• Postado por Tiago

Recentemente, fomos surpreendidos com a notícia da morte do misterioso Lombardi, dono da voz que embalava todos os programas apresentados por Sílvio Santos ao longo de quarenta anos na tevê. Morreu dormindo, o que para muitos é um prêmio de consolação e só a sua morte acabou com o suspense de saber que cara ele tinha. A contar pela única fotografia divulgada por todos sites que noticiaram seu falecimento, Lombardi era um senhor de meia-idade bastante comum. Talvez sua única excentricidade – vai saber – fosse pintar o cabelo a la Sílvio, no mesmo tom acaju, cunhado pelo onipresente cabeleireiro do patrão, o Jassa.

No dia seguinte, soubemos que havia morrido a atriz gaúcha Leila Lopes, que no início de carreira incendiou a imaginação dos marmanjos e “causou” entre as mulheres com seu ar de Lolita no papel de professorinha do interior. Falar dela é recordar o espanto provocado pela novidade de vê-la estreando não mais novelas ou ensaios ousados em revistas masculinas, mas sim filmes adultos com toda a explicitude anatômica desejada desde o seu aparecimento na telinha. Novo choque foi vê-la mais recentemente divulgando a empreitada, com o rosto (desnecessariamente) modificado por intervenções artificiais e com uma voz pastosa, enrolada, num ritmo de pilequinho, como se vivesse em uma rotação mais lenta – enfim, tão diferente daquela atriz que ganhara os holofotes anos antes com um papel mais do que inocente, e, por isso mesmo, um fetiche.

O que ambas as mortes teriam em comum, já que Lombardi e Leila eram pessoas tão diferentes, com carreiras intangíveis? Aparentemente, nada. Contudo, os dois representaram personagens cuja vida real jamais esteve acessível a qualquer um de nós, que passaram pela vida representando constantemente um papel e não tiveram a oportunidade de se exibir como gente comum, de carne, osso e pensamento.

Lombardi provocou por décadas o imaginário popular com aquela voz grave, sorridente e bem-humorada. Leila impressionou no início pela beleza natural e fresca, pelo tipo brejeiro e mais tarde pela guinada radical que deu à profissão. Em nenhum momento de suas vidas se pôde saber muito sobre um ou outro. Lombardi, por fidelidade contratual, por décadas escondeu o rosto e abafou a vaidade, pagando o preço de ser o locutor mais famoso do país sacrificando o ego do reconhecimento público. Leila, tendo passado pela fase de símbolo sexual e por alguns anos de ostracismo, sabe-se lá se por falta de oportunidades mais glamourosas, sujeitou-se à exposição mais íntima de sua figura sem que jamais se pudesse compreender as razões pelas quais uma pessoa com o seu potencial não conseguiu repetir o sucesso e o prestígio experimentados no passado.

Nos dois casos, as notícias das mortes foram recebidas com pesar fora do normal. Por Lombardi, lamentou-se a perda de uma voz insubstituível e o fim de uma era na televisão brasileira. Por Leila, lamentou-se a beleza desperdiçada, as escolhas duvidosas, a morte no auge da vida. Nem toda a fama, glória e polêmicas podem mudar o fato de que, na hora da morte, somos todos iguais. O fim é o mesmo e é certo para qualquer um. A diferença é o que fazemos nesse meio tempo e pelo que queremos ser lembrados na hora em que o tic-tac cessar e nosso tempo aqui expirar.”

Ass: Daiana Franco Nogueira

(Transcrito ipsis litteris)

  •  

Deixe uma Resposta