• Postado por Tiago

“A felicidade, definitivamente, não é para todos, mas sim para aqueles nascidos sob o signo da arte de ser feliz. Não sou filósofa, mas invento para mim mesma uma série de teorias de almanaque que não têm a pretensão de esgotar um determinado assunto, mas que satisfazem as minhas angústias internas e me ajudam a encarar a vida que levo. Uma delas diz respeito à felicidade e é bem radical: acho que para ser feliz é preciso talento e que a felicidade não foi feita para todos.

Ao mesmo tempo em que observei pessoas prósperas em tudo – dinheiro, conquistas, saúde, amigos, popularidade – declararem-se insatisfeitas e desgostosas com a vida que levam, já notei outras tantas que, mesmo vivendo uma vida miserável e repleta de provações, pareciam muito mais realizadas e contentes do que se poderia esperar em situações muitas vezes dramáticas. Aliás, esse tipo de observação não é nenhum privilégio meu. Garanto que muitos leitores repararam o mesmo em suas análises sobre o mundo.

Então, o que explica o fato de alguns terem tudo e serem amargamente infelizes e outros, tendo tão pouco, mesmo assim comportarem-se como se suas vidas fossem a melhor experiência que poderiam desejar?

Assim como há criaturas com o dom das artes e das ciências, há aqueles que nasceram com o talento de serem felizes. Há nessas pessoas uma confluência de sentimentos que facilita o trânsito de emoções saudáveis e conspira para uma sensação interna de bem-estar, de satisfação com o que se tem. Me arrisco a dizer que essa tribo tem cada vez minguado mais, não chegando a ser parcela expressiva da população. Quase todas as pessoas que eu, pelo menos, conheço só conseguem se mover adiante – ou melhor, só conseguem passar pela vida – medicadas, acompanhadas, analisadas, carregadas por outras. Os naturalmente felizes viraram uma espécie em extinção.

Tudo isso me fez pensar que a felicidade, na verdade, pode ser resumida em uma frase bem simples: essencialmente, é a sensação de paz interior, com suas várias conotações subjetivas. Em outras palavras, é a ausência de sofrimento em sentido amplo, com todas as implicações e derivações que o verbo sofrer sugere. Por isso, pessoas que possuem inúmeros bens e patrimônio na vida no mais das vezes são agudamente infelizes; por isso eu, que tenho uma vida boa, me sinto muitas vezes desgraçadamente infeliz; por isso, um índio que esteja isolado no meio da Amazônia pode ser o sujeito mais realizado e completo que nós jamais iremos conhecer.

Isso explica, de acordo com a minha teoria, a multidão de desacorçoados que se arrastam por aí. São pessoas sem o dom de se sentirem felizes, incapazes de alcançar um estado interior em que se percebam confortáveis consigo próprias, satisfeitas com aquilo que já possuem ou são, ou, ao menos, tranquilas e pacientes enquanto investem em possuir ou ser o que ainda lhes falta. A felicidade, definitivamente, não é para todos, mas sim para aqueles nascidos sob o signo da arte de ser feliz. Isso não quer dizer, de modo algum, que se deva desistir do ideal de alcançar a felicidade; apenas significa (de acordo com o meu entendimento, que fique claro) que ou existe uma predisposição íntima muito intensa para impulsionar o indivíduo a caminhos que conduzam à paz interior ou, sinto muito, não há remédio nem reza que resgate numa alma oca um sentimento ausente.”

Ass: Daiana Franco Nogueira

(Transcrito ipsis litteris)

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