• 05 jun 2009
  • Postado por Tiago

Curiosidade mórbida

Por que tanta pressão para que a lista com os nomes dos passageiros do vôo desaparecido fosse divulgada? Quem tinha parentes ou amigos no vôo já sabiae se eles estavam ou não a bordo. E se eu não tenho nem um, nem outro, por que precisaria saber o nome dos que provavelmente morreram no acidente?

Os motivos dessa curiosidade têm sido estudados há décadas (séculos?) e os resultados nunca são lisonjeiros para esta espécie que gosta tanto de ver a desgraça alheia. As vendas do Diarinho crescem quando há foto de cadáver na capa. É impulso parecido com o prazer (sim, por que, tem outro nome?) que muita gente sente ao ler a lista das vítimas fatais de algum grande acidente. “Ah, é pra ver se tem algum conhecido” ou então pra ver se tem alguma “celebridade”. Não se preocupem. Os amigos e familiares das “celebridades” que estavam no avião já divulgaram seus nomes.

A lei francesa me parece muito razoável: a empresa envolvida no acidente não pode divulgar a lista dos mortos ou presumivelmente mortos. Só as famílias é que podem, se quiserem. Os que preferirem poderão preservar seu ente querido da curiosidade popular. É assim, em geral, nos falecimentos: a gente avisa amigos, parentes. Alguns colocam um anúncio no rádio. Outros no jornal. Algumas famílias preferem cerimônias discretas.

Mas quem não tem nada a ver com isso gosta de ler os obituários dos jornais e adora uma listinha com nomes das vítimas de acidentes. Se tiver fotos, mais ainda.

Não é de estranhar, portanto, que já no dia seguinte ao desaparecimento do avião, tenha aparecido, nas caixas postais de muita gente, mais um daqueles golpes oportunistas. Simulando ser um e-mail do site de notícias G1 (da Globo), oferecia “imagens de objetos e vítimas encontradas no mar”. Os curiosos, os doentes de curiosidade, que clicassem nos links, abririam seus computadores para instalação daqueles programas que roubam senhas bancárias e outras informações e que reenviam e-mails maliciosos.

Aposto que, mesmo tendo quase certeza que era golpe (porque coisa exatamente igual acontece a cada grande desastre), muitos clicaram, esperando, quem sabe, alguma fotinho de cadáver boiando. E se ferraram. Viraram vítimas de espertalhões. Vítimas de sua própria curiosidade mórbida.

Bem feito.

Reflexões de sexta-feira

Nota do autor: os parágrafos em itálico foram retirados de uma notícia publicada pela Agência Estado no começo de um inverno qualquer, alguns anos atrás.

“Florianópolis – Nevou, nesta madrugada e ao amanhecer, na localidade de Cruzeiro, em São Joaquim, na serra catarinense. Segundo o Instituto Climaterra, a neve começou a cair às 4h30min, junto com chuva. Uma hora depois parou de chover, mas continuou nevando quase até às 6h. A temperatura mínima foi de 2 graus e a neve ficou acumulada em objetos nas ruas. Também foi registrada queda de neve bem fraca nesta madrugada em outros pontos de São Joaquim.”

E

ra pequeno, tinha uns oito ou nove anos, meu pai pediu uma máquina fotográfica emprestada (era uma Rolleyflex, com seu inconfundível visor quadrado e grande) e a gente saiu de Tubarão bem cedinho. Quando chegamos a Cruzeiro (um encruzo, como se dizia, próximo a São Joaquim) estava tudo quase branco. Tinha geado muito, amanhecia e o sol iluminava aquela paisagem fria e estranha. Na beira da estrada, de terra, as poças estavam com água congelada. A grama era quebradiça e lisa. E as fotos, em preto e branco, ficaram muito bonitas. Onde terão ido parar?

“A previsão para hoje é de céu claro, com poucas nuvens em Santa Catarina, mas há possibilidade de chuvas isoladas e ventos fortes no Planalto Sul e de nevoeiros nos vales, serras e baixadas. As temperaturas continuam muito baixas, devido à presença de um a massa de ar polar. A mínima em São Joaquim pode chegar a um grau negativo, e a máxima não deve passar dos 18 graus na região do Vale do Itajaí.”

A

h, esses dias frios e excessivamente luminosos de maio… a paisagem é tudo que um habitante de São Paulo poderia querer para fugir um pouco do concreto e dos tons de cinza com que convive. Pra gente, contudo, nem sempre é coisa muito boa. Quando coincide da alma estar cinzenta, nublada, o céu azul demais, o verde luminoso das árvores e a temperatura baixa resultam numa nostalgia de não sei o quê, numa névoa triste que desanima os olhos, esfria a ponta dos dedos e faz com que, mais rápido do que de costume, o peito se aperte e as lágrimas brotem. Aí, é claro, a paisagem fica desfocada e a luz diminui quando a gente fecha os olhos, entre um soluço e outro.

“O mar continua agitado, com ondas altas e possibilidade de ressaca em vários pontos do litoral catarinense. A Defesa Civil alerta para o risco de navegar em pequenas e médias embarcações. Na segunda-feira, as temperaturas caem ainda mais, e a mínima prevista é de 4 graus negativos em São Joaquim, com formação de geadas em todo o estado.”

Q

uando tinha tempo, no tempo em que isto aqui era uma cidade pequena, ia olhar o mar grosso (o mar aberto) em dias frios e ventosos. O mar e suas ondas têm poderes fantásticos: acalmam, ajudam a pensar, organizam os neurônios e enchem de iodo as feridas da alma. Uma vez, voltando da ilha do Campeche numa baleeira, pegamos o mar um pouco mais pesado, o vento estava mudando e começava a encrespar. O barquinho, quase uma canoa, ia lá em cima e depois descia, a hélice do motorzinho barulhento de dois tempos girava por alguns segundos fora dágua. Lá embaixo a gente só via as paredes de água, o vento tratava de molhar-nos. Um pouco mais e não teríamos consegido chegar ao porto. Depois daquela vez, quando sento-me a olhar o mar sinto como se estivesse ali, sendo jogado meio sem rumo, meio sem esperança. E o porto, ah, o porto, nunca está onde a gente espera que ele esteja.

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