• 07 nov 2009
  • Postado por Tiago

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?Aqui nunca mataram. Mas morreram de infarto três homens aqui dentro e morreu uma mulher?

Ele é um empresário da noite. E de sucesso. Há 28 anos mantém sua casa noturna cheia. Se você imaginou um playboy cheio de ouros e chegado em festas regadas a champanhe e belas mulheres, se enganou redondamente. José Geraldo de Melo Filho, dono do famoso bailão do Juca, é católico fervoroso e extremamente conservador quando os assuntos são costumes e sexualidade. Chega ao extremo de expulsar do salão quem é pego aos beijos na pista ou nas mesas. Com a rudeza de um peão de chão de fábrica e a simpatia de um homem criado em cidade pequena, Juca contou ao DIARINHO como conseguiu passar de operário a empresário que deu certo. Juca contou suas histórias aos jornalistas Mariana Vieira e Sandro Silva. As fotos são de Felipe VT.

DIARINHO ? O senhor era dono de um bar com cancha de bocha e futebol. Como é que nasceu a ideia de um bailão que acabaria sendo o mais movimentado da cidade?

Juca ? Eu trabalhei 19 anos na Artex. Minha mulher, faltava já 17 dias pra ter a última filha, a Dayse… Aí, a mulher deu paralisia e o médico disse: ?Olha, Juca, tens que trocar de clima, porque a tua mulher não tem mais volta?. Aí, fazer o quê, gente? Eu sabia malemal escrever. Eu tinha um fuquezinho vermelho e daí eu vim pra Itajaí. Isso aqui [onde hoje fica o bailão, na rua Indaial, bairro São João] era dum cunhado meu, falecido, irmão da minha mulher. Eu tava desnorteado. Ia perder a mulher, ia perder o serviço. E a firma era assim: se saísse, não voltava mais. [Ela ia ficar entrevada?] Só um pouquinho, só. Mas a firma me deu três meses de prazo. ?A gente não faz pra ninguém, mas pra ti a gente faz?, disseram. Vê que funcionário que eu era. Aí eu vim pra Itajaí, eu entrei e disse assim: ?Tudo bem, Tereza? [cunhada] E o Ângelo??. ?O Ângelo tá tomando café?, ela respondeu. Não vinha com intenção nenhuma. Nós vínhamos desnorteados. E o Ângelo disse assim: ?Ques comprar isso aqui??. Mas eu vinha sem um real no bolso, sem nada, não tinha dinheiro. O Inívio Tomio, que é irmão da minha mulher, devia pro José Luiz Cim, o homem da bolacha, como eles dizem… O Inívio tava com aquele dinheiro na mão, mas o José Luiz não queria receber, pois o dinheiro tava em boas mãos. Daí, o Inívio passou pra mim pra eu dar entrada no bar. Isso foi domingo. Na quarta-feira eu já comecei a trabalhar. [O senhor lembra quando foi?] Dia 15 de outubro de 74. Aí eu comecei. Eu nunca tinha visto dinheiro na vida, certo!? E começou a vir dinheiro, dinheiro… O bar era uma loucura, uma loucura. Um camarada que era dono daqui, que é falecido, falou pra outra pessoa que é falecida também: ?Esse camarada tem alguma coisa, porque não pode ele crescer tanto na vida?. Porque ele era assim: ficava dois anos aqui, enchia a cola de dinheiro e saía. Eu vim com quatro filhas, uma menor de 17 dias… Ah! A minha mulher não tava paralisada, não… Ela teve uma paralisia facial. O meu medo era sobre a menina. Bom, aí esse camarada ? eu ia dizer o nome da pessoa, mas não vou dizer não ? disse assim pr?aquele meu conhecido: ?Esse camarada tem alguma coisa?. Se fosse hoje, eles iam dizer que era droga. O camarada tava doido. Daí, um dia, esse meu amigo, que sempre tomava a cervejinha Brahma no cantinho do balcão e o cigarrinho Hollywood, perguntou: ?O que é que eu vou dizer pr?esse camarada que tá falando assim, assim…?. Aí eu disse assim: ?Paulo…?. Pronto, eu vou dizer o nome da pessoa. E o outro era José, que também é falecido e era dono antigo daqui. ?Paulo, faz o seguinte, tu diz pra ele que eu ganhei na loteria. Ele disse e o camarada respondeu assim: ?Eu sabia que esse desgraçado tinha alguma coisa.?. Mas é que eu aproveitava tostão por tostão que eu tinha…

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DIARINHO ? E como começou o bailão?

Juca ? O bar era famoso. Eu fiz uma cancha de bocha. Chegavam a dizer: ?Mais um venta-doida que tá chegando em Itajaí?. Mas eu fui fazendo. Eu fiz uma cancha de futebol, com jardim com chafariz, tudo bonitinho… Era uma cancha de futebol, descoberta. Aí eu cobri. Quando nós nos criamos, a gente fazia, antes de colocar a repartição da casa, a gente fazia uma tarde dançante ou um baile. A gente se criou assim. E aqui eu fiz a mesma coisa. De manhã, às 8h, o padre Agostinho, da igreja do São João, rezou uma santa missa. À noite, o Amílcar Gazaniga, que era nosso prefeito e por sinal muito querido, ele fez a abertura do meu salão, aqui (apontando pela porta do pequeno escritório, em direção ao salão de dança). Acaba que, em dois ou três meses, me deram a ideia de fazer mais um baile. ?Não, eu não nasci pra isso?, eu dizia. Mas eu fui fazendo, fui fazendo e hoje tá aí.

DIARINHO – Quando oficialmente começou o bailão?

Juca ? Dia 7 de novembro de 1981, com os Futuristas, de Ijuí. Duzentas e quatro mesas vendidas, pagas. O baile era só pra casais. Não entrava um filho. Não entravam cinco pessoas. Era só pra casais. Sucesso total. [Daí você fechou a cancha e a quadra e ficou só com o bailão?] Não. O pessoal jogava futebol durante a semana e quando chegava sexta-feira jogava até meia hora da madrugada. Eu trabalhava com a família toda. Levantava as redes – que era ao redor, né!? ? pra gente limpar, colocar as mesas e fazer baile. [O piso era cimento?] Cimento? Não, não. Aí já era de madeira. Pro baile já era de madeira.

DIARINHO ? A gente não vê propaganda do salão. Qual é o segredo para ele ser tão frequentado?

Juca ? Vocês não vão me chamar de demagogo não, né!? Eu… Como é que eu vou dizer? Vou dizer assim: a propaganda do salão é uma coisa, é saber cativar a clientela, é ser duro do começo ao fim. Nós nunca aceitamos beijo. [Encara a jornalista Mariana e diz em tom de brincadeira:] Não vais rir de mim não, tá!? Brigou, não entra mais. Morre de velho, mas não entra mais aqui dentro. E nós ensinamos às pessoas que toda pessoa que entra aqui é recebida de braços abertos. Homem, mulher, é tudo beijado. Nós temos segurança aqui dentro, simplesmente pra organizar. Não é pra bater, nada. A pessoa só vai pra rua se ela for reincidente. Assim: ele tá beijando, já foi pedido e ele continua. Aí o camarada não tem cura. Aí não tem perdão. Ele vai pra rua. [Então o senhor acha que não precisa propaganda do salão?] Eu tenho propaganda na rádio Guararema, por insistência de uma empresa, e tenho na rádio Conceição, que é da rede católica, e nós somos praticantes. E tenho na rádio Clube de Itajaí, por intermédio do meu amigo Nivaldo Germano Vieira, que é o ex-proprietário da sociedade Itaipava.

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DIARINHO ? E o beijo? Por que o senhor acha que não pode beijar no salão?

Juca ? Não é o beijo. Queres ver uma coisa? Você senta, marido e mulher. Vocês sentam com uma filha, um filho de 15, 16 anos. E aí tem eu, numa mesa do lado, com aquela frescura de beijo danada. Aí, você vai dizer pro teu marido, o teu marido vai dizer pra ti: ?Poxa, mas que ambiente nós estamos…?. O que é isso, gente!? Então, nós não aceitamos por causa disso. A média é 1600 pessoas por final de semana.

DIARINHO ? E casais gays, o senhor aceita no salão?

Juca ? Como é? [Casais gays… homem com homem, mulher com mulher] Humm… Não! [Não aceita?] Não, não aceito. É como apareceu aquele palhaço, o Pimpolho, vestido de palhaço. Ora, eu vou ter 800 pessoas aqui dentro e vai aparecer um palhaço vestido totalmente de palhaço? Não tem, não tem cabimento. Eu não tenho preconceito, mas cada coisa no seu devido lugar.

DIARINHO ? As pessoas maduras, o pessoal da terceira idade, são a maioria do bailão, não é? O senhor pensou nesse nicho de mercado, ficou de olho nessa clientela quando abriu o bailão?

Juca ? Eu comecei às quintas-feiras não cobrando ingresso. Ideia do pessoal da terceira idade do CEI (centro de Vivência do Idoso). Aí deram uma ideia de fazer aos domingos. Mas eu não ia fazer. Sábado tinha baile, mas eu não pensava na terceira idade. Pensava era num baile, num baile que fosse dureza mesmo! Aí comecei a fazer na quinta-feira, daí pediram pra fazer domingo e tá aí… Agora, nas quintas eu não faço mais. Não faço mais porque eu tô com 68 anos, a minha mulher com 68 anos também e nós estamos maduros demais pra trabalhar três noites direto. Minhas filhas, são duas delas solteiras, a Giovana e a Karla, que tão no comando ? se vocês não sabiam, tem o testa-de-ferro que se chama Juca. A última assinatura é minha. Mas é elas que tão no comando. Amanhã tem um casamento em Porto Alegre, de uma sobrinha minha, dum dos irmãos mais velhos. Eu não vou e a mulher não vai. Nós temos que dar oportunidade pra elas também. E se nos trabalhássemos mais dias, nós iríamos morrer trabalhando.

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DIARINHO ? O público jovem, que é maioria, não daria mais dinheiro que as pessoas mais velhas?

Juca ? [Suspiro longo] Vocês são jovens, né!? [Nem tanto…] Não faz mal, posso falar do jovem, né!? O jovem, eu digo, é bom trabalhar com o jovem. Mas tudo depende do jovem. Eu, quando faço um baile gaúcho, como tem com os Serranos, e tem aquela gurizada e dizem que o jovem tá tudo perdido, eu digo assim: ?É tudo mentira! Essa gurizada falta ser lapidada. Lá fora pode ser que tenha alguém que libera para eles fazerem o que quiserem. Aqui dentro a gente leva a ferro. Então essa gurizada vem aqui. Outra, que não vem aqui, é porque não se sente bem à vontade.

DIARINHO ? Mas a maioria do seu público é da terceira idade. O senhor contrata bandas pra esse público?

Juca ? Não é maioria terceira idade, não. Olha, se tiver, tem meio por meio. Só que a nossa juventude é dos 17, 18 anos aos 35. E depois vem aquela parte de 35 a 65 anos. Mas geralmente esses de 60, 65 anos vêm aos sábados porque é baile pra casais. Olha, quase estritamente pra casais. [Quais são os dias em que funciona o bailão?] Sábado e domingo. Sábado das 10 e meia até às três e meia e domingo das 18h30 às 23h30. E pela Quaresma nós nunca trabalhamos.

DIARINHO ? Entre os bailões da região, o senhor é o único que respeita a Quaresma. Isso não lhe traz prejuízos?

Juca ? Nós tínhamos a associação dos clubes e das sociedades dentro de Itajaí. Não oficialmente, mas tínhamos. O Dias, da Fazenda, era nosso presidente de honra, um grande presidente, e o Chico Berth, do Tiradentes, e o Almeida, do Grêmio, eram sempre mais conselheiros. Eu sempre dizia: ?Gente, se a gente não fizer baile na Quaresma a gente ganha dinheiro a mesma coisa?. ?Não, não, Juca?, eles diziam. Só uma comparação, quer ver? Eu boto 800 pessoas sábado. Aí, fico 46 dias parado. Aí, no baile de Páscoa eu não boto 800 pessoas, eu boto 1200, 1300. Já ganhei meio baile aqui. Até completar o sétimo baile eu ganhei o dinheiro que deixei de ganhar na Quaresma. Quando chegar nas 800 pessoas, novamente, eu já ganhei o dinheiro da Quaresma e folguei na Quaresma. Mas eles nunca quiseram a minha proposta. Olha a Itaipava… A Itaipava começou a trabalhar na Quaresma e hoje não tem nada, certo? O Grêmio, os Atiradores, que eu fui presidente dois mandados também… Pode ver, esses clubes pararam.

DIARINHO ? O que o senhor acha desse pessoal que abre na Quaresma?

Juca ? Cada qual tem o seu pensamento. Se vocês entrarem no meu salão, vão ler ali… Querem que eu leia direitinho? Eu vou ler pra vocês daqui, espera um pouquinho só… [levantou-se, foi até a porta do escritório e leu um dos vários escritos na parede do salão de bailes] ?Não trabalhar na Quaresma faz parte dos meus princípios?. Então eu nunca trabalhei e não trabalho. [pausa] Não é pecado, hein!? Vamos lá… Eu nunca trabalhei pela Quaresma, aí vou inventar de fazer um baile… Que Deus me livre bem, mas vai que um camarada mata outro aqui dentro. ?Meu Deus do céu, por que é que eu fui trabalhar na Quaresma??. Então eu não quero levar essa responsabilidade.

DIARINHO ? Há histórias de que velhinhos já sofreram infartos enquanto bailavam no salão do Juca. Isso é verdade?

Juca ? Que coisa boa! [Por quê?] Olha como muda a coisa… ?Pô, lá no Juca mataram um camarada! Meu Deus do céu!? e ?Lá no Juca morreu um homem de infarto?. Estás entendendo como é que é? Isso alivia o lado da gente. No Juca nunca mataram. Mas morreram de infarto três homens aqui dentro e morreu uma mulher. E podem morrer mais pessoas, porque trabalhamos com pessoal com infarto e com tudo. [Lembra o ano que aconteceu a primeira morte?] Eu ainda falei pra minha mulher hoje que eu não sei deitar sem rezar pra cinco pessoas: o tio André, o tio Nicolau, o tio Luiz, o primo Orlando e a Hasta Herder, a primeira a morrer aqui. Eu acho que deve fazer uns 25, 26 anos que ela morreu. Ela morava na rua Juvenal Garcia [centro de Itajaí] ou por ali. Eu só deixei a Hasta depois de ver ela sepultada.

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DIARINHO ? Quem foi o artista ou o grupo mais famoso que o senhor já contratou?

Juca ? Os grupos mais famosos que eu vejo, musicalmente, são Os Serranos e Os Monarcas. Os Serranos vão tocar a 16ª vez aqui, dia 8, no aniversário do salão. Mas eu já tive aqui Chitãozinho e Chororó, quando eles nem ainda tinham carro, Trio Parada Dura por duas vezes, Tonico e Tinoco uma vez, o Donizete, o Teixeirinha, o Sérgio Reis, a Carmem Silva e mais uns outros por aí.

DIARINHO ? E quem é o grupo, a banda, o cantor ou a cantora que mais chama público no bailão do Juca, hoje?

Juca ? Conjunto da região? Vocês vão cair de costas: G4 com a cantora Giza Carla. É loucura! É loucura! Tocaram sábado e domingo aqui… Haja lugar! E de conjunto pra puxar público aqui dentro, mais pra juventude, chama-se João Luiz Corrêa e o grupo Campeirismo.

A maioria dos grupos é de música gauchesca?

Juca ? Não. Só nos feriados. E Os Serranos, agora, por causa do aniversário. Os Serranos tocam dia 8 e, daqui pra frente, na segunda-feira do Carnaval.

DIARINHO ? O senhor admitiria grupos de forró e de funk no salão?

Juca ? Não! [Nenhum dos dois?] Não! Discoteca também não. Ah! Vou dizer, não tenho o rabo preso com ninguém mesmo. Torna-se um ambiente pesado. Por quê? Nós não aceitamos de boné, não aceitamos de sandália, bermuda transparente. A bermuda nós aceitamos aqui de uns seis ano pra cá.

DIARINHO ? Se uma mulher aparece com uma roupa mais provocante, com um decote muito além da medida normal ou uma saia muito curta, qual é o procedimento?

Juca ? Você tá perguntando porque você sabe de alguma coisa, né!? [Não, não… é curiosidade] Daí não entra, não entra. O Pimpolho disse que era preconceito quando eu não deixei ele entrar… Mas não entra! Quer ver? Um dia vem uma mulher de vestidinho curto aqui dentro e aí o camarada passa a mão nela e coisa vem pra cima de mim. O que é que eu diria pra ela: ?Você provoca?. Se uma mulher tá bem trajada e é mexido com aquela mulher, ela pode ter certeza de que nós vamos tomar providência de qualquer maneira. [E as pessoas não reclamam disso, como foi o caso do palhaço Pimpolho, que teve no jornal?] Não, simplesmente não entra e acabou-se. 99,9% já sabem o regulamento. E aquele 0, 1% vai pra casa, troca o vestido e vem. Domingo passado teve um casal aqui que mora na Fazenda. E eu disse: olha, se for pra vir aqui dessa maneira, não precisa vir. Ela e o marido dela. Aí eu expliquei pra ela: se alguém passa a mão em você, aí você vai reclamar pra mim, né? Então por isso [Ela voltou?] Não, foi domingo agora. [Ela não entrou?] Ela entrou porque tava com um vestido decente. Mas ela reclamou porque um dia ela voltou.

DIARINHO – O bailão do Silva, na Penha, é outro fenômeno de público. Ele tem tirado sua clientela?

Juca – Eu vou dizer de outra maneira: o sol nasceu pra todos. Vocês podem ver que essa frase tá marcada aí dentro do salão. Faça a sua estrela brilhar, sem tirar o brilho de quem tem estrela. O Silva é um concorrente pra mim? É, mas só que um concorrente muito amigo, muito sério. Tem três salões que nós trabalhamos no mesmo estilo e nos damos demais. É o Silva, clube dos Coroas e o Juca. Nós temos o mesmo estilo pra trabalhar. Alguma coisinha a mais, ou mais duro, ou mais rígido, mas é no mesmo estilo. Quer ver: nas quintas-feiras, uma vez ou outra, eu vou no clube dos Coroas, mas sempre dizendo que eu não ando sozinho de maneira nenhuma. Além de Deus, eu tenho toda vida uma pessoa que me acompanha. [Um segurança?] Pode ser segurança, sim. Eu tenho uma filha, a Giovana, que ela bate cartão no bailão do Silva toda sexta-feira. Se sente maravilhosamente bem. E por que eu não vou no Silva? Eu já fui no Silva algumas vezes, mas porque a minha filha vai dançar com as colegas dela. Fica até um negócio meio esquisito eu chegar. Mas é amigo meu. Se eu fosse, sem problema nenhum. Não tenho problema nenhum contra ninguém.

DIARINHO – O Juca conhece os seus clientes?

Juca ?Sim, 99,9%. Toda pessoa que entra aqui dentro e eu não conheço eu digo assim: ?Você nunca teve aqui dentro, né?? Mas, olha, dificilmente eu pergunto. Eu tinha um revistador, mas agora não tem porque tem aquela máquina [um detector de metais]. E tem uma menina e um homem lá e eu fico aqui das 22h15, porque começa às 22h30, até 23h30 cumprimentando o pessoal, certo? E das 18h15 até 20h eu fico cumprimentado o pessoal daqui. Vou fazer a abertura do baile e volto por aqui. A minha vida é essa aqui dentro. Na minha secretaria eu só entro pra fazer as minhas orações. O Juca entrou na secretaria é porque o Juca foi fazer as orações dele. [O senhor é quem abre o baile?] Eu abro o salão. Eu sou o primeiro a entrar e o último a sair. [E a abertura antes de começar a música no microfone?] Eu mesmo. Só uma hora depois de começar é que eu faço a abertura, em todo baile. Eu nunca deixei o meu salão vazio. Eu perco o casamento, como agora em Porto Alegre, pra tocar o meu salão. Eu vou contar uma parte pra vocês: eu acho que dia 12 agora fez seis anos do acontecimento que eu vou dizer. Eu não tinha jurado. Só disse: não vou fazer mais baile dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida. Não é por causa da santa, claro que eu adoro, Deus me livre. Eu vou em Aparecida do Norte de uma a três vezes por ano. Isso é sagrado. É porque faleceu um irmão em Joinville, com 74 anos, e caiu dia de semana. E fui, fiquei, devia ser uma quinta-feira. Aí eu fui lá e quando chegou o meio-dia eu disse pra Mana – nós chamamos de Mana pra ela-, ?pois é, Mana, infelizmente o Juca vai porque tens os teus filhos pra cuidar, certo?. Esse meu irmão era ministro de Igreja em Nossa Senhora Aparecida, em Joinville, e acabou morrendo no dia de Nossa Senhora Aparecida. Aí quando faltam três minutos pra terminar o baile, eu subo, baixo o som e eu vou me despedir. Depois eu vou fazer o gesto pra vocês de como é que eu me despeço. Aí quando faltavam três minutos, ninguém sabia [do irmão falecido]. Daí eu disse: ?Gente, como é bom trabalhar com vocês, mas o meu coração hoje tá quebrado, tá partido [se emociona]. Só que vocês não veem tristeza em mim. Hoje, às 17h, foi sepultado o meu irmão. [O senhor ficou comovido também no palco?] É, e às 17h eu comecei minha tarde dançante. Só que o pessoal não tem nada com a minha tristeza. Eu só paro o dia que a minha mulher morrer, ou um filho ou um neto. Aí eu vou parar, certo? Mas paro uma semana e depois começo. Eu não quero ser velado no meu salão de maneira nenhuma. Só quero ser sepultado de branco, porque eu trabalho 28 anos de branco, totalmente de branco. Juca, por que trabalhas de branco? Porque eu me sinto à vontade. As pessoas perguntam e eu brinco e digo que trabalho de branco porque eu comprei com o meu dinheiro [risos]. Nunca ninguém me viu triste aqui dentro. Nunca.

DIARINHO – E pessoas que se conheceram no bailão e acabaram casando? Isso existe?

Juca – Eu queria essa pergunta [risos]. Eu tenho apelido de casamenteiro. Alguns casais que eu abençoei já se casaram. Teve um casal que se casou e veio festejar. Eu conheço um casal que casou aqui dentro. Dois viúvos (ele e ela) e nós fomos convidados pra padrinhos de casamento. Nós demos o presente e mais alguma coisa, mas não fomos porque nós tínhamos baile. E a vida da gente é isso aí. Tem muita gente que imagina assim, que o Juca fica preso na secretaria. Eu nunca fiquei na secretaria, nunca. A minha vida não é a secretaria.

DIARINHO – Os vizinhos nunca reclamaram da barulheira ou o senhor já teve problema com a fiscalização da prefeitura ou com a justiça?

Juca – Eu tinha um problema de coração quando eu tinha um ano de salão. O doutor Amauri [médico], não sei se é falecido, ele era do hospital Santa Inês, disse: ?Olha, se você não deixar o salão vai ter problemas. Eu aluguei para o Osni Teixeira e ele não aguentou. Aluguei pra Paulo Teixeira, Paulo Costa e Nelson Alves de Rio do Sul. Eles desceram de Camboriú. Bagunçou. Ali eu disse: Olha, Amauri, nem que eu tenha que morrer, mas eu vou voltar pro salão. Quando o Osni Teixeira pegou, fizeram um abaixo-assinado contra mim, contra o salão. [Os seus vizinhos?] Vizinhos. Esses miseráveis moram na Penha, o cabeça, certo? Fizeram abaixo-assinado. Naquele tempo era delegado o doutor Renato Ribas Pereira. Eu não gosto do doutor Renato. Eu amo, eu morro pelo doutor Renato. É muito mais do que gostar. Porque ele reconheceu que eu tinha uma filharada pequena, não incomodava ninguém. E foi engavetado o abaixo-assinado. E eu nunca incomodei vizinho nenhum. [Mas não deu ação na justiça isso?] Não, parou por aí. Eu tenho o doutor Renato como meu pai. Meu pai é falecido e o doutor Renato então é meu pai.

juca-(25) DIARINHO – Como o senhor faz pra conter a violência aqui dentro do salão?

Juca ? Uma coisa: não tem violência, aqui não tem essa situação. Nós temos uma equipe terceirizada de funcionários preparados. O nosso segurança é terceirizado. Não somos nós. E trabalho eu e mais um senhor da casa só de olheiro. Nós não paramos um minuto. Nós somos iguais a uns cachorrinhos. Nós vimos alguma coisa e já chamamos os cinco seguranças. Vocês podem ver depois. Tem uma luz vermelha ali que acende aqui no bar e tem a que acende na porta também.

DIARINHO ? Diz a lenda que uma vez o senhor foi ao DIARINHO, há mais de 15 anos, e não gostou do atendimento que recebeu. Aí o senhor teria feito uma queixa no programa do Menon e o Dalmo Vieira teria lhe procurado. Depois disso, o Dalmo decidiu profissionalizar de vez a equipe e também mudar a sede pra atender melhor os seus clientes. Esse episódio aconteceu mesmo?

Juca ? Eu não vou responder, porque se eu responder eu vou mentir. Mas eu acho que isso aí não é verídico, não lembro. Houve um caso, anos passados. E eu disse: eu vou falar com esse Dalmo. Eles tinham, se eu não me engano, a sede do lado do calçados Carlinhos. Era crítica demais do meu salão no jornal. Olha só como Deus faz as coisas certas. Eu tava com má intenção e eu dava a vida pelo Dalmo depois daquele dia. Aí eu digo assim: eu quero falar com o Dalmo. O Dalmo saiu com o carro dele carregado de jornal. Eu entrei, ele saiu. Ele não me conhecia, nem eu conhecia ele. Aí depois de muito tempo eu vi que era um milagre o que aconteceu. Eu não tava armado, não. Deus me livre. Eu vi que aquilo seria até um milagre. Depois eu entrei em contato com o Dalmo. Teve ele e a esposa dele aqui, me parece que nós fizemos até um café aqui, alguma coisa. Aí nós pegamos amizade. Depois que ele veio morar aqui na Vicente Meirinho, aí é que nós ficamos igual duas loucas. Nós não podíamos se ver. A gente se gostava. Eu disse, digo e vou dizer: no DIARINHO só sai ali o que se manda. Olha, eu já fiz esse teste algumas vezes. Eu vi algumas vezes crítica contra o DIARINHO. Mas o que o povo manda é o que é escrito, não sei se eu tô falando bobagem, mas eu nunca vi o DIARINHO aumentar. Nunca. A linguagem, isso aí é normal. Sabe por que que o pessoal lê o DIARINHO? Porque ali tem verdade. Eu não tô jogando flores, não. Eu não preciso disso. [Até porque o senhor já foi criticado, né?] É. [risos]. Agora essa história de eu ir no Menon, eu vou ficar devendo. [Prefere não responder?] Não, eu não me lembro. Eu não vou desmentir, mas eu não lembro. Vou ficar devendo. Tenho 90% de certeza que eu não fui.

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3 Respostas to “Empresário: Juca”

  1. ianca Diz:

    PARABÉNS PARA ESTE SENHOR, JUCA. QUE HISTORIA DE VIDA BONITA, DEVERIA SER LIDA POR TODOS, POIS ATRAVÉS DESTA ENTREVISTA MUITAS PESSOAS QUE TEM A ARROGANCIA NO CORAÇÃO APRENDERIAM QUE COM HUMILDADE E MUITA LUTA, E VONTADE DE VENCER TODOS CHEGAMOS LÁ.. PARABÉNS SR JUCA.

  2. reserva Diz:

    Parabéns Juca! Homen simples, honesto,trabalhador, e gente de boa índole, é o que estamos precisando neste país, e em especial dos pais atuais, dando educação aos seus filhos, impondo limites dentro da educação, respeito a todos, pois do geito que está, ta feio, hoje ninguem respeita mais niguem. O Brasíl precisa de muitos JUCAS, abraço amigo.

  3. mignon Diz:

    Parabéns ao Sr. Juca, conheço ele pessoalmente é ele é assim mesmo.
    E falando nisso eu tbm vou me casar graças ao salão dele, foi lá que eu e meu Noivo nós conheçemos.
    Parabéns pelo entrevista, muito boa mesmo.

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