• Postado por Tiago

Itajaí, 12 de dezembro de 2019.

”Cá estou eu, novamente, escrevendo sobre obviedades, mas, desta vez, escrevo para o passado. Para nós mesmos, cerca de dez anos atrás. Se eu fosse mais longe, vinte anos, seria ainda melhor. Mas nos bastaria dez anos menos e teríamos, provavelmente, uma chance ainda. Agora, não há mais chance. Regredimos um século em menos de cinco anos. Mas, como falo às pessoas do passado, deixe-me voltar a 2009. Lá estão elas, na tranquilidade de suas casas. Mal sabem o que lhes espera em tão pouco tempo. Sim, pouco tempo, pois dez anos é muito pouco tempo. Eu lembro quando estávamos chegando a 2010; há tão pouco era a virada do século, do milênio, e já estávamos chegando perto do fim da primeira década do século XXI. Culpa da nossa enfadonha monotonia, da nossa escravatura pelo trabalho, pelos horários; sim, é isso aí que nos faz crer que o tempo está tão rápido. Estava. Por aqui, em Itajaí, não há mais emprego para que isso aconteça. Vivemos em barracas, aqui na antiga zona rural da cidade. Sim, Itajaí não existe mais, não a Itajaí que conhecíamos anos atrás. Claro que vocês aí do passado nada sabem do futuro. Mas fomos avisados, constantemente (talvez não tanto quanto deveríamos), de que isso iria acontecer. E começou em 2014 com aquela outra grande enchente. Em três dias, choveu o equivalente a dois meses. Parou de chover durante um dia. No outro dia, choveu o que era esperado para todo mês de agosto. Isso somado à alta da maré do mês, acabou resultando numa enchente que durou quase uma semana inteira, ainda maior que a enchente de 2008. Mas, diziam, isso nada tinha a ver com as previsões do aquecimento global. Claro que não. Era tudo uma graaande coincidência chover em cinco dias o equivalente a três meses. Claro que era. Ou era o que queríamos acreditar. E continuamos acreditando na nossa mentira. Voltando ao nosso presente, 2019, já tem gente querendo cortar caminho pelos morros para chegarmos até as antigas praias de Cabeçudas e Atalaia. De vez em quando saem alguns grupos para ir até lá. Uns dizem que dá para construir uma estrada até lá por cima dos morros. A maioria, é claro, não quer saber de derrubar mais árvores. Mas, voltando às informações importantes para 2009, saibam que Itajaí hoje começa ali pelos morros do Rio do Meio, mais ou menos, ou seja, cerca de dez quilômetros do antigo centro da cidade. Dali para frente o mar subiu, os rios transbordaram e só existe uma cidade submersa fantasma. Depois do aviso de 2014, no começo de 2018, outra “enchente” começou, só que dessa vez sem chuva. O centro da cidade ficou alagado por seis horas, causando muitos transtornos e danos materiais. Alguns atribuíram à maré alta, lua cheia, sei lá mais o que. Porém, os cientistas avisavam. O nível dos mares está subindo e acontecia em outras cidades ao redor do mundo. O Pólo Norte estava deixando de existir. E, assim, em agosto novamente, uma “maré alta” subiu e não parou até que toda a cidade ficasse embaixo da água (na antiga igreja Matriz católica, a água está em cerca de dois metros), isso tudo, em três dias! Ah, sim, estão dizendo que na semana que vem chega o novo mapa-mundi do planeta, agora com todo o litoral já redesenhado. Foram centenas de milhões de pessoas atingidas. Quase um milhão morreu até agora, por fome, saques, invasões etc. etc.. Por sorte, a cidade de Brusque não fechou suas entradas, como fizeram muitas outras pelo Brasil e mundo a fora, e até que estão nos ajudando bastante com comida e água potável. Ah sim, daqui dois anos, dizem, se tudo der certo, começaremos a reconstruir uma nova Itajaí ali do Rio do Meio pra trás, até os limites com a cidade de Brusque. Mas, se tudo der certo; do contrário, continuaremos aqui, vivendo em barracas de camping cedidas pelo governo, sem energia elétrica, vivendo do básico e das doações, mas, pelo menos, paramos de poluir o mundo, o que já é um grande avanço para que o aquecimento global diminua, o que irá acontecer, dizem, em cinqüenta anos, quando as geleiras devem, enfim, voltar ao normal – mas só se continuarmos com a diminuição da poluição mundial.”

Ass: Rômulo Mafra

(Transcrito ipsis litteris)

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