• Postado por Tiago

As medidas compensatórias são uma forma de legalizar os crimes ambientais
Marcus Polette pode ser considerado, de certa forma, uma universidade ambulante. Assim como a instituição em que trabalha e defende, o professor paulista divide seus esforços em três áreas. No ensino, levando o conhecimento que tem aos alunos da universidade. Na pesquisa, produzindo conhecimento científico nas áreas da geografia e oceanografia. E, na extensão, levando esse conhecimento produzido à sociedade e tentando ajudar o mundo a ser melhor. E, apesar de todos os dias se deparar com problemas ambientais dos mais diversos, com erros grotescos dos políticos de plantão e de ser chamado de intransigente e eco-chato, o professor ainda consegue ser otimista. ?A gente vai ter a mudança que deseja?, acredita.
Nessa entrevista exclusiva aos jornalistas Anderson Bernardes e Patrícia Auth, o professor condenou as aprovações do código ambiental catarinense e do plano diretor peixeiro sem a participação popular. Malhou o pau no licenciamento ambiental de Santa Catarina, nos políticos que hoje estão no poder e ainda disse que Balneário é uma espécie de parasita de Camboriú. As fotos são de Felipe Trojan.

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RAIO-X:
Nome: Marcus Polette
Idade: 48 anos
Estado civil: casado
Filhos: Uma filha
Formação: Graduação em Geografia e Oceanografia (UFRG), Mestrado em Ecologia e Recursos Naturais (UFSCar), Doutorado em Gestão Costeira (UFSCar) e Pós-doutorado em Ciências Políticas (UFSC)
Cargos: Fundador do comitê das bacias dos rios Camboriú e Tijucas e responsável técnico pela delimitação da Área de Preservação Ambiental (APA) do Gavião, em Camboriú.
 
O gerenciamento costeiro é uma lei que não pegou porque ela vai justamente contra os interesses dos grandes especuladores imobiliários de todo o estado

Existe uma orientação político-partidária para que o código ambiental adentre na região oeste e possa arregimentar os prefeitos para uma perpetuação de poder.

Você tem o primo-rico de um lado da BR-101, olhando pro mar e vislumbrando todas as benesses que a urbanização te dá. E do outro lado está o primo-pobre, que contribui com todos os recursos naturais para o primo-rico, sem a respectiva relação de benefícios entre ambos. É uma relação parasitária.

DIARINHO – O senhor se posicionou contra o código ambiental catarinense. Não existe uma forma de conciliar a atividade dos agricultores e pecuaristas com a preservação do meio ambiente? O que há de tão errado nesse código, que gera tanta polêmica?
MP – A questão do código ambiental é bem importante. Eu sou favorável a um código ambiental para Santa Catarina. Eu não sou favorável ao resultado do código. Cada estado tem suas peculiaridades e dentro dessas peculiaridades você tem que levar em consideração a realidade de cada lugar. Santa Catarina é um estado em que a estrutura fundiária é estabelecida por meio de minifúndios e, logicamente, isso vai refletir nas questões de uso e ocupação do solo, tanto aqui no litoral como no interior de Santa Catarina. Eu sou favorável a um código ambiental, mas não da forma como ele foi conduzido. O código foi mal estruturado enquanto política pública. Uma política pública tem que ser pensada nos seus princípios, nas suas diretrizes, nos seus instrumentos e nos seus objetivos. Existem muitos equívocos no código ambiental sobre o que são princípios e diretrizes. E isso é importante porque vai influenciar como a lei vai ser implementada. Outra questão importante são os termos colocados no código. Um código ambiental é um conjunto de leis para tentar ordenar um determinado espaço e para orientar o uso e a ocupação do solo. Existem termos técnicos ? um dos mais polêmicos é a questão da mata ciliar ? que não estão definidos no código ambiental de Santa Catarina. E essa é uma das questões mais importantes. O código define o que é campo de altitude de uma forma não muito correta quanto às consequências que isso pode trazer para a região. Eu acredito que os agricultores aqui do estado têm oportunidade de desenvolver uma agricultura mais sustentável.  Caberia então ao estado, por meio de seus órgãos de agricultura e meio ambiente, repassar essa orientação aos agricultores dentro de uma nova política agrícola a ser implantada aqui, baseada nessa visão de minifúndio. Eu não concordo com o código na forma como ele foi pensado, dentro de uma visão ?de cima para baixo?, sem depois entender quais vão ser as conseqüências de implementar essa lei dentro de todos os municípios catarinenses. Principalmente se a gente for considerar que o oeste é uma região muito problemática sob o ponto de vista da questão dos seus recursos hídricos. Falta água. Existe uma orientação político-partidária para que o código ambiental adentre na região oeste e possa arregimentar os prefeitos para uma perpetuação de poder. O código ambiental tem uma orientação política.

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DIARINHO – O senhor, que é um dos fundadores do comitê de preservação da bacia do rio Camboriú, concorda com a afirmação do professor Schwingle sobre a probabilidade do aumento de risco de cheias naquela região com a aprovação desse novo código ambiental?
MP – Concordo plenamente. A falta de planejamento permeou a história desse lugar. Foi uma das regiões que cresceu de forma mais rápida em todo o Brasil. É impressionante a evolução da paisagem. Toda essa área, até as décadas de 40 e 50, era uma região agrícola. O uso do solo mudou depois da década de 60 com a BR-101. Logicamente, já havia todas essas atividades portuárias e econômicas que permeiam a região, mas o fato marcante foi a questão da BR-101. Quando ela foi construída não se tinha uma visão de quais seriam as consequências para o meio ambiente. A BR-101, no caso da bacia do rio Camboriú, funciona como um dique, onde a água é represada. O grande problema da região como um todo é a falta de implementação de planos diretores para ordenar o uso e ocupação do solo, evitando muitos desses problemas que a gente está vendo hoje. A bacia do rio Camboriú vai ser um dos lugares mais problemáticos da região. A ocupação está sendo violenta. Entre 2000 e 2008, a população cresceu cerca de 35%, tanto no município de Camboriú como em Balneário Camboriú. A gente está tendo ali a relação do primo-rico e do primo-pobre. Você tem o primo-rico de um lado da BR-101, olhando pro mar e vislumbrando todas as benesses que a urbanização te dá. E do outro lado está o primo-pobre, que contribui com todos os recursos naturais para o primo-rico, sem a respectiva relação de benefícios entre ambos. É uma relação parasitária. Nós temos que repensar a forma de desenvolvimento. As pessoas não entenderam que a bacia do rio Camboriú tem que ser administrada de uma forma integrada e cooperativa. Os grandes problemas sociais estão em Camboriú. Um deles é o aumento dos focos de favelamento, que levam a grandes problemas de violência na região como um todo, principalmente pela migração muito rápida e sem controle. É uma questão frágil. Os tomadores de decisão da região não estão buscando uma administração de longo prazo. Buscam a administração de curto prazo sem entender as conseqüências da falta de planejamento e da falta de visão do que pode acontecer no futuro.

DIARINHO – Em Itajaí, a câmara de vereadores aprovou um plano diretor que está sendo contestado pelo ministério público federal, que considera a lei inconstitucional. Como a comunidade científica tem colaborado na elaboração desses planos diretores e por que, comumente, eles desrespeitam os limites técnicos e a própria legislação vigente?
MP – O plano diretor foi anulado por meio de uma ação direta de inconstitucionalidade porque o Estatuto da Cidade ? que é a nossa política maior, que busca o ordenamento urbano nos 5500 municípios brasileiros, principalmente nos que têm mais de 20 mil habitantes, onde você é obrigado a ter o plano diretor ? exige a participação popular nos processos de tomada de decisão. Sob o ponto de vista técnico, a universidade orientou numa primeira fase o plano diretor de Itajaí. Poucos lugares do Brasil têm o material que Itajaí possui em termos de mapeamento temático e em termos de entendimento da realidade do município. Os técnicos da Univali tiveram a oportunidade de fazer 36 mapas que levavam o conhecimento de como o município funciona, como ele se estrutura e quais poderiam ser os grandes riscos de uma ocupação não adequada. Numa região em que o fenômeno das enchentes é recorrente. Infelizmente, ninguém vai poder dizer que a enchente não vai ocorrer de novo nessa região. A gente vai ter que conviver com isso. Esse foi o resultado que a comunidade científica colocou para a sociedade itajaiense: ?Você moram numa região frágil. E dentro dessa região frágil vocês têm que fazer o ordenamento de uma forma responsável?. O plano diretor também é complexo porque você tem as questões relativas à propriedade. Quando você fala em propriedade, existem muitos interesses. O plano diretor necessariamente passa, numa fase inicial, por essa percepção técnica do espaço e depois você vai discutir com a sociedade. Você mora no São João e chega um monte de tecnocrata, que desenvolveu um trabalho dentro de um gabinete, e  fala: ?É assim que você vai morar nos próximos 10 anos?. Essas pessoas merecem discutir o espaço que elas querem para o futuro. Desde 1933, com a Carta de Atenas, a cidade foi estruturada pensando nas suas quatro funções principais: trabalho, moradia, circulação e recreação. A sociedade tem que discutir com ela própria, por meio de uma governança urbana ? onde a sociedade, o governo e a iniciativa privada sentem juntos ?, como a cidade pode ser construída atendendo o interesse de todos. Hoje a iniciativa privada e o governo têm uma relação muito próxima. A sociedade está como espectadora que não participa das tomadas de decisões, e isso não é justo. Vários órgãos em todo mundo começaram a repensar a forma de gestão das cidades. A gestão tem que ser pensada por meio de uma governança saudável. E essa governança só vai acontecer se a sociedade, iniciativa privada e governo falarem de igual para igual. Os governos foram colocados no poder pelo povo e me pareceria muito estranho, no momento em que o governo toma uma decisão, ele fazer isso de uma forma imposta, sem a sociedade participar, entendendo se aquela decisão é boa ou ruim. Imagine uma pessoa que trabalhou a vida inteira, comprou a sua casa, foi morar num bairro com muito sacrifício e, de um dia pro outro, ao lado da sua casa constroem um prédio de 15 andares e toda a perspectiva de moradia que se tinha é mudada por uma tomada decisão que não foi feita à luz da sociedade. A sociedade tem que ter voz. A política pública do Estatuto da Cidade vem mudar isso e fazer com que aqueles planos diretores que eram feitos à sombra mudem. [Isso acabou não acontecendo em Itajaí então?] Acabou não acontecendo. Num primeiro momento, a universidade participou, outras instituições participaram, mas a tomada de decisão final foi tecnocrática, voltando ao modelo que já existia. Esperamos que no governo atual isso não se repita. Repetir o governo anterior seria, no mínimo, uma falta de senso, de entendimento da realidade e das próprias políticas públicas. A participação é considerada como instrumento básico dentro da elaboração dos planos diretores. Não dá pra você unir meia dúzia de pessoas dentro de um gabinete e depois fazer com que a sociedade, por meio de uma ou duas audiências públicas, referendem o que essa meia dúzia de pessoas fez.

DIARINHO – No caso específico da praia Brava, alguns pesquisadores se pronunciaram contra a verticalização e construção de um condomínio de luxo. Qual seu posicionamento a respeito daquela região? Acredita que é possível manter pelo menos o Canto do Morcego intacto sem prejudicar a atividade econômica?
MP – Itajaí tem uma questão histórica com a praia Brava. Foi o último lugar a ser desenvolvido dentro do município. A cidade se desenvolveu ao longo do rio. Enquanto isso, estava acontecendo um processo de conurbação entre Itajaí e Balneário Camboriú e a praia Brava ficou nesse meio. A praia Brava foi redescoberta na década de 90. Iniciaram então os interesses imobiliários nessa região, que era uma das últimas potencialidades turísticas do município de Itajaí e que poderia se desenvolver de uma forma totalmente diferente do modelo que está sendo preconizado nos outros municípios: Balneário Camboriú, Itapema, Bombinhas… O modelo é adensar, construir prédios. No caso da praia Brava sou totalmente contra esse modelo. Nós poderíamos ter a última chance de Itajaí ser um município em que a sua urbanização seja  totalmente diferenciada nesse setor do litoral. Eu imagino a avenida José Medeiros Vieira não como uma avenida Beira Mar, mas sim como um grande calçadão na frente da praia, onde toda a população poderia utilizar dessa área, com inúmeros serviços que poderiam ser colocados ali. Eu sou totalmente contra o processo de verticalização porque eu só acredito em verticalização a partir do momento em que o governo gera infra-estrutura para isso. O grande problema é a falta de saneamento. Aprovar os empreendimentos sem que haja a infra-estrutura é uma atitude irresponsável. É o caminho totalmente inverso do que deveria ser dentro de um processo de planejamento. A gente sabe que existem inúmeros interesses dentro do processo de especulação. Aqui na região existe uma ligação muito forte entre o turismo, o setor imobiliário e a construção civil. Esses setores andam unidos. E próximos do poder público. Esses setores econômicos estão matando a galinha dos ovos de ouro. O Canto do Morcego, durante os 16 anos de universidade, é o lugar aonde eu levo meus alunos a cada semestre para fazer saídas de campo, para mostrar a complexidade dos ecossistemas que ocorrem ali: manguezais, Mata Atlântica, restinga, praia, dunas, costão… O Canto do Morcego é uma das poucas regiões no litoral de Santa Catarina que oferece a oportunidade de entender como é o bioma Mata Atlântica. O poder público não entende que, se você deixar alguns espaços do litoral e usá-los como parques públicos, isso poderia gerar uma mudança de comportamento muito grande na sociedade por meio do processo educativo. Se uma parte do Canto do Morcego fosse transformada num parque, imagina a oportunidade que você teria das escolas irem até esse espaço e entenderem a importância que esses ecossistemas têm para a própria sociedade… O grande problema que nós temos é a falta de informação e conhecimento de quem hoje está no poder. E isso está baseado numa estrutura das instituições que privilegia os cargos comissionados em detrimento dos cargos técnicos. E isso vai refletir no futuro.

DIARINHO – Por que e a produção científica não se efetiva na prática de  proteção ao meio ambiente? Porque sobram aos pesquisadores os rótulos de ?intransigentes? e ?eco-chatos??
MP – Quando você trabalha com a questão ambiental, tem que trabalhar do lado da verdade. Quando você trabalha com a ciência, ela tem uma só verdade e não várias verdades.  Muitas vezes, os tomadores de decisão não se aproximam da comunidade científica. A comunidade científica está com a verdade dos fatos. A verdade no sentido de que são pessoas que se dedicaram ao entendimento de como funciona o ambiente. A partir do momento que você defronta com uma verdade e o seu interesse é totalmente contrário a essa verdade, é preferível você negar a verdade e desconsiderar essas pessoas. A verdade é uma e nós temos que continuar com o que nós acreditamos. A gente não pode arredar pé. A imprensa, felizmente, está dando à comunidade científica a oportunidade de contar o outro lado da história. Nós chegamos num momento interessante: as informações da imprensa e da comunidade científica levam a sociedade a refletir sobre as tomadas de decisões dos governos e eu acho que isso vai refletir na hora do voto.

DIARINHO ? Mas o apelo dos ecologistas muitas vezes não encontra eco na sociedade. O povo prefere, por exemplo, uma praia cheia de hotéis e boates, que gerem emprego, do que a natureza preservada. O que pode-se fazer pra reverter esse quadro?
MP ? Essa é uma das questões mais interessantes na área ambiental. Qual o papel de todos os elementos da sociedade? Por exemplo, qual o papel hoje da comunidade científica, dos tomadores de decisão, quais são os papéis da iniciativa privada e quais são os papéis da sociedade? O que nós estamos cada vez mais crentes é que a sociedade está cumprindo o seu papel. Justamente por ser ativa nas tomadas de decisões. Isso está refletindo no dia a dia das tomadas decisões dos políticos. Onde a sociedade não contesta as decisões, eles [os políticos] podem tomar qualquer decisão e a sociedade vê isso como espectadora. Enquanto essas tomadas de decisões são feitas alheias à sociedade, os problemas  passam a ser muito difíceis de resolver. Ao mesmo tempo, a conscientização da sociedade nesse sentido vai num ritmo muito lento. Então você imagina: a diferença hoje entre os problemas que são gerados com as tomadas de decisões impensadas e a velocidade em que a sociedade tenta buscar o entendimento desses problemas. Está indo muito devagar. No final das contas, a gente vê que isso vai gerar um ônus cada vez maior tanto pra sociedade, quanto pro governo. [E como resolver?] Pra resolver, a questão seria educacional. O que se entende por boas políticas educacionais? Você tem que saber como uma política é exercida em determinada região e por isso é preciso ter toda uma estrutura no sistema educacional no sentido de que os alunos e os professores reflitam sobre essa realidade. E eu creio que esse é um dos grandes problemas. Por exemplo, fazer com que os professores tenham material adequado, informação adequada e conhecimento adequado pra que haja reflexão dentro da sociedade. É um grande desafio.

DIARINHO – Os crimes ambientais são fiscalizados na maioria dos casos por três órgãos ambientais: Ibama, Fatma e uma fundação do meio ambiente local. O senhor tem uma explicação de que como existam tantos casos de descumprimento das leis vigentes com tamanha fiscalização?
MP ? Os órgãos em si cumprem a sua função e a gente tem que entender que eles são importantes pra sociedade. O Ibama cumpre o seu papel. A Fatma é um órgão importante pro licenciamento, pras análises dos estudos de impacto ambiental, pra fiscalização e criação de unidades de conservação. Os órgãos ambientais municipais também. A grande questão que eu vejo, tem a ver com a questão política mesmo. O problema é que, em grande parte desses órgãos, nós temos muitas pessoas em cargos comissionados. Muitas vezes nós temos que entender, porque tem gente com cargo comissionado que atua dentro de uma determinada área e tem sua responsabilidade. Mas também tem muita gente que não está ali pra atender os interesses da sociedade. Só vê aquilo como um cargo, uma forma de ter seus recursos no fim do mês. Dentro desses órgãos ambientais eu creio que está faltando justamente as pessoas assumirem esses cargos de uma forma ética e tentando entender que a questão ambiental hoje não é só importante, mas sim vital pro futuro da sociedade. Qualquer tomada de decisão hoje envolve a questão ambiental.

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DIARINHO – Falta qualidade técnica nos pareceres do licenciamento ambiental? Muitas vezes a gente vê obras licenciadas que não estão de acordo com as leis ambientais…
MP ?  Falta qualidade técnica tanto das consultoras, que hoje baseiam seu trabalho em dados secundários, sem levar em consideração a realidade do lugar, e também por parte dos órgãos ambientais que não analisam o licenciamento como deveriam. [Há influência política num licenciamento?] Existe. A empresa de consultoria tem que se posicionar de uma forma neutra quando ela vai fazer um estudo de impacto ambiental. Quando um empresário convida uma empresa de consultoria pra fazer o estudo de impacto ambiental, a meu ver, essa deveria se postar de uma forma totalmente neutra pra poder orientar o empresário do que pode e não pode ser feito. O que a gente percebe é que isso não acontece. A grande questão ético-moral está no licenciamento. Existe um grande jogo político dentro disso, mas eu creio que poderia ser feito de uma forma mais ética.

DIARINHO – O senhor acompanha a formação de conselhos de meio ambiente aqui na região? Itajaí, por exemplo, ainda não teve seus membros nomeados nesta gestão. Os conselhos servem pra alguma coisa ou ficam presos na estrutura política do poder?
MP ? Os conselhos estão presos porque existe uma estrutura de poder muito bem pensada dentro da sociedade. Eu vejo que dar a voz a novas pessoas passa a ser um grande problema pro tomador de decisão. Dentro dos conselhos de desenvolvimento urbano, de meio ambiente, são de onde vão sair essas novas vozes que podem atuar, fazendo repensar o modo como essa política é exercida. Essa questão da participação, hoje, é inibida porque o que se pretende é ficar sempre com as mesmas pessoas nos mesmos lugares. E você dar voz a pessoas que têm visões diferentes dessa estrutura de poder, passa a ser muito frágil para o tomador de decisão. Eu acredito que os conselhos de meio ambiente são fundamentais. É a forma de discutir os problemas da cidade e deliberar. Quando você dá a voz ao conselho do meio ambiente, você dá a voz à sociedade e quando você dá voz à sociedade, isso pode ser muito perigoso pra quem tem o poder. Mas eu acredito que as coisas estão mudando. Eu sou um otimista nesse sentido. Há 10 anos, a sociedade não tinha tanta oportunidade de se expressar como hoje. Cada vez mais a liberdade de expressão está aumentando e a sociedade está sendo mais reflexiva. Com isso, num determinado momento, a gente vai ter a mudança que deseja. Eu acompanho a questão ambiental desde os primórdios. Eu morava em São Paulo e iniciei a minha militância na questão ambiental na década de 70 dentro de uma ong pra proteger baleias, que se chamava União em Defesa das Baleias. Talvez tenha sido uma das primeiras ongs do Brasil. Como eu morava em São Paulo, eu ia nas ruas coletar assinaturas pras pessoas não matarem as baleias. E muita gente falava: ?Nossa! No Brasil existe baleia?? Naquela época se matavam baleias no Brasil. É interessante que eu vejo, dessa época pra cá, uma mudança enorme na forma da questão ambiental ser colocada. No início, a postura das ongs era de ?eco-chato? mesmo. E isso pegou! As pessoas não tinham nessa época a visão do que é governança. Ao longo do tempo, o que aconteceu é que a questão ambiental se tornou real. Isso graças a diversas conferências que aconteceram, que foram fundamentais pra esse processo. A sociedade começou a perceber que a questão ambiental é a ordem do dia pra uma tomada de decisão. Eu tenho certeza que nós vamos ter uma mudança nessas tomadas de decisões. Eu sei que um dia as pessoas que estão sentadas na sala de aula vão estar no poder. Essas pessoas vão tomar decisões baseadas no entendimento das questões ambientais porque sabem a importância que isso tem. As pessoas que estão hoje no poder nunca entenderam qual a função da relação do homem com a natureza. As decisões de quem está no poder hoje estão muito direcionadas pela relação entre o poder e o capital e não entre o poder e a natureza. Mas eu acredito que essas relações tendem a mudar. Quando eu cheguei em Itajaí, há 16 anos, não existia secretaria do meio ambiente. Hoje todas as prefeituras estão organizadas. Muitas vezes tem uma diretoria do meio ambiente que está junto com a agricultura e o interessante é que essas pessoas pelo menos pensam na questão ambiental.

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DIARINHO – Como o senhor avalia o gerenciamento costeiro em Santa Catarina? Quais as dificuldades de se implantar as políticas para o desenvolvimento do estado?
MP ? O gerenciamento não existe em Santa Catarina. Ele poderia ter sido uma das políticas públicas que poderia ter orientado todo o uso de ocupação do estado. Seria a oportunidade de Santa Catarina ser um dos estados mais promissores no seu desenvolvimento turístico, portuário, agrícola, na utilização correta dos seus recursos naturais e na implementação de unidades de conservação. O gerenciamento costeiro tem todas essas potencialidades de buscar um uso e ocupação do solo mais adequado à realidade atual e às gerações futuras também. O gerenciamento costeiro é uma política pública que dentro dos seus instrumentos concebe o zoneamento ecológico econômico, concebe o monitoramento da qualidade dos ambientes que você tem e que você pode fazer com que a sociedade participe de uma maneira ativa nas tomadas de decisões. Mas o que acontece hoje é que o gerenciamento costeiro é uma política que não pegou, podemos dizer. O gerenciamento costeiro é uma lei que não pegou porque ela vai justamente contra os interesses dos grandes especuladores imobiliários de todo o estado. A gente sabe, por exemplo, que a zona costeira é a área mais valorizada que nós temos. Se você for ver, por exemplo, quanto vale o metro quadrado de um terreno na avenida Atlântica, em Balneário Camboriú, e quanto vale o metro quadrado em Chapecó… Um apartamento na frente da praia, em Balneário Camboriú, vale R$ 3 milhões. Agora você pensa numa lei que possa repensar a forma de ocupação dessa região. A gente tem que entender a diferença entre crescimento e desenvolvimento. O que eu vejo hoje dentro do litoral de Santa Catarina é o crescimento do setor imobiliário, turístico, da construção civil, mas eu não vejo o desenvolvimento desses setores. Porque o desenvolvimento tem que vir com a justiça social, com o desenvolvimento ecologicamente equilibrado, ou seja, é uma outra visão. O crescimento que hoje Santa Catarina tem é ilusório. As pessoas não estão entendendo o que vai acontecer daqui a 10, 20, 30 anos. O crescimento econômico não acompanha o da infra-estrutura que o estado deveria ter. A sociedade está sendo espectadora do processo, porque as tomadas de decisões estão sendo feitas pelo governo e pelos empresários. Eu não sou contra o governo e nem contra os empresários. Só acho que eles devem ser orientados pra que possam tomar decisões corretas, pensando não só em um setor da sociedade. Tem que pensar em todos, em benefícios para todos.

DIARINHO – Qual a sua opinião sobre as medidas compensatórias para reparar crimes ambientais?
MP ? As medidas compensatórias são uma forma de legalizar os crimes ambientais. Na forma como elas são postas, elas são exatamente isso, porque está faltando fiscalização e a sociedade entender o seu papel dentro desse processo. No final, o grande problema está na sociedade. Falta essa consciência de entender que a sociedade  pode mudar o jogo da história. Infelizmente, os órgãos ambientais não têm estrutura adequada de fiscalização, pois faltam recursos humanos. Falta uma estrutura dentro desses órgãos ambientais para que eles possam fazer o acompanhamento dessas medidas compensatórias. É um jogo no qual a gente está inserido.

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