• Postado por Tiago

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Psiquiatra

O psiquiatra Guido Boabaid May lançou esta semana, em Balneário Camboriú, o romance ?Ana Maria está feliz?, sua estreia como escritor, em que relata o processo de cura de uma jovem com depressão. A personagem-título é fictícia, mas baseada nos relatos de suas pacientes. O tratamento a que Ana Maria é submetida combina medicação e psicoterapia e o livro ainda tem um extra: uma trilha-sonora com canções compostas pelo próprio psiquiatra, que na juventude, foi líder da banda de rock Tubarão.

Nesta entrevista que deu aos repórteres Renata Rosa e Fernando Arruda Souza, ele esclarece e desmistifica várias doenças psiquiátricas como a esquizofrenia, a síndrome do pânico, a bipolaridade, a depressão, a hiperatividade e também a questão manicomial. E quer, sobretudo, resgatar a imagem do psiquiatra, não como costuma ser retratado em vários filmes como alguém mais insano do que os seus pacientes, e sim como aquele que ajuda na cura das dores emocionais. Fotos de Felipe Trojan.

DIARINHO: A novela ?Caminho das Índias? está mostrando o caso de um jovem que sofre de esquizofrenia. A autora fantasia muito ou a realidade é parecida com a ficção?

Guido Boabaid.: Como eu não acompanho a novela, eu não saberia dizer o quanto tem ali de veracidade. Os comentários que eu ouço, a repercussão que esse personagem vem causando na população me parece muito positiva porque traz à luz um tema muito delicado a respeito de uma doença grave e de difícil tratamento, que frequentemente provoca um sofrimento imenso, tanto nos portadores quanto na família, tanto pela sua sintomatologia quanto pelos prejuízos globais que traz à vida do indivíduo.

Eu acho que a novela vem cumprindo um papel importante nesse sentido, que é gerar discussão, gerar informação, despertar curiosidade. Me parece que o garoto se trata e quando se trata, melhora. E mostra a questão da resistência da família que é algo que eu tento mostrar um pouco no meu livro.

DIARINHO: Ele ouve vozes. É assim que a esquizofrenia se manifesta? Como é que a gente pode identificar alguém esquizofrênico?

Guido: A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica, é um transtorno psiquiátrico caracterizado pela presença de vários sinais e sintomas, sendo que os mais característicos são alucinações auditivas, que é ouvir vozes. Ideias delirantes, que são distorções do pensamento, o indivíduo passa a ficar desconfiado, se sentir perseguido, observado, vítima de complôs, delírios místicos, religiosos, frequentemente o indivíduo se sente cumprindo uma missão, sente que está em comunicação com alguma entidade religiosa ou recebendo mensagens telepáticas de alguma antena, de alguma estação de rádio fictícia. E embotamento afetivo: o afeto é uma função mental que nos permite interagir emocionalmente com o ambiente ? quando acontece algo triste, a gente fica triste, quando acontece algo alegre nós também ficamos alegres ? o esquizofrênico fica embotado, ele fica sem reação. Além disso, o indivíduo passa a ficar com insônia, com alteração de apetite, com dificuldade de cuidar da higiene, tende a se isolar totalmente, tem um comportamento estranho, pode apresentar agressividade e comportamento imprevisível.

DIARINHO: Uma pessoa esquizofrênica pode levar uma vida normal, com carreira profissional, família e tudo o mais?

Guido: Sempre vale a pena tentar. Cada caso tem as suas particularidades e existem pessoas portadoras de esquizofrenia que conseguem se formar, se casar. Infelizmente, isso não é o mais frequente e a maioria das pessoas, ainda que consiga se formar e se casar, dificilmente consegue levar uma vida normal. É uma vida cortada pelos sustos, dificuldades de manter o relacionamento, de ter assiduidade profissional, de expressar confiança. Não é impossível se formar nem se casar, mas não é o mais comum.

A doença costuma iniciar no final da adolescência e é muito difícil eliminar os surtos. Mas sem surtos, o indivíduo vai se perceber como uma pessoa diferente, estranha, esquisita, com dificuldade de se relacionar, de estabelecer atividades. Não é uma resposta que sirva pra todos os casos, até porque existem cinco tipos de esquizofrenia, algumas mais graves e outras menos graves.

DIARINHO: Existe um papo de que a maconha e outras drogas, com o uso contínuo, podem levar à esquizofrenia. Isso é verdade ou é lenda?

Guido: Estudos comprovam que indivíduos que fumam maconha, principalmente em idades mais tenras, desenvolvem esquizofrenia numa proporção estatisticamente maior do que a garotada que não fuma. Não é que a maconha cause esquizofrenia, mas o uso de maconha e de outras drogas desencadeia esquizofrenia nos indivíduos que tenham uma tendência, assim como o consumo de cigarro vai desencadear asma em quem tem tendência, assim como o consumo de açúcar desencadeia o diabetes.

DIARINHO: Na mesma novela, a personagem Ivone é uma psicopata, e se caracteriza pela completa ausência de culpa. É possível identificar um psicopata antes de se tornar vítima dele?

Guido: Tem que ficar esperto, porque o psicopata, chamado na psiquiatria como portador de transtorno de personalidade antissocial, tem uma patologia que não o isenta da responsabilidade sobre os seus atos. Então, a pessoa portadora de transtorno de personalidade é uma pessoa que comete delitos e infrações, desde as mais graves ? como assaltos e crimes de várias naturezas, assassinatos ? até as mais leves, pessoas que não estão presas, mas que têm a tendência a passar a perna nas outras, a mentir, manipular, enganar. Sempre buscando os seus interesses, com essa lamentável característica muito perigosa de não se sentir culpado. Ele sempre tem uma explicação e na maioria das vezes, pra ele, a culpa é do outro. Então, a prisão tá cheia de psicopatas, o congresso, o senado, inclusive [risos].

DIARINHO: Na sua experiência no hospital de custódia, você deve ter lidado com algum que cometeu um crime, mas que por causa da enfermidade, foi considerado um doente mental…

Guido: Como o transtorno de personalidade antisocial não compromete a capacidade da pessoa de discernir se está cometendo um crime, ele não torna a pessoa inimputável. Então, o cara que é psicopata ele não vai pro hospital de custódia, ele vai pra cadeia. Na cadeia tá cheio. No hospital de custódia pode ter um esquizofrênico que assassinou alguém porque recebeu uma voz de comando. [O psicopata será punido então?] O psicopata não é isento de culpa perante a lei. Ele recebe uma pena de prisão. O esquizofrênico é inimputável. Mas muitos advogados tentam levar pra esse lado, pra pessoa não ter uma pena muito pesada, não é? Sim. Certamente. Mas uma boa perícia psiquiátrica consegue, sem grande dificuldade, identificar.

DIARINHO: E o transtorno bipolar como é?

Guido: O transtorno bipolar, na verdade, é considerado um transtorno do humor, que é uma família diferente dos transtornos de personalidade. É uma doença caracterizada pela ocorrência de episódios de euforia, de elevação de humor, caracterizados por aceleração de pensamento, desde a inibição exagerada, diminuição da autocrítica, sensação de excesso de energia, de alegria exagerada, sensação de grandiosidade, necessidade diminuída de sono, tendência a se expor em atividades de maior risco e de potencial prejuízo, como gastar demais, se meter em confrontos físicos, uma certa promiscuidade, alternando com episódios depressivos. Episódios em que a pessoa se sente triste na maior parte do tempo, sem interesse ou prazer na maioria das atividades, tende a se isolar, chorar com facilidade, não conseguir dormir, perde o apetite, irritabilidade e dificuldade de atenção, concentração, memória e raciocínio, baixa autoestima.

DIARINHO: Quais são as causas da depressão?

Guido: As causas da depressão são múltiplas, normalmente uma combinação de vários fatores. O fator genético, uma característica de hereditariedade, assim como existe em outras doenças também. O fator biológico, relacionado a um conjunto de desequilíbrios e desregulaçao química do cérebro. Fatores psicológicos e emocionais e eventos podem gerar uma sobrecarga psíquica que pode desencadear a depressão. Fatores ambientais como separação, perda de emprego, crise financeira, falecimentos, catástrofes naturais geram naturalmente uma resposta emocional depressiva. E ainda um quinto grupo de fatores que seria o uso de drogas e outras substâncias.

DIARINHO: Muita gente acredita que a depressão é doença de rico. Isso é fato ou os pobres não são diagnosticados por falta de recursos?

Guido: Estudos mostram que em praticamente todos os países do mundo em que há a incidência da depressão, ela é igual na população geral, independentemente da classe social. Então, é um mito. O que acontece é que a maioria das pessoas que têm depressão, incluindo as classes sociais mais abastadas, não é diagnosticada corretamente. Aproximadamente 30% das pessoas portadoras de transtornos depressivos são diagnosticadas e uma proporção menor ainda é tratada adequadamente. Desse universo que é diagnosticado, apenas 25% a 30% é tratado.

[E ela pode se tornar crônica se não for tratada?] Em geral sim. É uma doença que, quando é bem tratada desde o início, na maioria absoluta dos casos, entre 70% a 90%, tende a melhorar com o tratamento. Ao contrário, quando não tratada, ela pode se tornar crônica na medida em que os episódios vão ocorrendo com maior frequência e o período entre os episódios passa a não ser mais um período de normalidade. A pessoa tem uma melhora parcial dos episódios, mas acaba ficando com o que a gente chama de sintomas residuais, que vão comprometer a qualidade de vida.

DIARINHO: E quem sofre mais de depressão, o homem ou a mulher?

Guido: As mulheres tendem a ter praticamente o dobro em dados estatísticos de depressão do que o homem. Tem um motivo pra isso? Não se sabe bem o porquê. [Ou elas procuram mais tratamento?] Também. Mas não há dados sólidos. Algumas hipóteses são o conjunto de alterações no organismo da mulher, que incluem alterações hormonais, ocorridas na gravidez e na menopausa, e também em toda a fase pós puberdade, já que o organismo da mulher tem um ciclo hormonal em virtude do ciclo menstrual.

Outra hipótese é relacionada às incríveis transformações pelas quais passa a mulher na época em que sai de dentro do lar e é libertada de uma série de limites morais, sociais e institucionais, o que é muito bom, mas passa a lidar de uma forma abrupta, sem que esteja historicamente preparada pra uma série de demandas profissionais, culturais, intelectuais e acabam gerando encargos emocionais muito maiores, uma descarga emocional que pode acarretar num desgaste psíquico. [E tem uma idade que a mulher apresenta mais esses problemas?] Tanto mulheres quanto homens, a idade habitual de início de depressão costumava ser de 30 a 40 anos. Mas nota-se que a faixa etária hoje é entre 25 e 35 anos, mas esse primeiro episódio pode acontecer tanto na infância quanto na terceira idade.

DIARINHO: Existe uma forma de evitar os problemas psiquiátricos mais severos, como a esquizofrenia?

Guido: No geral, uma vida menos estressante, com menor sofrimento, mais gratificação, mais alegria, mais prazer, mais cuidados no ponto de vista psicológico. Claro, não estamos falando aqui de condições de miséria humana, estamos falando de situação onde as pessoas tenham todas as suas necessidades básicas atendidas. Um ambiente sadio gera um desenvolvimento cerebral mais eficaz, portanto, se uma criança se sente amada, cuidada, a possibilidade de ela desenvolver uma doença psiquiátrica é menor, seja uma criança pobre, seja uma criança rica.

DIARINHO: Nos últimos tempos tem se falado muito em síndrome do pânico. O que provocou o aparecimento dessa enfermidade?

Guido: O transtorno do pânico é uma doença caracterizada pela ocorrência de ataques de pânico. Um ataque de pânico é um episódio de ansiedade abrupto, que dura de cinco a 20 minutos e depois passa. É acompanhado de sintomas físicos, como taquicardia, sensação de falta de ar ou sufocamento, tontura, formigamento, dormência, tremores, sensação de que vai desmaiar, de bolo na garganta ou bolo no estômago, sensação de morte iminente, sensação de que vai enlouquecer ou de que vai perder o controle sobre si mesmo.

Um ataque de pânico, pra ser diagnosticado, precisa ter, pelo menos, três sintomas desses que eu falei. Ele pode ocorrer sem que a pessoa tenha o transtorno do pânico. O medo de ter outro ataque de pânico também é um sintoma da doença. É possível ter um, dois ataques de pânico, tratar e parar por aí. Ou não. Podem seguir ocorrendo e a pessoa desenvolver o medo de sair na rua, chamado de agorafobia ? que acompanha uma porção importante das pessoas que possuem o transtorno do pânico.

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DIARINHO: O livro que o senhor está lançando é baseado em fatos reais? Quem é a protagonista Ana Maria?

Guido: O livro, na verdade, é uma ficção. Entretanto, a ideia central seria descrever, através de um caso fictício, como ocorre um evento na vida de uma pessoa normal, uma garota bonita, numa família bacana, numa classe social privilegiada, e em determinado momento ela começou a apresentar sintomas depressivos. O caso da Ana Maria é um caso típico que ocorre com a maioria das pessoas. Um caso que não é grave, mas pode se tornar grave na medida que não é tratado. Então, a ideia foi mostrar sob uma ótica realista, de uma maneira desmistificada, todos os dilemas e dramas pelos quais passam tanto a paciente quanto os pais, e tentar mostrar como lidar com estes problemas de forma benéfica e eficaz, mostrar a prática da boa psiquiatria.

A relação da psicanálise e das artes sempre foi muito estreita. No cinema, na novela, na literatura, nos folhetins, eles aparecem muito mal na foto. Eles, geralmente, estão trabalhando mal, comentendo erros técnicos e éticos terríveis, estão piores do que as pessoas que vão procurá-lo, o que contribui negativamente para a imagem do psiquiatra e da psiquiatria.

DIARINHO: Você poderia dar um exemplo de filme onde aparece um psiquiatra tresloucado?

Guido: No ?O Silêncio dos Inocentes?, o Hannibal Lecter, o canibal, é um psiquiatra. Completamente psicopata, perverso e assassino. E muito inteligente. Enfim, nos filmes, os psiquiatras chamam a família sem pedir a permissão do paciente, se envolvem romanticamente com seus pacientes, atitudes antiéticas e prejudiciais às pessoas, aos pacientes.

Então, a ideia foi mostrar a boa prática de um psiquiatra, a linha de psiquiatria que acredito ser a mais eficaz, que é a linha de psiquiatria dinâmica, quer dizer, a linha que junta a parte biológica com a parte sociológica. Uma linha que, infelizmente, não é a que predomina no mundo, hoje. A linha que predomina hoje é a linha biológica, do psiquiatra que só medica e não faz o tratamento psicoterápico associado. E mostrar os resultados do tratamento psiquiátrico, no caso, a melhora dos sintomas depressivos, e os benefícios que isso traz para a vida do indivíduo.

DIARINHO: Você diz que, além do tratamento com medicamento, tem uma terapia associada, como é esta terapia?

Guido: No início do tratamento, a psicoterapia mais eficaz e mais indicada são a psicoterapia cognitivo-comportamental e a psicoterapia interpessoal. São técnicas que auxiliam a lidar com os sintomas. Ajudam a lidar com os limites causados pela doença. Ajudar a pessoa a permitir ficar doente, ajudar a família a lidar com a pessoa que está doente, assim como acontece normalmente com as outras doenças.

A maioria das pessoas que está deprimida ouve dos amigos e dos familiares: ?Ah, mas você tem tudo na vida. Você é uma pessoa tão bonita, tão feliz, você tem que reagir?. É como se dissesse pra alguém com pneumonia e febre de 40 graus: ?Olha que dia lindo! Vai correr, vai nadar, vai jogar futebol!? Ele não pode, não consegue, tá doente. A pessoa com depressão também tá doente, ela não consegue. Então, as terapias são para ajudar no início do tratamento.

A medida que o tratamento evolui e os sintomas melhoram, em alguns casos, não todos, porque depende da orientação do psiquiatra, essa psicoterapia pode se tornar menos médica, menos focada nos sintomas e se transformando numa terapia mais analítica. Quer dizer, o objetivo ali não é mais tratar os sintomas depressivos, que já melhoraram. Conhecer o funcionamento psicológico, conhecer o mundo interno, a personalidade, o jeito de se relacionar com si próprio e com as pessoas e com o mundo.

DIARINHO: E como se faz isso? Através de jogos, bate-papo, psicodrama?

Guido: Existem várias técnicas. A que eu pratico é a psicoterapia de orientação analítica, que surgiu da mesma estruturação técnica e teórica da psicanálise e ocorre através da livre associação de ideias. Normalmente, ocorre com o psiquiatra e o paciente sentados frente a frente e pressupõe uma frequência fixa, de duas a três vezes por semana e em tempo aberto, ou seja, sem tempo pra terminar o tratamento. No livro, o psiquiatra de Ana Maria, o dr. Esperança, tem o consultório dele bem próximo do meu, mas isso é coincidência. (risos).

DIARINHO: No livro, alguns personagens, como o Carreira, tinham envolvimento com os vícios da personagem…

Guido: Fiz uns tipos caricatos, sem revelar a pessoa que estava por trás. Então, a Ana Maria passou por essas fases do tratamento. Passou pela primeira fase, que é a fase médica do tratamento. A partir da melhora, o tratamento foi se transformando num tratamento de orientação analítica, que a ajudou, então, a encaminhar de uma forma muito mais positiva e gratificante, todos os dilemas da vida dela. Ela tem 19, 20 anos, né? Então tava passando por todas aquelas dúvidas e incertezas características da idade, como em outras fases, perto dos 40, perto dos 50, cada fase tem os seus dilemas característicos. Então, a melhora da Ana Maria foi muito além da melhora médica. Ela passou a experimentar uma sensação de autoconfiança, de esperança, melhorou a sua condição de se entender, de se situar no universo, no planeta, na família, entre os amigos de modo que ela passou a se sentir muito bem, muito feliz a medida que este bem-estar foi construído de dentro pra fora.

DIARINHO: E como surgiu a ideia de fazer uma trilha sonora para o livro?

Guido: Quando eu tinha meus 18, 20 anos, tive algumas bandas de rock. Eu participei de algumas bandas no meu tempo de medicina, e uma delas com alguma projeção na época ? ela se chamava Tubarão. E depois eu fiz outra banda chamada Anjo Rebelde. Isso foi, praticamente, na idade jurássica, no início dos anos 80 (risos). Então, eu tive essa vivência de roqueiro. Eu sempre gostei muito, mas depois que acabou a faculdade, não deu mais pra levar a banda junto com a medicina e eu escolhi ser médico. Mas eu sempre ia na casa dos amigos, tocava, de modo que eu tinha músicas daquela época, e não tinha pensado nisso quando eu comecei a escrever o livro. Quando o livro ficou pronto, eu cometi a maluquice de gravar um cd e juntar.

DIARINHO: E as canções são suas? Tem a ver com o tema do livro?

Guido: Sim, inclusive a música do Kiko Zambianchi. A música do Kiko eu fiz com o Luciano, que é o guitarrista atual na banda do cd, e o Kiko é amigo meu daquela época. Nós somos contemporâneos dos anos 80, e a Débora (Blando) é minha amiga querida aqui de Florianópolis, ela canta muito. Então pedi a ajuda do Kiko pra mixar o cd. Nós tínhamos aquela música e nós não tínhamos gostado muito do jeito que ela estava. E a gente chamou o Kiko, que veio com aquele talento enorme que ele tem e nos ajudou a terminar a música: fez a letra, rearranjou e cantou.

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DIARINHO: A música-título do livro?

Guido: Não, não, a segunda música. ?Fica comigo?. A música-título, na verdade, é uma música que canta toda a história do livro, deve ter umas 250 estrofes, mais ou menos (risos). Lembra um pouco o ?Faroeste caboclo?, do Legião Urbana. Ela deve ter umas 30 e tantas estrofes e conta o livro do começo ao fim. É um rock and roll básico, bacaninha pra caramba.

DIARINHO: E é você quem canta?

Guido: Sim, sou eu quem canta. Num time de profissionais de alto nível, o único amador sou eu. Então, a ideia surgiu no final do livro e eu pensei: ?Por que não juntar música e literatura?? Além de criar uma obra diferente, eu não consegui encontrar outro livro com trilha-sonora.

DIARINHO: E têm temas que remetem ao livro?

Guido: Todos eles. Têm músicas para determinados personagens, para o Marcelinho ?Carreira das Neves?, algumas músicas para determinados eventos específicos, todo o cd é conectado com o livro. Se a gente conseguir a divulgação de uma mídia maior, eu vou me animar a botar a carinha pra cantar de novo. Mas como aqui eu tô sendo tratado como médico, não me sinto confortável em ir a Balneário cantar. [Mas não tá descartado?] Não, acho que não, depende. (risos). A gente tem toda uma estratégia pra divulgar o livro em alguns programas de tevê. E, dependendo do formato do programa de tevê, eu posso até apresentar alguma canção.

DIARINHO: Uma psicóloga evangélica foi processada recentemente por ter tentado curar a homossexualidade de um paciente. Homossexualidade tem cura? Já se descobriu se há componentes genéticos nos gays?

Guido: É um tema bastante complexo, muito controverso, muito polêmico, o que contamina muito a condução do debate científico. Então, há estudos que mostram alguma possibilidade dos homossexuais terem algumas particularidades cerebrais. [Que seria parecida com a das mulheres?] Não, não creio que seja neste sentido. Mas o fato é o seguinte: existe uma condição homossexual, ou melhor, há um conjunto muito complexo de fatores que pode incluir fatores genéticos, psicológico-emocionais, circunstanciais, históricos, então, é um tema muito complexo que, na minha visão, tem que ser tratado da maneira mais tranquila possível. [Mas não como uma doença?] Não, não é uma doença, absolutamente, é uma condição.

DIARINHO: O tratamento seria para a pessoa homossexual ficar confortável nesta condição, se aceitar?

Guido: Depende de cada caso. A experiência que eu tenho no consultório, e eu tenho pacientes que são homossexuais, tanto homens como mulheres, pessoas muito capazes, muito distintas, muito inteligentes, pessoas brilhantes, inclusive, que não tem a menor dificuldade com sua condição e vem se tratar com psicoterapia por problemas comuns aos heterossexuais. Mas também tenho atendido muitos jovens que estavam vivendo um sofrimento tremendo por não saber como lidar com a sua homossexualidade perante a família, os amigos. Mas como qualquer grupo humano, existem pessoas com dificuldades maiores, com doenças, com perversões, distúrbios de personalidade associados.

DIARINHO: Aliás, você comentou que os filmes costumam retratar os psiquiatras como seres aloprados, os homossexuais também sofrem com isso, são mostrados como psicopatas…

Guido: Sim, como pessoas doentes, desequilibradas, disfuncionais. [No próprio ?Silêncio dos Inocentes?, o vilão era gay…] Sim, ele era um serial killer, o psicopata mais perigoso, patológico e sofisticado, praticamente, uma aula de transtornos psicológicos numa pessoa só. São casos extremos que, felizmente, não são os mais comuns.

DIARINHO: Criança também pode ter depressão? É algo hereditário?

Guido: Sim, a depressão em crianças é uma entidade médica, diagnosticada, reconhecida e se manifesta da mesma forma que nos adultos. Pelos mesmos conjuntos de fatores. Nas crianças, a depressão se manifesta na dificuldade escolar significativa e continuada. Irritabilidade aumentada, dificuldade em ganhar peso, isolamento, inibição excessiva.

DIARINHO: E quando se manifesta na adolescência, como lidar com o problema? Acontece de muitos jovens fora dos padrões, como gordos e gays, serem perseguidos, o tal do bullying

Guido: Isso pode gerar depressão, exatamente. A depressão no adolescente também se manifesta pela irritabilidade excessiva, dificuldade de adaptação excessiva, tristeza e retraimento continuados. No adolescente e na criança é mais difícil de identificar porque nem sempre a tristeza aparece como sinal principal. Dificuldade de adaptação e de aprendizagem podem vir antes da tristeza.

DIARINHO: Há quem diga que, hoje, para tudo é preciso buscar um médico. Se a criança é muito sapeca, ela é hiperativa. Existe um exagero nestes diagnósticos?

Guido: Sim, existe uma tendência a mistificar. Sempre tem a doença da moda, né? Uma hora é a depressão, outra hora é o transtorno bipolar, agora é a esquizofrenia. Isso gera, de fato, uma expectativa…Se por um lado é bom porque levanta a questão e mobiliza as pessoas, há uma medicalização excessiva de determinadas características de personalidade, de determinadas condições circunstanciais. Então, o exagero de diagnóstico pode acontecer, e frequentemente acontece. Mas é tão complexo o tema que também é verdade que a maioria das pessoas com transtorno não é identificada.

DIARINHO: E existe tratamento sem o medicamento, que causa dependência?

Guido: Tu tá pressupondo que todo remédio psiquiátrico causa dependência? Não, não é verdade. A maioria dos remédios não causa dependência. [Mas os remédios de tarja preta trazem na bula que causam dependência..] Só que a maioria dos remédios psiquiátricos não é de tarja preta. Só uma classe dos medicamentos é de tarja preta, que são os ansiolíticos. Existem várias famílias de medicamentos. As mais importantes são a família dos ansiolíticos, os benzodiazepínicos, que são os medicamentos identificados de tarja preta. Eles são regulamentados por uma lei específica da vigilância sanitária. Como são medicamentos que podem causar dependência, sedação se forem mal utilizados, podem ser utilizados para cometer crimes, se misturados com álcool e outras drogas podem causar transtornos de comportamento, gerar acidentes, por essa razão são medicamentos controlados, sujeitos à legislação específica. Existem os medicamentos antipsicóticos, medicamento para esquizofrenia e doenças afins; e os remédios antidepressivos, que são utilizados para os transtornos do humor e da ansiedade; ah, e os remédios estabilizadores do humor, que são utilizados nos pacientes com transtorno bipolar. Desses, os únicos que causam dependência são os ansiolíticos.

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DIARINHO: O filme ?Bicho de Sete Cabeças? abordou o tema do tratamento desumano que rola em algumas clínicas, que prefere dopar o paciente a tratar sua enfermidade. Na verdade, uma crítica ao sistema manicomial. Qual a sua opinião a respeito?

Guido: A hospitalização psiquiátrica deve ser tratada do mesmo modo que a hospitalização em qualquer outra especialidade médica. As pessoas melhor informadas sabem que aquela psiquiatria descrita no filme deve ser combatida. Aquela não é a boa psiquiatria. Existe um movimento antimanicomial que tem por objetivo desativar os hospitais psiquiátricos que têm aquela função de confinamento, de isolamento completo, e trata de forma indiscriminada os portadores de doença psiquiátrica e dá margem a pessoas mal informadas, que confundem a hospitalização psiquiátrica, enquanto tratamento absolutamente necessário e indispensável para algumas pessoas, com confinamento, com asilo psiquiátrico. Então, minha opinião é que a internação psiquiátrica deve respeitar os critérios científicos e médicos, e quando bem encaminhada, é de uma ajuda incontestável. Em alguns casos, em algumas fases, a doença psiquiátrica inviabiliza o convívio do indivíduo fora do ambiente hospitalar. Causa um sofrimento e uma desordem incomensuráveis aos familiares.

DIARINHO: O que mais se discute nos congressos nacionais e internacionais de psiquiatria?

Guido: O que eu costumo acompanhar são as minhas áreas de ação, que são os transtornos de humor e de ansiedade. No último congresso que eu fui, o que mais se falava eram as descobertas acerca do que ocorre no cérebro quando acontece um episódio depressivo. O que se tem mais debatido é relativo aos objetivos do tratamento. Hoje se sabe que a depressão, diferente de tempos atrás, é uma doença que, se não for tratada, é uma doença degenerativa do cérebro. No episódio depressivo ocorre o apagamento parcial de vários feixes de neurônios, em várias regiões do cérebro. E nos exames mais mais modernos, é possível identificar até modificações microscópicas no cérebro, e também se consegue identificar a reversão dessas alterações cerebrais como resultado do tratamento.

DIARINHO: E o que você diria para pessoas que acham que psiquiatra é só pra louco?

Guido: A psiquiatria, hoje, alcançou uma posição muito feliz, de ajudar às pessoas portadoras de sofrimento psíquico. A ideia de que psiquiatra é pra louco é histórica, não vai acabar agora nem daqui a mil anos. Mas vem sendo atenuada. Hoje, a psiquiatria tá mais perto. Então eu diria pra pessoa se informar em fontes confiáveis acerca do trabalho de bons psiquiatras. Procure um bom psiquiatra, que vai fazer a diferença, como em qualquer outra área da medicina.

A relação da psicanálise e das artes sempre foi muito estreita. (…) No cinema, na novela, na literatura, nos folhetins, eles aparecem muito mal na foto. Eles, geralmente, estão trabalhando mal, comentendo erros técnicos e éticos terríveis, estão piores do que as pessoas que vão procurá-lo.

A psiquiatria, hoje, alcançou uma posição muito feliz, de ajudar as pessoas portadoras de sofrimento psíquico. A ideia de que psiquiatra é pra louco é histórica, não vai acabar agora nem daqui a mil anos.

Hoje se sabe que a depressão, diferente de tempos atrás, é uma doença que, se não for tratada, é uma doença degenerativa do cérebro. No episódio depressivo, ocorre o apagamento parcial de vários feixes de neurônios, em várias regiões do cérebro.

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Uma Resposta to “Guido Boabaid May: “A ideia de que psiquiatra é pra louco não vai acabar agora nem daqui a mil anos””

  1. sitiai Diz:

    Convivo com o transtorno bipolar de humor a trinta anos, monitorando as crises com Carbolitium e Depakene, diariamente. Esta doença psiquiátrica não tem cura, mas o indivíduo consegue viver socialmente desde que tenha acompanhamento médico e tome os medicamentos. A família tem um papel determinante para evitar o agravamento das crises da doença, quando passa a observar as mudanças comportamentais do doente.

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