• Postado por Tiago

Quando é tempo de férias escolares a Cidade fica diferente. O movimento nas ruas se acalma e não se ouve o barulho dos estudantes passando pelas calçadas, rindo, gritando e conversando descontraídos. Não vemos uniformes, mochilas nas costas, nem as bicicletas e ônibus escolares transitando pelas ruas, engarrafando o trânsito nas primeiras horas do dia, ao meio dia e no final da tarde. O silêncio é maior nesse período. Fico imaginando a volta desse burburinho e me quedo a pensar o que fizeram essas crianças e jovens durante o recesso escolar. Volto-me ao passado e recordo outros tempos, quando os divertimentos eram tão diferentes dos que conhecemos hoje. Não havia grande movimento de carros, as ruas eram lugar de recreio para as crianças e jovens da vizinhança. Ali elas se encontravam para jogar bola, brincar com bolinhas de vidro, laçar pião, andar de bicicleta. O quintal era o lugar preferido para brincar de “bandido e mocinho”, subir nas árvores, imitando o Tarzan, o rei da selva, jogar amarelinha e tantas mais. As meninas se divertiam pulando corda, brincando de casinha, de comadre, de cozinhado, de professora. No quintal da casa da vizinha, as meninas colhiam folhas de laranjeira e espinhos para montar vestimentas, as folhas de mamona para juntá-las de duas em duas fazendo bolsas, as bagas de arrebenta-cavalo, verdes e vermelhas, para montar colares e depois desfilavam com o resultado da sua criação. Imitavam as mães dialogando como se fossem adultas, imitando as falas que ouviam. Havia momentos de competição, principalmente, entre os meninos. Às vezes faziam corridas, salto em altura e em distância, atiravam pedras ou varas como se fossem dardos, enfim, desenvolviam atividades físicas sem pensar que estavam praticando exercícios próprios para a saúde. Pés descalços, roupas bem usadas para se sentirem à vontade. Mais tarde, veio o tempo do bambolê, do rolimã, do patinete, dos patins, entre outros. Nos dias de chuva, improvisavam um palco para imitar equilibristas e palhaços que viam no circo, e todos os dias, no final da tarde, ouviam o seriado que passava no rádio. Domingo era dia de matinê, no Cine Itajaí, quando trocavam gibis, e figurinhas para completar o álbum. A leitura também fazia parte da recreação. Livros infantis que falavam de fadas e de animais falantes, livros juvenis que traziam histórias de heróis e príncipes encantados, muitas vezes recomendados pelos professores. Lembro-me do “Meu pé de laranja lima” e do “Rosinha minha canoa”, de Mauro de Vasconcelos.

Mas o tempo passou e tudo isso ficou para trás. Crianças e jovens ficam na frente da televisão e do computador, não sabem brincar, nem jogar como antigamente, praticando exercícios, jogam na frente da máquina, imobilizados, durante longas horas, exercitando apenas a memória, provocando inúmeros problemas para saúde, com prejuízos à visão e aos membros superiores. A obesidade é outro problema. Além da vida sedentária, a alimentação à base de coca-cola e sanduíches ajudam a provocar este distúrbio. A comunicação é feita através dos dedos, pelo Orkut, MSN, Blog e pesquisam no Google. O passatempo é o computador e a televisão. Os livros são virtuais, assim como os amigos. Não há preocupação com a postura, sentam de qualquer jeito na frente do monitor, ficam jogados no sofá assistindo tevê. Deixam de apanhar sol, de observar o seu redor, de formar um grupo na vizinhança. Os vizinhos não colocam mais as cadeiras na frente da casa para, sentados, ficarem conversando.

Não há mais o prazer em pegar uma canoa para pescar ou tomar banho na beira do rio. Muito do que acontece é causado pela falta de espaço, já que a maioria mora em apartamento. As ruas não são mais lugares para brincar, onde o trânsito e a violência tiram o sossego e a preocupação.

Tudo é mais sofisticado, os esportes são feitos nos clubes de campo, os brinquedos ficam no Shopping, não caminham, usam carro ou ônibus.

Passam as férias e eles retornam às aulas. O tempo de lazer se esvai sem ter muito o que contar, salvo quando os pais podem se ocupar com algum programa levando os filhos a passear, visitando lugares, fazendo turismo. A maioria fica nessa mesmice, do computador para a televisão. Será este o preço do progresso?

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