• 18 nov 2009
  • Postado por Tiago

Há duas semanas que ela limpa o nariz na manga da blusa! Um lenço para Helena!

?Quando aconteceu a tragédia aqui, ninguém perguntou se você tinha carro novo, se você tinha conta bancária, se era fulano ou sicrano, foi igual para todos. É uma pena que, às vezes, depois de passar tudo isso, as pessoas não aprendam e continuam com essa indiferença?, Tatiana Reichert, presidente da Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús (Adarb)

BAÚ, UM ANO DEPOIS

?Muita coisa foi feita, mas tens que ter a consciência de que muito mais poderia ser feito?. Assim a jovem Tatiana Reichert, 34 anos, presidente da Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús (Adarb), resume, às vésperas de se completar um ano da tragédia de novembro de 2008, a reconstrução da região do Baú, em Ilhota, área que registrou o maior número de vítimas fatais ? 37. ?Um ano depois, a gente ainda vê pessoas sem moradia e problemas com os morros, que continuam rachando, continuam cedendo?, revela.

CONTA-GOTAS

Quando Tatiana diz que ?muita coisa foi feita? é bondade sua, pois se refere tão somente à recuperação de estradas e dragagem de ribeirões. É pouco, muito pouco. Muitas famílias permanecem sem casas e a reconstrução das moradias é feita a conta-gotas, sendo que até agora as poucas reconstruídas se devem a doações de entidades como o Instituto Ressoar e o Lions Clube. Do poder público, praticamente nada.

TERRENO

Nem sequer a compra de um terreno para a construção das casas pode ser atribuída aos governos municipal, estadual ou federal. ?Isto tem que ficar bem explicado para a população: o terreno comprado aqui não foi dinheiro do governo, é o dinheiro que a população depositou na conta da Defesa Civil?, esclarece Tatiana, acrescentando que o auxílio-reação também foi bancado com as doações do povo brasileiro.

TAPA NA CARA

Já os agricultores que perderam toda a lavoura na enchente não receberam auxílio algum. Segundo Tatiana, o governo federal mandou R$ 1,5 milhão para Ilhota com a finalidade de ajudar os produtores rurais, mas a prefeitura não fez o dinheiro chegar até os agricultores. ?Dizem que a prefeitura comprou dois caminhões e duas patrolas, que estão na secretaria de Obras. O agricultor levou um tapa na cara?, revolta-se.

RÁDIO AMADOR

Uma reivindicação da comunidade é a instalação de uma estação de rádio amador. ?Aqui não pega celular e o telefone é via satélite, qualquer problema o telefone cai e a gente fica sem comunicação. Se acontece algo mais grave, a gente fica sem comunicação como ficamos há um ano?, explica Tatiana, que também cobra a construção de pelo menos dois abrigos para situações de emergência.

ESTUDO DOS MORROS

Outra preocupação latente dos sobreviventes do Baú é a iminência de uma nova tragédia a cada chuva forte. ?Um dos grandes problemas é que a gente não sabe qual é a situação da estrutura dos morros. A associação recebeu a informação que isso é um estudo para mais de cinco anos, que demanda muito dinheiro, mas até o momento não se vê projetos de estudos dessa área?, conta a presidente da Adarb.

DOR DA PERDA

Tatiana perdeu 14 parentes de até terceiro grau. Oito eram de primeiro grau, inclusive a mãe e uma irmã. ?Perdi uma irmã que ficou 14 horas e meia esperando socorro. As primeiras horas porque não tinha comunicação, as demais porque não vieram. Até o último segundo de vida ela estava consciente. Ela perguntou ?pai, quando o socorro vem?? e cinco minutos depois ela disse ?pai, não aguento mais, eu vou morrer??.

A LUTA

?Como vítima disso tudo, eu eternamente vou exigir do Estado uma explicação, porque eu não consigo aceitar?, desabafa a jovem, que por outro lado encontrou na luta pela reconstrução da comunidade uma forma de superar a dor. Fundada em janeiro, a Adarb tem adquirido respeito e prestígio, sendo inclusive convidada para participar da organização da I Conferência Nacional de Defesa Civil. ?Os nossos governantes têm de nos respeitar e eles sabem que nós vamos incomodar muito eles?, completa Tatiana.

DOAÇÕES

Para conhecer mais a Adarb, mais informações podem ser encontradas no endereço virtual http://www.sosmorrodobau.com.br. A associação também recebe doações em dinheiro, através da conta corrente do Banco do Brasil número 9690-3, agência 3148-8.

Tatiana perdeu 14 familiares na tragédia e fundou uma associação para unir a comunidade pela reconstrução do Baú

Foto de senhor sendo socorrido no Baú, constante do livro ?Diário de Uma Tragédia?, da fotógrafa Maristela Pereira

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