• 20 nov 2009
  • Postado por Tiago

“Eles (TBG) sabiam do risco e deveriam ter interrompido a circulação de gás no ápice da chuva, porém não quiseram deixar de faturar”, advogada Lenice Kelner ao jornal O Estado de S. Paulo (10 de dezembro de 2008)

E O GASODUTO?

A poucos dias de se completar um ano da tragédia de novembro de 2008, que ceifou as vidas de mais de 100 pessoas em Santa Catarina, sendo 37 somente na região do complexo do Baú, em Ilhota, uma pergunta permanece no ar: o rompimento do gasoduto Bolívia-Brasil na localidade de Belchior Alto, em Gaspar, foi ou não decisivo para o agravamento dos deslizamentos de terra nas localidades próximas?

TIRANDO DA RETA

As autoridades se mostraram pouco interessadas em levar a fundo investigações para responder esta questão. O que era, convenhamos, esperado. Afinal, a empresa TBG, responsável pelo gasoduto, é do governo. A empresa negou que tenha havido explosão. Disse na época que apenas houve o rompimento do duto devido a um deslizamento de terra e que isto não causou outros desmoronamentos.

“AMPLO RELATÓRIO”

Segundo matéria da Agência Estado de 10 de dezembro de 2008, o presidente da SCGás, Ivan Ranzolin, disse na ocasião que “temos informações que a TBG está elaborando um amplo relatório sobre o acidente e em breve deverá ser divulgado na imprensa”. Muito bem. Passou-se um ano e qual foi a conclusão desde relatório? Quando o tal “amplo relatório” foi divulgado na imprensa?

ESQUECE…

Pouco importa. Mesmo que este relatório tenha sido feito, qual a sua credibilidade? É evidente que a empresa não quer, de jeito nenhum, manchar sua imagem se eventualmente foi comprovado que o rompimento do duto ajudou a provocar mais desmoronamentos região. Ou alguém imagina a TBG vindo a público assumir que sua obra contribuiu para aumentar a desgraça?

OMISSÃO

Tal relatório deveria ser feito por especialistas independentes, sem qualquer vínculo com a empresa e com o governo. Em sua página na internet (www.tbg.com.br), a própria TBG não faz qualquer menção ao ocorrido com a tubulação da empresa em Santa Catarina. A omissão em relação ao fato é total, como se nada tivesse acontecido. Para a empresa, quanto antes este assunto for esquecido, melhor.

“MITO”

Obviamente, é prematuro fazer acusações e chegar a qualquer tipo de conclusão antes de estudos aprofundados nas áreas atingidas. Do mesmo modo, não se pode eximir de antemão o gasoduto, como tentou um jornal da região que se apressou em fazer uma matéria de capa na época vendendo a ideia de que associar a suposta explosão do gasoduto ao desastre era – usando o termo empregado na matéria – “mito”.

TESTEMUNHOS

Não são poucos os moradores do complexo do Baú que afirmam que os deslizamentos ocorreram logo depois que se ouviu uma explosão e de surgir um grande clarão na noite de domingo, 23 de novembro – momentos após o segundo rompimento no gasoduto, no Belchior Alto. São inúmeros os relatos dos que testemunharam tal cenário, ganhando repercussão inclusive na mídia nacional.

REVISTA ÉPOCA

Um exemplo é o seguinte trecho de reportagem publicada na revista Época em 28 de novembro. “Ilhota contava os primeiros mortos quando descobriu que as explosões descritas pelos moradores ocorreram num gasoduto que passa atrás do morro. Suspeita-se que deslizamentos de terras provocados pela chuva tenham arrebentado a tubulação do gasoduto e que as explosões de gás tenham agravado os desmoronamentos”.

JORNAL NACIONAL

Em reportagem veiculada no dia 4 de dezembro de 2008 no Jornal Nacional, da Rede Globo, disse o auxiliar de serviços gerais Juliano Baier: “Nós estávamos numa casa lá e deu uma explosão. Cerca de seis minutos depois – não sei dizer o tempo certo – deu um tremor na terra. Nós vimos aquele clarão e já veio uma avalanche e derrubou um monte de casas. Não tem explicação, sozinho aquilo ali não viria”.

“ESTAVA TUDO NO SEU LUGAR”

Outro depoimento, do agricultor Rainoldo Ringols, registrado na mesma reportagem, feita pelo repórter Ricardo Von Dorf, reforça: “Até às 21h – antes da explosão – estava tudo no seu lugar. Não existia nada arrebentado lá, eu andei na propriedade”. Von Dorf ainda ouviu o engenheiro Luiz Bressani, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que afirmou que os relatos dos moradores deveriam ser melhor investigados.

INDENIZAÇÃO

Os indícios de que a explosão ou rompimento do gasoduto pode ter contribuído para provocar deslizamentos em Gaspar e Ilhota fizeram com que várias famílias atingidas entrassem na Justiça contra a empresa TBG, cobrando reparação de danos. Dada a complexidade da questão, as ações levaram mais de seis meses para serem preparadas e começaram a ser protocoladas no Fórum de Gaspar em agosto.

ESPECIALISTAS

Em matéria publicada pelo jornal Cruzeiro do Vale, de Gaspar, em 10 de julho, a advogada Lenice Kelner explica que o resultado de uma análise feita por uma equipe técnica especializada em engenharia do solo, composta por cinco especialistas, foi anexado aos processos. Segundo ela, a equipe de especialistas concluiu, após diversas análises, que explosão do gás influenciou nos deslizamentos.

“CASAS NÃO TERIAM CAÍDO”

“O que os especialistas apresentaram é que se não tivesse ocorrido a explosão do gás os deslizamentos teriam sido muito menores e, consequentemente, os prejuízos também. Muitas daquelas casas não teriam caído sem a influência da explosão”, disse Kelner ao jornal gasparense. A advogada representa cerca de 80 famílias da localidade de Belchior Alto, em Gaspar, e do complexo do Baú, em Ilhota.

  •  

Deixe uma Resposta