• 22 set 2009
  • Postado por Tiago

Um mergulho no petróleo

Cá entre nós, e que ninguém nos ouça, tem umas coisas a respeito desse petróleo abundante que se anuncia com a descoberta das jazidas no pré-sal, que me incomodam. E muito. Tanto que vou registrar neste nosso cantinho de todo dia, quando por mais nada, para que outras pessoas que pensam da mesma forma saibam que não estão pensando sozinhas.

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Em publicações oficiais, como a apostila desenvolvida pela Fundação Carlos Chagas para o Denatran, utilizada pelos Detran dos estados como subsídio para os exames de motoristas, há uma explicação abreviada dos males que os combustíveis usados pela frota de veículos podem causar:

“A poluição do ar nas cidades é hoje uma das mais graves ameaças à nossa qualidade de vida. Os principais causadores da poluição do ar são os veículos automotores. Os gases que saem do escapamento contêm monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos, óxidos de enxofre e material particulado (fumaça preta). (…)

A presença desses gases na atmosfera não é só um problema para cada uma das pessoas, é um problema para toda a coletividade de nosso planeta. O monóxido de carbono não tem cheiro, não tem gosto e é incolor, sendo difícil sua identificação pelas pessoas. Mas é extremamente tóxico e causa tonturas, vertigens, alterações no sistema nervoso central e pode ser fatal, em altas doses, em ambientes fechados.

O dióxido de enxofre, presente na combustão do diesel, provoca coriza, catarro e danos irreversíveis aos pulmões e também pode ser fatal, em doses altas. Os hidrocarbonetos, produtos da queima incompleta dos combustíveis (álcool, gasolina ou diesel), são responsáveis pelo aumento da incidência de câncer no pulmão, provocam irritação nos olhos, no nariz, na pele e no aparelho respiratório.

A fuligem, que é composta por partículas sólidas e líquidas, fica suspensa na atmosfera e pode atingir o pulmão das pessoas e agravar quadros alérgicos de asma e bronquite, irritação de nariz e garganta e facilitar a propagação de infecções gripais.”

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Pois bem, há ainda quem diga que o petróleo (que usamos na forma de gasolina, querosene de aviação ou diesel) é responsável por alterações climáticas graves e até mesmo o aquecimento gradativo da temperatura média global, que poderia levar, dentro de algum tempo, ao derretimento de parte das calotas de gelo dos polos, levando a um aumento do nível dos oceanos. Isso, se comprovado, teria resultados catastróficos para cidades litorâneas.

O bom senso recomendaria, portanto, que se buscassem fontes alternativas, não poluentes, de energia. O petróleo, que tantos serviços prestou, tende a ser utilizado cada vez menos, para que deixe de empestar o ambiente. Grandes companhias petrolíferas, como a holandesa Shell, dedicam cada vez mais recursos e tempo de seus pesquisadores, a outros “combustíveis”. Como o vento. Uma grande “usina” de eletricidade a partir da força dos ventos do mar do Norte já funciona próximo às costas da Holanda. Essa diversificação não se dá apenas porque são ecologicamente conscientes, mas principalmente porque as reservas de petróleo têm data para acabar.

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É nesse ambiente que ocorre o entusiasmo governamental com a possibilidade de colocar a mão num grande reservatório de petróleo. E, com grande antecedência, já fazem contas e discutem quem fica com que parte. Sonham, as autoridades presentes e futuras, com a abundância de dinheiro que transformará o Brasil num emirado árabe gigantesco. E seus governantes e agregados em príncipes a nadar, qual Tio Patinhas, em piscinas de ouro, cheias de dinheiro.

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Pelo que a gente conhece do nosso País, a partir de agora o petróleo deixará de ter, aos olhos dos órgãos fiscalizadores do ambiente, os riscos que até agora apresentou. Usar combustíveis fósseis passará a ser prioridade. O álcool, como já estão publicamente temendo seus produtores, perderá espaço. E a ameaça de poluição será minimizada. Os alertas de ecologistas para os males da queima desse produto serão encarados como resmungos de ecochatos malamados, de gente a serviço de interesses estrangeiros, que não querem o progresso do Brasil.

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O custo de exploração do petróleo do pré-sal ainda não está determinado. Mas estima-se que será alto. Custo alto de exploração num mercado onde os preços do petróleo tendem a cair (e estão caindo). A queda no preço parece que tem sido estimulada pela rejeição crescente a esse tipo de combustível e pela descoberta, na África, de jazidas a profundidades mais confortáveis. Em todo caso, antes de ganhar algum dinheiro com seu novo petróleo, o Brasil gastará muito dinheiro. Num primeiro momento é mesmo possível que tenhamos prejuízo com a exploração (e isso quem disse foi gente da Petrobras).

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Claro que a auto-suficiência em petróleo é uma coisa boa. Embora não tenha resultado em benefícios diretos para a população: nossa gasolina é cara e nosso diesel é ruim, mais poluidor que o dos demais países. Mas, mesmo com gasolina cara, as cidades, sem transportes coletivos eficientes e confortáveis, estão atulhadas de veículos particulares, quase individuais. Dia desses vimos, na TV, as cenas do gigantesco engarrafamento que literalmente fez São Paulo parar. Nas cidades catarinenses também já se nota os efeitos do excesso de veículos. Não é um modelo de desenvolvimento que nos leve muito longe. E ainda nos levará cada vez mais devagar. Quase parando.

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Portanto, caros leitores e leitoras, o entusiasmo governamental com a fortuna que pode representar o petróleo do pré-sal me assusta porque não vem acompanhado das devidas cautelas ambientais. E sequer será conduzido por um projeto amplo de desenvolvimento que nos permita manter a poluição e a degradação ambiental sob controle. Temos governantes que consideram as leis ambientais como um “atraso” e, por extensão, devem considerar a poluição como “um avanço”. Sonham, certamente, com um País onde todas as cidades maiores estejam tão engarrafadas quanto São Paulo, tenham o ar tão pesado e sujo quanto São Paulo, mas a elite dirigente tenha, para fazer e desfazer, as burras cheias de dinheiro.

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Aos moradores do litoral recomenda-se ter, no teto das residências, botes salva-vidas. Aos moradores das outras regiões, recomenda-se cavar no chão abrigos contra temporais e tornados. Porque, se depender do entusiasmo governamental com o petróleo, o clima vai continuar virando de ponta-cabeça. Mas ninguém deixará de ter seus carrões a diesel ou a gasolina e jamais o transporte ferroviário movido a eletricidade ameaçará o reinado dos caminhões e sua fumaça preta. A palavra de ordem desse momento nacional, caso se confirme, será “salve-se quem puder!”

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