• Postado por Tiago

Sob o título, “No terreno da galhofa”, Dora Kramer publicou no jornal “O Estado de São Paulo” artigo relatando o fato de a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade e o Sindicato dos Trabalhadores de Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares protocolarem um pedido oficial de desculpas do presidente Lula e do senador Cristovam Buarque, “a classe dos “pizzaiolos”.

Relembrando: o presidente LI respondeu em entrevista, quando perguntado se “Vai haver pizza temperada com pré-sal no Senado?”, lembrou que os senadores são “bons pizzaiolos”.

Tal resposta levou o senador Cristovam a discursar “profundamente ofendido” de ser chamado de pizzaiolo.

E os pizzaiolos ficaram ainda mais indignados contra o paralelo entre a atividade deles e o exercício da desfaçatez, principalmente por parte de agentes públicos e especialmente por terem sido comparados aos senadores.

A culpa do incidente não deve ser atribuida exclusivamente ao presidente, ele apenas seguiu o padrão do desafio contido na pergunta que lhe foi dirigida. Sem parar para pensar, como é de seu hábito, o presidente que já havia experimentado o sucesso do último conchavo que deu a Renan Calheiros o direito de continuar no Senado e ainda voltar a comandar uma tropa de fiéis soldados, não teve dúvida: confirmou a possibilidade.

Os parlamentares, por sua vez, tambem sem muita reflexão, reagiram no mesmo tom e, indignados, responderam de forma infantil e que pode ser sintetizada em algo como: “pizzaiolo é quem me diz”.

Escrevi recentemente, que nos dias atuais vivemos um verdadeiro “vale tudo” em termos de comportamento e exposição pública. Parece até que foi adotada a didática inversa, ou seja, mostrando-se o que não se deve fazer para depois, verificadas as consequências, mostrar-se como deveria ter sido feito.

Assim, temos visto altos dignitários, tratáveis por excelência, posando de noivo em casamento caipira, até vestindo boné e camiseta de bandos (pois agrupamentos de pessoas, agindo sem constituírem uma entidade com personalidade jurídica ou constituem um bando ou, dependendo da atividade, uma quadrilha); outros, dando consultoria jurídica e assegurando decisão favorável em caso de recurso judicial.

Permanece correta, portanto, a indicação da mesma Dora Kramer em sua coluna no jornal O Estado de São Paulo de 4 de março de 2005, quando falou de “um desses demônios incentivadores da autofagia” e da “onipotência que de quando em vez toma conta do presidente da República e lhe assopra aos ouvidos ditos de consequências terríveis”.

Demônios, aliás, que também parecem estar frequentando outras entidades que teriam se manifestado, em comportamentos recentes, tanto da parte do presidente da Câmara dos Deputados e até do presidente do Supremo Tribunal Federal, sem falar-se do Senado.

Relembro, uma vez mais, a lição sobre os “Perigos da democracia” onde se ensinava que no regime democrático em que todas as forças individuais se podem exercer sem obstáculos, e onde os meios de repressão são menos enérgicos, a desordem tem fácil entrada e o vício encontra as mais temíveis facilidades.

Como consequência da repetição de que todos podem chegar tudo, cada um acaba por se convencer de que é efetivamente idôneo para todos os empregos e merecedor de todas as honras; impelem-se e improvisam-se os homens o que acabará por transformar a democracia no “reino das mediocridades”.

Ainda mais, nos países em que se adota o voto universal, a participação de cada cidadão na escolha tem pouca importância resultando, no fato de que as pessoas mais preparadas, desgostosas do valor ínfimo da sua participação, conservam-se afastadas, deixando o campo livre aos violentos, aos intrigantes, aos incapazes e aos corruptos.

Retornando ao fato inicial, enquanto se discute onde se produz a melhor pizza na capital federal: no Planalto ou no Congresso, não há notícia de que Lula e Cristovam tenham tomado uma posição a respeito e o presidente do sindicato continua esperando o pedido público de escusas antes de decidir o “próximo passo”.

Uma comédia, não fosse uma tragédia.

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