• 20 ago 2009
  • Postado por Tiago

O manezinho mor se foi

O Chico Amante morreu ontem à tarde. Tinha sido operado ontem, de urgência, por causa de um tumor recém-descoberto no intestino, deve ter se sentido incomodado de ficar parado na UTI e resolveu sair para tomar umas e outras com seu grande amigo, o Aldírio Simões. A esta hora os dois devem estar rindo da manezada que continua aqui, penando.

O enterro do corpo será hoje, às 10h, no cemitério do Itacorubi.

O Francisco Hegídio Amante era o grande manezinho. O mais entusiasmado cultivador das nossas tradições. Sempre que ao Aldírio faltava inspiração ou tempo, era ao Chico que ele recorria, pra fechar a coluna, pra completar algum projeto ou simplesmente para conversar e se reciclar.

No ano passado, o Chico realizou um sonho de infância. Foi aos Açores. Visitou várias ilhas. No retorno, ainda ganhou, de brinde, uns dias em Lisboa, ciceroneado por um dos netos. Voltou feliz da vida, como se tivesse estado no paraíso. Acho que ele esteve mesmo, de fato, no paraíso. Conhecera as origens que ele sempre cantou em prosa e verso, ouviu aquele povo conversar e contar histórias. Sentiu-se em casa.

Cheio de projetos, ele tinha sempre um livro pronto para publicação. Coisa difícil, porque não há editoras interessadas nessas coisas que interessam a tanta gente. Alguns foram publicados, como aqueles que relacionam todos os que foram premiados com o troféu que Aldírio Simões distribuía.

Em 2007, durante alguns meses, publicou, aqui no DIARINHO, uma crônica semanal, falando das belezas dos municípios de colonização açoriana.

Perde a Ilha não apenas mais um manezinho. Perdemos todos a companhia do manezinho-mor. Não foi por acaso que o céu de Florianópolis, que estava se livrando das nuvens e permitindo a passagem dos raios do sol mudou de idéia e, mais ou menos na hora da morte do Chico começou a se fechar em luto cinzento.

Boa viagem, Chico. E toma uma por nós, que a coisa aqui tá preta. Saúde!

O texto abaixo foi escrito pelo Chico, para homenagear seu grande amigo, Aldírio Simões, que havia se suicidado alguns dias antes. É interessante porque mostra como o Chico pensava e a sua profissão de fé na manezice. A promessa que ele faz nos últimos parágrafos (“jamais deixaremos a opeteca cair”), cumpriu com rigor e alegria.

A DESPEDIDA

Chico Amante

(Publicado originalmente no
ANCapital, em 31/01/2004)

Pesadelo? Alucinação? Ficção? Não, absolutamente, não! Dia fatal – 22 de janeiro de 2004 – 17 dias após ele ter completado seus bem vividos 62 anos. Justamente ele que amava tanto a vida, deixou-nos tão prematuramente, órfãos. Sim, porque, independentemente de idade, éramos pai, filho, irmão, e sobretudo amigo do Mané–Maior, o Aldírio. O Aldírio Simões, filho da Dona Bicota, irmão do Édio (saudoso) e do Marinho, marido da Maristela e pai da Simone, do Sione, do Brunão e da Mariela.

Com uma amizade e convivência de mais de cinqüenta anos, remonto o dia em que o Mané foi ao escritório da firma Moritz, isso nos idos de 1950. Queria trabalhar na A Soberana, e sua credencial maior era a de ter trabalhado no Chiquinho. Fiz o teste para atender uma formalidade, e incontinenti o admiti.

Marcou época no novo emprego, quando atendia as senhoras “freguesas”, sempre com amabilidade e as chamando de “madame”, o que, às vezes, provocava a admiração e até inveja, porque elas, à partir de então, escolhiam o Aldírio todos os dias.

O tempo passou, e o Mané–Maior, sempre com absoluta independência, iniciou sua trajetória de sucesso, tanto nos serviços da Prefeitura Municipal como na imprensa de Florianópolis.

Alguns anos depois, tive a felicidade de vê-lo meu vizinho no Abraão, juntamente com outro Manezinho famoso, o poeta Zininho. Daí em diante, selou-se uma amizade indissolúvel, e tornei-me, involuntariamente, seu confidente e seu conselheiro, principalmente quando algo sobre nossa cidade fugia de sua memória, e ele precisava para ornamentar suas inconfundíveis crônicas no jornal.

Há 25 anos atrás, quando foi morar no Abraão, o Aldírio já era uma figura pública, por sua atuação na imprensa e pelas promoções que encetava.

Pois em 1988, fui agraciado com o Troféu Manezinho da Ilha, assim como tantas figuras do cotidiano ilhéu, E, desta forma, ele resgatou e perenizou uma denominação singular, que em outras épocas era utilizada como pejorativo para “inticar” com os nossos irmãos do interior da Ilha. (…)

E a Ilha e os Manezinhos perderam o seu maior porta-voz; uma voz atuante em defesa de nossos interesses culturais, folclóricos, usos e costumes, que não media esforços para manter acima de qualquer coisa, tudo aquilo que sempre nos pertenceu e que diuturnamente “alienígenas” tentam de todas as formas nos roubar.

Porém, jamais deixaremos a peteca cair. Em memória do Aldírio, iremos defender com intransigência toda a sua obra, dignificada pela sublime atuação profissional e o comportamento exemplar no seio de nossa sociedade.

Estejas onde estiveres, Aldírio, assumiremos tua trincheira em defesa de nossa cidade e de nosso povo, na certeza de que, irmanados ao mesmo ideal que norteou tua existência, haveremos de manter viva a tua memória e os sagrados anseios do povão, justamente aquele povão que sempre reverenciou tua pessoa, prestigiou e foi solidário com o teu trabalho.

Descanse em paz, mô Pombo, até um dia na eternidade e um beijo no fundo do teu coração!

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