• 01 set 2009
  • Postado por Tiago

O consumidor indefeso

O Brasil tem uma legislação que protege os consumidores (temos, por falar nisso, leis para quase tudo, uma mais lindona que a outra). E, de fato, quando a gente se sente prejudicado, pode ir à Justiça em busca dos nossos direitos.

Mas tem muitas coisas que não podem ser reparadas pela via judicial. Ou porque o custo dessa demanda é maior do que o custo do prejuízo, ou porque representa a extensão da novela e de um estresse que se quer terminar logo.

Vejam só o que me aconteceu (e a mais de uma centena de pessoas) na última sexta-feira. Tinha comprado uma passagem no vôo Florianópolis?São Paulo, da Gol, com partida prevista para a 7h10min. O dia amanheceu que era uma neblina só. Impossível decolar, impossível aterrisar. Aeroportos fechados Brasil afora. Tudo bem, essas coisas acontecem.

Neblina e pane

Lá pelas nove da manhã, o tempo começou a abrir e os vôos reiniciaram. O nosso avião viria de Chapecó e por isso só às 10h40min é que fomos colocados a bordo, para iniciar a viagem para São Paulo.

E aí começou a parte punk da história. Ao taxiar, antes mesmo de deixar o pátio de manobras, a comandante avisa que o avião deu chabu. Fomos levados novamente ao ponto inicial, para que alguma coisa fosse feita. Ficamos a bordo, esperando que o sistema fosse reiniciado (deram um boot no computador, não tem?). Nova tentativa, nova frustração, o defeito continuava. O avião foi para a área remota (aquela lá perto do hangar dos helicópteros), descemos, pegamos um ônibus e retornamos para o terminal de passageiros.

Bom a esta altura nós, os idiotas, clientes da Gol, imaginavamos que o pessoal da empresa já tivesse pensado no que fazer conosco. Afinal, até a gente chegar ao saguão, já era meio dia ou perto disso.

Atrasos e panes não são coisas assim tão raras. A Gol deveria ter um livrinho, na prateleira de crises, intitulado ?o que fazer quando um avião pifa ainda no solo?. Ou coisa parecida. Mas não. O espetáculo de incompetência, de despreparo, de amadorismo, foi lamentável.

Despreparo e desrespeito

Colocaram-nos numa fila, diante de um guichê, no check-in. Aí, um grupo de espertinhos, do final da fila, foi lá pra frente e começou a gritar com o André, que deve ser o encarregado, o gerente ou alguma coisa desse tipo. Assustado, o moço, engravatado mas inseguro, colocou os gritões na frente da fila dos imbecis que estavam quietos, obedecendo as ordens dos funcionários da Gol.

A Gol revalidou, por intermédio do seu representante, a Lei de Gerson: quem gritou mais, teve a preferência. Quem obedeceu à orientação, ficou com cara de tacho, parado numa fila que não andava, por pelo menos duas horas.

Duas horas de pé numa fila que não anda é de arrebentar com os nervos de qualquer um. Quem queria desistir do vôo, tinha que ir para outra fila, na loja da Gol, para ver se recebia dinheiro de volta. Quem, como eu, não tinha mais o que fazer do que ver como que a Gol iria nos levar para São Paulo, precisava ficar ali, de pé, na fila, atrás dos espertos que foram consagrados pela Gol como privilegiados com direito a atendimento preferencial.

Anac pra quem precisa…

A certa altura, lá no balcão da loja, um passageiro perdeu a paciência e começou a gritar com o André, o engravatado incompetente que parecia chefiar a tribo de esforçados despreparados da Gol. Do lado de cá, a turma da fila parada aplaudia. Até que a Gol resolveu tomar uma providência: chamou um delegado da Polícia Federal pra calar o cliente insatisfeito. O delegado percebeu a fria em que a empresa o estava colocando e agiu com bom senso. Ninguém foi preso (embora ninguém possa garantir se a Gol não acabará nos processando a todos, por reclamar em público de sua incompetência). E o delegado recomendou que, em vez de gritar com o André (coisa que, de fato, não adiantava nada, porque o moço não conseguia dar resposta satisfatória a nenhuma pergunta), a turma fosse encher o saco do pessoal da Anac, que assistia de longe, pedindo para preenchendo formulários de reclamação.

Quase duas e tanto da tarde, consegui receber o tiquete alimentação que dava direito a almoço no restaurante do aeroporto. A solução que a empresa oferecia, para o pessoal que iria viajar às sete da manhã, era lugares num vôo das vinte pras oito da noite. Só. Ou poderiamos ir antes, se o avião que deu defeito ficasse pronto.

Fui almoçar, perto das três da tarde, pensando nos compromissos perdidos. Afinal, não estava indo a São Paulo, numa sexta-feira cedinho, só porque gosto de acordar cedo ou porque acho o máximo enfrentar o trânsito da cidade grande num dia de semana. E só não desisti porque no sábado e domingo iria encontrar com meus filhos e me divertir um pouco. Mas as coisas que tinha marcado para fazer na sexta, tinham ido pro buraco.

O avião foi consertado e às três e meia embarcamos de novo. Desta vez tudo funcionou e umas oito horas e meia depois do horário previsto inicialmente, desembarcávamos em Congonhas.

Pra que facilitar?

Enquanto estavamos naquela fila que não andava, saíram vôos para o Rio, onde muitos poderiam ter sido acomodados. Mas ninguém se mexia, ninguém informava nada. Provavelmente para não endossar passagens para outra companhia, informavam que ?o sistema da TAM está fora do ar?. A falta de treinamento, de preparo e mesmo de conhecimento do que fazer numa situação que não é tão rara, azedou o dia de todos. Inclusive dos funcionários. Demonstrou que a Gol (e imagino que outras companhias sigam na mesma balada) não se preocupa com a solução do problema do cliente. Sai mais barato tocar o bonde de qualquer jeito e enfrentar, vez por outra, alguma ação judicial. Porque nem todos têm ânimo ou recursos para uma demanda nos tribunais. E aquela sexta feira que, para tantos de nós, representou prejuízo, tempo perdido e desgaste, para a Gol deve ter sido apenas mais um dia normal, atazanando a vida dos consumidores, esses otários.

Sete IDÉIAS QUE ME VÊM À CABEÇA QUANDO PENSO NO pré sal

deolho1-sal

1. Nunca se deve contar com o ovo no cu da galinha;

2. Nunca se deve gastar o dinheiro antes de ganhá-lo;

3. Se o tesouro enterrado vale dez mil, mas a gente precisa de oito mil para desenterrá-lo, é bom não gastar por conta;

4. Cada vez mais o mundo está decidido a punir os responsáveis pela poluição, pelo efeito estufa, pela destruição do ambiente: e, por enquanto, o grande vilão de toda essa história é o petróleo;

5. Se com orçamento apertado, falta de dinheiro e crise já se rouba muito, imaginem quando as profecias de São Lula se realizarem e o dinheiro jorrar nas contas do governo?

6. As grandes discussões de hoje não são sobre o melhor uso para o dinheiro, mas sobre a forma como será dividido;

7. Tudo isso terá que ser votado e aprovado em 90 dias. Pra quê a pressa?

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