele compra vaga na universidade privada. Com essa compra, ou com as isenções fiscais que são dadas, ele poderia dobrar o número de vagas nas universidades federais. Agora sobre a formação, o que tenho dito para os alunos é que procurem uma área que tenha trabalho, que tenha mercado. Eu não acredito que, trabalhando honestamente, pagando os impostos desse país, que são altíssimos, ninguém fique rico. Então eu digo aos alunos: ?Olha, somos filhos de trabalhadores, vamos ser trabalhadores e não vamos ficar ricos trabalhando, desde que trabalhemos honestamente. Então escolham uma profissão que vocês gostem, porque vocês vão exercer essa profissão pro resto da vida?. Você tem que fazer do seu cotidiano uma coisa prazerosa.

Maria Heidemann ? Pra ser professor não tem como não ser alguém que seja um estudioso, um pesquisador. Para a população é importante ter um curso superior. É importante que se tenha uma qualificação profissional adequada e ela também pode se dar no nível médio. A Constituição fala que a educação é dever do estado, da família e da sociedade. É preciso que a família faça a sua parte também. Que as empresas façam a sua parte, cobrando dos pais que tenham os filhos na escola. Que a igreja faça a sua parte, que o governo faça bem a sua parte. Mas que os pais estejam envolvidos, porque não há professor que dê conta dessa garotada cheia de vida e tão motivada para tantas coisas quando a família não é a favor do professor também. A família tem que ouvir o professor antes de acusá-lo.

Marialva Spengler – Não é um curso superior que vai garantir o acesso e a ascensão na vida profissional. Para você ter sucesso na sua profissão você tem que se conhecer para saber o que você gosta de fazer. Eu vou passar pelo menos um terço da minha vida trabalhando. Então eu tenho que fazer uma coisa que me dê prazer. O ideal é que me dê prazer, um retorno para a sociedade e um retorno financeiro para mim. Ter o conhecimento de si mesmo, o conhecimento das possibilidades do mercado de trabalho e cruzar essas informações. O que o mercado de trabalho precisa? Eu me encaixo nisso? Não necessariamente eu tenho que ter um curso superior para isso. Fazendo um curso técnico talvez eu possa também deslanchar no mercado de trabalho.

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  • 16 jan 2010
  • Postado por Tiago
http://www.youtube.com/view_play_list?p=F6A5B9567AB1DC1C

O problema da educação no país, e também em Itajaí, é a falta de investimento, que não pode ser confundida com a falta de dinheiro. Essa é a opinião unânime entre os professores Marcus Sodré, Marialva Spengler e Maria Heidemann, que participaram do debate sobre o tema, mediado pelos jornalistas Anderson Bernardes, Franciele Marcon e Sandro Silva, na sede do DIARINHO. Os três são categóricos ao afirmar que, enquanto não mudar a forma de financiamento da educação, não dá pra fazer milagre. Ainda foram discutidos temas como a formação dos professores, a inclusão das novas tecnologias na educação, o problema eterno dos baixos salários da categoria, a falta de vagas nas creches e o desafio de escolher uma profissão e onde estudar para se ter sucesso profissional. Sobrou também pros políticos de plantão, que sempre dizem que a educação é prioridade, mas nunca transformam em ações o bla-bla-blá do palanque eleitoral. As fotos são de Felipe Trojan. O vídeo do Entrevistão está disponível em www.diarinho.com.br.

 

As regras do jogo

O entrevistão-debate do DIARINHO sobre a educação foi dividido nos temas educação infantil; formação humanística versus formação técnica; novas tecnologias; reivindicações históricas dos professores; formação dos profissionais da educação e importância do ensino superior. Os jornalistas elaboraram perguntas específicas dentro desses temas para cada um dos entrevistados e, orientados por esses questionamentos, os professores fizeram o debate.

 

Os entrevistados

Maria Heidemann

Data de Nascimento: 07/08/1952

Naturalidade: Presidente Getúlio/SC

Estado civil: Solteira

Formação: Pedagoga com habilitação em administração escolar e especialização em administração e gestão educacional

Cargo: Secretária de Educação de Itajaí

Mari alva Spengler

Data de Nascimento: 14/04/1957

Naturalidade: Gaspar/SC

Estado Civil: Separada

Formação: Pedagoga, com especialização em orientação educacional e mestre em psicologia da educação

 

Cargo: Professora no curso de pedagogia da Univali

Marcus Alexandre Sodré

Data de Nascimento: 26/01/1972

Naturalidade: Cubatão/SP

Estado civil: Casado

Formação: Licenciado em História, especialização em história: ensino e pesquisa em Santa Catarina.

Cargo: Coordenador do sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina na região de Itajaí

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  • Postado por Tiago

entrevistao-amilcar-gazaniga-(23) ?Eu aprendi que eu não boto a mão no fogo por mais ninguém. Nem por mim, nem por mais ninguém?

Ele é assumidamente conservador quando o assunto é ideologia. Foi o político mais jovem a ser eleito prefeito de Itajaí e chefiou a Eletrosul e os Correios, indicado por Collor e Fernando Henrique, respectivamente. Apesar de ser a cara do antigo PDS, hoje diz que a sua sigla é o PC, o partido da Consciência.

Dizem que ele é um dos ?cérebros? do governo Bellini, mas nem por isso ele deixa de apontar falhas na administração peixeira. Neste entrevistão concedido ao colunista JC e aos jornalistas Mariana Vieira e Sandro Silva, Amílcar Gazaniga fala da sua trajetória pública, faz confidências sobre os bastidores do poder, cutuca aliados políticos, além de ratificar sua ojeriza histórica ao PT. Páginas imperdíveis sobre alguém que fez e faz a história política da cidade. As fotos são de Felipe VT. Click para continuar »

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  • Postado por Tiago

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Nome: Bruno Mossa de Rezende (Bruninho)

Idade: 23 anos

Naturalidade: Rio de Janeiro/RJ

Estado civil: solteiro

Profissão: jogador de vôlei, levantador

Peso e altura:76kg e 1,90m

Hobby: ir à praia

Formação: faculdade de administração (trancada no 3º semestre)

Carreira profissional como atleta: começou na Unisul e hoje joga na Cimed, ambos os times de Florianópolis. Também defende a seleção brasileira, onde atualmente é titular absoluto da posição.

Principais títulos: pela Cimed, foi campeão da Superliga (campeonato Brasileiro) nas temporadas 2005/2006, 07/08 e 08/09 e campeão do Sul-americano de Clubes, em 2009. Na seleção brasileira, venceu a liga Mundial em 2006, 2007 e 2009, a copa do Mundo de 2007 e a copa dos Campeões deste ano. Também foi ouro nos jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro, em 2007, e prata nas Olimpíadas de Pequim, no ano passado.

Um prefere a bola mais alta, outro a mais rápida. Bola mais perto da rede, mais longe da rede. É isso que varia muito de cada jogador e o levantador tem que ter o feeling pra saber a bola de cada um

Um trabalho bem feito, às vezes até com menos investimento, mas a longo prazo, acaba dando resultado

Sei que no Brasil todos os dias são revelados novos jogadores e se você não se coçar pra continuar melhorando, logo, logo você perde o espaço

?No Brasil todos os dias são revelados novos jogadores e se você não se coçar pra continuar melhorando, logo perde o espaço?

Filho dos ex-jogadores de vôlei Bernardinho e Vera Mossa, Bruno Mossa de Rezende, ou simplesmente Bruninho, traz no sangue a paixão pelo esporte e, principalmente, pelo vôleibol. Mesmo muito jovem, com apenas 23 anos de idade, ele hoje é titular absoluto da seleção brasileira e comanda a equipe da Cimed, de Florianópolis, que tenta o quarto título da Superliga ? a maior competição do país.

Mas pra chegar neste nível, a tarefa não foi nada fácil e Bruninho precisou ralar muito. Aprendeu com jogadores mais experientes na Unisul, seu primeiro clube como profissional, e acreditou num projeto novo, da Cimed, onde teve mais espaço pra mostrar do que é capaz.

Na seleção brasileira, comeu o pão que o diabo amassou, pelo menos no início. Seu pai Bernardinho cortou o levantador Ricardinho por indisciplina, às vésperas do Pan-americano do Rio de Janeiro, e chamou Bruninho pra competição. Só que Ricardinho era o melhor do mundo naquela época e a torcida não assimilou muito bem a história. Bruno, que não tinha nada com o fato, meio que pagou o pato por ser filho de Bernardinho e foi até vaiado dentro de casa. Mas o levantador da Cimed e da seleção deu a volta por cima e hoje é unanimidade no vôlei brazuca.

Essas e outras histórias Bruninho conta aos repórteres Ânderson Davi de Oliveira e Marcelo Roggia, num bate-papo descontraído à beira da quadra, antes de um treino da Cimed, em Florianópolis. As fotos são de Felipe Vieira Trojan. Click para continuar »

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  • Postado por Tiago

Delegado chefe da polícia Federal de Itajaí
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?Há tempo que a polícia Federal vem se estruturando para não depender do humor de um ou de outro governante?

Raio-X
Nome: José Dinarte de Castro Silveira
Idade: 47 anos
Naturalidade: Santa Rosa, Rio Grande do Sul
Filhos: três filhos
Formação: Direito, na Universidade de Brasília, em 1993. Especialização em Gestão de Segurança Pública, pela Academia da Polícia Federal
Cargos que ocupou: é delegado da PF desde 1997. Sua primeira lotação foi em Santa Maria/RS e depois foi chefe da PF de Santana do Livramento. Veio para Itajaí em 2006, e desde março de 2009 ocupa o cargo de delegado chefe da PF peixeira. Click para continuar »

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