• 23 dez 2009
  • Postado por Tiago

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Cúpula do clima de Copenhague: Fracasso, Farça e Fiasco

A primeira Conferência das Partes da ONU sobre o clima (COP-1) foi realizada em 1995, em Berlim, onde foram definidos compromissos legais de redução de emissões, que fariam parte do Protocolo de Kyoto, assinado em 1997 no Japão. O acordo entrou em vigor em 2005, através do qual 37 nações industrializadas se comprometeram a reduzir suas emissões de seis gases-estufa em 5,5% em relação aos níveis de 1990 até 2012.

O objetivo da conferência de Copenhague, que terminou na semana passada, era justamente conseguir um acordo climático para valer depois que o Protocolo de Kyoto expirasse, além de melhorá-lo. O clima final, da conferência mundial do clima, em Copenhague, no entanto, teve como resultado 3F’s: o Fracasso, a Farça, e o Fiasco.

Um “fracasso histórico” este foi o resultado que várias Organizações Não-Governamentais – ONGs consideraram sobre a conferência, pois após anos de negociações, há uma declaração que não vincula ninguém e não garante o futuro das gerações vindouras.

O texto omite qualquer referência às reduções globais do bloco industrializado para 2020 e 2050, como propunha as Nações Unidas, pois limita em reunir os objetivos de redução de emissões poluentes anunciadas por cada país antes da reunião em Copenhague.

O fracasso se deve principalmente aos dois maiores poluidores da atualidade: Estados Unidos e China que não cooperaram num esforço que permitia “deter a catastrófica mudança climática”, pois ao atrasar a ação, os países ricos condenaram milhões de pessoas que vivem nos países pobres do mundo, à fome, ao eterno sofrimento e à perda da vida conforme a mudança climática é acelerada.

Segundo o geógrafo Aziz Ab’Saber, a conferência não passou de uma grande farça, pois esta não atendeu realmente ao seu objetivo maior. Outro fato que chamou atenção foi o do Brasil ter levado cerca de 700 pessoas para Copenhague (a maior delegação de todas). Segundo o geógrafo, isso foi praticamente inútil, pois “quando uma conferência passa de 1000 pessoas em uma sala, elas ficam só ouvindo as metas e propostas dos outros. Não há espaço para debate ou questionamento, além do que as metas brasileiras são muito irreais”.

Infelizmente, o papel do Brasil na reunião, não foi de protagonismo, nem mesmo de mediador, assim como gostaria o presidente Lula. Uma das cenas mais constrangedoras coube a ministra da Casa Civil Dilma Roussef que cometeu uma pequena grande gafe ao comentar que: “O meio ambiente é, sem dúvida, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável.”

O acordo pré-aprovado trouxe metas para limitar o aquecimento global a 2ºC e a criação de um fundo que pode destinar US$ 100 bilhões todos os anos para o combate à mudança climática, mas sem nenhuma palavra sobre metas para corte em emissões de CO2, a grande expectativa da cúpula, que era pra ser a maior do século.

Para a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, o Brasil perdeu a chance de fazer a diferença contribuindo para o fundo de ajuda aos países pobres. “Um país que colocou 10 bilhões [de dólares] no FMI [Fundo Monetário Internacional] pode investir recursos para ter solidariedade com os países que precisam”, disse a parlamentar, considerando ter sido um equívoco o país não ter aderido ao fundo. “Se o Brasil tivesse aderido, mostraria que, se um país em desenvolvimento pode colocar 10% do valor total que está sendo investido, os países ricos poderiam colocar muito mais”. Essa adesão, segundo ela, seria uma ação simbólica, que poderia dar exemplo aos demais participantes da COP-15.

Tudo foi um grande fiasco, pois no final da reunião o texto pré-aprovado por, no total, 30 países ricos, emergentes ou em desenvolvimento, foi barrado por países como Tuvalu, Venezuela, Bolívia, Cuba e Sudão, para quem a adoção de um acordo com o qual não tinham colaborado não era uma opção.

Pelas regras da ONU (Organização das Nações Unidas), um acordo precisa de unanimidade para vigorar. Neste caso, no entanto, essa unanimidade exigia a conciliação de interesses de países exportadores de petróleo com os de ilhas tropicais preocupadas com as elevações do nível do mar –o que, afinal, se mostrou impossível.

Um integrante da delegação sudanesa comparou políticas dos países desenvolvidos ao Holocausto, dizendo que o aquecimento global está matando gente na África. Já a delegação de Tuvalu declarou: “Em termos bíblicos, parece que estão nos oferecendo 30 peças de prata para trair o nosso povo. Nosso futuro não está à venda. Lamento informá-lo de que Tuvalu não pode aceitar este documento”, disse o representante do pequeno país insular. Um total de 192 países participaram da conferência. A próxima COP está marcada para dezembro de 2010 no México.

Marcus Polette

* geógrafo, oceanógrafo, pós-doutor em Ciências Políticas, doutor em Gestão Costeira Integrada e mestre em ecologia e recursos naturais

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