• Postado por Tiago

Cerca de 60% de toda a população mundial vive na atualidade nos primeiros 200 km de costa. Este é o trecho mais urbanizado do planeta. A Europa, América do Norte, Oceania e América Latina, por exemplo, possuem 80% da sua população vivendo na área costeira. No ano 2000 existiam no planeta cerca de 100 pessoas vivendo por quilômetro quadrado próximo ao litoral, enquanto que nas áreas interiores viviam 38 pessoas.

Algumas hipóteses podem ser levantadas neste processo de adensamento do litoral, como por exemplo, sob o ponto logístico são áreas importantes para a economia; como também apresentam altos níveis de qualidade ambiental e de vida por serem também áreas preferencialmente turísticas. Neste sentido, áreas turísticas conservadas tendo como base a qualidade da natureza, tais como: água limpa, grande quantidade de cobertura vegetal presente, e o ar puro são considerados fatores decisivos para uma forte atração populacional.

Mas é na faixa costeira conhecida como orla que este adensamento tem sido cada vez maior devido ao processo de adensamento e verticalização, o que tem tornado a linha de costa cada vez mais artificial.

Quando nos deparamos com um edifício de 45 andares na orla, ficamos ao mesmo tempo extasiados com a engenhosidade humana, mas também preocupados, pois ali poderemos ter cerca de 45, 90, ou 180 apartamentos onde viverão entre 300, 600, 1000 pessoas, ou mais, em um espaço ora ocupado apenas por uma casa onde viviam no máximo até oito pessoas. Logo, ao construir um prédio desta natureza o grau de artificialização fica cada vez maior, e na maioria das vezes ninguém está interessado em saber qual o impacto que este edifício poderia causar na sua vizinhança próxima, mesmo porque poucos destes são construídos com critérios de certificação ambiental.

Balneário Camboriú é um município paradoxal, pois ao mesmo tempo em que possui paisagens absolutamente fantásticas e que merecem ser conservadas, possui também a necessidade de estar alicerçada entre um presente e futuro tendo como base apenas a arrecadação de IPTU. Todos sabem que é prudente não colocar todos os ovos em um único cesto.

O município, no seu trecho litorâneo, pode ser classificado em três setores: o setor da praia do Buraco e Amores; o setor da praia Central e foz do estuário do rio Camboriú, e a Interpraias. Destaca-se que estes setores possuem também diferentes graus de artificialização e qualidade ambiental.

Quando o grau de artificialização se torna incompatível com a capacidade que estes ambientes possuem em suportar um determinado impacto, certamente isto vai ser refletido em um efeito detrator da paisagem, ou ainda na dinâmica urbana, tais como o desmatamento das encostas, a qualidade imprópria da água do mar; a falta de água nas residências, o excesso de trânsito, o lixo na praia, as enchentes, a falta de esgotamento sanitário, e o calor excessivo nas áreas internas da cidade, entre outros problemas.

Em um estudo recente e inédito no Brasil, realizado pelo Laboratório de Gestão Costeira Integrada da Univali, foram verificados resultados animadores e críticos para Balneário Camboriú quanto aos diferentes graus de artificialização dos seus 20 km da sua orla: o trecho da Interpraias ainda possui 63,82% de espaços naturais (50,34% de vegetação; 5,85% de praias; 4,12% de corpos d`água e 3,4% de costões); o trecho compreendido pela área estuarina e Praia Central de Balneário Camboriú possui 74% de áreas totalmente artificializadas ou urbanizadas; já o setor Norte de Balneário Camboriú possui 78,57% de áreas ainda em estado natural.

Fica claro nesta pesquisa que a orla de Balneário Camboriú está em um momento crucial da sua história, e tudo depende da política pública adotada pelo atual poder público municipal, para que o seu futuro seja realmente promissor. Para isso a sociedade tem um papel fundamental, apoiando as medidas de conservação ambiental, tais como a implementação do Parque Natural Municipal de Taquarinhas, assim como a APA da Costa Brava com o seu respectivo zoneamento e Plano de Manejo.

Os projetos na orla devem mais do que nunca ser certificados ambientalmente nos preceitos da ISO 14001, o que além de garantir o caminho correto dentro do Princípio da Precaução, pode também ser uma estratégia inteligente e eficiente para um modelo a ser replicado em todo o Brasil. Vamos apostar sempre no futuro promissor da Pérola do Atlântico Sul.

Marcus Polette

* geógrafo, oceanógrafo, pós-doutor em Ciências Políticas, doutor em Gestão Costeira Integrada e mestre em ecologia e recursos naturais

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