• Postado por Tiago

Parece que o escândalo da compra dos 130 mil livros pela secretaria de estado da Cultura esfriou, caiu no esquecimento. A polêmica que se formou foi quase que exclusivamente sobre o fato de o livro ter sido classificado como impróprio para alunos do primeiro grau e pouco ou quase nada se falou sobre o gasto astronômico feito para comprar uma quantidade tão grande de livros de um mesmo autor, de uma mesma editora. Sem ter sido lido por quem autorizou a compra, pois eles foram recusados pelas escolas e recolhidos. Não entro no mérito da questão da qualidade da obra, insisto, sim, que deveria ter sido cobrado do estado a responsabilidade pelo ato que resultou em prejuízo dos cofres públicos, o porquê da compra, já que nunca antes o estado comprou livros selecionados para o vestibular para os alunos do segundo grau. E por que apenas um livro, por que não todos os selecionados?

E não é a primeira vez que isso acontece. Como já mencionamos, no ano passado a secretaria de estado da educação comprou 34.146 maletas (fonte: Jornal A Comarca, de 10 de julho de 2008), cada uma com doze livros, da coleção Ziraldo e seus Amigos, da Editora Melhoramentos, dentro do projeto Planeta Cultura, lançado pelo estado para as escolas estaduais de primeiro grau. Ótimo que esta quantidade enorme de livros tenha ido para as nossas escolas. Ter o que ler é o primeiro passo para se adquirir o gosto pela leitura. Mas são 410 mil (quatrocentos e dez mil livros!), de autores consagrados e, se não me engano, apenas um catarinense. Não consegui saber o valor pago pelo Estado, mas deve ter sido mais do que o milhão e meio de reais pagos pelos 130 mil livros comprados mais recentemente.

Pergunto de novo: e os escritores catarinenses? Nunca houve verba, até agora, para comprar livros de escritores da terra para entregar às bibliotecas municipais catarinenses. Só este mês, depois de quase vinte anos da existência da Lei Grando, é que o edital para compra de livros de autores catarinenses para distribuição às bibliotecas de todas as cidades de Santa Catarina foi aberto pela FCC. E para compra de apenas 300 (trezentos exemplares) de dez obras a serem selecionadas pela Cocali, pela metade do preço de capa.

Falei com a professora Dirce Amarante, que teve acesso aos livros, no final de 2009, sobre o que ela achou da coleção, enquanto especialista em literatura. Pra começar, ela declara que “no final do ano passado, a secretaria de educação me cedeu com muito custo as tais maletas, as quais tive que devolver à secretaria num curto espaço de tempo. Tenho a impressão que não houve reflexão intelectual quando da compra desses livros. Aliás, tenho a impressão que na secretaria de educação, como em outras secretárias, temos mais burocratas que pensadores. As maletas cumprem sua função burocrática, ou seja, renovar o material escolar, não importa com o quê. Gostaria que esse assunto fosse discutido amplamente. Aliás, pergunto-me onde estão os professores das escolas que ainda não manifestaram a esse respeito? Os educadores no Brasil, de um modo geral, também tratam a educação como tarefa, ou seja, muito mais como burocracia do que como conhecimento, de modo que as maletas preenchem bem esses requisitos: livros para todas as escolas, para idades específicas dos alunos, tudo bem ‘arrumadinho’, para não causar problemas, nem maiores discussões.”

Há muita nebulosidade nestas compras. Ninguém será cobrado a respeito? O dinheiro gasto aos borbotões é o imposto que pagamos todo dia.

* Luiz Carlos Amorim é escritor

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