• Postado por Tiago

Hoje, em vários países e, também, no Brasil, muitos estudiosos estão voltando sua atenção para as “doenças dos professores”. Codo (1999) fala de “burnout”: síndrome por meio da qual o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho, de modo que as coisas já não o afetam mais; é “a síndrome da desistência”, quando qualquer esforço na busca dos valores de seu trabalho lhe parece inútil. Jesus (1998) analisa o problema do mal-estar docente como sendo algo complexo, ocasionado por múltiplas questões, situado em vários planos, quer sejam: sociopolítico, de formação e de atuação dos professores.

Em pesquisa encomendada pela CNTE (Confederação Nacional Dos Trabalhadores em Educação) sobre as condições de trabalho e saúde mental dos trabalhadores em educação, verificou que “48% dos educadores são vítimas de algum mal-estar ocasionado pelo tensionamento das complexas relações sociais travadas no espaço institucionalizado”. Constatou-se ainda, nessa pesquisa, que 90% dos trabalhadores em educação dizem-se satisfeitos e a grande maioria encontra-se muito comprometida com o seu trabalho. Em estudo semelhante, realizado em Portugal, Jesus (1998) diz que “o processo ensino-aprendizagem não decorre com a qualidade desejada, não porque os professores não estejam motivados, ou não saibam o que fazer ou como fazer, mas porque não há condições que permitam implementar essa qualidade”.

Historicamente, os professores vêm sofrendo diretamente os efeitos perversos deste modelo de sociedade que privilegia o consumismo, a competitividade, em detrimento de relações e valores humanos verdadeiros. Neste contexto, é visível o desprestígio social da profissão, os baixos salários, as críticas destrutivas, a descaracterização da identidade coletiva da classe. Tudo isso, somado às dificuldades inerentes ao processo de ensino frente às novas demandas sociais postas pelo avanço tecnológico e da informação, impede, em muitos casos, a percepção das possibilidades e os desafios de cada momento histórico. A educação, como eixo central do projeto neoliberal, se consolida com o século 21 pela via da “sociedade do conhecimento” e ganha novos contornos, privilegiando a formação de pessoas capazes de atender a demanda do mercado.

É neste cenário que efetivamente se dá a atividade dos professores, precisamente dentro de uma instituição com uma estrutura fortemente conservadora, cuja prática está condicionada aos inúmeros processos que envolvem as relações sociais e que interferem na efetivação de seu trabalho. Os estudos sobre como desenvolvem esse trabalho ou de que fundamentação teórica fazem uso não levam em conta, em muitos casos, a complexidade do contexto em que este se realiza. Os professores não decidem sua ação na individualidade ou conforme suas escolhas, de forma isolada, transitam num ambiente coletivo, contraditório, carregado de tensões, limitações e também de possibilidades. É dentro desse espaço que procuram buscar alternativas para enfrentar os legados sociais relativos ao trabalho na e da escola pública.

Nesse sentido, ao se depararem com o complexo cotidiano escolar, caracterizado por gestão autoritária, baixos salários, estrutura física precária, ambiente hostil, tripla jornada, falta de recursos didáticos, violência, entre tantos outros, os professores, constitutivos e constituídos nestas relações, podem sentir-se imobilizados, silenciando-se frente às adversidades, ou podem sentir-se impulsionados a outras formas de resistência. O caldo destas relações é favorável à imobilização, no entanto, em estando postas outras possibilidades, os professores podem assumir o desafio e o desejo de transformar esta realidade. Identificando os espaços de contradição que tornam possível a construção de uma metodologia diferenciada, comprometida com o ser humano e com a vida em sua diversidade, articulam-se, rompendo assim, com as forças que os imobilizam, apropriando-se daquelas outras que permitem criar resistências que os levam a se posicionarem de maneira diferenciada, discutindo, tendo voz e ocupando lugares que antes não ocupavam. Assim transformam, assim se transformam enquanto inauguram um modo de pensar em que uma outra educação é possível, a partir mesmo das contradições e complexidades do processo educativo.

Boas reflexões no nosso dia.

15 de outubro de 2009.

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