• Postado por Tiago

Piloto de automobilismo

Raio-X

s---rali-mitsubishi-penha---fotos-felipe-vt---25.07.09-(261) Nome: Ingo Hoffmann

Idade: 56 anos

Naturalidade: São Paulo/SP

Estado civil: Casado

Filhos: Três

Hobby: Corrida a pé, esqui aquático e windsurfe

Carreira profissional (principais resultados): Sétimo colocado no GP do Brasil de Fórmula 1, em 1977. Campeão da Stock Car nos anos de 1980, 1985, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1996, 1997, 1998 e 2002. Vice-campeão do Rally dos Sertões, em 2004. Oitavo colocado na temporada de 2008 da Brasil GT3 Championship, correndo de Lamborghini Gallardo.

 

?A Fórmula 1 é um grande negócio sujo?

Um dos melhores e mais bem sucedidos pilotos do automobilismo brasileiro, Ingo Hoffmann é exemplo dentro e fora das pistas. Começou sua carreira em 1972, sendo um dos precursores da modalidade no país, e competiu em diversas categorias, a principal delas a Fórmula 1.

O dinossauro do automobilismo brazuca também passou por Fórmula 3 e Fórmula 2, mas se destacou mesmo na Stock Car. Em seu currículo, nada menos do que 12 títulos, 76 vitórias e 60 pole positions na principal categoria do automobilismo brasileiro. Ele ainda é dono do maior núumero de títulos seguidos, num total de seis. Correu na Stock desde seu início, em 1979, e se despediu 30 anos depois, na temporada de 2008.

E suas conquistas vão além das pistas. Mostrando excelente forma e vitalidade, Ingo estreou no brasileiro de rali cross country em 2003 e, três anos mais tarde, atingiu outra marca histórica em sua carreira: a 100ª vitória em pistas nacionais.

Hoje, ele trabalha como diretor esportivo de uma equipe da Stock, mas também segue na ativa, participando do rali de velocidade da Mitsubishi, na nova categoria L200 Triton RS. E foi durante a disputa de uma etapa da Mitsubishi Cup, semana passada, na Penha, que o piloto falou ao DIARINHO. Além de lembrar de sua vitoriosa carreira, Ingo soltou o verbo na Fórmula 1, no automobilismo brazuca e contou um pouco sobre seu instituto pra crianças com câncer.

A entrevista foi concedida ao repórter Marcelo Roggia, com fotos de Felipe Vieira Trojan.

DIARINHO ? A paixão pelo automobilismo foi algo que entrou na sua vida por acaso ou veio da família?

Ingo Hoffmann ? Não teve nenhuma influência de família, não teve nada externo. Foi uma coisa que realmente nasceu dentro de mim. Eu nasci em 1953, naquela época o automobilismo era uma coisa totalmente desconhecida e não tinha como ser influenciado por outros porque o automobilismo era uma coisa secreta, como costumavam dizer. Eu já era totalmente apaixonado pelo esporte, tanto é que tive dificuldade para começar justamente porque o automobilismo era considerado um esporte de risco e de ricos.

DIARINHO ? Quando foi seu primeiro contato com um carro de corrida?

Ingo ? Eu comecei com 19 anos de idade. Nos dias de hoje, a garotada com nove ou 10 anos, por influência dos pais até, está começando no automobilismo. No meu caso eu tive que esperar completar a idade, tirar carta (carteira de habilitação) para poder começar. [E sua família tinha dinheiro para mantê-lo no esporte?] Minha família sempre foi de classe média, pode se dizer assim, não rica o suficiente para me bancar no esporte. Eu comecei em 1972, com o campeonato de carros totalmente originais, em Interlagos, em São Paulo. Eu corri com este carro durante seis etapas, mas aí fundiu o motor. Fiquei literalmente a pé e comecei a sentir logo no primeiro ano a dificuldade da parte financeira do automobilismo. Por influência do meu pai, através da empresa onde ele trabalhava, consegui um patrocínio e, em 1973, já comecei a correr profissionalmente, pelo patrocínio que meu pai arrumou.

DIARINHO – Além da questão financeira, quais eram as outras dificuldades enfrentadas naquela época pra seguir na carreira de piloto?

Ingo ? As dificuldades naquela época eram bem maiores do que hoje em dia. Hoje o esporte é uma coisa muito divulgada, todo mundo conhece, mas em contrapartida é muito mais caro, se a gente for comparar com aquela época. A grande dificuldade que tinha era o fato de ser um esporte desconhecido. Era muito difícil você vender o produto automobilismo porque ninguém conhecia, não existia televisão transmitindo e os jornais não davam notícias. E a grande dificuldade de início, no meu caso particular, foi quebrar a barreira com meus pais, de eles aceitarem o esporte. Uma vez que eles aceitaram, passaram a me ajudar até com o patrocínio da empresa onde meu pai trabalhava, como já disse antes.

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DIARINHO ? Antes de chegar na Fórmula 1, você passou por categorias europeias, como Fórmula 3 e Fórmula 2. Como foi sua participação nessas categorias?

Ingo ? Eu morei fora do Brasil quatro anos. Estreei em 72, corri no Brasil também em 73 e 74, e em 75 eu já estava correndo no campeonato inglês de Fórmula 3, na Europa. Esses quatro anos que corri lá fora, 75, 76, 77, 78, foram extremamente positivos, muito bons mesmo. Eu rapidamente consegui chegar na Fórmula 1, correndo algumas provas na Fittipaldi Copersucar, única equipe brasileira. Paralelo à Fórmula 1, eu corri de Fórmula 2 na equipe do Ron Dennis (ex-chefão da equipe MacLaren), que hoje é um cara super conhecido no automobilismo. Corri pela equipe oficial da BMW de Fórmula 2. Eu tive uma presença curta, mas bastante intensa no automobilismo internacional. Por total falta de recursos financeiros, em 1978 eu optei por voltar a correr no automobilismo brasileiro. E foi quando coincidentemente estava se criando a Stock Car. Tive a felicidade de já no primeiro ano de Stock Car, em 79, estar presente, até agora em 2008, quando me aposentei. [Na Europa, nas Fórmulas 2 e 3, quem eram seus principais rivais?] Tinham muitos. São pilotos que hoje não estão mais na ativa, mas tinha Keke Rosberg, Riccardo Patrese, Didier Pironi, René Arnoux, Eddie Cheever, Hélio de Angelis, que já faleceu, Mark Stewart, e muitos outros grandes pilotos. Isso é um fato confortante para mim, pois eu andava com esses caras de igual pra igual. Ganhei deles, perdi deles, e alguns chegaram a ser campeões mundiais. Tenho certeza que se eu pudesse ter tido a oportunidade de seguir lá fora, talvez o rumo seria outro, mas a vida é assim mesmo.

DIARINHO ? Você chegou à Fórmula 1 em 1976, pela equipe Fittipaldi Copersucar. Como foi correr por uma equipe brasileira na principal competição do automobilismo mundial?

Ingo ? Naquela época foi uma coisa totalmente nova e até hoje continua sendo a única equipe brasileira que entrou na Fórmula 1. Existia uma cobrança muito grande do público e da imprensa em geral, em compensação existia uma divulgação muito grande. Não não vou dizer que foi uma experiência extremamente positiva, porque minha participação em provas foi muito restrita. Eu larguei em três Grandes Prêmios, fui em mais outras três etapas em que não me classifiquei, então minha participação foi muito, muito pequena. Mas Fórmula 1 é Formula 1 e sempre vem o assunto, tanto é que estamos falando disso agora. Sempre costumo dizer que o mais interessante é que posso colocar no meu currículo ?ex-piloto de Fórmula 1?, que são poucas as pessoas que conseguiram.

DIARINHO ? Nesta rápida passagem pela Fórmula 1 quais foram os GPs que você correu e em quais ficou de fora?

Ingo ? Corri dois GPs do Brasil, em 76 e 77, e um GP da Argentina que eu também larguei. Nesses dois anos participei de algumas outras provas, como o GP da Espanha, GP de Long Beach, nos Estados Unidos, e o GP da França, mas nesses eu não me classifiquei. Na minha estreia na Fórmula 1, no Grande Prêmio do Brasil, em 76, terminei na 11ª colocação. No ano seguinte, em 77, cheguei na sétima colocação. Naquela época, pontuavam os seis primeiros colocados e eu estava na sexta posição, marcando um ponto, quando a quatro voltas do final, aproximadamente, tive um pneu furado e precisei diminuir o ritmo. O pneu foi esvaziando lentamente e perdi a posição, ficando em sétimo, senão teria marcado um ponto. E no Grande Prêmio da Argentina, que foi outro que larguei, tive que parar por causa da quebra do motor. [Era uma emoção diferente correr em casa? A torcida ajudava, mesmo no automobilismo?] A pessoa sente a torcida quando tá do lado de fora do carro, aquele assédio, carinho. Mas quando você está dentro do carro, focado na corrida, não dá pra perceber nada. Eu pelo menos não percebia (risos).

DIARINHO – Em 1979 você vai pra Stock Car, onde faria história como o melhor piloto da categoria, com 12 títulos, 76 vitórias e 60 pole positions. A Stock Car mudou muito nesses 30 anos?

Ingo ? Com certeza a Stock Car mudou muito, como tudo mudou na vida, isso é natural. Ela começou em 79 com modelos Opalas, carros mais do que originais, com muito pouco ?retrabalho?. Naquela época a gente tinha freio a tambor na traseira, o amortecedor era nacional, o pneu era radial, não era pneu slick. Os amortecedores depois de três, quatro voltas acabavam e os carros vinham chacoalhando. Na época, até em função do regulamento, era o que a gente tinha. E a coisa foi evoluindo, como esse gravador (da entrevista), que naquela época também não existia. Foi uma evolução natural, a Stock Car foi acompanhando isso e fizemos carros muito bacanas.

DIARINHO ? Hoje você tem uma equipe de Stock Car?

Ingo ? Eu não tenho equipe minha e nem quero ter, nunca, jamais. Mas eu estou envolvido com a mesma equipe pela qual eu corri nos meus últimos anos na categoria, que é equipe paulista AMG Motorsports. Eu tenho a função de diretor esportivo, pra passar um pouco de experiência pros pilotos que estão correndo pela equipe, que são o Átila Abreu e o Lico Kaesemodel, na categoria V8, e o Lucas Finger, na Copa Vicar, que é a antiga Stock Light. Paralelo a isso eu fiquei este ano responsável pela parte comercial, de captação de patrocínios, e vamos ver como vai ficar o futuro. No automobilismo, todo ano, no final da temporada, todo mundo tá desempregado e tem que começar a batalhar de novo e vamos ver como vai ficar no ano que vem. [Então não é real todo aquele glamour que as pessoas veem pela televisão?] De forma alguma. É uma imagem muito errônea que as pessoas fazem. De fato, quando os carros estão na pista é uma coisa glamurosa, bonita, mas as pessoas não têm a mais vaga noção do que tem por trás daquilo lá. Eu tenho 56 anos de idade, corri profissionalmente 37 anos e em todos, no final de cada temporada, eu estava literalmente desempregado. Isso é complicado e continuo assim na minha nova função. [Como é acompanhar as corridas do lado de fora. Dá vontade de voltar ao carro?] Não. Estou muito bem resolvido, super tranquilo, e até fiquei surpreso com a maneira positiva como eu estou levando isso. Acho que é até pelo fato de eu ter corrido por 37 anos, ininterruptamente. Isso é importante, pois acho que poucas pessoas fizeram isso durante tanto tempo sem parar. Existem muitos pilotos com uma idade até mais avançada do que a minha e que estão correndo ainda, mas eles pararam por alguns anos no decorrer de suas vidas e eu nunca parei. Em função disso, hoje eu estou muito bem resolvido, até contente e surpreso de ver como estou administrando a coisa assim. Não sinto vontade nenhuma de disputar. Continuo guiando os carros, pois dentro da equipe (AMG Motorsports), nós montamos um esquema chamado Stock Car Experience, com a finalidade de levar convidados, patrocinadores, para voltas rápidas no autódromo. Eu guio esses carros nestas condições, com o passageiro do lado. Mato a vontade de guiar, me divirto, mas a competição, em si, chega.

DIARINHO ? Qual você considera sua melhor temporada na Stock Car?

Ingo ? É muito difícil falar porque, graças a Deus, foram 12 títulos na categoria. É uma coisa inédita e, a nível mundial, acho que ninguém conseguiu fazer isso. Eu tive anos muito marcantes, muito bons. Mas uma coisa marcante mesmo, que vou levar para o resto da minha vida, foi a última temporada, em 2008. Eu tive a grande felicidade de poder anunciar a minha despedida na pole position, com 56 anos de idade, fazer uma temporada competitiva e na minha última corrida sair no pódio. Acho que isso foi uma coisa marcante, fora as homenagens que recebi no decorrer do ano. As últimas corridas foram muito marcantes, eu não sabia que iria receber tantas homenagens e foi muito legal mesmo. [E você tem alguma corrida inesquecível?] Têm diversas, não existe uma só. Como são muitas e muitas corridas, têm diversas corridas muito boas. Vou tentar enumerar algumas. Teve uma corrida de Stock Car em 1996, se não me falha a memória, no autódromo de Curitiba, em que eu tinha feito a pole position. Meu carro foi pra vistoria técnica, pós-classificação, e ele tava 600 gramas abaixo do peso. Tive que largar em último no domingo, na posição 32, debaixo de uma chuva torrencial, e ganhei a corrida. Teve outra em Buenos Aires, em 2005 ou 2006, que eu ganhei na chuva. São muitas as corridas, graças a Deus, e é difícil apontar uma como a melhor.

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DIARINHO – Como foi sua transição da Stock Car pra Mitsubishi Cup, após várias conquistas?

Ingo ? A transição aconteceu há muitos anos, pois estou desde 2003 envolvido nesse meio aqui. Pra mim não foi difícil, foi fácil, mas é uma técnica totalmente diferente de pilotagem correr fora de estrada, em relação à pista. [E quais as particularidades da categoria que você disputa no rali da Mitsubishi, a L200 Triton RS?] É uma proposta nova, os carros são todos da Mitsubishi, com chassis tubulares de competição. Os carros são alugados pros pilotos, totalmente idênticos, e vale o talento e a capacidade do piloto. [Isto torna a competitividade ainda maior?] A competitividade, no geral, é muito grande em todas as categorias, tanto na Triton quanto na L200 RS, e ainda tô apanhando um pouquinho pra chegar lá na frente (Ingo é o quinto colocado nesta temporada).

DIARINHO ? Que avaliação você faz do atual momento do automobilismo brasileiro?

Ingo ? Não tá muito bem não. Nós temos duas categorias fortes de pista, que é a Fórmula Truck e a Stock Car, mas fora isso não tem mais nada em termos de automobilismo nacional, infelizmente. E temos a modalidade de rali cross country, onde a Mitsubishi Cup é, disparado, um evento muito forte. Infelizmente, o campeonato brasileiro de cross country também decaiu um pouco nos últimos anos. Então, o balanço geral não é muito positivo não.

DIARINHO ? Hoje a gente pode dizer que, dependendo da categoria, o carro tem mais importância que o piloto?

Ingo ? Na Fórmula 1, com certeza. Na Fórmula 1 hoje, 70% ou 80%, senão mais, é o carro que define. Já numa categoria como a Stock Car não. Aí é 60% do piloto e 40% do carro. Depende muito da categoria que estiver analisando. Por exemplo, um rali cross country, como aqui na Mitsubishi Cup, é 95% o piloto.

DIARINHO ? Entrando no assunto Fórmula 1, como você está vendo esta temporada da categoria, com brigas de bastidores e com as equipes consideradas grandes ficando um pouco para trás?

Ingo ? É interessante. Eu acho bacana o que está acontecendo na Fórmula 1, com essa grande invertida que deu no grid. As grandes equipes, como MacLaren e Ferrari, começaram a temporada literalmente no fim da fila e aquelas equipes que ano passado não conseguiram marcar nenhum ponto praticamente, que é o caso da Honda, agora rebatizada de Brawn, tá aí matando a pau. É bacana, em função do regulamento, e aí a gente vê a importância do equipamento. Você pega um Felipe Massa ou o Lewis Hamilton, não tão fazendo nada este ano. Será que eles desaprenderam a guiar? Óbvio que não, é o equipamento que não tá bom. E a gente vê que 70% a 80% do resultado é o equipamento. Em contrapartida, o Rubinho, o Button, que não fizeram nada ano passado, tão agora guiando. Por esse aspecto está muito interessante. Quanto às brigas, a Fórmula 1 sempre foi assim. A Fórmula 1 é um grande negócio sujo. Essa é a definição da categoria.

DIARINHO ? Entre os pilotos brasileiros que estão hoje na Fórmula 1 ? Rubens Barrichello, Felipe Massa e Nelsinho Piquet ?, qual você considera o melhor?

Ingo ? Depende do carro que eles estão guiando e da época. Se você me perguntasse isso no ano passado, eu iria responder que é o Felipe Massa. Agora, pra mim é o Rubinho. [E se colocar os três em carros com iguais condições?] Difícil de falar. Acho que fica muito equilibrado entre o Felipe e o Rubinho. Por exemplo, na minha opinião, o Rubinho tem uma vantagem na parte técnica maior. Ele tem um feeling maior pra acertar bem o carro. Mas talvez em ritmo de corrida o Massa seja melhor. Têm vantagens e contras em cada um.

DIARINHO ? Acredita que algum brasileiro pode ser campeão mundial na Fórmula 1?

Ingo ? Vai depender só do equipamento. Se o piloto brasileiro estiver num bom equipamento, na hora certa e no lugar certo, condições tem pra ganhar sim. Se não tiver na equipe certa, difícil.

DIARINHO ? Você não acha que o Rubinho hoje tem que se preocupar mais em correr do que ficar querendo sempre se justificar em cada fracasso?

Ingo ? Ele sempre foi assim. Eu gosto muito dele, mas acho que, muitas vezes, ele podia ficar de bico fechado (risos). Falando no bom sentido, em tom de brincadeira, o peixe morre pela boca.

DIARINHO ? Quem são seus ídolos no automobilismo?

Ingo ? Hoje em dia eu não tenho, mas quando comecei minha carreira, lá nos anos 70, meus ídolos eram os irmãos Fittipaldi (Émerson e Wilson), José Carlos Pace, Luiz Pereira Bueno, esses pilotos aqui no Brasil. Aí eu comecei a ver corridas internacionais, com Jim Clark, nomes desse tipo. Mas hoje não tenho mais não. [Nem o Ayrton Senna?] Naquela época sim, mas ficou.

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DIARINHO ? O que achou da etapa da Mitsubishi Cup, este rali de velocidade aqui na Penha? Já veio ou correu outras vezes em Santa Catarina?

Ingo ? A Santa Catarina eu venho muitas vezes, mas de férias. Todo ano eu passo férias aqui em Florianópolis. Agora nessa prova da Mitsubishi em Penha é a primeira vez que eu venho. Eu já tenho corrido pela Mitsubishi há alguns anos. Corri pela equipe oficial durante cinco anos e muitas vezes fui convidado para participar da etapa de Penha, mas nunca tive a oportunidade. Sempre coincidia com a Stock Car ou outras categorias que eu estava envolvido. É a primeira vez que vim aqui e a infraestrutura é fantástica. São dois aspectos muito positivos. Primeiro, a infraestrutura da Mitsubishi, que monta tudo isto em qualquer lugar onde se realiza a Cup. E aqui ainda tem a vantagem desta estrutura ser montada junto ao complexo do Beto Carrero World. Juntou as duas coisas, numa logística muito bacana. O que deu pena foi a condição da pista, que tava um pântano, um charco monstruoso, e ficou complicado. [E com relação ao nível técnico dos pilotos da categoria, o que tem a dizer?] É muito bom, excepcionalmente bom. Aqui tem pilotos realmente de altíssimo nível, que andam muito forte. São pessoas que estão acostumadas a correr no rali e são difíceis de acompanhar. [Você está em quinto lugar no campeonato. Ainda dá pra buscar o título?] Eu queria estar lá na frente. Matematicamente dá pra buscar, mas eu sou muito realista. Não consigo andar no ritmo dessa garotada que tá aí. Só tenho a oportunidade de guiar os carros nas provas. Muitos desses pilotos correm outras categorias, como campeonato brasileiro de cross country, campeonato paulista, estão constantemente treinando e eu não consigo treinar. [Por toda sua experiência, eles te pedem muitas dicas ou conselhos?] Não. Na realidade eu é que peço conselhos pra eles, porque aqui eu sou peixe fora da água. Aqui eu sou novo (risos).

DIARINHO ? Você tem hoje o Instituto Ingo Hoffmann, que atende crianças com câncer. Conte um pouco sobre ele, onde fica, qual o trabalho realizado?

Ingo ? Esse projeto começou justamente através do rali cross country, quando eu competi pela primeira vez no Rali dos Sertões, em 2003. Montei um projeto junto à Mitsubishi, onde consegui juntar através de doações 52 toneladas de cestas básicas. No ano seguinte, em 2004, repetimos isso com 72 toneladas, e percebi que eu tinha um nome com uma credibilidade bastante grande pra esse lado social. E junto à vontade de eu sempre querer estar envolvido com este lado social, pensei em fazer uma coisa mais perene, até porque a duração do Rali dos Sertões era muito curta, em 10 dias ele acabava. E foi aí que criamos o Instituto Ingo Hoffmann, que hoje é uma realidade. Nós temos lá em Campinas, perto de São Paulo, um projeto com 30 casas de apoio, onde nós abrigamos famílias e as crianças que estão no tratamento do câncer. Este projeto é construído vizinho ao Centro Infantil Boldrini, que é um hospital filantrópico, reconhecido mundialmente no tratamento de crianças com câncer. É um conceito novo de casa de apoio, porque normalmente as que existem por aí, duas, três ou até mesmo quatro famílias dividem o mesmo quarto, o mesmo espaço. Nosso projeto é diferente e cada família fica num chalé, com quarto, sala e banheiro, completo, com televisão, geladeira e micro-ondas. Ainda temos um refeitório muito grande, damos todas as refeições pras famílias, temos cursos pros pais, brinquedoteca, biblioteca, enfim, é um projeto que no decorrer da estada das famílias, elas se mantêm bastante ocupadas. A ideia é fazer com que as famílias fiquem abrigadas com as crianças, como se estivessem nas suas próprias casas. Dessa maneira, a gente já está conseguindo ver esses resultados agora, encurtando o tempo de alguns tratamentos, dando um efeito muito melhor no tratamento da doença.

DIARINHO ? Você acompanha o trabalho do instituto com que frequência?

Ingo ? Eu estou mudando de casa, mais pra perto de Campinas, e vou conseguir frequentar com muito mais assiduidade o instituto. A minha esposa vai duas vezes por semana pra lá e eu vou uma média de duas vezes por mês. Mas estando mais próximo de lá, com certeza estarei bem mais envolvido. [O que é mais gratificante e difícil neste trabalho?] A gente vê muitas crianças melhorando, mas também temos alguns casos de óbitos. Recebemos três tipos de internações: casos novos, casos paliativos, que são crianças que nós sabemos que não terão condições de recuperação, e abrigamos também famílias que têm crianças no tratamento dentro da UTI. É um envolvimento bacana, pois percebemos que conseguimos mudar a vida das pessoas. Algumas famílias que chegam pra ficar lá conosco, por exemplo, não conhecem nem um interruptor de luz, não sabem o que é uma descarga de banheiro. E a gente começa a ver o que é o Brasil por aí, porque nós que somos de cidade grande temos outro tipo de vida. Mas aí você percebe famílias que não conhecem essas coisas, mas que rapidamente se adaptam à nova realidade e algumas delas acabam até arrumando emprego na região e não voltam mais pro sertão onde moravam. Independente da criança ser curada, você consegue mudar a vida da pessoa para um aspecto melhor. [A ideia é ampliar este trabalho?] Já é um projeto muito grande, que custa muito caro por mês. Eu poderia até ampliar, mas quero ir devagar, um passo de cada vez. Costumo dizer que é um avião que levantou e precisa ser abastecido em voo. Eu não posso pousar para abastecer. E é o que acontece no instituto. A gente começou há dois anos atendendo famílias e nós não podemos mandar todo mundo sair porque acabou o dinheiro. Temos que tomar muito cuidado com o que fizermos.

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