• Postado por Tiago

E o casarão de Olympio Miranda Jr. foi demolido. Depois que o mal é feito todos comentam e lamentam o acontecido. A imprensa, a televisão e os curiosos saem correndo para assistir a demolição e ficam a conjeturar sobre o motivo que levou seu proprietário a se desfazer de um imóvel valioso e de tantos anos de existência.

O que podemos dizer de alguém que não é de Itajaí, que não conhece a nossa história, que não se importa com o nosso patrimônio, que se estabelece na cidade para explorá-la, que não sabe agradecer a hospitalidade recebida, investindo contra nossos símbolos culturais?

A empresa Lin Lei Ltda. quando adquiriu o imóvel, com certeza não conhecia a história do casarão, mas quando quis demoli-lo ficou sabendo, e procurou tomar medidas para não ser prejudicada no seu projeto de construção de mais um espigão para explorar a população.

Esta empresa, no mínimo, merece o desprezo dos itajaienses que amam sua terra.

Muitas são as lideranças que deixaram sua história de trabalho e desenvolvimento para orgulhar o povo desta terra, entre elas se encontra o que mandou construir o casarão, Olympio Miranda Jr. Descendente da família Miranda, originária de Portugal, teve seus avós residindo em Itajaí desde 1847, quando constituíram uma família de 11 filhos.

Alguns anos depois de casado, Olympio construiu, em terreno da família, na rua XV de Novembro, sua residência, na segunda década do século XX, onde morou por mais de cinquenta anos. Era um sobrado em estilo europeu, com área de quinhentos metros quadrados, de grossas paredes, com janelas e portas decoradas, assoalho de madeira de canela, corrimões da escada com adornos, uma verdadeira joia da arquitetura da época. Depois do falecimento da viúva, D. Hedi, a casa foi vendida pelos herdeiros. Em 1984, o casarão foi negociado com Reinaldo Wanderhec que o restaurou morando com a família até bem pouco tempo. Atualmente, era de propriedade da empresa Lin Lei Ltda.

O casarão de quase cem anos, tem uma história para contar pela sua arquitetura, pela trajetória de vida do seu proprietário, pela tradição familiar, tornando-se digna de ser preservada e tombada pelo patrimônio histórico de Itajaí.

O casarão estava em processo de tombamento cultural e, em janeiro deste ano, foi solicitado para o promotor acelerar a decisão do mesmo.

O tombamento de um bem cultural foi instituído pela Lei Municipal em 1982 e desde então vários imóveis foram tombados. Entretanto, há muito desconhecimento quanto às vantagens e desvantagens de aceitar ou não o tombamento de um prédio histórico.

Quanto aos herdeiros, é o ônus da família por pertencer a um ancestral que honra a cidade por ser um realizador que, com seu trabalho, passou a fazer parte da sua história. Quanto ao proprietário de um bem histórico, ele é o fiel conservador deste bem, mesmo que não seja descendente da família. É seu dever preservar e conservar o bem que faz parte da história da cidade, podendo fazer melhorias, ocupar conforme prevê a lei, mas é proibido demolir, sob pena de punição. Dura lex, sed lex (a lei é dura mas é lei). Mas, como a impunidade neste nosso Brasil é uma constante, não sabemos o que pode acontecer, agora que o casarão foi violentamente destruído.

A empresa Lin Lei Ltda., aproveitando uma liminar, assinada em 14 de abril pelo juiz Rodolfo Cezar Ribeiro da Silva, segundo afirmam os que viram, para quebrar tudo na calada da noite, não esperou o resultado da procuradoria da Prefeitura que recorreu ao tribunal de Florianópolis. Decidiu demolir o casarão bem no dia do feriado, aniversário de Itajaí, colocando os tratores contra um bem de quase cem anos de história, afrontando a população com este ato de violência.

Está na hora do povo se indignar contra estes forasteiros, seja ele proprietário ou representante da justiça, que são sempre tão bem recebidos, e cobrar dos órgãos públicos a inércia e a falta de compromisso com os valores da nossa história. Agora, o mínimo que podemos esperar é que a Lei seja cumprida e à empresa seja aplicada multa por desafiar a justiça. E mais, que o valor da multa, por algum mecanismo legal, seja usado para restaurar os bens tombados pelo patrimônio cultural.

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