• Postado por Tiago

CINCO MULHERES, UM DESTINO

A morte de Dona Zilda Arns fez-me lembrar da história de muitas mulheres que ao longo do tempo dedicaram a vida exclusivamente aos menos favorecidos. Até aí, quatro tiveram reconhecimentos semelhantes e, sem dúvida, dona Zilda também será agraciada com a mesma dádiva dos céus. Todas admiradas pelo trabalho com os necessitados, elas conseguiram superar todas as dificuldades para alcançar seus objetivos.

1. Isabel de Aragão, filha mais velha do rei Pedro 3° de Aragão com Constança da Sicília. Nasceu em Saragoça, em 1271, e casou a 11 de fevereiro de 1288, aos 17 anos, com D. Dinis, rei de Portugal, e teve dois filhos. O filho mais velho, herdeiro do trono, sentindo sua posição ameaçada, declarou abertamente a intenção de batalhar contra seu pai. A rainha interveio e conseguiu serenar os ânimos. D. Dinis morreu em 1325, e pouco depois de sua morte, Isabel recolheu-se no convento de Santa Clara-a-Velha em Coimbra, vestindo o hábito da ordem das Clarissas, não fazendo os votos (o que lhe permitia manter sua fortuna usada para a caridade). A história é longa… Durante o reinado de D. Dinis, a rainha Isabel lutou muito em defesa da paz. Segundo a lenda portuguesa, a rainha saiu do castelo do Sabugal para distribuir pães aos mais desfavorecidos e foi surpreendida pelo soberano que lhe inquiriu sobre o que levava. Rosas, Senhor! Rosas no inverno? – retrucou o rei. D. Isabel abriu o avental e nele havia realmente rosas, ao invés de pães. Isabel faleceu, tocada pela peste, em Estremoz, a 4 de julho de 1336. Ainda em vida começou a gozar fama de santa. Foi beatificada pelo Papa Leão 10 em 1516, vindo a ser canonizada pelo Papa Urbano 8° em 1625, passando a ser conhecida como a Rainha Santa.

2. Amábile Lúcia Visintainer nasceu em Vígolo Vattaro, na Itália, em 16 de dezembro de 1865, e veio com a família para o Brasil em 1875, fixando-se na região de Nova Trento, no lugar a que foi dado o nome de Vígolo, em homenagem à terra natal. Amábile tinha 10 anos e desde então era dedicada à vida religiosa. Seu pai Napoleão Visintainer construiu uma pequena capela e Amábile passava mais tempo dedicada a orações e a doutrinar as crianças. Auxiliada pela colega Virgínia, passaram a cuidar dos doentes necessitados. Depois chegou Teresa e as três conseguiram um casebre que foi chamado de hospitalzinho e ali tratavam dos enfermos. Embora sofrendo muita discriminação e dificuldades, ganharam o apoio do Pe. Luiz Maria Rossi, que as apresentou ao Bispo D. José de Camargo Barros, titular de Curitiba, em visita a Nova Trento. O sonho de Amábile era fundar uma congregação religiosa, algo que parecia impossível. Vendo tanta fé e convicção, D. José não teve como impedir. Assim surgiu a congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Amábile passou a chamar-se Irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus – logo Madre Paulina por tornar-se a Superiora. Virgínia escolheu Irmã Matilde da Imaculada Conceição. Teresa optou por Irmã Inez de São José. Foi aí que aumentaram as cobranças… Madre Paulina se desdobrava trabalhando na roça e angariando donativos para dar a seus pobres. É uma história longa e emocionante. A congregação cresceu rapidamente. Em 1903 Madre Paulina é eleita Superiora Geral e deixa Nova Trento para ir cuidar dos ex-escravos idosos e crianças órfãs, no bairro do Ipiranga, na capital de São Paulo. Em 1909 ela deixa o cargo de Superiora Geral e vai para Bragança Paulista trabalhar num hospital. Humildade heróica e amor ao reino de Deus. Em 1918, Madre Paulina retorna à Casa Geral, praticamente cega, e teve que amputar um braço. Abençoava as irmãs que partiam para novas fundações e dizia: “Nunca, jamais desanimeis embora venham ventos contrários”. Na manhã de 9 de julho de 1942 ela expirou na Casa Geral, em São Paulo, com fama de santidade. Madre Paulina foi beatificada pelo Papa João Paulo 2° no dia 18 de outubro de 1991, e em 19 de maio de 2002 pelo mesmo Papa João Paulo 2°, na praça de São Pedro, em Roma, foi proclamada Santa.

3. Teresa de Calcutá. Nasceu na Macedônia, em 26 de agosto de 1910, recebendo o nome de Agnes Gonxha Bojaxhiu. Filha de pais albaneses, tendo mais uma irmã e um irmão. Com grande veneração pela igreja Católica, aos 12 anos ouviu um jesuíta que era missionário na Índia dizer: “Cada qual em sua vida deve seguir seu próprio caminho”. Impressionada, se determinou a dar um sentido em sua vida, fazendo-se missionária a serviço dos outros. Procurou o próprio missionário para orientar-se e este, prudentemente, respondeu que aguardasse a confirmação do tempo e da “voz de Deus”. Certa de sua vocação e cada vez mais convicta, foi admitida na congregação das Irmãs do Loreto que trabalhava em Bengala, mas teve primeiro de aprender a língua inglesa em Dublin. Daí foi enviada para a Índia em 1931, a fim de iniciar seu noviciado em Darjeeling, no colégio das Irmãs de Calcutá. Considerada como a missionária do século 20, ela fundou a congregação “Missionárias da Caridade”. Tornou-se conhecida ainda em vida pelo cognome de “Santa das Sarjetas”. O mundo todo conheceu seu trabalho a favor dos desamparados. Popularizou-se como Madre Teresa de Calcutá. Faleceu a cinco de setembro de 1997, aos 87 anos de idade. Em 19 de outubro de 2003 foi beatificada em Roma, pelo Papa João Paulo 2°, tornando-se padroeira dos pobres e incapacitados.

4. Irmã Dulce. Nasceu em 26 de maio de 1914 e recebeu o nome de Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes. Filha do dentista Augusto Lopes Pontes e de Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes, era uma menina alegre, adorava brincar de boneca, empinar arraia (pandorga) e tinha especial predileção por futebol. Era torcedora do Esporte Clube Ypiranga. Em 1932, depois de se formar, entrou na congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em Sergipe. Com seis meses de noviciado, tomou o hábito de freira. Fez sua profissão de fé no dia 15 de agosto de 1934 e voltou à Bahia. Desde então dedicou toda a sua vida à caridade. Começou sua obra ocupando um barracão abandonado para abrigar mendigos. Quando o Papa João Paulo 2° esteve no Brasil foi visitá-la, em virtude de seu trabalho com idosos, doentes, pobres, crianças e jovens carentes. Entre os diversos estabelecimentos que Irmã Dulce fundou estão o hospital Santo Antônio, com capacidade para atender 700 pacientes e 200 casos ambulatoriais, e o centro Educacional Santo Antônio, que abriga mais de 300 crianças de 3 a 17 anos. No centro, os jovens têm acesso a cursos profissionalizantes. Irmã Dulce fundou também o círculo Operário da Bahia, que, além de escola de ofícios, proporciona atividades culturais e recreativas. Conhecida como o Anjo Bom da Bahia, Irmã Dulce, notabilizou-se por suas obras de caridade e assistência aos pobres e aos necessitados, faleceu em Salvador, no dia 13 de março de 1992. A 21 de janeiro de 2009, a congregação para a Causa dos Santos do Vaticano anunciou o voto favorável que reconhece Irmã Dulce como Venerável. A 3 de abril de 2009, o Papa Bento 16 aprovou o decreto de reconhecimento de suas virtudes heróicas. Com certeza, logo será beatificada…

5. Zilda Arns. No mesmo mês e ano (agosto de 1934) em que Irmã Dulce começava seu trabalho na Bahia, nascia Zilda Arns (25/08) em Forquilhinha (Santa Catarina). Dra. Zilda Arns Neumann, sanitarista e médica pediatra, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Pessoa Idosa (hoje com mais 129 mil idosos que são acompanhados todos os meses por 14 mil voluntários), organismos de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 27 anos de trabalho, a Pastoral conta com a ajuda de mais de 260 mil voluntários e atende quase dois milhões de gestantes e crianças menores de seis anos e um milhão e 400 mil famílias pobres, em 4063 municípios brasileiros. Por sua experiência, em 1980, foi convidada a coordenar a campanha de vacinação Sabin para combater a primeira epidemia de poliomielite em União da Vitória/PR, criando um método próprio que depois foi adotado pelo ministério da Saúde. Ela estava no Haiti para fazer uma palestra sobre a Pastoral da Criança na conferência Nacional dos Religiosos do Caribe e foi vítima do grande terremoto que abalou o país. Justamente ela estava na capital Porto Príncipe, onde aconteceu a maior catástrofe. Aos 75 anos, dona Zilda estava em plena atividade pastoral quando foi atingida pelos escombros e morreu. Segundo seu irmão Cardeal-Arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, “ela morreu de uma maneira muito bonita, morreu na causa que sempre acreditou”. Ela morava em Curitiba, no Paraná, e deixa cinco filhos e 10 netos. Escolheu a medicina como missão e foi secretária da Saúde do Estado do Paraná. Teve como suporte teórico diversas especializações como Saúde Pública, pela Universidade de São Paulo (USP) e Administração de Programas de Saúde Materno-Infantil, pela Organização Pan-Americana de Saúde. Em 1983, a pedido da CNBB, dona Zilda Arns criou a Pastoral da Criança, juntamente com Dom Geraldo Majela, Cardeal Arcebispo Primaz de São Salvador da Bahia, que na época era Arcebispo de Londrina.

O que estará reservado à dona Zilda Arns pelos seus méritos? Pelo exemplo das outras quatro mulheres aqui mencionadas, o destino deve ser um só. Mais do que reconhecida, sem dúvida, lhe foi reservado um lugar muito especial no Reino Sagrado junto a Deus.

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