• Postado por Tiago

Santa Catarina possui 36 municípios costeiros com centenas de praias que compõem um mosaico paisagístico frágil e complexo que merece cuidado na sua proteção e gestão.

Temos praias de mar aberto, em enseadas e baías, encaixadas entre costões, e em planícies de maré, entre outras. Existem ainda praias prístinas; sem ocupação, praias ocupadas por pescadores artesanais, praias em desenvolvimento, e praias totalmente consolidadas onde o processo de artificialização já é total.

A relação do catarinense com o ambiente praial é antiga, e provavelmente em Itajaí temos um marco desta forte conexão – a praia de Cabeçudas. Esta provavelmente tenha sido a primeira praia no Estado em que o turismo sazonal, o chamado veraneio, se consolidou e a fez conhecida há pelo menos sete décadas.

O fenômeno do veraneio incide sobre as praias por meio de pulsos populacionais que variam desde uma relação espacial temporal de natureza diária a interanual. O veraneio pode ser descrito como uma modalidade de lazer familiar caracterizado pelo uso eventual, no verão e fins de semana, de unidades uni e multifamiliares edificadas em parcelamentos urbanos, próximos à praia, e que permanecem fechados a maior parte do ano. O veraneio é o principal fator de expansão urbana e de ocupação territorial intensa nos municípios litorâneos não industrializados no Brasil.

A praia de Cabeçudas merece cuidado. Este cuidado não significa, no entanto, fazer de Cabeçudas um lugar privilegiado em relação a outros bairros de Itajaí, mesmo porque cada bairro tem sua particularidade. Mas, qual itajaiense não se orgulha da sua praia mais querida? Neste contexto, Cabeçudas urge ser revitalizada pelo poder público de Itajaí, especialmente neste ano em que o município completa os seus 150 anos.

Parte deste processo de revitalização está ocorrendo com as obras de saneamento já em avançado processo de implantação, no entanto, é necessário algo a mais, pois Cabeçudas deve ser um referencial do turismo tanto no verão como no inverno. Este é o bairro que tem tudo para ser também um pólo cultural de Itajaí, pois história é o que não falta neste local ainda com antigos casarões de forte influência da arquitetura germânica, sem falar no seu charmoso hotel no canto esquerdo da praia. A pequena capela completa um cenário integrado também pelo Iate Clube e ainda pelo farol de Cabeçudas. Cabeçudas é também acesso ao Canto do Morcego na praia Brava.

A revitalização de Cabeçudas necessita ser iniciada pelo seu acesso. Temos uma das estradas cênicas mais bonitas do Estado, onde descortinam-se em cada curva paisagens diferenciadas: os molhes, a praia do Atalaia, o Bico do Papagaio, o mar.

Inicialmente passa a ser fundamental a limpeza paisagística, com a retirada de out-doors e placas desnecessárias. Deve ainda ser repensada uma padronização das suas calçadas. Sendo este caminho parte integrante da população que caminha e corre; a demarcação dos quilômetros percorridos poderia ser uma solução barata e eficiente. Um incentivo a quem adotar as calçadas padronizadas poderia ser incentivado com a diminuição do IPTU para os moradores da região.

Em alguns pontos da estrada a inserção de belvederes e bancos faz-se necessário. O antigo e feio calçadão deve ser substituído por um deck de madeira que comporia um harmônico cenário quando integrado as amendoeiras da praia. A organização da praia e do comércio a beira-mar deve também se constituir de um projeto de revitalização do bairro.

No inverno e no verão poderiam ser incentivados festivais de cinema, de gastronomia, de teatro ao ar livre, tendo o charmoso hotel Marambaia de Cabeçudas como um dos palcos principais.

Cabe ainda destacar que o bairro tem um dos mais lindos recantos turísticos da região: o farol de Cabeçudas. Quem já teve a oportunidade de adentrar na trilha do farol, irá deparar em alguns trechos, com uma paisagem feérica e única na região. Um retorno na história, talvez em algum ponto de um passado tão longínguo em que nem os homens aqui habitavam. Urge ainda a transformação deste recanto em um Parque Natural Municipal. A sua absoluta reforma com trilhas seguras e áreas de contemplação poderiam fazer deste local ainda mais interessante para procedimentos de educação ambiental onde as escolas dos municípios de entorno teriam aqui um laboratório ao ar livre.

Cabeçudas é assim, tem um pouquinho de tudo ali. Não é à toa que há centenas de anos atrás índios escolheram este lugar para ficar e ali estabeleceram o seu sítio, onde hoje fica o Iate Clube. Se os índios valorizavam este lugar, porque nós não podemos fazer o mesmo?

* geógrafo, oceanógrafo, pós-doutor em Ciências Políticas, doutor em Gestão Costeira Integrada e mestre em ecologia e recursos naturais

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