• Postado por Tiago

INTERNA_11_base-esquerda_cabrito-candomblé_famai-divulgação-(1)Esse é o cabritinho que escapou de virar prato principal num ritual do candomblé

O que era pra ser uma cerimônia religiosa acabou virando um suposto crime ecológico. Na sexta-feira da semana passada, fiscais da fundação do Meio Ambiente de Itajaí (Famai) foram até um terreiro de candomblé, no bairro São Judas, e impediram que um cabrito fosse sacrificado durante um culto. Os fiscais também embargaram o local, que já havia sido alvo de denúncias da vizinhança por conta do barulho do batuque que vara a madruga.

Foi a vizinha Renata Narciso, 46 anos, quem acionou a Famai. Ela é uma protetora de animais e ficou sabendo que o cabrito seria utilizado num ritual no terreiro que fica na rua Corifeu de Azevedo Marques. ?É uma vida, ele sente dor, sente fome, chora. O ser humano deveria respeitar mais os animais. Não tem como fechar os olhos pra isso?, discursa.

Logo após o chamado de Renata, os fiscais Manoel e Diego, da Famai, apareceram no terreiro. Como base na lei de crimes ambientais, impediram que o animal fosse sacrificado. Mas o cabrito acabou ficando sob os cuidados do pai de santo, que não teve seu nome divulgado. Jonas Pereira, chefão da fiscalização da Famai, disse que o bicho terá que ser mantivo vivo e saudável pelo pai de santo. O animal, informa Jonas, não apresentava sinais de maus tratos.

Uma veterinária da Famai vai pintar no terreiro de camdomblé pra dar uma bizolhada no cabrito e só depois as otoridades do meio ambiente definirão o valor da multa que será aplicada ao proprietário. O centro também permanecerá embargado, já que tava incomodando a vizinhança com a barulheira do batuque.

Pai de santo garante que não há tortura contra o animal

pai-almir-de-oxossiPai Almir de Oxossi (esquerda) num regabofe com um cabrito sacrificado

Almir Meirelles é adepto do camdomblé há 25 anos. Pai de Santo conhecido como Almir de Oxossi, hoje atua em Balneário Camboriú. Procurado pelo DIARINHO pra explicar o que rola nos rituais com cabritos, ele garante que o sacrifício de animais no candomblé de raiz, ao contrário do que muita gente pensa, não é cruel. Diz que o bode é degolado, assim como se faz para matar um porco ou outro animal do mesmo porte.

Não há qualquer forma de tortura antes do sacrifício, que é chamado por pai Almir de Oxossi de imolação. Para ele, a palavra sacrifício remete à ideia de crueldade, o que não aconteceria nas cerimônias do candomblé. ?A prática é milenar. Não há tortura alguma. A cerimônia consiste apenas em cânticos secretos?, afirma.

O animal morto é usado para consagrar uma das divindades do candomblé, que são chamados de Orixás. É algo como se fossem os santos da igreja católica. O sangue retirado do bicho morto representa o elemento principal da vida. Só os iniciados na tradição da religião, que é de origem africana, é que podem participar da cerimônia.

O pai de santo faz questão de dizer, também, que não há desperdício. Depois do ritual, a carne é servida como prato principal durante uma banquete onde não somente os bambambãs da religião, mas também o povão que está visitando o centro pode degustar.

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