• Postado por Tiago

Socorristas são apaixonados pela profissão, mas ainda se surpreendem com a morte

Fotos e textos: Dagmara Spautz

Já passa das 20h. A noite de segunda-feira, dia 4 de janeiro de 2010, é de chuva, e começou agitada na base do sistema de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Itajaí, na avenida Adolfo Konder, bairro Cidade Nova. Enfermeiro e socorrista voltam do primeiro atendimento do plantão, enquanto o médico cuida da transferência de um motoqueiro acidentado, do hospital Santa Inês até o Marieta.

A equipe de trabalho se encontra meia hora depois. Douglas Falleiros Ortiz, 28 anos, é o médico, Walter Vargas Junior, 42, o enfermeiro, e Sidclei Pereira, 38, o socorrista desta noite em terras peixeiras. Mal o trio se reúne, o celular de Douglas dá o sinal de alerta: uma senhora tem uma convulsão das feias na Itaipava. No Samu de Itajaí, como nas outras cidades da região, a comunicação é feita por celular, ou pelo rádio da ambulância. As informações vêm da central de regulação, em Balneário Camboriú, onde todos os chamados são atendidos.

Desta vez é dado código um, a permissão pra que a ambulância ligue a sirene e voe baixo pra chegar o mais rápido possível ao paciente. A tensão toma conta da equipe. Douglas, que é o coordenador do Samu na região da foz do rio Itajaí, explica que uma convulsão é grave, porque pode indicar uma porção de problemas. ?Pode ser uma epilepsia, alcoolismo, ou até um derrame. Enquanto o paciente está em crise, ele fica sem respirar?, conta.

O médico e o socorrista, que é também o motorista da UTI móvel, vão nos bancos da frente. Walter, o enfermeiro, veste as luvas e separa os remédios que poderão ser usados pra salvar a vida da mulher que espera ajuda. O caminho é longo, e pra complicar ainda mais a situação, faltam placas com os nomes das ruas. Geralmente, os atendentes anotam um ponto de referência pra facilitar a localização, mas no interior, onde as casas são distantes umas das outras, a referência é sempre mais difícil.

A ambulância chega a entrar na rua errada, o socorrista manobra e, por fim, encontra o caminho. É numa casinha humilde, quase escondida, que está a paciente. Ela e seus familiares não terão os nomes revelados, pra garantir sua privacidade. Walter lembra que não é a primeira vez que eles aparecem por ali.

A mulher tem 40 anos, e tá deitada na cama. A crise já passou, mas ela ainda se sente muito mal. Ao seu redor tão os filhos, a mais novinha de seis anos, que ficou apavorada quando viu a mãe se debater por conta da convulsão. Douglas pede que a paciente segure suas mãos com força, pra tentar identificar algum sinal de derrame, e dá uma geral no estado da coitada. Por sorte, tá tudo bem. Desta vez, não vai ser preciso interná-la.

A cunhada dela, que mora ali perto, diz que já é a sexta convulsão que a pobrezinha tem nos últimos tempos. ?Ela foi no postinho, mas a médica disse que não era nada. Fez uns exames de urina e de sangue. O problema é que é difícil arrumar consulta, e ela tá precisando de ajuda?, preocupa-se.

Na certa, os exames pedidos pela médica não devem mesmo ter acusado nada demais. Douglas diz que a doença que ela tem é uma epilepsia, que poderia ser facilmente controlada com a medicação correta. Mas não aparece em testes simples de urina ou de sangue. Apagar incêndios da saúde pública capenga também é uma das missões do Samu.

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