• Postado por Tiago

O Haiti localiza-se na parte ocidental da ilha de São Domingos ou Hispaniola, no arquipélago das Grandes Antilhas. Possui uma superfície de 27.700 km², ocupando um terço da ilha, cuja parte oriental se localiza a República Dominicana.

O Haiti possui cerca de 8,3 milhões de habitantes e é hoje a nação mais pobre do continente americano. Antes do terremoto que abalou o país na semana passada, 80% da população já vivia em estado de pobreza absoluta. A situação social e econômica era ainda agravada pela alta incidência de Aids, com 250 mil casos estimados.

O Haiti é o país mais pobre das Américas. Possui uma história interessante, alternada por altos e baixos, sendo que os problemas de natureza ambiental, social e econômica explicam a realidade atual e que foi agravada ainda mais com a tragédia do terremoto experimentado na semana passada.

Esta história se inicia em 1492 quando Cristóvão Colombo, ao viajar para o ocidente, chegou em São Domingos, na República Dominicana. Os espanhóis estabeleceram fortes no litoral da ilha; após a segunda viagem de Colombo à ilha, a colonização foi estendida para toda a ilha, ocorrendo a escravização de indígenas para a agricultura e cerâmica. A partir de 1520 a colonização espanhola no Haiti teve então a sua decadência.

A partir de 1625, a ilha teve grande influência francesa, sendo que no final do século 17 praticamente toda a população nativa havia sido dizimada pela força e pelas doenças. Viviam então na colônia cerca de 500 mil negros, e o Haiti era então considerado como uma das mais ricas colônias da América, a “pérola das Antilhas”. A proclamação da independência ocorreu em 1804, sendo o Haiti uma das colônias mais prósperas do Novo Mundo.

Destacou-se pela produção de frutas, mas foi o açúcar a sua mais importante fonte econômica, que inclusive desbancou o Brasil no mercado europeu há alguns séculos. Atualmente, a cultura mais importante é a do café, seguida da cana-de-açúcar

Destaca-se que na vegetação original do Haiti abundavam árvores como o pinheiro, a palmeira-real, o cedro-antilhano, o carvalho-do-haiti, o pau-brasil, o mogno e a paineira. A exportação intensiva de madeira e a necessidade de terreno cultivável levaram ao desmatamento e à quase total extinção das árvores. Com isso, o país perdeu também parte do seu precioso aquífero.

Os brancos franceses deixaram o Haiti, mas foram substituídos por uma “elite mulata”, o que produziu um tipo de racismo dissimulado que perdura até os dias de hoje e dá causa de um dos seus conflitos políticos internos.

O período mais sombrio na história do Haiti iniciou-se em 1957, com a ditadura de François Duvalier. Médico sanitarista com prestígio mundial, devido a suas ligações com o movimento negro, realizara um grande trabalho junto às populações rurais no combate à malária, sendo apelidado de Papa Doc (papai médico). Este foi responsável por um regime ditatorial que estruturou um aparato de repressão militar que perseguiu os seus opositores, torturando-os e assassinando muitos deles.

A repressão era encabeçada pela milícia secreta dos tontons macoutes, cuja tradução é “bichos-papões”. Apoiado no vodu, Papa Doc morreu em 1971, após ter promulgado uma constituição em 1964 que lhe dera um mandato vitalício e ter conseguido que seu filho menor fosse declarado seu sucessor. Jean Claude Duvalier, o Baby Doc, assumiu o poder aos 19 anos, e deu continuidade a um regime de terror imposto pelo pai até 1986, quando foi deposto por um golpe militar. Esse duro período acirrou a miséria e a injustiça social no país.

A redemocratização do Haiti ocorreu em 1990, por meio de eleições livres e a população elegeu o padre Jean Bertrand Aristide para presidente. Em 1994, Aristide retornou ao poder, com auxílio do Estados Unidos. Mesmo assim, o ciclo de violência, corrupção e miséria não foi rompido.

Em 2004 o conselho de segurança da organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a criação da Missão de Estabilização do Haiti (MINUSTAH). A missão foi planejada para ter uma duração inicial de seis meses, sendo que coube ao Brasil prover a chefia da missão, bem como constituir o maior contingente nacional de “boinas azuis” (1.470 militares, de um total de 6.700), dentre os vários contingentes militares parte dela.

A fúria da natureza castiga sempre os mais desprotegidos, os mais miseráveis. A globalização demonstra ser um processo positivo, pois em questão de horas o mundo todo prestou solidariedade imediata ao Haiti. Mas nem só de ajuda vive um país, o desafio agora é impedir o caos, e reconstruir a dignidade perdida da pérola das Antilhas.

* geógrafo, oceanógrafo, pós-doutor em Ciências Políticas, doutor em Gestão Costeira Integrada e mestre em ecologia e recursos naturais

  •  

Deixe uma Resposta