• Postado por Tiago

?No mundo do tráfico de drogas, a dívida não é cobrada em cartório?

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Nome: Cláudio Monteiro

Nascimento: 23/04/1975

Naturalidade: Florianópolis

Estado civil: solteiro

Formação: Direito, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2002.

Cargos: Delegado da polícia civil em Navegantes, em 2003; delegado da divisão de investigação criminal (DIC), em 2004, e, desde 2005, ocupa o cargo de delegado de repressão ao entorpecente (DRE), da diretoria estadual de investigação criminal (Deic).

?No mundo do tráfico de drogas, a dívida não é cobrada em cartório?

O delegado manezinho Cláudio Monteiro ficou nacionalmente conhecido por causa do feliz desfecho do sequestro de Benta Pivatto e seu filho Igor, de três anos, na Penha. No desenrolar da história, foi revelado um vídeo onde o sequestrador Rafael de Borba ensinava o filho e a sobrinha a roubar e matar. Foi o delegado Cláudio quem encontrou a filmagem que chocou o Brasil. À reportagem, ele admitiu que também se abalou com aquelas imagens.

Mas este não foi o primeiro caso cabeludo que o doutor enfrentou. Em 2004, ele assumiu as investigações do assassinato do jovem Rafael Mendonça, morto pela polícia militar ao ser confundido com bandidos em frente ao Porto de Itajaí. Há quatro anos, ele também responde pela divisão de repressão ao entorpecente da Deic. A carreira de sucesso lhe deu destaque entre os delegados da Polícia Civil catarinense, mas o sucesso profissional não inflou o ego do jovem delegado de 34 anos, que prefere a discrição na hora de falar da sua vida pessoal, até porque seu trabalho o deixa na mira de quem vive fora da lei. Nesta entrevista às jornalistas Franciele Marcon e Renata Rosa, ele conta detalhes da investigação do recente sequestro, da carreira policial e do incessante combate ao tráfico de drogas. As fotos são de Felipe VT.

DIARINHO – O senhor participou da investigação que desvendou o sequestro da família Pivatto. Qual foi o momento mais crítico das negociações?

Cláudio Monteiro – O momento mais crítico foi quando os caras falaram que a vítima, a Benta, tinha visto uma placa. Nós não soubemos interpretar, na hora, se foi uma placa de trânsito ou de um automóvel. Depois a gente constatou que era uma placa de trânsito, onde estava escrito Itapecerica, Itapecerica da Serra, provavelmente. Esse foi um momento bem tenso. [Por que ela identificou onde poderia estar e eles poderiam ser presos?] Não, porque poderia levá-la à morte.

DIARINHO – Logo que mãe e filho foram soltos houve uma grande comemoração entre a polícia e os familiares. Houve a comemoração por que vocês já tinham identificado o paradeiro dos bandidos?

CM – Nós não comemoramos. O que houve foi o seguinte: o doutor Renato tava ali cuidando de toda a negociação, afinal de contas a responsabilidade é dele. Ele é o delegado da antissequestro. Ele estava conversando com a família, controlando a negociação. Fora isso, eu tinha vindo para apoiar o doutor Renato. Este é o quarto sequestro que eu trabalho junto com o doutor Renato. Nós estávamos ali, na retaguarda, fazendo as investigações, monitorando os caras, levantando os telefones deles. Enquanto o doutor Renato estava ali com a família, nós estávamos no outro canto. Algumas vezes precisávamos fechar a porta, por causa do entra-e-sai. Então não houve comemoração, nós continuamos concentrados nas investigações para identificar e localizar as pessoas que foram responsáveis por aquele crime. [Talvez o senhor não tenha comemorado, mas houve a comemoração de alguns policiais. Naquele momento, vocês já sabiam quem eram os bandidos?] Não. Tinha o acompanhamento, mas não tinha maiores detalhes. Com o tempo foi se tendo certeza. Depois da soltura dela é que conseguimos confirmar a identificação, levantar local, confirmar tudo.

DIARINHO – Por que não houve a prisão dos criminosos quando eles repartiam o dinheiro do resgate na Penha, a poucos quilômetros de onde a polícia estava?

CM – Porque foi aquilo que falei. A gente não tinha a confirmação, nós tínhamos uma grande possibilidade. Nós não sabíamos que eles estavam ali, repartindo o dinheiro. Esse foi um dado repassado depois, após a prisão de parte deles. Óbvio que se nós soubéssemos que eles estavam ali, com a vítima nas mãos, com certeza eles teriam sido presos. Vou até confessar uma coisa para vocês: nós entrávamos um pouco em atrito, o doutor Renato e eu. Eu gosto de trabalhar na rua, então a gente fica com aquele ímpeto. Tanto eu como o pessoal do COP de Itajaí (central de operações policiais) queríamos ter acompanhando o cara que foi levar o resgate, pra guentar os dois criminosos que foram pegar o dinheiro. Mas a responsabilidade é do doutor Renato, que é da antissequestro, e se ele diz pra mim que tem que ser assim, vai ser assim. [Vocês não acompanharam por que a vítima estava no cativeiro e isso poderia levá-la a morte?] Justamente. Num sequestro, primeiro a vida, com certeza.

DIARINHO – Por que o dinheiro pago no resgate não foi recuperado até hoje?

CM – O dinheiro, quando bate na mão dessas pessoas, some. O fato é o seguinte: pelo que identificamos na investigação foram cerca de 12 pessoas envolvidas. Foram R$ 57 mil, pra dividir entre 12 pessoas. Isso vai dar dois mil pra um, dois mil pra outro, e some. Pulverizou. Só para manter a logística de um sequestro, já devem ter gastado quase tudo. [Com o bandidão, o Rafael Borba, não foi pego dinheiro do sequestro?] Não. Com o Rafael não foi pego dinheiro. Foi pego dinheiro numa casa aqui na Penha com a esposa do Rafael, a Viviane. Se não me engano foram dois mil e poucos reais, mas segundo o gerente do hotel onde ela trabalhava, tinha sido emprestado isso para ela.

DIARINHO – Qual a chance do restante da quadrilha ser presa?

CM – Não tenho como te falar agora. Quem está tocando essa sequência é doutor Renato, se ele me solicitar o apoio, eu vou participar com certeza e vamos nos empenhar. [Mas pela experiência do senhor como delegado, acredita que aconteça a prisão de outros envolvidos?] Olha, já estão identificados. O contato da Polícia Civil de Santa Catarina com a de São Paulo, e de outros estados, é bem forte. Existe um contato muito bom, então se houver a possibilidade de localizá-los, com certeza vão ser presos. [Essas pessoas já estão com o mandado de prisão?] Sim, estão com mandados de prisão.

DIARINHO – O senhor foi um dos primeiros policiais que assistiu ao vídeo caseiro feito pela Viviane, onde aparece Rafael ensinando o filho e a sobrinha a assaltar e matar. Ele foi descoberto no computador? Tinha outros vídeos?

CM – Foi descoberto no computador e só tinha esse vídeo. Tinha outras fotos, do cotidiano deles. [Mas fazendo referência à vida do crime?] Não, não. Só este vídeo mesmo. [E qual foi a sua reação?] Foi de choque. A gente trabalha há muito tempo com isso, mas o que está acontecendo é uma total e completa inversão de valores. Aquilo dali, pra eles, parece ser o natural. A verdade é essa. A declaração dele: ?eu não quero fazer mal para o meu filho. Com isso aí, eu não estou fazendo mal pro meu filho?. É uma completa inversão de valores. [Então é natural que os filhos dessas pessoas que vivem no mundo do crime sigam este caminho?] A gente não tem como falar isso. Fazer uma previsão do futuro, porque são seres humanos. O que ouvimos de todas as pessoas que prendemos é que eles não querem aquilo pro filho deles. Mas o fato é que eles acabam servindo de exemplo pros filhos. Servindo de exemplo de que maneira: o filho, quando faz 12 ou 13 anos, vê o pai andando com um carrinho melhor, andando com boas roupas, entre outras coisas, indo a restaurantes, só que o filho desconhece a origem deste dinheiro. Viu o pai dele vendendo, acha a coisa mais natural do mundo e acaba seguindo este rumo. Embora venha tomar ciência de que aquilo ali é errado um pouquinho mais tarde, mas acaba seguindo. [O senhor imaginava que aquele vídeo ia ter repercussão nacional, que seria manchete dos telejornais nacionais?] Não, não imaginava.

DIARINHO – O senhor é contra a redução da maioridade penal?

CM – Não é que eu seja contra. Existem outros inúmeros problemas. Só que o que se tem visto em relação a adolescentes é uma total e completa falta de controle. A revista Veja saiu com uma matéria sobre os problemas que os professores estão tendo com os adolescentes dentro de sala de aula. Ou seja, os adolescentes não estão tendo mais limites. Será que o problema é só a redução da idade penal? Será que não tem um histórico de educação familiar, entre outras coisas? São questionamentos que têm que ser feitos. [Falta de pulso dos pais?] Com certeza. Falta de pulso dos pais. Não sei se só a redução da idade penal vai resolver. É fato que adolescentes de 16 e 17 anos já têm muita ciência do que fazem. Eu, particularmente, tenho uma gravação de uma investigação que a gente fez, se eu mostrar o conteúdo para vocês, vocês vão ficar boquiabertas. O relato de um adolescente que cometeu um homicídio, deu quatro ou cinco tiros na cabeça de uma pessoa, liga para uma namorada, um guri de 16 anos, e pede para a namorada ir lá, ao local, conferir se o cara morreu mesmo. Na gíria dele, ele diz: ?a cabeça dele tá cheia de rombos, legal pra caramba! Mas não pega nada, eu sou menor mesmo. Não dá nada?. Eles têm ciência que ?não dá nada em função da idade. Então não está na hora de questionar isso aí? [Mas colocar um adolescente, um jovem, no sistema carcerário brasileiro, sem vagas e sem estrutura, não é condená-lo a viver no mundo do crime ou à morte?] Não resolve, com certeza não resolve. Mas como está também não dá.

DIARINHO – O senhor conheceu a família das crianças, o filho e a sobrinha do Rafael, dos quais os parentes estão pedindo a guarda. Pelo que o senhor investigou, eles têm condições de educar essas crianças?

CM – Olha, eu não sei se eles têm condições de educar. Não sei. Eu conheci no meio policial, não tenho como formar um juízo de valor para dizer se uma avó ou uma tia têm condições. O que eu percebi, desde o início, eu até comentei com o doutor Francisco (Ari Plantes dos Anjos, delegado de Piçarras), que a casa da avó das crianças, era casa de traficante. É casa de quem está envolvido com droga. E para surpresa nossa, enquanto nós estávamos ali fazendo a revista, chegou uma mulher com uma batedeira na mão. [Não era pra fazer bolo?] Não, não era pra fazer bolo. (risos). Chegou com uma batedeira, inventou mil e uma desculpas. Com certeza, aquela batedeira ia ser trocada por drogas. Mas no no final, nós acabamos localizando drogas.

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DIARINHO – O Rafael realmente é um bandido perigoso ou o vídeo era só uma forma de ganhar status junto aos comparsas do mundo do crime?

CM – O Rafael responde por um homicídio no Paraná. Há informações de que ele estaria envolvido em mais dois homicídios no litoral centro/norte catarinense. Bandido é bandido, em qualquer lugar. Mas ele tem homicídio, então já tirou a vida de alguém.

DIARINHO – O senhor é o delegado responsável pela divisão de repressão ao entorpecente (DRE) da Deic. Qual a droga que mais assusta? É o crack mesmo?

CM – O crack é muito violento, destrói as pessoas. Vocês já repararam nos sinais, as pessoas pedindo, já repararam o estado que a pessoa fica? Aquilo ali é uma das etapas do crack. A etapa quase que final. A pessoa perde a autoestima, o senso do razoável. A pessoa se humilha pedindo 10, 20 centavos, pra comprar mais drogas. [E a droga mais apreendida no estado hoje, é o crack?] Maconha. Teve até a Marcha da Maconha em Florianópolis… [O senhor é contra a legalização da droga?] Com certeza. Não só como profissional, mas como pessoa também. [Por quê?] A droga sustenta uma indústria muito forte do crime organizado. Não só a cocaína, não só o crack, a maconha também. Sustenta uma indústria do crime organizado que financia sequestros em São Paulo, que financia o tráfico de armas. [Mas isso não é porque a venda é marginalizada?] Essa é uma pseudo impressão que se passa: ?ah, vamos liberar a venda…? Não pense você que o cidadão que vende drogas num canto qualquer da cidade, lá no Cordeiros, em Itajaí, se essa droga for legalizada ele vai vir pro lado da esfera legal. Não vai vir. Porque essa droga vai ser taxada, vai ter o imposto de no mínimo 50%, e vendendo lá naquele cantinho, na casa dele, mesmo na ilegalidade, ele vai ganhar mais. O que manda na questão do tráfico de drogas é o dinheiro, o lucro. Por isso tem muita gente vendendo drogas. Enquanto nós trabalhamos o mês todo para ganhar um salário que é suado, para nos manter, muitos conseguem, num dia de comercialização de drogas, ganhar mais. [O senhor conhece o histórico de algum traficante que conseguiu se manter a vida toda com o tráfico de drogas, e terminar a vida com um bom patrimônio e nunca ser preso?] Muito difícil. O destino dessas pessoas já está apontado: é cadeia ou morte. No mundo do tráfico de drogas, a dívida não é cobrada em cartório. Vocês sabem como se dá a cobrança de dívida do tráfico de drogas, e, às vezes, no negócio da droga, o cara acaba se perdendo. Começa a gastar. Começa a usar a droga, daí fica devendo ou então é preso. Preso também adquire mais dívida, porque a droga que ele comprou e não pagou, pegou em consignação, acaba sendo apreendida pela polícia.

DIARINHO – Qual a rota de entrada mais usada pra abastecer os traficantes do estado?

CM – Os principais pontos de entrada de drogas para região sul são: Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul; a cidade de Guaíra, no Paraná; aquela fronteira oeste do Paraná com o Paraguai e Foz de Iguaçu. Esses são os pontos por onde entra muita droga. O entorpecente entra por terra, atravessando o rio de canoa, tem a fronteira seca, em Coronel Sapucaia, no Mato Grosso do Sul, divisa com Capitão Bado, no Paraguai. Capitão Bado é a maior região produtora de maconha do Paraguai. [A produção do nordeste não chega aqui no sul?] Acho que a demanda de São Paulo dá conta de tudo. [Qual a região do estado onde há mais tráfico de drogas?] A região de Itajaí é muito forte. O litoral como um todo. É uma região que aglutina pessoas, uma área que atrai pessoas do interior que vêm para cá, pessoas de outros estados, principalmente no verão. Grande parte da economia gira no litoral, e é onde tem dinheiro. [Itajaí ainda é considerada uma das principais rotas de entrada de drogas no Brasil?] Em Itajaí é forte. Em Itajaí, há muito tempo, os traficantes antigos de Florianópolis costumavam, quando não tinham os contatos nessas cidades de Ponta Porã, Foz do Iguaçu, comprar de traficantes conhecidos aqui na região. Traficantes que já morreram: Jerônimo, Japonês, Hélio, Petiço, acho que o Petiço ainda é vivo. A droga chegava, não sei por qual razão, não sei se é pela presença do porto, que facilitava o escoamento desta droga para outros continentes. [Não vinham de navio para Itajaí?] Olha, tem informações de que vinha, mas confirmado, efetivamente, nunca foi. [Então Itajaí é um ponto de distribuição?] Sim, de distribuição. Muitos traficantes da região de Florianópolis vêm buscar aqui. Muita gente do estado, de Criciúma, Florianópolis, Joinville ? que é outro ponto de distribuição ? vem buscar a droga em Itajaí. [Balneário?] Balneário é um centro consumidor, mas tem tráfico, bastante tráfico. Uma coisa que notamos neste período que estamos na DRE é que a região de Camboriú vem atraindo o povo paraguaio, que traz drogas e principalmente maconha para cá.

DIARINHO – Há uma lenda, não confirmada, de que barcos pesqueiros que atracam no nosso litoral também trariam drogas. Essa denúncia já chegou até vocês?

CM – Já recebemos este tipo de informação. Nunca conseguimos confirmar, porque não temos a atribuição de fiscalizar os mares. Essa é uma atribuição da polícia federal. Mas se um dia tivermos uma denúncia forte, nós vamos checar – claro que respeitando as atribuições de todas as instituições.

DIARINHO – Em relação ao consumo de crack, ele pode ser considerado uma pandemia em Santa Catarina? E o crack chega pronto ao estado ou existem fabriquetas de fundo de quintal?

CM – O crack é muito preocupante. E ele não está afetando só as camadas pobres da sociedade, mas outros tecidos sociais. Já tem uma preocupação, inclusive de emissoras como a RBS, que está fazendo uma campanha muito forte em relação ao crack, porque estão enxergando o problema. O problema apareceu. [E quando as vítimas estavam nas camadas mais pobres…] Não é isso que estou dizendo, que afetava só as camadas mais pobres, mas é que se alastrou. Criou um problema de saúde pública. Você vai ver nas sinaleiras inúmeras pessoas pedindo dinheiro, pessoas viciadas em crack. Realmente, está se tornando uma pandemia. Em relação à fabricação, a maioria do crack que a gente pegou, acho que a totalidade, já vinha pronta. A nossa atuação na Deic é mais voltada para aqueles distribuidores que trazem a droga lá de fora e tentam inserir no território catarinense.

DIARINHO – No Rio de Janeiro, muitos traficantes de maconha e cocaína têm ojeriza aos traficantes de crack. Falam que a droga é barata e mata rapidamente o usuário. Em Santa Catarina, já existe essa discriminação dos outros traficantes com o traficante de crack?

CM – Não. Esse foi um dado bem interessante que tu falou, porque em 2006 ou 2007, nós fizemos uma investigação que abarcou também o PCC. Uma coisa que a gente percebeu, naquela investigação, é que o PCC tava tentando proibir a comercialização de crack, porque matava a galinha dos ovos de ouro deles, que seriam os usuários. Esse foi o termo que usaram: ?a nossa galinha dos ovos de ouro?. Isso me chamou a atenção. Agora, no começo do ano, nós prendemos em Camboriú um traficante do Rio de Janeiro, e ele mesmo falou que no morro onde controla o tráfico, proibiu a venda do crack. Proibiu! Primeiro, não dei crédito a essa versão, ele disse que está havendo uma degradação do ser humano. Eu não acreditei nisso, em hipótese alguma. Depois ele veio com essa conversa de que estaria matando a galinha dos ovos de ouro. E outro fato: o crack gerava muitos furtos e trazia a polícia para o morro, então ele não queria isso. [Mas aqui em Santa Catarina já existe essa discriminação com os traficantes de crack?] Digamos que essa preocupação do traficante com a saúde do usuário não existe ainda. (risos).

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DIARINHO – O tráfico de drogas sintéticas tem aumentado em Florianópolis e Balneário. Este tipo de droga é o novo filão dos traficantes da região?

CM – Esse é um tráfico de nicho. É muito comum esse tipo de tráfico ser praticado por jovens de classe média e média/alta. Mas uma preocupação que estamos tendo é com o retorno do tal do LSD. Era uma droga usada no tempo de Woodstock e está voltando com toda a força, e essa é uma preocupação que nós temos. Era uma droga que sumiu num determinado período e voltou com força total, com uso forte, principalmente, em festas eletrônicas. Recentemente, não faz um mês, pegamos um rapaz em Florianópolis fornecendo para um rapaz aqui de Balneário Camboriú, que fornecia para festas de músicas eletrônicas de Balneário até Curitiba. [Mas é uma droga de verão ou aumenta o consumo no verão?] Toda droga aumenta o consumo no verão. Porque há uma aglutinação de pessoas no litoral, então a demanda é maior. Agora essa droga é, sim, associada, no meio policial, às festas de músicas eletrônicas.

DIARINHO – O senhor já foi delegado em Navegantes. Como foi trabalhar numa cidade pequena que tem um índice de criminalidade tão grande?

CM – Foi um desafio trabalhar em Navegantes. Nós chegamos ali e a cidade estava bem complicada. Com manifestação da comunidade pedindo audiência pública para resolver o problema da segurança. Tinha o doutor Francisco (Ari Plantes dos Anjos) que já trabalhava ali. Fizemos um trabalho que foi reconhecido pela comunidade. Nós conseguimos dar um alento àquela comunidade. [Qual o principal problema de Navegantes?] O tráfico de drogas. Tem todo o problema social de Navegantes, muita gente vindo de fora, a cidade não tem condições de comportar esse pessoal. A mão-de-obra não é qualificada e acaba favelizando a cidade. Essas pessoas, como não têm qualificação, não são inseridas no mercado de trabalho e acabam se voltando pro crime. Esse é o ciclo básico da criminalidade. [Hoje, Navegantes tem pouco efetivo na polícia civil. O que um delegado faz sem efetivo, ele consegue trabalhar?] O que eu fazia: trabalhava. Eu tinha dois ou três policiais, que trabalhavam comigo. A gente tinha que distribuir daqui e dali, mas eu não espero a coisa chegar, eu vou atrás. Não sei se estou certo ou se estou errado, mas este é o meu método de trabalhar. Eu vou atrás.

DIARINHO – Quando o senhor era delegado de Navegantes foi chamado pelo chefe da polícia civil para investigar a morte do estudante Rafael Mendonça. Rafael foi morto em 2004, em frente ao porto de Itajaí, quando foi confundido com um bandido e morto pela PM. O caso até hoje não foi esclarecido. Há um boato de que o tiro fatal não partiu da arma do soldado Noé, como teriam apontado as investigações, mas que Noé teria assumido a culpa para livrar um oficial. As provas que constam no processo deixam margem pra essa dúvida?

CM – Durante a investigação ninguém assumiu coisa nenhuma. O que se apurou foi que o policial Noé estaria usando uma arma de calibre nove milímetros, segundo o que ele mesmo informou. Durante as investigações, o projétil retirado do corpo da vítima foi encaminhado para a perícia, assim como também as supostas armas utilizadas pelos policiais, só que em virtude da deformação apresentada pelo projétil não foi possível, num primeiro momento, apontar de qual arma o projétil saiu. Entretanto, em nova perícia, questionou-se aos peritos de qual calibre poderia ser o projétil extraído do corpo da vítima, sendo que a resposta apresentada pelos peritos foi que pelo peso do projétil não poderia ser um calibre 38, que era a arma utilizada pelo oficial que estava na diligência. Os peritos informaram também que o projétil seria de uma arma calibre 9mm, sendo que tal arma foi utilizada somente pelo soldado Noé. [Mas pelo que o senhor lembra, existe a possibilidade de não ser dele o tiro que matou Rafael?] Sinceramente, não sei responder. A única coisa que sei é que, na época, ninguém admitiu ter desferido o tiro que acertou o Rafael. Eu entendo perfeitamente a posição dos familiares, que acabaram por perder um ente mais do que querido, mas também lamento e muito pelo soldado Noé, que conheci e sei que se trata de um excelente policial. Porém, a conclusão do inquérito policial que presidi foi baseada em dados obtidos através das perícias realizadas, sem que qualquer pessoa tenha assumido a autoria do disparo.

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DIARINHO – A lei do tráfico de drogas mudou recentemente. Com a mudança, os usuários não são mais presos, eles apenas respondem um termo circunstanciado por posse de drogas. Isso dificulta o trabalho da polícia?

CM – O grande problema desta lei nova é que ela não diferenciou o usuário do dependente químico. A lei, naturalmente, tratou a questão do consumo de drogas como um problema de saúde pública. É correta essa visão, é um modelo europeu de repressão ao tráfico de drogas, distanciado um pouco do padrão americano. Só que não diferenciou o dependente químico, que na minha concepção, efetivamente, merece uma atenção do estado, do usuário de drogas, que é quem fomenta o tráfico de drogas. [Mas é difícil diferenciar um usuário de um dependente químico?] Não, não é. Dependente químico é aquele cidadão que está na sinaleira, se submetendo a inúmeras situações porque não consegue viver sem a droga. Ele já perdeu todo o senso crítico. Todo o senso do valor, então ele está se humilhando para conseguir. Ele não consegue viver mais sem a droga. O usuário é aquele cidadão que tem emprego, recebe um salário e uma parte desse salário, ele gasta num final de semana, numa festa eletrônica ou numa danceteria, com a compra de droga pra fazer uso. Esse cidadão durante a semana não vai fazer uso de drogas, não vai depender daquilo ali. Aquele hábito dele contribuiu para fomentar o crime e eu acho que é aí que reside o maior erro dessa lei. [Hoje é mais difícil prender traficantes por conta dessa lei. Quem anda com pouca quantidade acaba se passando por usuário?] Não só por causa dessa lei, têm inúmeros fatores. Um grande problema no cenário nacional, que foi essa questão envolvendo os grampos telefônicos, entre outras coisas. Nós, policiais, estamos sentindo uma dificuldade muito grande para dar cabo às investigações, porque os juízes, o judiciário como um todo, tão reticentes com relação às interceptações telefônicas. Inúmeros fatores têm contribuído. Essa lei não alterou muita coisa, porque o trabalho policial continua o mesmo. [A escuta telefônica é a principal arma de investigação da polícia?] Eu não diria que seria a principal, mas eu diria que é uma delas.

DIARINHO – Recentemente, vários policiais civis e militares foram presos dando cobertura à máfia dos caça-níqueis. O que leva um policial a se corromper?

CM – Acho que o principal é o caráter. Eu não tenho como tecer comentários, pois não conheço essas pessoas. [O senhor já recebeu uma proposta de suborno?] Sim, já recebi. Aqui em Navegantes, quando trabalhei num caso que teve repercussão, não vou dizer qual, mas recebi proposta de suborno e eu até fiquei meio alterado. [O senhor não prendeu a pessoa na hora?] Sim, foi preso. Foi preso. [Foi só uma vez que isso aconteceu?] Não, isso acontece no cotidiano do nosso trabalho. Mas hoje não acontece mais, dificilmente acontece. O bandido sabe com quem está trabalhando. Como diz o ditado: o diabo sabe pra quem aparece. Eu não dou margem pra isso também.

DIARINHO ? Dentro da polícia vários cargos são nomeados por indicação política, como o de secretário de segurança pública. O senhor acha que tem como a polícia ser eficiente e ter qualidade enquanto se misturar segurança pública e política?

CM – A segurança pública tem que ser gerida por profissionais da área da segurança pública.

DIARINHO – A polícia civil catarinense tem ferramentas e está preparada para combater a criminalidade? E tem efetivo para fazer este combate?

CM – A polícia catarinense é muito bem preparada. Nós temos ferramentas para o trabalho, agora o efetivo da polícia nunca vai ser o ideal. Infelizmente, a população vem crescendo constantemente e o efetivo da polícia não consegue acompanhar. Por mais que os governantes tenham boa intenção, nós não vamos conseguir acompanhar. Nunca vai ser o ideal. [Tem alguma solução para esse descompasso entre o aumento da população e o efetivo?] Eficiência na atividade policial. [A tal da inteligência?] Não. Inteligência é uma coisa, eficiência é outra. A inteligência contribui para que a eficiência ocorra. [E há investimento nesta inteligência?] Sim. [Mas vai além de eficiência. Muitas vezes, a polícia faz o seu trabalho, desvenda determinado crime e o judiciário acaba soltando essas pessoas, que a polícia levou meses e até anos para prender. Isso não gera uma sensação de impunidade?] Não é nem a questão das instituições, seja a polícia ou o judiciário, é o sistema legal que nós temos. É a lei! Nós estamos presos ao restrito cumprimento da lei. [Mas isso não frustra o senhor como delegado?] Às vezes, frustra. Nós temos um caso de um traficante que nós estamos acompanhando. Nós prendemos este cidadão trazendo um quilo de crack para Santa Catarina, ele confessou que era traficante. Foi condenado. Só o que aconteceu, nesta época, foi um período de transição da lei penal. Até então, no nosso ordenamento jurídico, só quem tinha prerrogativa de oferecer uma defesa preliminar era o servidor público. E a lei nova trouxe essa figura da defesa preliminar e alguns juízes não aplicavam. O que acontecia, o Tribunal de Justiça entendia que havia o cerceamento de defesa e acabava anulando o processo. Foi o que aconteceu neste caso: o Tribunal de Justiça acabou anulando a sentença porque não houve a oportunidade da tal defesa preliminar. Só que aí a gente fica pensando: nós prendemos, o cidadão foi condenado, confirmou que era traficante, teve a ampla defesa, teve a oportunidade do contraditório, e simplesmente a sentença foi anulada. A minha preocupação não é só prender, a minha preocupação é social. A gente sabe o mal que a droga causa. Não foi uma, nem duas, três ou quatro famílias que estiveram lá procurando por nós, pedindo uma solução porque não sabiam mais o que fazer com o filho envolvido com drogas. A droga é um fato de desagregação familiar. Mãe acorrentando filho porque não encontrou mais uma saída. A gente vê o desespero que as pessoas passam.

DIARINHO – O senhor falando da desagregação familiar, veio em mente o tal toque de acolher, que seria o toque de recolher, onde menores de 18 anos não poderiam ficar nas ruas sem os pais ou responsáveis, após as 22h. O senhor acha uma medida eficaz?

CM – Se vai dar certo e até quando não sei te dizer. Eu não tive a experiência de trabalhar numa comarca onde teve esse tal toque de recolher. Não tenho relato de resultados dessa experiência. Acredito e entendo que adolescente não tem que estar na rua de madrugada. Adolescente tem uma vida produtiva, tem que frequentar um colégio. Não pode estar na rua de madrugada e ir ao colégio na manhã seguinte. A educação, que é base de tudo, como fica? [O estado então está tendo que interferir nesta função dos pais?] Está tendo que restringir as liberdades individuais e imiscuindo-se numa atribuição que seria da família. Não dos pais, da família.

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DIARINHO ? O senhor já deixou de prender um criminoso por falta de vaga no sistema prisional?

CM – Não, em hipótese alguma. Ele vai ficar preso na delegacia, mas deixar de prender nunca. [Como o senhor vê o sistema carcerário? Por que as cadeias não saem do papel?Não recuperam os infratores?] Eu não sei da realidade do sistema carcerário. Se me perguntarem em termos de polícia civil, eu sei. [Mas o presídio da Trindade, em Floripa, há décadas estão para tirá-lo dali?] Isso é uma questão administrativa, do estado. Não tenho o mínimo interesse em saber como funciona isso aí. Isso não é uma atribuição minha. [As pessoas que moram no entorno têm muito receio?] Tem, com certeza. A comunidade tem receio, porque é uma penitenciária antiga, do tempo que Florianópolis era outra cidade. Aquilo era afastado do centro. É um problema aquele presídio naquele local, só que tem outro problema: onde colocar? Ninguém quer. Quando você aventa a possibilidade de levar o presídio para um determinado local, inúmeras pessoas começam a se organizar, procuram um político pra impedir a construção. Pelo que tenho ouvido, pelo pouco que tenho acompanhado na secretaria de segurança, o grande problema é a implementação de presídios. Esse é o grande problema.

DIARINHO – Por que ser policial? É uma profissão que não oferece um grande salário e ultimamente não é nem tão admirada pela sociedade…

CM – Eu sempre fui fascinado pela atividade policial. Na época da faculdade de Direito eu sempre falei: ?eu estou fazendo Direito porque quero ser delegado de polícia?. Se eu tivesse que fazer engenharia de produção mecânica ou qualquer coisa neste sentido pra ser delegado de polícia, eu faria. Foi o meu objetivo. [Mas a ideia era combater o crime?] Não. Até porque combater o crime é uma realidade bem distante. É bem complicado. Eu tinha um fascínio pela atividade policial, não gosto de bandido. [Mas tem que conviver?] Tem que conviver. [Neste tempo que está exercendo a profissão, já foi ameaçado de morte?] Várias vezes. Não foi uma e nem duas, foram várias vezes. [Não pensa em largar a profissão?] Não. Eu acho que esse é um dos riscos inerentes à atividade que eu exerço. Eu tenho que saber conviver com isso e procurar me resguardar da melhor maneira possível.

?Tem todo o problema social de Navegantes, muita gente vindo de fora, a cidade não tem condições de comportar. A mão-de-obra desse pessoal não é qualificada e acaba favelizando a cidade. Essas pessoas, como não têm qualificação, não são inseridas no mercado de trabalho e acabam voltadas pro crime. Esse é o ciclo básico da criminalidade.?

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