• 16 jan 2010
  • Postado por Tiago

DIARINHO – Com o crescimento da cidade e a presença cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho, a demanda de vagas na educação infantil tende a aumentar cada vez mais. Como fazer pra suprir a demanda das creches, já que já faltam vagas hoje, e proporcionar uma educação de qualidade nesse início de vida escolar das crianças?

Maria Heidemann – Esse é o grande desafio do sistema municipal, que tem a educação infantil como responsabilidade exclusiva sua, a partir da nova LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação]. A partir dessa lei a educação infantil entrou no quadro da educação, pois até então ela estava vinculada à assistência social. As mulheres estão fortemente no mercado e isso faz com que a demanda da educação infantil seja diária. A cada momento surge uma necessidade e nós trabalhamos contra essa demanda diuturnamente. Além de ter essa necessidade urgente de três mil vagas, essa é a educação mais cara que se tem. Porque nós trabalhamos com uma criança que, em tese, já entra pra período integral. Pra turmas que se constituem de um número menor de alunos, que vai de 12 a 25 crianças, dependendo da idade. Turmas que precisam de um professor com dedicação de 40 horas e mais dois agentes de atividade em educação, um no período da manhã e outro no período da tarde. Num lugar onde é servida alimentação completa, material de higiene, limpeza e por aí vai. Diante desse quadro, uma criança chega a custar para nós, em média, cinco mil reais por ano. E o custo dessa criança pelo Fundeb [Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação] está em trono de 1,4 mil reais por ano. Então o investimento do município é muito grande. É uma política injusta. Ficamos com a pior parte e temos que ficar buscando soluções. Durante o ano que passou, nós conseguimos matricular apenas 400 novas crianças. Diante do quadro difícil que tínhamos, o município investiu 32% daqueles recursos destinados à educação, que constitucionalmente seriam 25%. Nós não conseguimos ampliar escolas. Fizemos a nossa tarefa: organizamos, estruturamos e melhoramos o que podíamos. E o que vamos fazer agora? Em primeiro lugar nós temos a criação de oito novas unidades de educação infantil distribuídas em toda a cidade, começando pelo Espinheiros, vindo até a praia Brava e Fazenda. Além disso, fomos fazer o nosso dever de casa junto ao ministério da Educação e ao FNDE [Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação], fazendo o nosso plano de ação articulada que é um planejamento sem o qual você não adianta pedir recursos que você não vai receber.

DIARINHO – Sempre foi clássico no movimento sindical a luta por creche para que as mães trabalhadoras possam deixar os seus filhos e irem ao mercado de trabalho. O sindicato tem pressionado os dirigentes públicos para o aumento do número de creches? O que está sendo ofertado para o futuro é suficiente para dar conta dessa demanda?

Marcus Sodré – A gente esteve num embate com os dirigentes municipais de educação na câmara de vereadores, na audiência pública que discutiu a municipalização do ensino fundamental. Esse é um dos pontos que nos leva a combater a municipalização porque é uma das áreas que mais exige investimentos. Isso vai sobrar, no caso de Santa Catarina, pro ente da federação que menos arrecada. A responsabilidade única e exclusiva da rede municipal é o ensino infantil. A gente sabe que praticamente nenhum município consegue atender 100% da demanda. Infelizmente, pela postura do governo do estado, a gente não tem conseguido. Nós estamos há dois anos sem conseguir nenhum tipo de audiência com o secretário estadual da Educação. Nós temos feito lutas mais gerais que caminham no sentido de preservar e buscar o aumento de matrículas na educação infantil.

DIARINHO – Onde é que está a academia nesse momento em que a sociedade pede mais creches para as crianças? Qual é o papel da universidade nisso?

Marialva Spengler – A universidade tem se preocupado muito, tanto é que o nosso curso de formação de professores prioriza a formação para o atendimento de zero a seis anos. Nós temos, no nosso curso, na grade curricular do curso de Pedagogia, uma carga bem grande para que o professor tenha conhecimento para poder trabalhar com essa clientela. Discute-se muito a situação da educação infantil. A gente sabe que é necessário as crianças terem uma escola que não só educa, mas que cuida e brinca, especialmente. Nós discutimos muito isso dentro das nossas aulas, que a educação infantil tem que servir para a socialização da criança e não para ensinar o bê-á-bá, como acontecia tempos atrás. A criança tem que brincar e interagir com outras crianças. Eu, como mãe e como professora, acho que os primeiros anos da criança devem ser ao lado da família. Infelizmente, hoje a família não tem mais condições de fazer isso e a gente já está vendo o reflexo dessa situação na nossa sociedade. Não tem escola que possa substituir o aconchego do lar. Tem criança de um mês que já vai pras escolas infantis. Eu acho isso lastimável.

DIARINHO – Na educação há basicamente duas correntes teóricas, uma que dá mais ênfase ao desenvolvimento humano do aluno e outra que preconiza o ensino técnico e profissionalizante, com vistas a inserir a pessoa no mercado de trabalho. Qual deve ser a opção de educação pública? Ou existe como fazer as duas coisas ao mesmo tempo?

Maria Heidemann – Eu penso que a formação deveria ser mista. Principalmente nas séries finais do ensino fundamental, adentrando o nível médio. Deveria entrar ainda com fundamentos humanísticos, mas também com uma orientação para o trabalho. Um dos grandes problemas que a gente encontra é na qualificação profissional. O mercado existe, existe uma necessidade, uma exigência, mas não existe essa qualificação. A rede municipal prepara para o trabalho no sentido de ser um bom leitor, um bom escritor, alguém que calcula bem, que são elementos fundamentais para a inclusão no mercado de trabalho. Vamos entrar agora com um projeto de educação integrada. Fala-se muito da formação em tempo integral, o que é sonho pra nós. Se eu tenho dificuldade de atender a todos no tempo parcial, imagina falar em tempo integral. Eu desisto da ideia de tempo integral e parto para um ideia de educação integral. Já temos um projeto e vamos trabalhar na perspectiva da intersetorialidade. Uma educação transversal dentro do próprio governo, buscando, no período de contraturno, o desenvolvimento de outras habilidades e conhecimentos que o aluno precisa para a vida dele.

DIARINHO – Com o suporte que o estado dá para a formação dos professores hoje é possível acatar a proposta de educação mista defendida pela professora Maria Heidemann?

Marcus Sodré – Eu penso que não é possível a gente querer educar as pessoas como no início da revolução industrial, só para apertar parafuso, só com a educação técnica. Até porque esse trabalhador vai estar envolvido e vai ter que tomar decisões no cotidiano do seu trabalho. O problema é que hoje na educação, dentro desse projeto implementado em todos os níveis de governo com o modelo neoliberal, a preocupação não é a formação em si, seja ela técnica ou humanista. Na verdade, o que se busca hoje na educação é simplesmente dar o básico do básico do conhecimento para que essas pessoas entrem no mercado de trabalho e, por si próprias, elas busquem a sua qualificação. A gente tem visto que isso tem sido um desastre completo. Antigamente, se a fábrica comprava uma máquina nova, ela dava qualificação pro trabalhador operar essa máquina. Hoje a indústria compara a máquina e diz: ?Eu vou contratar um operário especializado em qualquer lugar do Brasil pra que ele opere essa máquina. Os que eu tenho aqui não têm essa formação e não é minha obrigação dar essa formação?. O que a gente tem visto é essa falta de qualificação do trabalhador, que é jogada exclusivamente nas costas dele. É colocado como se fosse culpa dele. Por outro lado, as pessoas não veem que o desenvolvimento tecnológico é extremamente acelerado. Com o salário que as pessoas têm hoje, elas mal conseguem se manter. Eu acho que o estado busca investir cada vez menos na educação. Enquanto nós tivermos no Brasil a educação orientada por políticas de fundo [Fundeb, FNDE], ela não avança porque vai ser sempre um recurso muito menor do que o necessário pra investir. Outros países que conseguiram avançar em educação foi a partir da política de percentual do PIB [Produto Interno Bruto] pra investir na educação. Enquanto nós não invertermos essa lógica, a educação no Brasil não avança. Seja do ponto de vista da formação técnica, seja do ponto de vista da formação humanista, de nenhuma maneira a educação avança nesse sentido.

DIARINHO – A professora acredita que com a formação proporcionada hoje nas universidades, os nossos professores têm capacidade de lecionar dessa maneira mista, unindo o ensino técnico e o humanista?

Marialva Spengler – É cobrada do profissional a competência técnica dele. Eu vou ensinar, eu tenho que saber o que eu vou ensinar. Eu vou trabalhar, eu tenho que saber no que eu vou trabalhar. Há a necessidade de qualificar o profissional para o mercado de trabalho, só que isso só não basta. Você tem que qualificar o profissional, na escola comum ou na escola profissionalizante, mas ele também tem que ter essa outra parte humanística para ele se manter no mercado de trabalho. Porque hoje, qualquer página de jornal que você abre para ler sobre o mercado de trabalho diz que o profissional tem que ter competência técnica, mas ele também tem que saber se relacionar com os seus pares. Saber lidar com gente. Eu sempre digo para os meus alunos que onde tem gente, tem confusão. Porque as pessoas têm ideias diferentes e então entram em conflito, entram em atrito. Mas esse não é o problema. O problema é não saber administrar esses atritos, essas confusões que acontecem no mercado de trabalho. Aí que falta a parte dos relacionamentos afetivos, relacionamentos inter e intrapessoais…

DIARINHO – Qual a importância da inclusão das novas tecnologias nos processos de ensino e aprendizagem?

Marialva Spengler ? Agora pegaram o meu ponto fraco. Eu sou que nem o Roberto Carlos, eu não sou contra o progresso, mas apelo pro bom senso. Eu acho maravilhoso tudo o que nós temos aí, porém, isso tem que estar a serviço nosso e não nós a serviço da tecnologia. Nós nos tornamos escravos. Em vez de aproveitarmos essa tecnologia para nos aperfeiçoarmos, para melhorar o nosso trabalho, nós não vivemos mais sem fazer uma pesquisa na internet. Nós não podemos fazer nenhum trabalho se a gente não consegue acessar a internet. Nós nos tornamos dependentes da tecnologia. A gente percebe muitos alunos que não conseguem mais fazer nada se eles não carregarem a maquininha deles para cima e para baixo. [Mas há uma maneira de usar isso sem se deixar escravizar?] Há. Eu acho que há. Nós estamos procurando essa maneira. A maneira é ter outras formas de acessar o conhecimento. A gente não pode ficar só em cima das teclas, tem que vislumbrar outras coisas. Leituras de livros, livros mesmo, de papel, lazer, as crianças tem que ter ocupação e elas se ocupam do que está na frente delas. Se nós oferecermos outros tipos de ocupação, outras formas de aquisição de conhecimento, elas vão acessar.

DIARINHO – Os professores estão preparados pra novas tecnologias?

Maria Heidemann – Tenho que dizer que realmente estamos escravos. Na rede municipal nós temos ainda dificuldade. Os nossos alunos têm acesso facilitadíssimo e o nosso professor tem medo de usar. E como ele não sabe usar, ele tem medo de orientar para o uso. Isso freia um pouco o uso, mas por outro lado se perde algumas possibilidades de melhorar. [Até porque algumas pessoas só vão ter na escola essa oportunidade de ter contato com a nova tecnologia…] Sim. E hoje, nas escolas, ainda estamos com algumas dificuldades, mas cada vez mais essa tecnologia está entrando na escola. A tecnologia não dá pra deixar sem porque também é uma forma de preparar para o mercado de trabalho. A maioria não tem condições de fazer cursinho, mas na escola aprende a dominar o instrumento da informática. Tem o aspecto positivo.

DIARINHO – Demorou pro estado abandonar o giz e o quadro e entrar nesse mundo virtual?

Marcus Sodré – Na minha opinião não demorou, está demorando. Na prática, nós continuamos com o quadro e o giz. Quando se fala em nova tecnologia, eu sinto falta de uma velha tecnologia que é o dvd. Eu não diria que o professor tem medo da tecnologia. Na verdade, o professor vive numa perspectiva de acúmulo de carga horária de trabalho. Eu leciono 50 horas e conheço pouquíssimas pessoas que têm menos de 60 horas, porque com o salário de 40 horas semanais de trabalho não é possível viver. Nós nos obrigamos a trabalhar a jornada máxima, que são 60 horas, quando alguns não dão o jeitinho brasileiro de trabalhar 70 ou 80 horas. Eu diria que não é medo em si da tecnologia. Nós temos falta de recursos para que esses profissionais tenham acesso à tecnologia. [E já foi feita essa conversa com o estado sobre essa necessidade de renovação?] Esse governo trouxe uma pessoa para a secretaria de Educação que sabe ganhar dinheiro com educação muito bem. Não só com educação, mas também em Brasília, pelo que a gente viu no noticiário, que criou ao redor da secretaria de Educação um corpo de burocratas que não ouve a comunidade escolar, não ouve os trabalhadores da educação. Mesmo em algumas escolas onde existe o laboratório de informática o acesso é bastante limitado porque o professor não tem o tempo necessário para se preparar. Foi aprovada em 2008 a lei do piso salarial nacional para o magistério público e essa lei foi questionada pelo nosso governador na justiça. Essa lei tinha uma coisa que pra nós é fundamental, que era a ampliação da hora atividade do professor para 33%. Isso permitiria que nós tivéssemos mais tempo para preparar as aulas, para corrigir, refazer o planejamento, incluir as novas tecnologias, buscar usar mais o laboratório de informática nas escolas em que ele existe.

DIARINHO – Muitas crianças crescem com computadores em casa e têm uma visão completamente diferente do acesso à informação do que aquelas – que também são muitas – que ainda não possuem essa tecnologia. Como fazer, na escola, pra não atrasar o desenvolvimento daqueles que já usam o computador e também não excluir os demais?

Marcus Sodré – A gente sabe que na rede estadual e na municipal existem muitas crianças ainda que não têm contato com o PC. Daí a importância de nós termos essa tecnologia na escola. É inexorável o uso do computador porque ele está no cotidiano, seja na padaria, no supermercado, em todos os lugares, nas lojas, pra não falar da indústria. O computador está presente. Os nossos alunos se formando ou nem se formando, tendo certa idade, vão trabalhar e vão precisar saber usar essa tecnologia. Só que nós vamos precisar de um número maior de computadores. Não basta nós termos 10 computadores para atender toda a escola, que tem 1,2 mil alunos. Não dá para ter 10 computadores para atender uma sala onde existem 40, 45 crianças. É uma média de quatro crianças por computador. Precisamos ter, além do professor das disciplinas, uma pessoa habilitada em computação para trabalhar nas escolas.

DIARINHO – Professora, esse desafio é de quem está no dia-a-dia, no cotidiano da escola. O professor se pergunta: ?E aí, como é que eu vou ensinar quem já está avançado nesse conhecimento e também quem nunca viu as novas tecnologias?? É um desafio ainda de quem dirige e faz as políticas de educação, que tem que dar esse suporte. Mas também é um desafio para quem forma os educadores. A universidade tem pensado sobre isso? Essa situação é uma demanda presente, uma preocupação? E como tem sido destrinchado esse problema?

Marialva Spengler ? Por incrível que pareça nós recebemos na universidade alunos, ainda, que também não sabem lidar com essa tecnologia. Agora os nossos cursos de formação de professores não têm mais matrícula presencial. Os últimos ingressos, os últimos semestres, foram todos à distância. Então eles são obrigados a conhecer um pouco dessa tecnologia para acompanhar as aulas. Mas quando ingressam no curso eles não sabem nada! Então eles próprios vão ter que ir se virando, sem professor, mas com um amigo, com alguém da família que sabe, para poderem acompanhar as aulas. Porque eles têm fórum de discussão, daí têm que entrar no sistema para poder acompanhar. Eles têm trabalhos para postar. Eles têm aulas para poderem acompanhar. Por isso eles têm que conhecer. E eles têm uma disciplina de tecnologia da informação. Então o aluno tem que se virar. Ele tem que dar um jeito. [Mas, professora, uma coisa é alguém com 20, 30, 40 anos ou 50, que seja, como existem aí universitários nessa idade, indo buscar esse novo conhecimento, aprendendo novas tecnologias, outra é uma criança de sete, oito, nove ou 10 anos que se depara com essa situação. Uma coisa é um adulto buscar um novo conhecimento, outra coisa é uma criança, filha de um trabalhador, que jamais viu um computador na frente…] Mas se tu pões um computador na frente de uma criança com sete ou oito anos, ela vai destrinchar com muito mais facilidade do que um adulto de 30, 40 anos. O adulto, como disse a professor Maria Heidemann, tem medo de mexer no computador. A criança é curiosa. Ela, num instantinho, já destrincha tudo.

DIARINHO – Vamos falar de temas antigos. Os professores continuam reclamando das mesmas coisas que reclamavam há 20 anos: baixos salários, pouca estrutura na sala de aula, pouco incentivo à formação e atualização profissional. O que temos que fazer para que, daqui a 20 anos, o professor não esteja reclamando ainda das mesmas coisas?

Marcus Sodré – Acho que a essência, aí, é a forma de financiamento da educação. Ou talvez a vontade política de fazer. Dinheiro o Brasil tem. Estamos aí há 20 anos, 30 anos, 40 anos reivindicando as mesmas coisas. Por quê? Porque não existe essa vontade política de fazer. Criou-se nos últimos anos essa política de fundos como forma de financiamento da educação e que já se mostrou insuficiente. Não financia nada. O valor do custo-aluno é muito abaixo da realidade. Enquanto a gente não inverter essa lógica, pra nós não tem solução: nós vamos continuar brigando por salário, nós vamos continuar brigando por mais tempo pra preparar as aulas com qualidade. Isso, se a gente está pensando realmente em uma educação de qualidade, em uma educação transformadora, uma educação global e não só pontual ou técnica. Na prática, a minha opinião é essa: existe a necessidade fundamental, primeiro, de ter a vontade política de fazer e segundo de inverter essa lógica aí. [Além dos fundos, existe a possibilidade de ter outra origem de recursos?] Então, se tiver uma vontade política, na minha opinião, sim. Porque a gente precisa vincular os investimentos em educação, obviamente também em saúde, talvez segurança, em relação a um percentual de investimento do PIB. Isso é plenamente possível, desde que se inverta a lógica que está instalada no país inteiro, que é a lógica neoliberal do estado mínimo. A gente está vendo cada vez mais o estado investir menos nas áreas sociais. Pra nós, trabalhadores da educação, a educação não muda em Santa Catarina e no Brasil inteiro enquanto não mudar essa lógica de estado mínimo, de investimento cada vez menor e não maior em educação. O resto é discurso político de candidato. Não se faz educação sem investimentos.

DIARINHO – A professora acha que há a possibilidade do estado [governos federal, estadual e municipal] aumentar o investimento em educação? Não utopicamente. Existe realmente essa possibilidade, existe essa margem orçamentária ou quem sabe o estado deve abrir mão de certos pedaços da formação para ter mais recursos e focar em partes específicas?

Maria Heidemann – Eu concordo até quando se fala em vontade política. Eu hoje, pela primeira vez, ocupo um cargo político. Pela primeira vez eu estou ocupando um cargo de decisão, em que tenho poder de decisão. Pela primeira vez em Itajaí a educação fez o seu orçamento e eu fui a fundo. Porque nós, na educação, estamos acostumados a fazer o que os outros pensam. Eles pensam e nós fizemos. Então, se o contador diz que pode, a gente faz. E o que é que a gente fez? Peguei um grupo meu, que disse: ?Todo mundo vai estudar e vamos ver o que a gente pode fazer com esse dinheiro que está orçado para a educação?.

Enquanto o custo-aluno estiver como está, em torno de R$ 1,7 mil por ano, quando no município, na realidade, este aluno custa em torno de R$ 3 mil, nós não temos condições de fazer milagres. Enquanto não se modificar essa questão desses 18% [para o investimento em educação] no nível federal – e são 18% de determinados impostos e não do orçamento inteiro! -, e 25% nos estados e municípios, nós ficamos amarrados a essa condição financeira. Eu queria ser aquela pessoa que pudesse fazer a diferença. É um sonho, é sonho! Nós vivemos com recursos próprios, com aquilo que está no orçamento, com aquilo que é permitido pelas legislações hierarquicamente superiores. E é dentro dessa administração financeira que o município tem que trabalhar e dar conta daquilo que a população espera, precisa e paga pra isso.

DIARINHO – A universidade, o curso de pedagogia, não pensa muito no que diz respeito à gestão da educação ou existe alguma proposta teórica para mudar essa questão do financiamento da educação?

Marialva Spengler – Na verdade, gestão é um tema novo que está sendo discutido no curso de pedagogia. Hoje os pedagogos estão saindo da universidade habilitados para trabalhar. Devem sair habilitados para trabalhar como gestores. [Mas, professora, o curso de pedagogia com habilitação em administração escolar não é antigo? Ele não pensava na gestão como um todo?] É, é antigo. Mas o administrador escolar, naquela época, era o fazedor, não era o pensador. Hoje ele é pra ser o pensador. A professora Maria Heidemann é administradora escolar, mas ela trabalhou na escola fazendo o que outros decidiam. E hoje se pensa no gestor como aquele que realmente faz toda a gestão da escola. Só que até isso ser implantado, para fazer diferença na escola, vai demorar mais uns 20 anos. As coisas na educação são muito lerdas. Por isso nós estamos 20, 30, 40 anos reclamando realmente das mesmas coisas, porque elas demoram a ser operacionalizadas. Tudo continua a mesma coisa. Eu não fiz a diferença. A gente ia para Florianópolis, nas assembleias que tinha lá, nas passeatas, ia levantar bandeira e essas coisas, e a professora Ideli Salvatti, que é a nossa senadora hoje, ela também levantava a voz sobre essas mesmas coisas. Ela foi eleita e eu pergunto pra vocês: o que mudou na educação? E ela foi eleita com propostas para realmente fazer a diferença pra educação. E qual é a diferença que ela está fazendo? Ela está seguindo o caminho dos outros, infelizmente. Eu tenho vergonha de dizer isso, mas é o que está acontecendo. Então, realmente, o professor Marcus está com a razão quando fala que falta vontade política. Dinheiro existe. Existe dinheiro. Mas é mal administrado, ele não é bem dividido. Ele não é aproveitado da forma como deveria ser. Infelizmente, vai pro bolso daqueles que não precisam.

DIARINHO – Mas, professora Marialva, nós temos na história brasileira grandes educadores, como o antropólogo Darci Ribeiro, que teve uma função importante na modernização da educação brasileira, na formulação da lei de diretrizes e base, como Cristóvão Buarque, que é um grande nome da educação brasileira…

Maria Heidemann – Paulo Freire, que foi secretário de educação da cidade de São Paulo…

DIARINHO – Mas não houve grandes mudanças quando esses grandes nomes foram gestores da educação, com exceção do Rio de Janeiro, quando Darci Ribeiro influenciou a criação dos Cieps, que aqui a gente chama de CAIC e que foi uma revolução na década de 80. Mas parou por aí. Então esse problema da educação não seria estrutural? Não deveria partir dos trabalhadores da educação as mudanças?

Marialva Spengler – Isso eu também queria dizer. Quero completar colocando isso. Enquanto nós só reclamarmos, a coisa não avança, porque a coisa vai ficar só da boca pra fora. Tem que ter ações. Nós temos que agir. Mas como é que nós vamos agir? A Ideli Salvatti agiu. Chegou lá no topo, quase no topo. Mas e daí?

DIARINHO – Como você vê a situação dos professores que chegam para trabalhar com você? Eles estão preparados? A universidade os está formando adequadamente? Eles chegam aptos para lecionar?

Marcus Sodré – Eu tenho visto em alguns cursos – não sei precisar em qual universidade que eles estão cursando -, mas esses cursos têm o período de estágio. Na universidade onde eu estudei, a universidade Católica de Santos, eles chamavam de estágio supervisionado. O meu estágio supervisionado na verdade não foi estágio. A professora encarregada de supervisionar o meu estágio ela francamente nos disse que não tinha condição de fazê-lo, seja por falta de pagamento por parte da universidade ou por diversos outros fatores, pelo número de alunos, etc. Então, na prática, eu não tive o estágio. Eu terminei agora dezembro com três alunos-professores de uma universidade aqui da região, estagiários, que foram para a sala de aula, assistiram algumas aulas e depois ministraram duas ou três aulas como parte do estágio supervisionado. Mas a supervisão do estágio ficou a meu cargo, porque a professora não apareceu. Na verdade, eu creio que o aprender a lecionar é a prática. Eu tive minhas dificuldades. Eu tive que ir me adaptando, seja ao ritmo da escola e dos alunos, porque cada nível de ensino é uma forma de se relacionar e de ensinar diferente. Eu ainda não tenho uma opinião formada a respeito dessa questão do ensino à distância. A princípio, eu tenho muitas ressalvas porque eu cursei a universidade presencial e acho que, por mais que se tenha os fóruns de debate na internet durante os cursos de formação à distância, o convívio e a troca que esse convívio diário permite é muito superior a qualquer troca.

DIARINHO – Por que os professores não aparecem pra fazer a supervisão dos estágios?

Marialva Spengler ? O professor responsável pelo estágio teria que acompanhar o aluno em, pelo menos, uma das aulas. Mas o que acontece? Nós somos professores horistas. Nós ganhamos para trabalhar quatro ou seis horas/aula na prática docente e essas horas são utilizadas na sala de aula para orientação dos alunos. Quando uns alunos vão para a prática, normalmente, nós estamos atendendo outros alunos. Então nós temos que ir em horários extras. Normalmente as aulas de prática na universidade são noturnas e os alunos vão durante o dia para o estágio nas escolas. Eu tenho possibilidade de ir porque eu não tenho outra atividade durante o dia, mas muitos professores têm outras atividades e não podem ir. Eu vou no meu horário livre, eu vou com o meu carro, eu gasto com combustível. Eu facilito pro aluno: se ele mora lá em Bombinhas, eu vou lá na cidade pelo menos em uma aula dele. Converso com a direção, converso com a professora. Eu posso fazer isso. Eu faço isso em atenção ao meu aluno. Ele merece ser acompanhado. E eu ainda tenho que pedir desculpas porque não faço a supervisão que ele merece. [Falta então estrutura da universidade?] A universidade até diz que dá estrutura, mas não existe. Na prática não existe. É a boa vontade de cada um de nós. Vocês podem conversar com qualquer professor de prática docente ou estágio que vão encontrar essa dificuldade.

DIARINHO – Os professores estão vindo mal formados pra sala de aula? De quem é essa responsabilidade? É a academia que não está formando direito? É o estado que não se preocupa em cobrar essa formação? Ou a culpa é do próprio professor?

Maria Heidemann – A formação é deficitária porque eu entendo que há a falta de confronto ou um equilíbrio entre teoria e prática. O nosso professor sabe fazer discurso. Tanto que ele passa nos concursos e esses concursos não são feitos por qualquer pessoa. É uma elite da universidade que faz a prova. O professor chega a passar com nota 10. Uma professora, um dia desses, me tirou do sério. Ela disse: ?A senhora tem que ter paciência comigo, é o meu primeiro ano de magistério?. Eu respondi: ?E se a senhora fosse diante de um médico e o médico errasse, ele também poderia dizer que era para ter paciência com ele porque era o primeiro ano dele como médico?? Eu vejo muitas crianças sendo mortas na sua autoconfiança, na sua autoestima, quando isso acontece. Não culpo o professor, não. Na formação inicial tem esse problema da teoria versus a prática, que é muito bem resolvido em outras áreas – na medicina e em outras áreas. Nenhum dentista trabalha como dentista antes de ser formado. O professor trabalha. E ele cria certos conceitos e o professor, na universidade, não consegue modificar esses conceitos. Na educação, eu cansei de escutar de grandes chefes meus: ?O caminho se faz ao caminhar. A gente aprende a fazer, fazendo?. Mas na educação eu não posso. Eu estou prejudicando. A formação dos professores atualmente se dá, na verdade, no interior da escola. [Mas é um problema de opção? Não é comum ver pessoas dizendo que querem ser professoras, que querem ensinar as crianças que vão ser o futuro do Brasil. Elas vão para o magistério e para a pedagogia porque é mais fácil o ingresso na universidade e porque têm um salário garantido depois que passam num concurso…] Eu vou falar da minha classe e é duro que a gente tenha que também falar dessas coisas. Boa parte busca isso também. Um campo mais viável, mais possível e mais seguro. É pouco que se ganha, mas é garantido. Infelizmente, tem esse aspecto. Eu sou professora, nasci disso e me fiz disso. Eu não tenho um tostão fora disso e vivo feliz dentro desse trabalho, sou muito feliz como professora. Eu vejo que muita gente tem se desencantado pela educação. Tem vocação, gosta, e tem se desencantado. Pessoas de conhecimento, de fundamento, que lutaram pela educação e não conseguiram ver as suas intenções e os seus ideais realizados.

DIARINHO – Do meio para o final do século passado, era determinante para quem quisesse vencer na vida fazer um curso superior. Nos últimos anos, porém, mesmo com o canudo em mãos, muita gente tem tido dificuldade de se inserir no mercado de trabalho e pior: dificuldade de obter retorno financeiro do dinheiro que investiu para cursar a universidade. Para encerrar então o nosso debate, que conselho vocês dariam, hoje, para um adolescente que está se preparando para escolher o seu rumo profissional?

Marcus Sodré – Antes é preciso dizer algumas coisas. Em todas as profissões nós temos bons e maus profissionais. Se o médico faz uma especialização, vai trabalhar naquela especialização e vai ter uma renda razoável, no mínimo. O professor que faz a especialização e o professor que faz mestrado na rede pública estadual, ele tem um acréscimo de 100 reais no salário. A professora Marialva comentou sobre a ex-professora Ideli que acabou eleita senadora e que poderia fazer a diferença e não fez. Eu diria mais. Eu diria que durante duas décadas a classe trabalhadora desse país construiu um projeto político e um partido político que colocou no imaginário popular que, quando chegasse ao poder, faria a diferença. Esse partido conseguiu chegar ao poder e o que nós temos visto é mais do mesmo. Do ponto de vista político e econômico, o governo Lula tem simplesmente dado continuidade à política neoliberal implementada pelo Fernando Henrique e pelo PSDB. As coisas não mudam no Brasil porque o sistema está podre. O que nós temos visto é o estado financiar a iniciativa privada. O governo federal tem um projeto de educação que é o ProUni, que compra vagas nas universidades privadas. Em vez de usar todos esses recursos pra ampliar e construir novos campi de universidades públicas, ele compra vaga na universidade privada. Com essa compra, ou com as isenções fiscais que são dadas, ele poderia dobrar o número de vagas nas universidades federais. Agora sobre a formação, o que tenho dito para os alunos é que procurem uma área que tenha trabalho, que tenha mercado. Eu não acredito que, trabalhando honestamente, pagando os impostos desse país, que são altíssimos, ninguém fique rico. Então eu digo aos alunos: ?Olha, somos filhos de trabalhadores, vamos ser trabalhadores e não vamos ficar ricos trabalhando, desde que trabalhemos honestamente. Então escolham uma profissão que vocês gostem, porque vocês vão exercer essa profissão pro resto da vida?. Você tem que fazer do seu cotidiano uma coisa prazerosa.

Maria Heidemann ? Pra ser professor não tem como não ser alguém que seja um estudioso, um pesquisador. Para a população é importante ter um curso superior. É importante que se tenha uma qualificação profissional adequada e ela também pode se dar no nível médio. A Constituição fala que a educação é dever do estado, da família e da sociedade. É preciso que a família faça a sua parte também. Que as empresas façam a sua parte, cobrando dos pais que tenham os filhos na escola. Que a igreja faça a sua parte, que o governo faça bem a sua parte. Mas que os pais estejam envolvidos, porque não há professor que dê conta dessa garotada cheia de vida e tão motivada para tantas coisas quando a família não é a favor do professor também. A família tem que ouvir o professor antes de acusá-lo.

Marialva Spengler – Não é um curso superior que vai garantir o acesso e a ascensão na vida profissional. Para você ter sucesso na sua profissão você tem que se conhecer para saber o que você gosta de fazer. Eu vou passar pelo menos um terço da minha vida trabalhando. Então eu tenho que fazer uma coisa que me dê prazer. O ideal é que me dê prazer, um retorno para a sociedade e um retorno financeiro para mim. Ter o conhecimento de si mesmo, o conhecimento das possibilidades do mercado de trabalho e cruzar essas informações. O que o mercado de trabalho precisa? Eu me encaixo nisso? Não necessariamente eu tenho que ter um curso superior para isso. Fazendo um curso técnico talvez eu possa também deslanchar no mercado de trabalho.

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