• Postado por Tiago

BASE-ESPECIAL-farley-(31)

?Eu não tenho retorno financeiro. Eu faço porque eu amo isso aqui?

ABRE---ESPECIAL-farley-(32)_thumb[1]

?Quando eu estou em casa, só rola sonzeira?

Texto Anderson Bernardes

Fotos Felipe VT

Ele pode ter vendido a você um carro zero quilômetro ou, quem sabe, tempos atrás, um amortecedor. Você pode tê-lo visto embaixo de uma trave de futsal, em alguma quadra de Itajaí. Ou numa loja de CDs e DVDs, vasculhando as prateleiras. Você pode ter esbarrado nele num corredor de supermercado e pensado que já viu esse cara em algum lugar, mas não lembra exatamente onde. O mais provável, no entanto, é que ao ver Farley Cerri pelas ruas de Itajaí você se pergunte: esse não é o cara do Gold Songs?

Sim. Há exatos três anos e três meses, Farley Cerri apresenta o Gold Songs, da TV Brasil Esperança. É dele o inglês com sotaque peixeiro que anuncia os videoclipes no programa que vai ao ar todos os sábados, às 20 horas, e que tem uma comunidade com nada menos que 2,6 mil participantes no Orkut. O vendedor de carros hoje é reconhecido nas ruas por fazer de sua paixão, a música, a matéria-prima do seu programa na TV.

O sotaque que é marca registrada do apresentador não é original de fábrica. Farley nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e só foi ter contato com o peixerês aos sete anos de idade, quando se mudou pra Itajaí, pra morar na casa de um tio. O primeiro contato com a música também foi nessa época.

O tio de Farley foi um dos primeiros bateristas da Banda S/A, formada em Brusque pra tocar nos bailes da região. ?Eu ia junto com o tio, ficava atrás do palco vendo a banda tocar e foi o meu primeiro contato de verdade com a música?, lembra o apresentador.

Mas foi em 1989 que uma fita cassete fez toda a diferença e despertou de vez a paixão pela música no adolescente, então com 15 anos. ?No dia do meu aniversário eu ganhei um fita do Pink Floyd, ?A Collection of a Great Dance Songs?, e dali em diante eu virei um aficionado?, relembra. Essa fissura deu origem a uma coleção de revistas e livros sobre música, LPs, CDs e depois DVDs. ?Na última vez que eu contei, a coleção tinha 1,4 mil volumes entre CDs e DVDs?, garante. Este acervo seria decisivo no futuro para que Farley fosse parar na frente das câmaras, mas o caminho até lá não foi nada comum.

Nessa parte da história entra uma figura chamada Marcelo Otto. Morador do bairro Fazenda, vizinho e amigo de Farley, Marcelo já era fã do Gold Songs desde o início, quando o programa de videoclipes era apresentado pelo jornalista Luciano Sens, um dos criadores da atração em parceria com José Carlos Francelino. Luciano deixou o programa, a emissora tentou outros apresentadores, mas, no fim das contas, pra tristeza de Marcelo, o Gold Songs perdeu seu lugar na programação da Brasil Esperança.

Num dia como outro qualquer, Marcelo foi até o amigo Farley e lhe disse:

? Você tem que apresentar o Gold Songs. Você sabe tudo de música. Eu vou falar com eles!

Farley retrucou:

– Eu nunca trabalhei com isso. Você endoidou?

Assim como qualquer pessoa normal faria, Farley não deu a mínima pra maluquice do amigo e tocou sua vida, na época, como vendedor de autopeças. Duas semanas depois, a TV entrou em contato por telefone. ?O Marcelo tinha marcado tudo. Eu cheguei na TV e já era uma reunião. Eles queriam saber se eu podia gravar um piloto?, conta.

Farley disse na reunião que jamais tinha feito nada nem sequer parecido com rádio e TV na vida, mas isso não desencorajou a direção da emissora, que ficou de chamá-lo para a gravação de um piloto, um programa-teste. ?Passaram duas semanas e nada. Eu pensei que eles tinham caído na real e não iam me chamar mais?. Chamaram.

O teste foi dos piores. Um trecho de programa que hoje é gravado em 20 minutos, Farley levou duas horas pra fazer e ainda ficou uma porcaria. ?Eu parecia um robô, era horrível?, conta. O futuro apresentador odiou, a emissora nem tanto. ?Em qualquer lugar do mundo aquilo não iria pro ar?, garante. Na Brasil Esperança foi. No dia 10 de junho de 2006, o que era pra ser um piloto foi o primeiro Gold Songs da Era Farley. A porta para o sucesso estava aberta.

O Gold Songs

A produção do programa, hoje em dia, fica praticamente toda nas costas do apresentador. É ele quem escolhe o repertório de videoclipes, atende aos pedidos dos fãs que chegam por e-mails, cartas e Orkut, e também faz as pesquisas e o texto. Um texto que, oficialmente, não existe. As falas de Farley no Gold Songs são todas de improviso. ?Eu estudo, anoto alguns tópicos, mas na hora de gravar é tudo espontâneo?, explica.

Atualmente, a equipe do Gold Songs se resume a um operador que grava o programa, o próprio apresentador e Marcelo Otto. O doido que levou Farley pra TV hoje é o responsável pela edição do programa. ?Ele sempre gostou de informática. Eu convidei e ele foi pesquisar, aprender como se fazia edição. Começou editando em casa e hoje é funcionário da TV?, conta Farley, orgulhoso do amigo.

Nesses três anos e pouco de programa, o apresentador já sentiu um pouquinho o que é ser uma celebridade local. ?As pessoas me reconhecem na rua, pedem autógrafo, pedem pra bater foto?, conta. Há também as críticas. O pessoal reclama que o programa não passa videoclipes nacionais. Farley se defende, dizendo que existe pouco material disponível de artistas brasileiros entre as décadas de 50 e 90. ?Num programa como o Gold Songs, você nunca vai agradar todo mundo?, completa.

Uma vida normal

Nem as críticas, nem o reconhecimento do público mudaram a rotina de vida do apresentador. Ele continua trabalhando todos os dias numa concessionária de automóveis pra garantir a grana pra criar o casal de filhos ? Danrlei, 11 anos, e Thayla, seis aninhos ?, aos sábados joga o futsal com os amigos e, na noite de quinta-feira, grava o programa. ?Eu, praticamente, não tenho retorno financeiro. Eu faço porque eu amo isso aqui, eu amo a música?, afirma.

Fã de Pink Floyd, Beatles, Elvis e Roy Orbison, Farley já colocou os filhos no caminho do rock?n?roll. A esposa Elizabete, casada há 13 anos com o apresentador, curte pagode, sertanejo e fica abandonada quando o assunto é música. ?Quando eu estou em casa, só rola sonzeira?, comemora o marido roqueiro.

O que pouca gente sabe ? nem os maiores fãs do Gold Songs talvez ? é que o mundo entretenimento televisivo quase perdeu Farley para o esporte. Em 2001, quando Itajaí sediou os Jogos Abertos de Santa Catarina (Jasc), ele era atleta do futsal da Fundação Municipal de Esportes (FME), mas não pôde competir, pois teve uma contusão meses antes dos jogos. Recuperado a tempo de jogar, não conseguiu mais a vaga no time. Recebeu então um convite para jogar punhobol. Com um bom desempenho nos Jasc, as portas para uma carreira internacional nesse esporte mundialmente desconhecido poderiam se abrir para Farley. Mas não foi o que aconteceu. ?Ganhamos só uma partida e perdemos todas as outras?, ri. Quem ganhou foi o fã do Gold Songs.

  •  

Deixe uma Resposta