• Postado por Tiago

Leio uma carta de leitor do Estadão, há alguns dias, comentando o centenário da morte de Euclides da Cunha, o autor de “Os Sertões”, constatando que o grande escritor ainda é, infelizmente, um ilustre desconhecido. Bate naquela velha tecla que nosso sistema de ensino, falido, insiste em manter funcionando: a escola não forma leitores, apenas ensina a escrever, o que implica, automaticamente, aprender a ler, mas não implica incutir o gosto pela leitura. Aliás, ensinava, porque depois das mudanças recentes no primeiro grau, quando mudaram o sistema de alfabetização, encontramos muitos alunos de terceiro, quarto anos que não sabem ler e escrever.
Um grande escritor como Euclides da Cunha não é conhecido dos estudantes e nem da maioria dos cidadãos brasileiros, porque a escola não tem, no seu currículo, um espaço para estudá-lo. Não vamos falar da qualificação dos professores, da sua remuneração e da motivação decorrente disso, pois já é lugar-comum, embora valha dizer que não devemos nos conformar com este estado de coisas e exigir uma educação de qualidade, que temos o direito de tê-la.
Felizmente, alguns jornais lembraram o centenário da morte do escritor, jornalista, engenheiro Euclides da Cunha, ocorrido no dia 15 de agosto, e isso colabora para que sua obra seja divulgada. Não é o suficiente, mas já é alguma coisa. Ele merecia mais respeito e reconhecimento pela excelência da sua obra, que poderia ter sido bem maior, se não tivesse morrido tragicamente aos quarenta e três anos de idade. Se ele produziu uma obra-prima como “Os Sertões”, muito mais poderia ter produzido, não fosse a morte prematura.
‘Publicado em 1902, “Os Sertões” nasceu da cobertura jornalística de um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira: a ação vitoriosa do exército contra revoltosos instalados na cidade baiana de Canudos. Euclides viajou para o local em 1897, a convite de Julio Mesquita, então diretor do jornal “A Província de São Paulo”, hoje “O Estado de São Paulo”.
Outros correspondentes já acompanhavam as tentativas do exército de derrotar os seguidores de Antônio Conselheiro, no interior da Bahia. Mas Euclides destacava-se como o escolhido natural: colaborador havia nove anos, publicara, nos dias 14 de março e 17 de julho daquele ano, dois artigos com o título de “A Nossa Vendeia”. São textos em que Euclides apresenta aspectos físicos daquela região do sertão e se aventura a dar palpites sobre as dificuldades táticas e estratégicas do levante.
No período em que cobriu o fato, Euclides submeteu-se a um verdadeiro rito: se quando deixou São Paulo estava seguro da natureza monarquista da rebelião em Canudos, o escritor (republicano) foi obrigado a reformular seu julgamento, forçado pelas contingências. E se tinha a urgência do repórter, acumulou material para a reflexão sobre o fenômeno que resultaria em “Os Sertões”.’
A Flip, Festa Literária de Paraty, realizada em junho, numa homenagem feliz dos seus organizadores, já homenageava o escritor, com uma mesa-redonda para discutir o centenário e a obra dele.

*Escritor

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