• Postado por Tiago

Na ciranda da vida, nossos passos vão e vem, ora chegam ao passado, ora voltam ao presente. Rodopiando numa dança de emoções, o pensamento vai revendo fatos vividos no tempo, tão lúcidos como se acontecessem naquele momento.

Numa volta me vejo correndo pelo quintal, passando entre os canteiros floridos do jardim, que meu pai cuidava com tanto esmero. Vou rodando e a figura de minha avó paterna me faz lembrar dos dias em que me pedia para ir até a venda da D. Muchi para satisfazer sua mania de jogar no bicho. Meu avô, enrolando seu cigarro de palha, assobiava uma canção qualquer na porta da cozinha enquanto ela procurava um palpite, olhando para as nuvens e descobria, nas suas formas, um animal que se parecesse com aqueles da lista do jogo. Era uma figura singular. Seus olhos vivos e um sorriso largo transmitiam alegria e segurança. Os cabelos crespos, de um castanho quase louro, cortados retos, emolduravam seu rosto de pele macia e clara. Eu admirava suas feições mesmo depois que o tempo implacável registrava o outono da vida. Era a vó Sinha. Meu avô, um homem de boa estatura, pele amorenada, cabeleira farta de cabelos ondulados castanho-escuros, olhos castanhos e rosto expressivo, transmitia calma e serenidade. Eu olhava aquele rosto de bochechas flácidas que o tempo marcara, mas cuidadosamente barbeado, salientando um bigode bem aparado que lhe conferia o aspecto de um homem forte, austero, mas tranquilo. Falava pouco e quando contava uma história mostrava calma, esboçando apenas um leve sorriso.

Mais um rodopio e vejo uma menina subindo nas árvores para colher as frutas do quintal, e a outra avó, preocupada com as peraltices da neta, pedindo que se cuidasse para não cair. Um caquizeiro e um pé de bananinha do Japão eram minhas árvores preferidas para apanhar as frutas. Minha avó ficava angustiada quando eu dizia que quando crescesse iria ser freira ou bailarina. Ela então me desestimulava dizendo que “ser freira é muito triste, tem que fazer muitos sacrifícios” e “ser bailarina não é profissão para uma pessoa de bem, vive entre artistas que não são bem vistos na sociedade”. Ah! Aquela minha avó! Pessoa séria, conservadora nos costumes, tanto no vestir como nos modos de pensar, cheia de etiquetas e boas maneiras. Lembro de sua figura esguia, cabelos brancos, presos atrás, feito um coque, vestido preto, longo, não aderiu à moda dos vestidos curtos, preferindo a do início do século passado. Quando ela faleceu, D. Adelina Narciso veio à nossa casa e fez um caminho com pétalas de rosas, desde o portão até a porta da casa, para receber o padre que viria fazer a cerimônia do funeral.

Continuo rodopiando nessa dança de emoções e aquela menina se prepara para ir à escola. No primeiro dia, de manhã, saiu com o pai na cadeirinha da bicicleta. Chegando ao Colégio, apeou-se, arrumou a saia pregueada do uniforme e, de pasta na mão, subiu os degraus, na entrada do portão, toda prosa porque estava começando sua vida escolar. Seu pai havia comprado uma pasta escolar, lápis, cadernos, entre eles, um de caligrafia e outro de desenho. Estava feliz, pois ia aprender a ler e a escrever, fazer contas, e, o melhor de tudo, teria muitas amiguinhas para brincar na hora do recreio. Mas, quando bateu o sino, seu corpo todo estremeceu ante a expectativa do que aconteceria dali para frente.

Mais uma volta e me vejo recebendo o diploma de normalista. Era meu sonho ser professora. A dança continua e a professorinha, recém-formada, vai conhecer a escola onde começaria a sua trajetória no magistério. Naquele dia, o sol brilhava e o calor daquela hora já prenunciava o dia quente que teria de enfrentar. Vestia o guarda-pó branco, uma bolsa e um caderno no braço, e no coração a alegria de encontrar os alunos. Na cabeça, muitas ideias. Chegando à escola, foi entrando de mansinho, olhando timidamente para as outras professoras. Não conhecia ninguém. Seu coração já não batia com tanto entusiasmo. Este foi o primeiro dia de trinta anos dedicados ao ensino das crianças da minha terra, trabalhados com carinho e que me deram grande satisfação. Foram emoções as mais diferentes e contraditórias que eu nunca pensei que pudessem acontecer num só dia. Mas valeu a pena. O sonho se realizou.

Agora, a música vai terminando e a dança de emoções, num último rodopio, me traz para o presente.

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