• Postado por Tiago

?De 26 mil passageiros em fevereiro, passamos pra 54 mil em maio, o que dá um aumento de 98%?

A aviação tem sido colocada em xeque pela imprensa nacional e mundial nos últimos meses. Considerado o meio de transporte mais seguro do mundo, o avião é hoje notícia quase todos os dias, mas não de uma maneira muito positiva. O estopim do momento foi o acidente com o Airbus da empresa Air France, que partiu do Rio de Janeiro no dia 31 de maio, com destino a Paris, e caiu no Oceano Atlântico. O acidente com o voo AF 447 matou 228 pessoas e, após o fato, é comum ver pipocando na mídia relatos de aeronaves que passaram por fortes turbulências, abortaram decolagens ou sofreram algum tipo de pane.

Mas será que de uma hora pra outra o avião deixou de ser seguro? Pra falar sobre o assunto, conversamos com alguém que entende de aviação: o superintendente do aeroporto internacional Ministro Victor Konder, em Navegantes, Marcos das Neves Souza.

Entre outras coisas, o chefão do terminal dengo-dengo garantiu que voar é ainda o meio de transporte mais seguro da face da Terra; revelou projetos pra melhoria e ampliação do aeroporto; falou sobre o crescimento de quase 100% na movimentação do terminal; rebateu críticas sobre o tamanho da pista, que segundo alguns pilotos é uma das mais difíceis de pousar e decolar no país; e também do estouro da turbina de uma aeronave durante decolagem na semana passada, em Navegantes.

A entrevista foi dada aos repórteres Clara Rosália da Silva e Marcelo Roggia, com fotos de Felipe Trojan.

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Raio-X

Nome: Marcos das Neves Souza

Idade: 47 anos

Naturalidade: São Paulo/SP

Estado civil: Casado

Filhos: Três filhas

Formação: Advogado

Carreira profissional (principais cargos): Gerente de segurança no aeroporto de Congonhas, São Paulo; gerente de operações e segurança no aeroporto de Florianópolis; e superintendente do aeroporto de Navegantes

DIARINHO – Como a aviação entrou na sua vida? O senhor sempre gostou de aviões?

Marcos das Neves – A minha história é muito interessante. O meu pai iniciou a atividade dele na aviação na década de 40. Em 1975, quando eu tinha 13 anos de idade, meu pai me levou pra trabalhar no aeroporto de Congonhas. Chegou lá, eu era um moleque mirradinho, pequenininho, bem magricelinho, e ele me apresentou pra uma empresa de táxi aéreo. Aí a secretária da empresa olhou e falou pro meu pai: ?Seu Zé, o senhor tem certeza que quer que esse menino trabalhe?? Aí o pai: ?Eu quero que ele trabalhe, esse menino precisa trabalhar pra sair da rua, pra parar de aprontar?. Daí ela me deu o emprego e eu comecei a trabalhar na aviação com 13 anos, nesta empresa de táxi aéreo, num aeroporto que hoje é o segundo mais movimentado da América Latina. E lá eu trabalhei até 1991. Quando saí, vim transferido para Florianópolis, onde fiquei 19 anos, e depois vim pra Navegantes. [Subindo de cargo ao longo dos anos, certo?] Sim. Comecei registrado como contínuo, só que eu fazia de tudo. Eu limpava avião, fazia comissaria, serviço de transporte de bagagem dos passageiros. Era uma empresa de pequeno porte, que tinha aeronaves pequenas. Mas eu fazia toda esta atividade. Entrava no pátio de Congonhas, que já naquela época era um pátio imenso e com movimento grande. Não existia Guarulhos, então era um movimento grande. Fazia transporte de bagagens, carregando no carrinho dois quilômetros pra chegar no avião. Trabalhei nesta empresa dos 13 aos 17 anos. Com 17 anos eu comecei a trabalhar numa empresa que prestava serviço pra administração aeroportuária. Não era a Infraero ainda. Prestei serviço pra essa administração aeroportuária até 1981, fazendo serviço que a gente chamava de bandeirinha, que agora é fiscal de pátio. Esse pessoal que chama e sinaliza o avião.Em dezembro de 1980 eu entrei na Infraero e tô aqui até hoje. Trabalhei de fiscal de pátio, encarregado de pátio, supervisor, inspetor, chefe de segurança, gerente de segurança, gerente de operações. Depois vim pra Florianópolis e fiquei como gerente de operações e segurança, e agora, em fevereiro de 2009, vim transferido pra cá.

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DIARINHO – O senhor já pilotou um avião, tem experiência no comando de aeronaves?

Marcos – Não, não me atreveria a isso. O máximo que eu fiz foi pilotar um fligth simulator. Um simulador de voo, mas é tipo um jogo, um vídeo-game. Foi o máximo que eu fiz. A minha vida na aviação se concentra na infraestrutura aeroportuária.

DIARINHO – Qual o trabalho prático do superintendente de um aeroporto internacional, no caso o seu trabalho aqui em Navegantes?

Marcos ? A responsabilidade é muito grande. A gente tem que cuidar da infraestrutura do aeroporto pra que ela seja eficiente pra receber, tanto as aeronaves como os passageiros que circulam no terminal. Então você tem que cuidar de uma infraestrutura de pista, de sistemas de auxilio à navegação aérea, que do ponto de vista da segurança é fundamental. Por exemplo, um balizamento de pista. Se um sistema de balizamento de pista, que são aquelas luzes que ficam na pista, entra em pane, você tem o aeroporto inviabilizado. Então, a gente tem que manter o sistema funcionando e ter uma boa manutenção preventiva. Sistema de navegação aérea, sistema de radar, sistema de aproximação, torre de controle, a gente tem que cuidar dessa infraestrutura. Saindo um pouquinho da área de pátio, da área de movimentação da aeronave, e vindo pro aeroporto, tem toda uma estrutura que muitas vezes o passageiro faz uso, mas não percebe. Tem o sistema de informativo de voo, sistema de som, sistemas de gerenciamento de controle de tarifas aeroportuárias.

DIARINHO – Que avaliação o senhor faz do terminal aéreo de Navegantes? Há projetos pra deixá-lo melhor?

Marcos – Tem muita coisa pra ser feita no aeroporto de Navegantes. E a Infraero, consciente disso, tá fazendo um plano diretor do aeroporto, que consequentemente tem que estar em consonância com o plano diretor do município. O que seria isso? Há um projeto pra ampliação do aeroporto, não só nesse atual terminal de passageiros, não só na atual pista. É uma coisa bem mais ampla. Há projeto para a construção de uma pista nova e um novo terminal de passageiros. Mas isso é uma projeção pra 10 a 20 anos. Ou seja, de acordo com o crescimento do município e o crescimento da região. Mas até que isso seja feito, a gente não pode esperar pra fazer algumas melhorias que são pontuais. Então este atual terminal vai passar por um processo de revitalização e ampliação. Estamos discutindo um projeto pra ampliar este aeroporto e melhorar as condições atuais. Esse aeroporto seria ampliado em, aproximadamente, dois mil metros quadrados de área útil dentro do terminal e mais uma série de melhorias. Faremos a cobertura de todo o meio fio do aeroporto. Ali onde os carros param a gente tem duas coberturas só e vamos substituí-las para fazer uma cobertura ao longo do terminal todo. Vamos colocar áreas pros ônibus estacionarem naquele local onde tem estacionamento de veículo da Infraero. Ali vai ter um estacionamento, como se fosse um terminal aerorrodoviário. O passageiro chega de ônibus, vindo de Blumenau, Brusque e Gaspar, por exemplo, e para ali naquele terminal, desembarca e vem numa área coberta até o terminal de passageiros pra pegar o avião. Também terá a inclusão de escadas rolantes dentro do terminal, ampliação dos elevadores do aeroporto e outra medida que eu ainda tô tentando convencer os nossos superiores, que seria a construção do embarque no piso superior. Com uma projeção futura, se acabar sendo viável isso, a gente vai acabar até colocando um finger (rampa de embarque). Mas, inicialmente, o passageiro subirá por uma rampa, pra que depois possa descer pra gente fazer um aproveitamento melhor da área. Isto pra não perder espaço na área interna do aeroporto, que hoje tá muito encolhidinha onde o passageiro se movimenta pra fazer o check-in. [Há alguma previsão pra realização destes trabalhos?] O trabalho já está contratado. Tem uma empresa trabalhando aqui na região que se chama Steel Engenharia. Já foi licitado e esta empresa apresentou um pré-projeto e a gente tá analisando, agora na parte mais complicada para os engenheiros, que é a hora que apresentam o projeto e a gente começa a rabiscar. [O projeto diz respeito à nova área de embarque e também o novo estacionamento?] Tudo isso. O que a gente tá fazendo agora é o projeto arquitetônico e o projeto executivo, de uma vez só. A previsão é que até o final do ano eles me entreguem todo o projeto executivo pronto, pra termos condições de, no início de 2010, licitar a obra. [Na prática, quando o senhor acha que tudo estará pronto?] Deve ser pelo menos um ano de obra, porque tem bastante interferência. No final de 2010, eu diria que estaria pronto, se tudo correr de acordo com o ritmo que a gente prevê.

DIARINHO – Quantas pessoas passam hoje diariamente pelo terminal de Navegantes?

Marcos ? Cerca de 1800 pessoas. Nós temos um total de 54 mil passageiros por mês, que divididos por 30 dias você vai ter 1800 pessoas. Este foi o nosso último movimento, do mês passado. Só que você não pode considerar só isso, pois aqui eu só falei de passageiro. Nós temos que lembrar que, se você vai embarcar, alguém vem lhe trazer. Vem a sua mãe, seu pai, alguém da família pra se despedir. Quando a gente fala em 1800, a média que se costuma multiplicar é por três. Então, na verdade, a gente tem uma média de 5400 pessoas que passam todos os dias no terminal. Tem dia que passam mais e tem dia que passam menos pessoas. [Existe expectativa de aumentar este número e também o número de companhias ou voos no aeroporto?] Nós tivemos um aumento considerável nestes últimos três meses. O aeroporto tava com um movimento de 26 mil passageiros e com a entrada de uma nova empresa (Azul Linhas Aéreas) esse movimento aumentou consideravelmente, pra atender uma demanda reprimida que tinha na região. São cidades tão importantes quanto Navegantes. Brusque, Blumenau, Gaspar, Balneário Camboriú, Itajaí, todo esse mercado tava reprimido em função da falta de opção de voos em Navegantes. Ele estava lá em Florianópolis. O passageiro saía dessas regiões e embarcava lá. Com a entrada dessa empresa aqui, os passageiros vieram pra cá, porque é muito mais perto pra eles. E essa entrada não só puxou esses passageiros, como também fez com que as outras duas empresas que já operavam no aeroporto (Tam e Gol) implementassem ações pra não perder mercado. As outras empresas também baixaram os preços das passagens e captaram mais passageiros. Isso que fez esse crescimento. De 26 mil passageiros em fevereiro, passamos pra 54 mil em maio, o que dá um aumento de 98%. Sabe qual é o aeroporto do mundo que tem um aumento de 98% num período de três meses? Nenhum. Desconheço nos meus 33 anos de serviço na aviação.

DIARINHO – Por que hoje o aeroporto não funciona 24 horas por dia? É falta de voos, estrutura ou pessoal?

Marcos ? É simplesmente por falta de demanda de voos. A partir do momento em que as empresas optarem por colocar voos aqui de madrugada, a Infraero tá preparada pra atender. Nós temos todo o serviço de responsabilidade da Infraero prontinho pra atender a qualquer hora, tanto é que numa situação de emergência pousa aeronave aqui. Por exemplo, aeronaves com missão de transportar órgãos doados pra transplantes não podem esperar e saem a qualquer hora. E a gente tem condições de atender. O único setor nosso que não funciona 24 horas é o setor de navegação aérea, mas é uma questão de readequação de escala. Se a empresa falar que vai passar a operar comercialmente um voo às 3h da manhã, a gente tem condições de colocar. Tanto que a Azul falou pra nós que precisava do primeiro boletim meteorológico às 5h30 da manhã. A gente mudou o horário, chamamos nossos meteorologistas pra entrarem às 5h, pra sair o primeiro boletim às 5h15. A questão é demanda.

DIARINHO ? Voltando à estrutura do terminal, a gente nota que faltam banheiros no desembarque, esteiras pra bagagem, o estacionamento em frente ao aeroporto também está sempre lotado. Esses problemas não prejudicam a imagem do nosso aeroporto?

Marcos ? Com certeza prejudica a imagem do aeroporto e da região também. Mas nós estamos trabalhando neste sentido, justamente em cima daquele projeto. Exemplo, o problema da esteira de bagagem de desembarque. Dentro do nosso projeto, ela será ampliada. As áreas de desembarque serão ampliadas, possibilitando a extensão da esteira. Os banheiros vão ser reformados e adaptados pra acessibilidade, assim como o terminal, que é hoje uma de nossas metas. Fazer com que a pessoa que tem alguma necessidade especial possa ter condições de acesso a qualquer local. Elevadores vão ser ampliados, escadas rolantes, tudo isso tá dentro deste novo projeto. A questão do estacionamento, não tem nenhum outro aeroporto que espera um aumento de 98% da noite pro dia. O estacionamento atendia muito bem a demanda, mas hoje ele não atende e nós vamos ampliá-lo. Está dentro da nossa meta e pretendemos fazer ainda este ano. Caso ainda não seja suficiente, a gente acredita que vai ser, podemos partir pra outras opções, como por exemplo fazer estacionamento em níveis, tipo prédio de garagem.

DIARINHO – Nos bastidores, pilotos dizem que a pista de Navegantes é uma das mais difíceis de pousar e decolar no país, por causa de seu tamanho reduzido. Qual é o comprimento atual da pista e qual seria o ideal?

Marcos ? O tamanho atual da pista é de 1700 metros. Uma pista de 1700 metros ao nível do mar, que é o nosso caso, pois estamos com uma elevação de cinco metros, é uma pista muito boa e atende bem as necessidades dos tipos de aeronaves que aqui operam. Por exemplo, 737 até 800, A320 e a aeronave da Azul (Embraer 190 e 195). A meta do plano diretor é aumentar esta pista pra 2400 metros, o que não significa dizer que essa pista é curta. Eu diria que o problema não está no comprimento da pista, mas sim nos arredores da pista. Uma pista que você tem uma aproximação pela cabeceira 25, que você vem pelo mar e não tem obstáculo nenhum, é uma pista que qualquer piloto pousa tranquilamente com 1700 metros. Pra você ter uma ideia, a pista no aeroporto Santos Dumont (RJ) tem 1500 metros e pousam os mesmos tipos de aeronaves que aqui operam. E com um agravante. Lá tem um morro, um obstáculo natural que se chama Pão de Açúcar, que fica bem na reta. Então eu rebato um pouco esta crítica de alguns pilotos e posso até me colocar à disposição pra falar com eles disso. [E se os aviões se aproximarem pra pousar pelo lado do rio Itajaí-açu, muda algo?] Do outro lado não é a mesma situação, porque nós temos os guindastes do porto, da Portonave, que é um empreendimento bastante importante pra região, mas que quando construído não foram observados alguns critérios importantes para a manutenção da segurança nos pousos das aeronaves. Pra que seja corrigido isso, pra reduzir esse risco, nós fizemos um procedimento específico de pouso naquela cabeceira, que a gente chama de 07. As aeronaves não se aproximam jamais por aquele lado. Você pode ver que a aeronave não se aproxima pelo lado do encontro do rio com o mar, pra evitar a situação do guindaste. O guindaste tá distante, mas existem o que a gente chama de rampas laterais e rampas de subida, e o guindaste chega a ferir a rampa de subida. Outra coisa que também é importante destacar, é o comprometimento que tem que haver dos poderes executivos municipais em apoio ao aeroporto. O aeroporto é um instrumento público que atende os municípios, os interesses da população e, às vezes, a gente percebe que outros empreendimentos, que prejudicam o aeroporto, são autorizados sem ouvir a autoridade aeronáutica.

DIARINHO – Como está o processo de desapropriação das residências próximas ao aeroporto de Navegantes, pra ampliação da pista e do terminal?

Marcos ? Esse processo não interfere em nada na atividade atual. Ele interferiria no plano diretor, que envolve uma área bem maior, com uma pista de voo de 2400 metros e um novo terminal de passageiros. Aquela situação tá no seguinte pé. Em 1996, a Infraero firmou um termo de convênio com a prefeitura, onde o município se compromete a desapropriar determinadas regiões, determinados lotes, imóveis, e passar esses imóveis pra União. A Infraero se compromete a dar o recurso pra que o município faça essas ações. A Infraero fez esse repasse do dinheiro, mas existem muitas pendências de terrenos, que devem ainda ser escriturados em nome da União. Nós fizemos uma reunião com a prefeitura em março deste ano e passamos quais são as pendências que precisam ser acertadas pra que a gente possa dar continuidade neste processo, inclusive partindo para o novo plano diretor. [Ainda faltam muitas desapropriações?] Faltam. Tem uma lista grande e faltam pelo menos uns 30 lotes.

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DIARINHO ? No ano de 2003, houve um avião da Gol que durante o pouso em Navegantes só parou na grama, após o final da pista, inclusive batendo no muro do aeroporto. Foi uma falha do piloto ou é prova de que a ampliação da pista é mesmo necessária?

Marcos ? O tamanho da pista é razoável. Se assim não fosse, a própria empresa se recusaria a utilizá-la, porque afinal de contas o piloto também é responsável pelos seus passageiros. Naquela ocorrência, pelo que tomei conhecimento, o que houve foi uma situação de tempo não muito favorável, chovendo, com visibilidade reduzida. A aeronave acabou pousando fora do ponto estabelecido, que se chama área de toque. Quando a aeronave pousa ela tem um limite de início e término, onde ela tem que pousar naquela área. Se ela passar dessa área, um dos procedimentos que o piloto deve tomar é a arremetida. A informação que me chegou foi que a aeronave pousou muito além desta área e sem condições de arremeter. Teve que forçar uma parada e não foi suficiente o restante de pista pra que ela pudesse fazer isso. Um dos tipos de acidente que mais acontece nos aeroportos são pousos fora da área de toque. Não tô dizendo que isto acontece com frequência, mas quando acontece, o principal é o pouso fora da área, que acaba com a aeronave saindo da pista. Isto já aconteceu em Porto Alegre, em Florianópolis. Não é uma coisa incomum o que aconteceu aqui. Incomum, sim, é você autorizar uma obra naquele mesmo muro que o avião derrubou quando passou da pista e entrou na grama. Foi autorizada uma obra lá naquela área e eu já notifiquei o comando aéreo regional e a prefeitura. É um cemitério, que parece que terá uma capela, que vai ferir a rampa do aeroporto. Se essa capela ferir a rampa do aeroporto, nós vamos ter que recuar a pista. Aí a gente perde pista e provavelmente algumas empresas deixarão de operar aqui.

DIARINHO – E existe algum projeto ou tratativa entre a Infraero e a prefeitura de Navegantes pra que isto não aconteça? Pra que não sejam construídos prédios altos próximos ao aeroporto, por exemplo?

Marcos ? Próximo ao aeroporto até pode construir. Só não pode construir na rampa de subida. Existe uma legislação que a prefeitura tem conhecimento, que se chama portaria 1141 do comando da aeronáutica, que estabelece justamente o que pode ou não ser construído. Se a prefeitura seguir aquela portaria não há problema nenhum, porque ela vai saber exatamente o que se pode ou não fazer na rampa.

DIARINHO – O aeroporto de Navegantes é efetivamente internacional, recebe voos diretos dos outros países?

Marcos ? O aeroporto de Navegantes é homologado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) pra receber voos internacionais a qualquer hora e a qualquer momento. Entretanto, aí nós voltamos na questão da demanda, as empresas aéreas, os operadores turísticos, não colocam voos vindos do Conesul, por exemplo, da Argentina, do Chile, do Uruguai, do Paraguais, pra cá. Eles preferem concentrar estes voos em Florianópolis. Isto acaba fazendo com que nós não recebamos voos internacionais aqui, mas nós temos condições de receber voos internacionais. [É por isso então que ainda não há o trabalho da polícia federal no aeroporto, fiscalizando a entrada e saída de passageiros?] Exatamente. Não tem demanda, a polícia federal não coloca ninguém. Se por acaso amanhã uma empresa aérea chegar e falar que está programando um voo pra cá vindo de Buenos Aires, nós vamos pegar o horário e ver se ele se encaixa na nossa malha de ocupação. Eu oficio a polícia federal, a receita federal, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e o ministério da agricultura, e eles vêm pra cá, fazem a recepção e liberam o voo. Isto não é um fator impeditivo.

DIARINHO – Há alguma atividade de fiscalização pra evitar que estrangeiros suspeitos de estarem com o vírus H1N1, da gripe do porco, cheguem a Santa Catarina pelo aeroporto de Navegantes?

Marcos ? Isso é uma atividade totalmente de responsabilidade da Anvisa, que é o órgão oficial que controla a entrada das chamadas pandemias. Tem algumas providências que eles tomaram nos aeroportos. Mas como este aeroporto aqui é internacional, mas não está recebendo voos internacionais, ele está sendo tratado como aeroporto doméstico do ponto de vista da aplicação da norma. A gente só faz uma divulgação no sistema de som, nos informativos de voos, com placas e cartazes, pra que se um passageiro sentir algum dos sintomas que procure a Infraero, que acionaremos imediatamente a Anvisa. Agora, nos aeroportos internacionais, que são as principais portas de entrada dessas pandemias, aí sim a vigilância sanitária tá atuando de forma mais enérgica, colocando maior fiscalização, segregando maior número de pessoas. [Aqui em Navegantes foi registrado algum caso suspeito dessa gripe?] Não, nenhum caso por enquanto.

DIARINHO – A queda do Boeing da Gol, em setembro de 2006, matando 154 pessoas, deu início a uma crise aérea no Brasil, com falhas na cobertura do espaço aéreo e problemas nos equipamentos de controle. Como está o controle dos voos hoje? Houve aumento de pessoal e melhora das condições de trabalho dos controladores de voos?

Marcos ? Aquela região onde houve o acidente é de controle exclusivo do comando da aeronáutica. Todos os controladores de voo que trabalham naquela região são militares do comando da aeronáutica. Fica difícil entrar no mérito de uma atividade desta natureza. Com relação às demais áreas, como por exemplo aqui em Navegantes, a Infraero é a responsável pelo sistema de tráfego aéreo. Por aqui eu posso responder, por lá não posso falar nada, mesmo porque senão o brigadeiro lá manda me prender (risos). [E por aqui como está a situação da cobertura do espaço aéreo, existem pontos cegos?] Não temos tido reclamações. A região sul do país não tem ponto cego, é coberta por um radar que fica em Curitiba e se chama Cindacta. Ele cobre não só toda a região sul, como também até parte da Argentina, Uruguai, toda essa região. Isso chama-se ACC, que é o Centro de Controle de Área. Fora o ACC, tem pequenas regiões com APP (Centro de Controle de Aproximação de Voo), que controla uma área menor, de aproximação. É quando a aeronave já está próxima ao local onde vai pousar ou passando por lá. O avião vai sendo controlado por cada área dessas, passando pelos radares. O Brasil é todo cheio de ACCs e APPs. Só naquela região da Amazônia, uma região muito grande, existia algumas falhas. E de lá foi criado o projeto Sivam, que tinha o objetivo de corrigir estes problemas. É um megarradar pra cobrir toda a Amazônia. Essa cultura de achar que o Brasil não tem um sistema de tráfego aéreo eficiente é totalmente equivocada. O Brasil é um dos países mais bem cobertos do mundo, no controle de tráfego aéreo.

DIARINHO – Apesar do recente acidente com o Air France, que matou 228 pessoas, o senhor considera seguro voar?

Marcos ? Demais. Basta você fazer um comparativo do número de mortes que acontece no mundo em relação aos meios de transporte. O avião é o que menos mata gente, que menos morre gente por questões de acidente. Morre mais gente de trem, de navio, barco, qualquer outro meio de transporte. Costumo dizer que o avião só perde pra um deles, o elevador (risos). Ainda assim, se a gente começar a fazer um levantamento bem aprofundado você vai ver que nem do elevador é capaz da gente perder. Ultimamente, eu ando vendo umas reportagens de vários elevadores despencando aí (risos).

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DIARINHO ? O senhor já passou por uma situação de risco ou de apreensão voando, até mesmo como passageiro?

Marcos ? Voando não, mas já atendi várias situações de acidente como profissional do aeroporto. Já atendi acidentes de pequeno e até de grande porte, quando eu trabalhava em Congonhas, em Florianópolis. Me lembro bem de um fato pitoresco, engraçado. Eu era supervisor de aeroporto em Congonhas, foi acionada a emergência e saímos pra atender. Quando aciona a emergência, você aciona todo um aparato, que se dirigiu ao local. Chegando lá, era uma aeronave de pequeno porte que tinha pousado, um monomotor que se chama Bonanza, e a aeronave tinha pousado sem baixar o trem de pouso. Aí eu cheguei lá, não houve vítimas e a gente conhecia o comandante da aeronave. Perguntei o que foi que aconteceu e ele me disse: ?Esqueci de baixar o trem de pouso?. Só percebeu quando tinha aterrissado. Tiveram outras situações ali em Congonhas, com aeronaves passando do ponto da pista na hora de descer. [Foi justamente o que aconteceu com aquele avião da Tam em 2007, que passou da pista, se chocou contra um posto de combustíveis e contra um depósito de cargas da própria companhia aérea e explodiu, matando 176 pessoas. O senhor estava lá naquela época?] Não, eu já estava aqui. Aquele caso também não foi problema da pista e nem erro humano. Foi um problema de falha de equipamento. A aeronave pousou com uma velocidade bem acima do normal e a indicação daquela velocidade não tava bem configurada. Quando a turbina deveria reverter ela tava acelerando pra frente. O piloto não teve tempo nem de pensar no que fazer ali, e a aeronave empurrando pra frente, sem condições dele decolar.

DIARINHO – Há um exagero da mídia em noticiar qualquer turbulência ou abortagem de decolagem após o acidente com o Air France? Até que ponto isto prejudica o transporte aéreo?

Marcos ? Eu, particularmente, acho que é um exagero da mídia, porque às vezes se apegam a um determinado problema e se esquecem da principal missão dela, que é informar ao público o que de fato aconteceu ou o que está acontecendo. Começam a se concentrar em pequenas situações e a dramatizar estas situações, pra que elas ganhem uma proporção maior. Pode ser que algumas pessoas, em função disso, deixem de voar. Mas acho que é um número muito reduzido, que não chega a ser representativo.

DIARINHO – Mesmo não trabalhando dentro dos aviões, viajando de um lado pro outro, o senhor precisa ter um conhecimento técnico das aeronaves comerciais?

Marcos ? Conhecimento técnico do tipo de operação da aeronave, não. Mas conhecimento técnico de outras circunstâncias e situações que envolvem a operação da aeronave, sim. Por exemplo, eu preciso saber qual a dimensão e a capacidade da aeronave, pra que ela possa operar aqui no aeroporto, com relação à pista, pátio de manobras, peso, entre outras coisas. [Na sua avaliação, nossos aviões são seguros?] Com certeza. O 737-800 é uma aeronave da Boeing, com capacidade de fazer voos de curta e média distância, por exemplo, do Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus direto. Aeronaves que operam com uma capacidade de 150 a 175 passageiros, cujo índice de acidentes mundial é baixíssimo – e olha que são milhões e milhões de decolagens ao dia, no mundo inteiro, deste tipo de aeronave.

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DIARINHO – O que aconteceu semana passada com o avião da Azul em Navegantes, que abortou uma decolagem após um estouro numa das turbinas?

Marcos ? O que aconteceu na verdade, pra você ver como a aviação é segura, foi que essa aeronave chegou a decolar. Só que no procedimento de decolagem aconteceu um efeito que se chama stol, que apagou o motor. Ou é entrada de ar excessivo, ou entrada de combustível excessivo, alguma coisa assim que faz com que apague o motor. A aeronave com apenas um motor levantou, deu a volta e pousou. A maioria dessas aeronaves é projetada pra fazer voos com apenas uma turbina. Falar em uma turbina não significa necessariamente que esta aeronave vai cair e foi o que aconteceu aqui. Estourou um dos motores. Depois eles fizeram testes, mexeram e a aeronave decolou com o mesmo motor que estourou e foi embora. [E qual é a posição da Infraero para com as companhias quando algo assim acontece? Existe uma cobrança, um controle de manutenção?] Não. A aviação se divide em setores de responsabilidade. Pela infraestrutura aeroportuária é da Infraero. Pela investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos é do comando da aeronáutica. Pela fiscalização do sistema aeroportuário e das empresas aéreas é da Anac. Depois tem as próprias empresas aéreas. A fiscalização das empresas cabe à Anac, como agência nacional reguladora. Isso tudo é muito rígido. Por isso que a gente pode falar que a aviação civil é muito segura, não só civil quanto militar. As normas são muito rígidas, as aeronaves têm que fazer revisões de 50, 100, 200 e 1000 horas. Tem tempo ?x? pra substituição de peças.

DIARINHO – Hoje o Brasil exporta pilotos pra outros países. É a qualidade de nossa escola ou falta de mão-de-obra qualificada das outras nações?

Marcos ? Um pouco dos dois. O Brasil é um país que tem uma segurança de voo muito boa, tem um órgão que se chama Cenipa, que é o Centro Nacional de Investigação e Prevenção de Acidentes, e que tem um trabalho excelente. As academias de aviação, os aeroclubes, são muito bons. Tem muitas boas academias no Brasil que formam pilotos. E alguns países têm deficiência na formação. Os Estados Unidos têm uma capacidade de formação muito boa e o Brasil também não fica longe disso. E hoje, principalmente pra região do Oriente Médio, Índia, aquela região toda importa muitos pilotos daqui. Não só piloto, como comissários de bordo formados no Brasil. É a carência deles, mas também a capacidade de formação aqui. Se estivéssemos formando gente ruim aqui, não iriam querer lá.

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