• Postado em 11 jan 2010
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TURISMO E PATRIMÔNIO HISTÓRICO

DIARINHO – O primeiro tema é relacionado ao turismo e ao patrimônio histórico. O turismo é uma atividade muito importante, mas muito mal explorada ainda no sul do Brasil. O que o senhor acha que pode ser feito para desenvolver o potencial turístico de Itajaí? A preservação do patrimônio histórico da cidade, por outro lado, além de ser importante para manter a história da cidade, em muitos lugares tem sido fator motivador pro desenvolvimento turístico. Em Itajaí isso não poderia ser seguido?

Jandir Bellini – Nós desenvolvemos ao longo do tempo o conceito de que o turismo é a praia. Foi nesse sentido que Balneário Camboriú virou o maior centro turístico do sul do país, né!? Mas o turismo não é só a praia. O turismo vem da história de uma cidade. Da cultura de um povo se faz turismo. Da gastronomia se faz turismo. Da beleza da cidade, da beleza daquilo que a natureza nos proporcionou, também. E nisso Itajaí é riquíssima. Se faz turismo do potencial marítimo que nós temos. Da navegação se faz turismo. Da própria economia de uma cidade se faz turismo. De um comércio forte, de um comércio competitivo, de um comércio atraente se faz turismo. E Itajaí tem um potencial enorme em torno disso. Aí você pode perguntar: ‘Mas o senhor não foi prefeito por oito anos? O que o senhor fez pelo turismo?’. Infelizmente, nós em Itajaí – e hoje com as questões ambientais, que devem ser preservadas, cuidadas – temos dificuldades nos projetos para o setor. Há quanto tempo faz que nós poderíamos ter uma marina, por exemplo, aqui em Itajaí? E não temos porque quando se fala no Saco da Fazenda, na baía Afonso Wippel, aquilo ali é intocável, não pode. A própria praia Brava, que tem um potencial turístico enorme, ‘mas não pode’. Nós não estamos aqui defendendo a destruição ambiental. Isto não! Pelo contrário. Recuperamos o Saco da Fazenda, na sua dragagem e agora com o sistema de coleta de esgoto, fazendo daquilo ali novamente um local onde se possa desenvolver a cadeia produtiva do ecossistema. Então eu acho que nós temos esse potencial.
Itajaí agora começa a se sobressair aí no turismo marítimo, com cruzeiros marítimos. Estamos trabalhando no sentido de termos investidores na marina, no Saco da Fazenda. Eu espero que a população se conscientize. Cada barco produz dois empregos. Se nós tivermos aí – e tem um projeto já, um anteprojeto que aponta isso – 592 vagas para barcos, significa dizer 1100 empregos que serão gerados. E a marina não polui. Quem pratica esse tipo de hobby, de lazer, ele é um preservador nato do meio ambiente.
Nós estamos habituados a ver o barco descarregando 60, 70 toneladas de peixe. Mas quem não mora aqui, que mora lá no interior do estado, do país, pagaria um bom dinheiro pra ver, para ter oportunidade de ver como é que chegam os barcos, como é que se pesca. Então, ali na avenida Paulo Bauer, que é a antiga República Argentina, naqueles terminais de pesca, o que nós poderíamos fazer? Unir o útil ao agradável. Construir em cima em cima dos trapiches um belo restaurante, que pudesse servir ali gastronomia do mar. E ao mesmo tempo que a pessoa tá saboreando isso, tomando um bom chope, um bom vinho, olhando a descarga dos barcos. Outro ponto turístico que nós temos também é o porto.
Nós falamos aí da história da cultura e o patrimônio histórico de Itajaí. São Francisco está sabendo explorar isso. Nós não vamos a Europa, vamos a Itália, vamos a Roma, pra ver o Coliseu? O que é o Coliseu, a preservação de uma obra que no passado fez parte da história… Um ponto turístico que atrai milhões de pessoas. Agora, nós estamos vendo aí a restauração do prédio onde era a antiga Receita, ali no final da avenida Paulo Bauer, e também a restauração da casa onde fica a fundação Cultural, na rua Lauro Müller. Nós temos que preservar, aquilo que fez parte da nossa história.

José Roberto Provesi – Sem dúvida. Sempre é colocado que Itajaí é uma cidade pólo em termos de um eixo que recebe uma carga de turistas. Temos de um lado Blumenau, Balneário Camboriú ao outro, Brusque, a capital do Estado não está muito longe, temos o aeroporto. Eu entendo que temos uma posição geográfica favorável. Agora, eu até hoje não entendi porque nós não temos um plano diretor para o turismo. Nós temos que entender a questão da parte paisagística da cidade, as condições que ela pode oferecer. Um aspecto importante do turismo, e isto é consagrado no mundo, é a questão gastronômica. A gastronomia é o primeiro ponto de atração turística, porque é onde as pessoas têm vontade de ficar mais tempo. E a cidade hoje reúne condições de oferecer este trabalho. A universidade tem um papel fundamental nisso, tem o curso pioneiro, foi o primeiro curso no Brasil a ser reconhecido, então existe uma escola próxima, ao lado da cidade. A cidade tem que se preparar para isto e criar um plano diretor de turismo. E este plano diretor de turismo não pode ser feito apenas para o verão e para as praias. Claro que existe hoje um potencial instalado, mas é necessário também propor alternativas. O projeto Borda D’água, por exemplo, foi apresentado, discutido, deveria ser retomado e ser traçado como um projeto de fixar o turista na cidade. Ao mesmo tempo, o Museu Oceanográfico da Univali, que é da Univali, mas que se vier a se instalar em Itajaí certamente atrairá turistas ao longo do ano. É uma carga de turismo permanente, efetiva, mas infelizmente não conseguimos ainda ter uma adesão política no âmbito local, estadual e até federal. É um projeto que mudaria a cidade, não tenha dúvida. Tem que ter o plano diretor de turismo para preservar áreas e dar condições de os equipamentos de turismo serem colocados à disposição. Agregar neste ambiente todo a parte de patrimônio histórico, também seria fundamental.

Luiz Carlos Pissetti – Nós precisamos tratar do turismo regionalmente. Nós não podemos tratar do turismo querendo que os milhares de turistas de passageiros dos navios que desembarcam em Itajaí, permaneçam em Itajaí. São passageiros que vem com dinheiro e querem conhecer a região, e o potencial de cada município. Então nós precisamos criar um consórcio com os municípios que nos circundam e cada qual tem um viés, um modal especial, que se destaca mais no modal do turismo. Digamos: um convênio com Blumenau e Brusque, na questão têxtil. Um convênio com Bombinhas e Porto Belo, para questão das praias, porque inequivocamente são as mais lindas. Um modal com Balneário para a questão gastronômica e lazer de casa noturna. Precisamos criar esta consciência regional para receber esse turismo de qualidade, ter atrativos para receber o turista, como temos em Balneário o parque Unipraias. Ninguém vai de navio a Salvador e fica em Salvador; ninguém vai ao Rio e fica exatamente no Rio. As pessoas andam. Eu cansei de fazer turismo no Nordeste e andar 80 quilômetros para ir em outra praia, coisa que não faço aqui, porque acho que aqui tem que estar tudo perto. Essa visão que atrapalha: de achar que Itajaí, tem que deter o turista aqui. Nós não vamos conseguir fazer isso. Sobre o patrimônio poderia sim. Nós, inclusive, propomos uma audiência pública na câmara de vereadores para tratar do tombamento de imóveis no município de Itajaí. O importante, em primeiro lugar, é definir, criar regras claras, do que é de fato o patrimônio histórico. Muitas pessoas confundem esta questão de histórico, qual a importância que isso tem para a história. Uma coisa é onde nasceu e cresceu o governador do estado, e outra coisa é um vereador, em determinado período. Então tem que ter regra clara, pra definir o que é histórico e partir daí tem que preservar sim. É a nossa cultura, a nossa memória, o nosso passado, é o link entre passado e futuro, que nós precisamos melhorar. Itajaí aprendeu muito em 150 anos, mas não aprendemos a fazer turismo e nem aprendemos a cuidar do nosso patrimônio histórico, mas ainda temos muito o que aprender. Outra coisa importante sobre o patrimônio histórico é que depois de tombado, precisamos ter regras claras para o dono do imóvel que não vai ter dinheiro para restaurar. O uso da propriedade, conforme o código civil define, fica restrito, então tem que ter uma compensação financeira e até agora ninguém compensa. Por isso que eles demolem para construir prédios.

Maria Izabel Pinheiro Sandri – Na questão do turismo, temos um foco distorcido. Nós achamos, porque crescemos no litoral, que turismo é apenas praia, e ficamos sempre competindo com outros modelos semelhantes, como Balneário Camboriú. Nós, embora tenhamos praias também, nosso modelo geográfico fez com que nosso litoral fosse freqüentado apenas pelo público interno, por moradores, e não por turistas. Você não vê excursões de ônibus para a (praia) Brava, para a Atalaia, exceto quanto tem campeonatos de surfe. Já do nosso patrimônio histórico, muita coisa se perdeu, na ânsia de crescer, de se desenvolver, acabamos destruindo muita coisa. Temos que compatibilizar estas referências do passado como atrativos turísticos. Nós tínhamos todo um casario histórico. Por outro lado, vejo que não existe incentivo do poder público, se alguém tem um imóvel deste tipo e não tem outras fontes de renda, não tem como conservar o patrimônio. O poder público deveria ter uma atenção especial neste aspecto. Precisamos de uma grande parceria do poder público e da iniciativa pública e privada, inclusive dentro do contexto da região em que estamos envolvidos, explorando todo nosso potencial. Temos que esquecer esta história de apenas turismo de verão e diversificar as opções, este seria o caminho.

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HABITAÇÃO E SANEAMENTO BÁSICO

DIARINHO – As ocupações irregulares continuam crescendo em Itajaí. Morro do Padre Jacó, na Fazenda. Área de mangue do Imaruí, na Barra do Rio. Região ribeirinha de Cordeiros, na área conhecida popularmente como Brejo. Sem falar da mais antiga, a do morro do Matadouro, ao lado da Univali… Que políticas concretas podem ser implantadas para impedir as ocupações e oferecer alternativa de moradias para a população de baixa renda?

Bellini – Primeiro nós vamos falar dos projetos pra impedir essas invasões. Nós criamos um projeto e não inventamos ele. Na verdade estamos copiando um projeto de Balneário Camboriú, chamado Cuida, que envolve toda a sociedade. Nós temos uma espécie de conselho onde temos os representantes da associação empresarial, da universidade, da polícia Federal, Civil, Militar, da classe trabalhadora. E esse programa, que já foi inclusive aprovado pela câmara de Vereadores, tem uma pequena estrutura. Nós vamos ter um coordenador e vamos ter 12 pessoas formando uma equipe de dois funcionários, com moto. Isso é pra termos pelo menos quatro motos rondando 24 horas por Itajaí com esses 12 funcionários, que serão contratados. Então, essas pessoas vão ficar vigiando a cidade com relação à ocupação em áreas de risco, ocupações irregulares. Tudo isso para preservar o patrimônio público, principalmente, que são as áreas do município e, ao mesmo tempo, auxiliando a secretaria de Desenvolvimento Urbano na fiscalização de obras irregulares, de obras sem licenciamento.
Agora, precisa envolver a sociedade. Não adianta o município impedir uma área de ser ocupada e aí chega lá as pessoas que coordenam – e já existe profissionalismo nisso – e já colocam uma mulher lá na frente com uma criança no colo pra sensibilizar as pessoas.
Nós temos três programas habitacionais que, quando assumimos, já estavam em andamento. Um é o Nossa Senhora das Graças. Outro é o loteamento São Francisco, na Volta de Cima. Um loteamento não, é o conjunto habitacional São Francisco, que é a relocação daquele pessoal do Imaruí. Eles já tão cadastrados. E tem o Dona Nina, que tá em construção. Ali no bairro da Murta. São oitenta moradias. Porém atrasou um mês e pouco as obras e vão ser entregues só agora em janeiro.
Nós temos, hoje, seis mil cadastros de pessoas na fila por uma moradia. Mas imaginamos que tenham aí mais três ou quatro mil pessoas que não procuraram aí ainda a prefeitura.

Provesi – Bom, esta é uma questão que diz respeito a uma definição de regras, ao plano diretor da cidade, que inclui o uso do solo. Tem que haver uma discussão, foi aparentemente discutido, mas não foi levado a sério na outra gestão, lamentavelmente. O projeto do plano diretor tem que ser feito pensando na cidade. Compete ao Poder Executivo, ao meu entender, na minha leitura como cidadão, executar aquilo que está colocado à disposição. O prefeito tem que, ao longo dos quatro anos em que ocupa o cargo, pensar na cidade. Essas áreas de ocupação vão continuar sendo um problema da cidade, se não houver uma definição no plano diretor que estabeleça regras claras de ocupação do uso da terra. A ocupação dos morros é uma questão ainda fácil de resolver, porque é muito precoce. É fácil uma remoção. Basta o poder público definir áreas para o deslocamento das famílias e recuperar aquelas áreas antes ocupadas como áreas ecológicas. O morro que fica ali atrás da Univali [Matadouro] é um projeto que merece ser visto. Ali ainda é fácil fazer a remoção das famílias com dignidade, as colocando numa condição melhor, recuperar aquela área e até criar um parque ecológico. Enfim, eu vejo que é questão de uma definição clara do plano diretor e a cidade tem que ser pensada levando em conta esta parte da ocupação desordenada.

Pissetti – Saiu recentemente na imprensa os índices de desenvolvimento humanos e o PIB da região, Itajaí foi premiada com um PIB fantástico. Eu me pergunto: quanto desse PIB é de fato apropriado pela população? Se tu pegares os dados do PIB e comparar com os índices do IDH, tu vais ver que nacionalmente nós crescemos no Índice de Desenvolvimento Humano médio, mas estadualmente nós decrescemos. Nós saímos da vigésima e tanta, para quarenta e poucas posição. Nós temos uma cidade que enriquece, mas que está com a maior população da periferia fora desse processo de inserção cidadã. Nós temos que ter programas essencialmente voltados para a educação, e para a educação profissionalizante. Este é o caminho que nós temos. Não adianta querer transferir renda via vale-gás, vale não sei o que. Embora isso pudesse ser feito legitimamente, se ele obrigasse a cada família que recebe o vale-gás, manter as crianças oito horas na escola. Nós temos o regime de escola de quatro horas por período, a criança vai para a escola de manhã, de tarde, a mãe é empregada doméstica, o pai é peão numa fábrica, e ele fica onde? Na rua. Qualquer rua da periferia, à tarde, tem centenas de crianças na rua. Falta estrutura do município, estrutura do estado para que essas crianças passem o dia inteiro dentro da escola. Este turno único da educação básica e a sequência no ensino profissionalizante, é a saída para isso. Não existe outra coisa, não adianta querer inventar.

Maria Izabel – O poder público não tem condições reais de recursos para atender esta população, e acaba deixando estas invasões acontecerem. Se você coibir as ocupações quando elas estão começando, você tem como dar um encaminhamento para o problema, mas depois que acontece, fica difícil. É muito melhor você impedir que invada do que depois ter que ficar despejando as pessoas, a ação é muito mais traumática. Temos que ter uma política pública que envolva o executivo municipal, estadual e a união, já que estas políticas ficaram estagnadas, causando este déficit habitacional que temos hoje. A administração pública precisa de políticas claras, existem algumas iniciativas, tanto no governo passado quanto neste, mas não a ponto de ver que isto será solucionado, mesmo porque a demanda é sempre muito maior que a oferta.

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PORTO E ECONOMIA

DIARINHO – A dependência econômica de Itajaí da atividade portuária foi demonstrada com a paralisação do porto, logo após a enchente de 2008. O que pode ser feito para fomentar outros setores econômicos da cidade?

Bellini – Essa tragédia que nós tivemos nos deu um alerta da necessidade de diversificarmos ainda mais a nossa economia. Itajaí, em relação à sua economia, eu diria sem medo de errar, embora não existam números oficiais, que 60% depende das atividades relacionadas ao porto. Não ao porto em si. É todo o sistema de logística que nós temos e, aliás, a maior logística na área portuária dos portos brasileiros está aqui em Itajaí. Capacidade de armazenagem de carga seca é em torno de cinco milhões de toneladas. Nós temos um milhão e 100 mil metros de armazéns construídos. Nós temos mais 270 mil metros de projetos que estão passando pela prefeitura pra requerer seu licenciamento. Isso nos dá capacidade de armazenagem de carga seca de cinco milhões de toneladas. Temos uma capacidade de cargas frigorificadas de 140 mil toneladas. Temos mais de sete mil tomadas reeferes e só não temos números exatos porque todo dia estão sendo construídos mais. E além de toda uma infra-estrutura de empregos, de despachantes, de agências, de transportes. E tem também o terminal portuário, que não é um terminal só mas que envolve toda a foz do rio Itajaí. O porto de Itajaí é o complexo portuário que nós temos: o terminal público, que é o porto de Itajaí, o terminal de Navegantes, que é privado, a Trocadeiro, que é privada, a Teporti, que é privada, e todos os demais terminais. Isso nos dá uma segurança quanto ao nosso produto. Mas nós não podemos ficar dependentes somente disso. Uma crise internacional de importação e exportação, uma crise econômica, como nós tivemos, nos deixa numa situação bastante difícil. Mas nós estamos diversificando. Estamos com inúmeras empresas procurando a prefeitura para se estabelecerem em Itajaí. É na área de metalurgia, tanto na indústria pesada quanto na indústria de equipamentos leves. Itajaí também tá sendo o maior centro distribuidor, muitas empresas estão procurando Itajaí para se estabelecerem aqui com seus CDs. O comércio de Itajaí precisa ser fortalecido. (Hoje o comércio está a dever?) Tá a dever. Ele deixa a desejar. Nós estamos perdendo com o comércio. Nós não queremos disputar com outros municípios, nós queremos que Itajaí se sobressaia. Nós temos que nos adaptar à realidade e buscar alternativas. Outro fator importante na economia – e você deve ter visto nas pesquisas do IBGE – é que das 100 maiores cidades responsáveis pelos maiores PIBs (Produto interno bruto, que é a soma de toda a riqueza produzida na indústria, na agricultura, na pesca, no comércio e nos serviços) brasileiros, cinco cidades de Santa Catarina são responsáveis por 1,42 do PIB nacional. Dessas cinco cidades, Itajaí é a segunda em Santa Catarina. Nós estamos no 45º lugar em nível de Brasil. Então, nós temos esse potencial e o nosso comércio tem que crescer.

Provesi – Hoje tem que se pensar no complexo portuário, não só no porto de Itajaí. Temos que tirar esta questão do bairrismo. Existe hoje o complexo portuário de Navegantes e Itajaí. Existe demanda, existe mercado para que estas duas cidades co-irmãs convivam de forma harmônica. E há outros fatores que as cidades vão ter que compartilhar. Dentre as obras que estão previstas e a manutenção permanente, o porto é uma economia que tende a crescer cada vez mais. Evidentemente, temos que agregar serviços de qualidade. A questão dos serviços é hoje um fator determinante no comércio internacional. Então, o complexo portuário estando bem resolvido, tendo investimentos permanentes, mantém o que gira em torno dele. Eu diria que a própria universidade poderia se encarregar, ao meu entender, e aí falo como reitor, de em conjunto com o poder público municipal dar incentivo ao parque tecnológico. É um dos caminhos para não depender tanto do porto. O parque tecnológico vai também dar condições de agregar serviços de alto valor, vai dar condições para que a cidade possa manter atrativos de investimentos de alto valor agregado, investimentos que vão gerar um padrão de emprego e renda, que é importante. Se houver um projeto casado entre o poder público municipal, o Estado e até o governo federal, Itajaí comporta um parque tecnológico.

Pissetti – Nós temos o porto e por conta do porto, nós temos agora a Brasil Foods, e temos todas essas retro-áreas que com a municipalização com o arrendamento do Porto, despejaram na economia de Itajaí mais de 500 milhões de dólares em uma década, o que transformou Itajaí. Bom, mas continua tudo voltado para este modal de transporte. Nós temos outros modais importantíssimos como a pesca, nós precisamos de um programa muito mais eficiente e eficaz, e investimento pesado na pesca. Embora o seu ministro da pesca tenha privilegiado Itajaí nesses últimos anos, como nunca aconteceu. Nós precisamos ainda olhar a atividade da pesca, com pesquisas, captura, preservação dos estoques de pesca. Nós precisamos investir muito nessa ciência, nesse conhecimento. Uma hora nós tivemos a madeira, depois a madeira caiu e Itajaí quebrou. Aí veio o açúcar, o açúcar parou e veio não sei o que. Nós nunca conseguimos ter mais que um modal de desenvolvimento econômico. Hoje nós temos pesca, o porto, nós temos a própria prestação de serviços, nós temos a maior universidade do estado. A maior prestadora de serviço educacional do estado, nós prestamos serviços a toda a região da Amfri. Dentista, médico, comércio…Agora temos que ter indústria de base. Esse é o nosso desafio. Abrimos fábricas, a metal-mecânica, a siderurgia, esse é o nosso desafio. Nós temos que ter um programa de atração dessas empresas que é pelo incentivo, mas sobre tudo: nós precisamos ter mão-de-obra qualificada. Se nós tivéssemos aqui em Itajaí um curso que formasse 200, 300, 500 pessoas na área de metal-mecânica, com certeza nós teríamos atraído uma empresa para Itajaí. Eu fui perguntar para o casa da Seara, quando eu visite a empresa lá onde carrega frango, por que vocês vieram para Itajaí. Eu disse: “vocês trouxeram uma sede para Itajaí, por causa do porto?” Não, diz o cara para mim. Eles falaram que vieram para Itajaí por causa da mão-de-obra. Por isso que digo: quando nós tivermos essa mão-de-obra em outras áreas, nós atrairemos novas empresas. Não é dar terreno que atrai empresa, e nem dar isenção de 10 anos de IPTU. É ter mão-de-obra qualificada e a proximidade do transporte, e isso nós temos aqui com o porto e a rodovia. Nós temos o maior entroncamento rodoviária do sul do país. Quando eu estava na escola, eu tinha que fazer o primário. Depois tinha que fazer o ginásio e depois tinha duas saídas: eu era menino e ia fazer o técnico em contabilidade. Minhas irmãs e minhas amigas iam fazer o normalista. O normal. Quem era filho de rico, ia para a cidade grande e fazia o científico – para se preparar para fazer faculdade, porque os pais tinham direito para bancar naquela época. Nós, que não tínhamos dinheiro, íamos para a escola pública, onde viraríamos contador ou professor. Nós poderíamos ter aumentado isso, esses cursos de informática e mantido o sistema. Nós erramos, tiramos o curso profissionalizante. Eu me formei técnico em contabilidade e já tinha autorização do CRC para montar o meu escritório, fazer contabilidade e assinar. Uma menina que se formava no normal, ia para a escola, fazia o curso e ia dar aula – ganhava o dinheirinho dela. Hoje em diante, você se forma no segundo grau sem profissão. Nós erramos no modelo. Precisamos voltar ao modelo antigo, voltar ao futuro.

Maria Izabel – Não podemos ficar dependentes apenas do porto. Se um navio encalhar na barra, nós estaríamos fadados a falência, então, trouxemos outros serviços, mas todos com foco na atividade portuária. Nós temos que criar atrativos para que empresas de outros setores venham para a cidade. O problema de Itajaí é territorial, não temos uma área muito extensa, alguns estaleiros, por exemplo, se instalaram na outra margem do rio, em Navegantes, porque não tinham onde se instalar em Itajaí. O turismo seria uma outra fonte de renda que poderíamos ter explorado melhor, assim como o comércio, que estagnou. Quando eu morava em Balneário Camboriú, nós vínhamos fazer feira, comprar nos mercados de Itajaí, todo o comércio era aqui, e isso se inverteu faz muito tempo. Mas nós temos uma capacidade populacional que nos permite ter um comércio muito mais pujante, e isto depende de uma negociação entre os sindicatos, principalmente na questão dos horários do comércio. Nos sábados, por exemplo, a gente vê que as pessoas vão fazer compras em Balneário, e é claro, se fechou a rua Hercílio Luz para o tráfego de carros e o que se vê hoje são lojas de linha branca, que nem vitrines tem. Temos que fazer um mea culpa, por que o comerciante também não investe no seu empreendimento para que ele seja atrativo, nisso nós também deixamos a desejar.

TRÂNSITO

DIARINHO – Em 2007, Itajaí levou o título de terceira cidade mais violenta no trânsito catarinense. O que senhor (a) sugere como solução para o agilizar e organizar o trânsito de Itajaí?

Bellini – Itajaí cresceu nas últimas décadas e a sua estrutura viária ficou praticamente a mesma. Nesses anos todos, o que nós tivemos de novidade em termos de novas vias foi a Contorno Sul. Ligando a BR 101 à rua Uruguai. As demais continuam as mesmas vias. No início do nosso governo, em 97, nós desenvolvemos um trabalho para melhorar as vias que dão acesso ao porto. Na época, o projeto atendia às necessidades da cidade. Foi a melhoria da Reinaldo Shimithausem, da Adolfo Konder, da abertura das pontes, da ponte da Promenac, da ponte do Vanolli, da rua Blumenau. Nós investimos na época R$ 10 milhões. Quando nós concluímos, as obras já estavam ultrapassadas. Nós precisamos pensar Itajaí grande. A via portuária já vai contribuir para resolver o problema. O governo federal assumiu a responsabilidade da via portuária através do Denit (Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes) e a execução da obra será através do Exército Brasileiro. O batalhão de engenharia é que vai executar a obra. Acredito que no início do ano já teremos aí o inicio desta obra. Nós estamos já, dentro desses nossos recursos que conseguimos junto ao PAC, fazendo uma ligação da rua Jacó Ardigó com o Promorar, através da Otto Hoier. Vamos construir ali mais uma ponte sobre o rio Itajaí Mirim. Nós vamos tirar vamos tirar o tráfego do Promorar ao centro, vamos assim dizer. Daí, não será mais necessário vir pela Adolfo Konder, pegar a Carolina Vailatti. Vai mudar o trânsito todo, tanto na rótula do Vanolli quanto ali na José Pereira Liberato. Mas são coisas paliativas. Nós precisamos mais. Precisamos projetar Itajaí pro futuro. Nós precisamos de elevados, como ali na rótula do Vanolli e aí eu já tô buscando elaborar o projeto pra viabilizar os recursos. Tem também a necessidade da criação de um instituto que vai planejar nossa cidade. Instituto de Planejamento Urbano de Itajaí, que já está sendo elaborado. Tem um grupo de técnicos da área, de engenheiros, tanto do governo como da sociedade.

Provesi – O prefeito Jandir Bellini teve uma idéia muito interessante, que é a criação de um instituto de planejamento urbano. Este instituto, se for concretizado, tem que ter uma característica que seja um instituto da cidade, não do governo, com técnicos e profissionais que tenham competência para ajudar a pensar a cidade. A questão do trânsito aqui em Itajaí é muito complexa. Não adianta colocar na mão de um secretário de Obras, de Trânsito, de Segurança porque ele é temporário e tem uma visão muito específica, só vê parte do problema. Tem que haver um sistema gerencial que possa fazer uma leitura e fazer um diagnóstico. Precisamos ter um mapa referencial e fazer o trabalho de fluxo. Nós temos um índice muito alto de veículos licenciados em Itajaí, e em torno de oito mil novos por ano. Nesta taxa nós temos a cada gestão de um novo prefeito de 35 mil a 40 mil veículos licenciados em Itajaí. Volto a insistir: não é um projeto que depende só do prefeito, merece um estudo realmente detalhado para identificar alternativas de escoamento e de fluxo de veículos na cidade. Pela quantidade hoje de veículos é necessário um estudo detalhado. É um problema que vai ter que se resolver.

Pissetti – Primeiro: por conta dessa localização de Itajaí, hoje nós licenciamos 600 veículos/mês. É o maior crescimento do estado, não tem cidade para concorrer. Para uma cidade que em 150 anos pouco criou de avenidas novas, e estrutura do tipo elevado, viadutos – nós não temos nenhum -, ainda estamos suportando essa carga razoavelmente bem. Todavia, na próxima década, esse crescimento vai aumentar, e isso quer dizer que vamos ter mais de 15 mil veículos na cidade. Com a concentração de edifícios, isso se múltipla. Cada apartamento tem vagas para dois carros, tem pai, mãe e filhos com carro, e vão para a rua. Nós precisamos planejar avenidas novas, pontes e viadutos. Não tem como mais ficar remando com sinaleira, lombadas e rótulas – isso é coisa do passado. Nós precisamos nos livrar desse arcaísmo de uma vez por todas. Precisamos partir para soluções mais arrojadas e educar o povo, e começar na rede municipal de ensino com uma cadeia de educar no trânsito. Porque não é só a morte, é o prejuízo, toda essa indústria que sobrevive dessa questão. Precisamos começar ensinar as crianças desde pequeneninhas, educação de base. Aliás, eu acho que é o responsável por tudo.

Maria Izabel – Há muito tempo não vemos a criação de novas ruas, aumentamos o número de veículos com as mesmas vias de tráfego que já tínhamos. Os acidentes não estão relacionadas ao excesso de movimento, e sim a imprudência, a falta de educação dos motoristas e dos pedestres. Nós temos a cidade com uma ótima geografia para se andar de bicicleta, no entanto, eu mesmo tenho pavor de andar de bicicleta em Itajaí, não temos ciclovias na cidade. As pessoas preferem andar de carro a usar o serviço de transporte coletivo, fora do Brasil o transporte público é usado por pessoas de todas as classes sociais, e aqui são as pessoas de menor renda que utilizam o serviço. O transporte público precisa ser atrativo para todos, para diminuir o número de carros nas ruas.

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EDUCAÇÃO

DIARINHO – Muito se fala em educação para caminho do desenvolvimento do país. Em sua opinião, quais políticas educacionais devem ser implantadas?

Bellini – Eu tenho uma coisa minha, que penso a educação como o início de tudo. Início de uma sociedade mais organizada, mais justa. Nós estamos partindo para uma educação integral. A criança, já nos seus primeiros meses de vida, ela passa pelo atendimento por parte dos profissionais de um centro educacional. Das oito da manhã às seis da tarde, ela recebe ali os ensinamentos e os costumes, os direitos e os deveres do cidadão. Agora o que dificulta isso no nosso país, é que temos a cultura da aula por quatro horas e depois, o resto do dia, é ocioso. Segundo, os custos, os investimentos que têm que ser feitos na educação. Os custos são altos, precisamos de espaços adequados. Quando o aluno sai da sala de aula, onde ele tá aprendendo, ele tem quer ter espaço pra praticar esporte, ele tem que ter espaço pra praticar cultura, para as áreas profissionais, espaços que possam ensinar a ele a se defender das coisas da vida já nessa idade. E um dos bons exemplos do sistema educacional é o Japão. A criança vai pra aula às oito horas da manhã e fica lá até às seis horas da tarde, quando os pais vão buscar. Eles aprendem a fazer o sushi, sashimi. Eles aprendem as artes marciais. Eles aprendem esporte. Eles aprendem música. A jardinagem. A sala de aula não tem zeladora. Os próprios alunos limpam a sala, para que eles zelem pelo ambiente em que estão. Não a criança de um ano ou dois anos, mas a partir de uma certa idade toda a manutenção da escola é feita pelos próprios alunos, sob a orientação dos professores. Se amanhã ou depois eles precisarem plantar uma flor, eles sabem como plantar flor, sabem como cuidar da flor. Se eles precisarem ir pra cozinha, eles sabem como se comportar na cozinha.

Provesi – Nós temos uma rede de escolas públicas muito boa. Itajaí tem um destaque referencial, tem um desempenho bom. O que falta realmente é avaliar a capacidade de nivelamento destas crianças e se elas estão em condições de fazer o curso superior, condições financeiras e também se tem condições de acompanhar o desempenho no nível superior. Eu diria que Itajaí tem colocado à disposição um ensino médio de boa qualidade. Isto é um fato concreto. Evidentemente, a educação é um trabalho que começa na pré-escola, nas creches. É um trabalho que também e envolve a família. Nós temos que fazer com que a família se aproxime mais da escola. Como reitor da universidade, tenho visto que o ensino médio em Itajaí não é o problema, está dentro do padrão. O grande desafio é fazer com que estes jovens enfrentem a universidade sem o drama de não poder pagar as mensalidades. O grande obstáculo hoje é a questão financeira, é um desafio que envolve o compromisso público tanto municipal, como estadual e federal. Os governos já atendem uma parte, mas existe uma grande demanda ainda. [A federalização da Univali seria um caminho?] O fato é que não resolveria a questão. Hoje apenas 10% dos alunos da Univali são de Itajaí. Quando se federaliza uma universidade se está permitindo o acesso a todos, no Brasil como um todo, e não resolveria o problema de Itajaí, só estaríamos permitindo que alunos de outras partes, de outros estados, viessem estudar conosco. Então, federalizar não resolve a questão do itajaiense, resolve a questão do estudante que quer uma universidade pública gratuita, mas a nível nacional. Alunos de Itajaí teriam que concorrer com alunos do Brasil inteiro por essas vagas.

Pissetti – Primeiro vamos repensar o método de ensino. As crianças tão fugindo da sala de aula porque não aguentam mais aquela história de professor com giz e quadro negro a ditar, e eles a copiar. As crianças de hoje são mais espertas, elas já nascem na era da informática. Tu pegas uma criança lá da periferia que nunca viu um computador e a coloca sentada no computador, em meia hora ela sabe mais do que eu. É algo fantástico. Este é o caminho: mudar a forma de ensinar, tornar mais atrativo, mais desafiador para as crianças. Permitir o uso maciço desses instrumentos. Investir em compras de computador e largar na mão da gurizada. Isso é investimento para o futuro. Não há outra saída, esta é a saída. Tudo será informatizado, é um caminho sem volta. Para o bem, para o mal, não existe mais como voltar atrás. Precisamos então mudar a regra de ensino, fazer ensino integral.

Maria Izabel – Nós acabamos penalizando sempre a escola pública, que já teve uma qualidade de ensino melhor do que a particular. Os professores ganham mal, muitos usam o emprego como um ?bico’, com uma outra atividade profissional. Hoje você vê uma gurizada mal educada e isto já vem de casa, houve uma desagregação nos alicerces das famílias. Muitos pais acham que o papel da escola é o de educar, de formar o caráter, mas a escola tem a função de informar e não de educar. Temos que investir nas famílias, porque queira ou não, elas são o núcleo da sociedade. O ensino superior também mudou muito, hoje você vê propagandas de universidades novas em todo o lugar, com muitos cursinhos ?walita’, que eram rapidinhos. Hoje existem muitos cursos que não preparam o acadêmico para o mercado. Deveria haver um rigor maior na liberação e no acompanhamento destes cursos. A OAB faz uma prova para dar o título de advogado, mas se houvesse um rigor maior dentro das universidades, estas provas nem seriam necessárias. Para melhorar, o poder público precisa investir na preparação do profissional do magistério, que passa também pela remuneração do profissional, que não permite que ele se atualize, faça novos cursos.

SEGURANÇA

DIARINHO – Itajaí é a quarta cidade mais violenta do estado, levando em conta o número de assassinatos. Onde se deve investir para resolver este problema?

Bellini – Eu não sou especialista na área de segurança. Mas eu não tenho dúvida de que a ostensividade inibe o bandido. Nós precisamos de mais policiais na rua, embora o secretário estadual de Segurança diga que não. Mas eu entendo assim: mais policiais na rua. Nós precisamos ter a polícia presente nos bairros. A responsabilidade é do estado, mas o município não pode se furtar da participação, da parceria. Então, uma parceria entre o município e o estado pode viabilizar essa vigilância permanente em toda a cidade. A polícia comunitária começou nos Estados Unidos. E outra coisa: remuneração justa para os policiais. Pagando melhor os policiais e não tendo mais a necessidade deles de se deixarem corromper para poder sobreviver.

Provesi – Educação é a base de tudo. A segurança depende da educação. No caso de Itajaí nós entendemos que ela tem as suas peculiaridades por ser parcialmente turística, a questão das drogas que é relevante. Investimento que envolve a coisa pública não pode ser referente somente a equipamentos, mas também a pessoas bem preparadas e com equipamentos em condições de enfrentar a criminalidade. Eu diria que ampliar o quadro de agentes qualificados para enfrentar a violência e equipamentos também em condições de ser utilizados. Tem que haver um trabalho de prevenção e isto leva tempo. Dar condições aos nossos jovens que hoje estão aí, que muitas vezes não encontram oportunidades de trabalho, não tem esportes e lazer. Isto pode ser aliviado através de programas de inclusão no esporte, na educação…

Pissetti – Em educação e na guarda municipal. Vou te contar o que é o meu sonho: fazer uma guarda municipal e dividi-la nos bairros. Cada bairro da cidade, na sua igreja matriz, na igreja evangélica, onde for o ponto mais vital do bairro, e colocar uma mini-delegacia. A mini-delegacia seria um contêiner, tu cortaria ele no fundo, tu faz cela, tu faz comida, dá pra colocar mesas para o pessoal fazer BOs e inquéritos. Aí tu colocas o ar-condicionado, bonitinho, bem feitinho. Cada bairro uma estrutura desta. Segundo, coloca na população do bairro um quantitativo de policiais, de guardas. Masculinos e femininos. Porque essas pessoas estariam vinculadas àquela sub-delegacia e estariam vinculadas àquele determinado bairro. Assim eles iriam se tornar conhecidos das pessoas do bairro. Ao momento que algo de estranho acontecesse, eles iam ser imediatamente acionados e poderiam via rádio ou telefone, acionar todas as outras sub-delegacias. Nós temos hoje uma polícia que tem menos efetivo que há 10 anos. A polícia sai atrás para prender bandidos, depois que o crime aconteceu. Não trabalha com prevenção.
. Nós municipalizamos a água, foi um avanço. Nós municipalizamos o hospital Menino Jesus. Agora é hospital universitário, mas foi municipalizado. Nós municipalizamos o trânsito. Imagina se não tivéssemos a Codetran, o que seria da polícia militar, que com o efetivo que tem ainda teria que cuidar do trânsito? Nós municipalizamos o porto, é sucesso nacional. Nós temos condições de municipalizar a segurança. Com guarda armada. Não tenho dúvida nenhuma.

Maria Izabel – Eu acredito que o poder público deixou a desejar por muito tempo. Nós temos presídios que são depósitos de gente, policial mal preparado, a estrutura investigativa não tem condições de trabalho. Acredito que o estado não investiu como deveria. A nossa violência tem uma causa notória, que é o tráfico de drogas, e temos que fazer um trabalho muito forte neste sentido, de fazer um trabalho para coibir o tráfego. Temos que dar atenção à criança, ao adolescente, à família.

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SAÚDE E PROMOÇÃO

DIARINHO – A saúde pública é sempre apontada como um dos maiores problemas de Itajaí. Quais as ações que devem ser implantadas para reverter esta situação? Áreas de lazer, como praças e parques, são importantes fomentadores de qualidade de vida. Itajaí é muito carente neste quesito. O que pode ser feito para reverter esta carência?

Bellini – Eu acho que as condições sanitárias de onde tu vives é importante para a tua saúde. Com a implantação da coleta do esgoto sanitário, devolvendo a água à natureza conforme nós recebemos dela, já vai contribuir em muito. Cada real investido em esgoto, em saneamento, significa cinco reais economizados na área da saúde. E isso Itajaí tá fazendo. Nós teremos aí, num prazo de dois anos, quase 60% da cidade coberta pelo sistema de coleta de esgoto. Nós temos essa primeira etapa que atende o bairro da Praia Brava, Cabeçudas, Fazenda e o Centro. Na segunda etapa nós já encaminhamos o projeto e estamos na fase de financiamento do BNDES. Mais de 40 milhões de reais. Vai atender Cordeiros e parte do São Vicente.

Provesi – Eu penso que a saúde não é uma questão só de Itajaí. O povo brasileiro tem um perfil estatisticamente mais doente que os padrões mundiais. As classes C e D, com suas dificuldades em casa na questão de alimentação, muitas vezes nas questões sanitárias, acaba por desenvolver um perfil mais vulnerável a ficar doente. Nós entendemos que há a necessidade de garantias de medicamentos fundamentais, porque há realmente uma grande quantidade de pessoas que não tem condições de se tratar. A parte de equipamentos e materiais é um investimento caro, mas tem que investir, tem que buscar alternativas. Esta questão da saúde merece também um plano diretor. Um plano diretor da saúde para fazer um diagnóstico, uma leitura da cidade e para saber em quais bairros, em quais ruas e em que regiões estão os problemas de saúde que tem que ser tratados. A partir do mapeamento, pode-se trabalhar a questão preventiva, a questão de tratamento, uma atenção muito mais dirigida. Evidentemente que Itajaí tem um hospital regional, a cidade é um pólo, acaba recebendo um grande número de pessoas que não são da cidade, isto também acumula. Os pontos fundamentais seriam a manutenção e melhoramento das condições de atendimento ao público, a garantia de medicamentos para que as pessoas tenham acesso ao tratamento. Isto é fundamental, além da necessidade de um bom diagnóstico que permita verificar o quadro da saúde do itajaiense.

Pissetti – O município tem condição de minimizar a situação, o caos que o sistema nacional de saúde enfrenta. Cada cidadão que reclama da saúde de Itajaí, era preciso que ele fosse colocado num avião e fosse buscar saúde na periferia do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, para ver o que é não ter acesso. Então começa por aí: nós estamos acostumados a reclamar com muita facilidade e nós temos que começar a olhar as coisas sem factóides políticos ou ideológicos. Primeiro: desmistificar, dizer o que você pode fazer em saúde, ser claro com a população, para ela não esperar de você, o que você não pode dar. Segundo informatizar totalmente a rede. Um cartão em que todo o cidadão de Itajaí tivesse acesso por internet a esse sistema, e neste cartão estivesse todo o seu prontuário, todas as suas visitas médicas, todas as suas realizações de exames.Sobre as áreas de lazer falta vontade política. Itajaí tem recurso para isso. O governo federal tem recurso para isso. A população reclama a existência desses espaços e nós precisamos fazer. Não há outro impedimento. Ambientalmente é bem-vindo, socialmente é bem-vindo, culturalmente é bem-vindo e sociologicamente é indicado.

Maria Izabel – A saúde é a parte mais frágil sempre, a demanda é sempre grande e a oferta pequena. A população é muito carente, maior que a dor física é a dor da alma, de procurar postos de saúde e não ter vagas. Você vê filas enormes em exames mais complexos, a estrutura hospitalar é muito carente. A responsabilidade é do estado. Quando o paciente espera muito tempo por uma consulta, ele fica perambulando. Precisamos de maior investimento nas especialidades.

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PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

DIARINHO – O desenvolvimento sustentável está em pauta em todo o planeta. Qual plano de preservação ambiental deve ser adotado no município, que possa contemplar fomento ao turismo, desenvolvimento econômico e crescimento habitacional?

Bellini – Primeiro a conscientização de cada um de nós em relação ao meio ambiente. Aliás, eu brinquei quando estive em Vitória (Capital do Espírito Santo), visitando uma estação de tratamento, que nós temos em Itajaí a melhor estação de tratamento, que não gastava energia, é natural, que é o rio Itajaí-açu. A única desvantagem é que de vez em quando ele tem que dar uma descarga e aí ele joga tudo dentro das nossas casas novamente. Então, nós precisamos nos conscientizar que tudo aquilo que nós jogamos na natureza, ela devolve. Nós precisamos nos conscientizar sobre o lixo reciclado, do lixo orgânico, que ele se transforma e acaba contribuindo até com a poluição da produção de alimentos. Não podemos impedir o desenvolvimento, mas esse desenvolvimento tem que ser dentro do sistema sustentável, que se preserve o meio ambiente e ao mesmo tempo proporcione ao ser humano uma melhor qualidade de vida. É o caso da Praia Brava. Eu acho que nós temos como desenvolver a Praia Brava. Temos investimentos, geramos emprego, melhoramos a nossa economia sem agredirmos o meio ambiente. Mas tem que ser consciente.

Provesi – Eu começo com a água. Itajaí tende a ter um colapso na questão da água e ainda não tem um projeto que previna a falta dela. É um gasto de forma muito desordenada, lavam caminhão, carro, casa, enfim. Começa pela conscientização, a importância de preservar a água. Nós temos que fazer um trabalho urgente com o rio Itajaí-Mirim. É um rio que está morto, mas pode ser recuperado. E temos estudos na faculdade de que é fácil recuperá-lo, dar vida ao rio. Isto pode servir como uma base para abastecer a cidade. Fazer um trabalho de revitalização das margens do Itajaí-Mirim. É urgente isso. Remover as famílias, que sofrem não só com o risco com a enchente, mas com mosquitos, bichos peçonhentos e uma série de fatores desagradáveis. Criar um parque ecológico às margens do Itajaí-mirim, dar condições de vida ao rio. Já tem um projeto hoje na universidade que é construir um pequeno molhe na saída do canal no Itajaí-açú, ali seria uma obra de revitalização do Itajaí-mirim e ao mesmo tempo numa eventual enchente poderia aliviar a força da água que viria para a cidade. Evidentemente não podemos ser muito xiitas. Há condições de convivência do meio ambiente com as obras, desde que os projetos sejam sustentáveis. Há condições de fazer isso. Não podemos evitar as ocupações que sejam permitidas, que desenvolvam a cidade e criem emprego e renda. Com controle, com estudo, sem ser radicalmente contra o que é possível. Eu diria que hoje a cidade goza de uma infra-estrutura muito boa, a universidade tem equipes para subsidiar projetos de preservação, de recuperação. Mas a minha bandeira é recuperar o Itajaí-mirim.

Pissetti – Primeiro nós temos que fazer um pleno levantamento das nossas reservas de água e mata atlântica, dos nossos rios e ribeirões. Segundo, nós temos que ter um projeto imediato de recuperação das encostas dos nossos rios e ribeirões, e da preservação de aquilo que ainda temos de mata atlântica. Tem que ser muito claro, uma política muito severa neste sentido. Terceiro: precisamos ter uma política das áreas já degradadas. Afastamentos das pessoas das margens dos rios e ribeirões, aproveitamento desses espaços para a realização de praças e corretores de trânsito. E nós precisamos ter uma consciência, sabendo do aquecimento global, não precisa ocorrer da forma e no volume que está se prevendo, mas muito menos do que isso, nós, por exemplo, de Itajaí, a nossa cidade seria atingida, a cidade vai parar debaixo d´água. Eu apresentei na câmara um projeto que se chama: “projeto oásis”. Para que o município pague 4 UFM para cada cidadão que tem uma nascente de água no seu terreno e que plante mata ciliar, preservando os 30 metros dessa nascente. Foi aprovado e está para o prefeito sancionar. Eu apresentei o programa Eco Itajaí Crédito de Carbono. O aterro sanitário da cidade de São Paulo vai render, de crédito de carbono, 25 milhões de euros para o município. Nós temos um aterro sanitário em Itajaí, que é um dos únicos de Santa Catarina, e nós não nos aproveitamos dele. Nós poderíamos estar incrementando com a política de certificação de crédito de carbono, indo para a bolsa, ganhando dinheiro e criando um fundo especifico para usar na recuperação de encostas de nascentes, nas pessoas para tirar das margens dos rios, tirar das encostas e recuperar a mata atlântica.

Maria Izabel – O que temos que mudar é este antagonismo entre o setor produtivo e o setor ambiental, eles tem de caminhar juntos, não dá para pensar em crescimento sem preservar também. Eu presidi durante duas gestões a Comissão da Bacia do Rio Itajaí, e nós vimos muitos municípios que não colaboraram, que deram atenção apenas ao setor produtivo, e as pessoas só lembram disso quando venta demais, quando chove muito, quando a natureza joga para gente aquilo que ela sofreu. Temos que ter muito cuidado na elaboração de projetos, que contemplem os cuidados com a natureza, temos que parar de falar sobre a preservação da natureza e falar na preservação do homem. A minha esperança é que o homem veja que precisa cuidar do meio ambiente para sobreviver.