• 13 maio 2009
  • Postado por Tiago

A GRANDE DATA

Hoje, 13 de maio, é um dia especial para Florianópolis pelo menos por dois motivos:

1. Em 1926 foi inaugurada a ponte Hercílio Luz, monumento de aço que durante décadas foi a única ligação entre a Ilha de Santa Catarina (onde fica parte do município de Florianópolis) e o Continente;

2. Em 1915 começava a circular o jornal O Estado, que na década de 70, provocado pelo Santa, transformou-se no grande jornal estadual catarinense.

Além do desenho especial da ponte vou homenagear, com algumas lembranças saudosas, o velho jornal, que nos últimos anos entrou em dolorosa decadência, transformou-se em semanário e hoje nem sei se ainda circula.

RECADINHOS DO EDITOR

Comecei a escrever em O Estado em 1970 e meu primeiro emprego com carteira assinada, em 1972, foi em… O Estado. Entre várias idas e vindas acabei exercendo, em 1988 e parte de 1989, a função de editor-chefe.

Pois durante oito meses, desse ano e pouco em que fui editor do jornal, publiquei uma coluninha diária na página de opinião, onde comentava os bastidores do jornal e fazia reflexões sobre o jornalismo.

Caso de Polícia – 6/9/1988

O grande dilema dos jornais que possuem páginas dedicadas à cobertura de assuntos policiais é conseguir equilibrar o tratamento oferecido aos envolvidos. Há um traço cultural muito enraizado no jornalismo – acredito que não só no Brasil – que faz com que as páginas policiais tratem com constrangedora sem-cerimônia os desvalidos, os marginalizados. É normal os registros policiais originarem notas, que são publicadas sem que alguém sequer tenha a preocupação de ouvir a pessoa citada.

Mesmo no tratamento, era comum condenar antes da Justiça e chamar de “marginal”, “meliante”, “bandido”, “ladrão”, “assassino”, aquele envolvido que não tem onde cair morto e cujo ambiente, pela própria pobreza, alimenta o preconceito. As páginas policiais têm, por isso, em sua história, um número muito grande de injustiças cometidas e sequer cobradas. Pelo simples fato de que as vítimas dessas injustiças não têm acesso a qualquer instrumento que lhes permita a defesa diante do implacável descaso da imprensa.

Evidentemente que o simples fato de estarmos comentando isto aqui já demonstra que as coisas estão mudando. Estamos preocupados sempre em que a página policial deste nosso O Estado não cometa esse tipo de injustiça. E que ninguém, por ser pobre e estar envolvido com algum fato policial, tenha sua vida devassada, seja tratado como coisa inerme e exposto à execração pública. Ao mesmo tempo, também nos preocupa não compactuar com situações delituosas por excesso de cuidado.

Um dilema, sem dúvida. Mas que esperamos estar resolvendo com sensibilidade.

O Futuro – 26/9/1988

Não estamos no negócio de jornais, estamos no negócio da informação. Cada vez mais, o público não compra jornais, compra informação. Essas frases, com algumas variações, foram ditas praticamente durante todo o tempo, nos dois dias em que durou o Seminário Internacional Sobre Inovação Jomalística, realizado no Rio, semana passada, com a participação da Universidade de Navarra, Espanha.

Essa visão das empresas jornalísticas e dos jornais, que é relativamente nova, parte do princípio de que o objetivo social de uma empresa informativa é informar. Informação é um direito humano elementar que precisa ser satisfeito. Mesmo porque nada funciona sem informação. O exercício da liberdade individual se concretiza com a tomada de decisões e para decidir é preciso estar informado. O professor Francisco Gómez Antón, diretor do programa de graduados latino-americanos da Universidade de Navarra e professor da Universidade de Stanford (EUA), afirma que “o dever de informar se sobrepõe a todos os outros na empresa informativa”. E assegura que “só se são informativas de verdade, essas empresas poderão defender-se das pressões”.

O professor Juan Antonio Giner acredita que “no futuro serão decisivas as mensagens que atendam a um público que não compra jornais, compra informação”. E alinha, entre as principais tendências mundiais para esse setor, a transformação inevitável das empresas jornalísticas em empresas informativas.

Essa mudança não é apenas semântica: ela atinge em cheio o que ele chama de “falácia do produto”. Ficarão para trás as empresas jornalísticas que continuarem acreditando que o que elas têm a oferecer é um produto — como outra mercadoria qualquer. Orientar-se para o produto, ao invés de orientar-se para o cliente, é a postura que está sendo abandonada. Há alguns anos um dos principais executivos da AT&T (a poderosa organização norte-americana de telefonia e comunicações) já afirmava a seus diretores que “nosso negócio não são os telefones, nosso negócio é a informação”.

Assim, cada vez importa menos o “produto”, mesmo porque há uma tendência também mundial e irreversível à homogeneização tecnológica. E cada vez mais assume importância a capacidade de uma organização de estar em sintonia com o seu “entorno” e conseguir satisfazer a necessidade social de informação. E isto só é possível – também demonstraram os professores de Navarra e citei aqui no sábado – com recursos humanos.

Não há uma única empresa informativa bem-sucedida no mundo que não tenha, na razão de seu sucesso, gente. E gente de talento. Na verdade, se um jornal pode optar entre circular sete dias por semana apresentando um “produto” médio que só atenda parcialmente à necessidade de informação de seu “entorno” ou circular seis dias, mas investir na formação de uma equipe que possa transformar a empresa jornalistica em empresa informativa, certamente o mais aconselhável é a segunda hipótese. E só aqueles que conseguem visualizar concretamente para onde caminha este setor da atividade humana terão tranqüilidade para ver opções como essa serem tomadas sem enxergar nisso recuos ou equívocos.

  •  

Deixe uma Resposta