• Postado por Tiago

Os homens andam muito apressados, preocupados com o ter, com o possuir bens materiais, nem sempre sabendo o que lhes é melhor. Esquecem os valores da vida que podem trazer alegrias e recompensas, mantendo relações de amizade e afeto, encontrando momentos de satisfação entre seus familiares e amigos. Não há tempo para o lazer e o convívio frequente, sentindo-se útil a quem está próximo.

Antigamente havia tempo para escrever uma carta, para visitar aos entes queridos, conversar com os vizinhos e atendê-los quando precisassem, apoiando sempre às suas necessidades. Quando apareceu o telefone tudo se tornou melhor, porque era possível ouvir a voz de quem estava distante e as pessoas se emocionavam ao receber as notícias. Os tempos passaram e apareceu o celular, facilitando a comunicação com mais rapidez, mais facilidade, encontrando as pessoas onde quer que estejam. A comunicação é quase instantânea. Depois apareceu o computador revolucionando a comunicação, oferecendo diversas maneiras de receber notícias com os sites, blogs, e-mails aproximando as pessoas do mundo inteiro. Entretanto essa forma de comunicação é a mais fria quando se trata de entrar em relacionamentos mais afetuosos. Esta facilidade fez os amigos usarem o recurso para mandar os recados mais simples. Não se lembram de que um e-mail não transmite a voz nem a letra da pessoa amiga. Nada se iguala ao ouvir a voz da pessoa querida, nem a alegria de admirar a letra escrita de próprio punho, em papel perfumado, expressando a saudade e a distância de quem as recebe. Felizmente, a informática conseguiu realizar o milagre de, com uma câmera, trazer a voz e a imagem dos amigos e entes queridos através de recursos como o Skip ou do MSN, mas nem sempre usado por todos. É a sensibilidade brotando do coração e tocando as cordas dos sentimentos mais generosos

Mesmo assim, o homem tem pouco tempo para pensar nestes valores. Está com pressa para resolver seus negócios, precisa aproveitar as vantagens oferecidas pela mídia, tem pressa em consumir os bens mais recentes e oferecer à família, correr, correr, o tempo é curto, amanhã pode ser tarde para adquirir tudo o que necessita para satisfazer a sociedade cada vez mais exigente.

Lembrei-me, então, do livro “O Pequeno Príncipe” de Exupéry, quando, visitando os planetas, chegou ao quarto planeta e encontrou o homem de negócios, que estava sempre ocupado e nem levantou a cabeça com a chegada do visitante. Contava sem parar, as estrelas, milhões delas, não tinha tempo para atender quem quer que fosse. E o principezinho queria saber o que ele contava, – milhões de que? – mas o homem dizia que tinha tanto trabalho, que era um homem sério, não se preocupava com ninharias. Insistindo na pergunta, o homem disse que, durante o tempo em que morava naquele planeta, ele era o terceiro a incomodá-lo. E explicou que eram – “Essas coisinhas douradas que fazem sonhar os ociosos. Eu cá sou um sujeito sério, não tenho tempo para divagações” – Ah! Estrelas! E o que fazes com milhões de estrelas? –Nada, eu as possuo. – E de que serve possuir estrelas? – Serve para ser rico, para comprar outras estrelas. Intrigado, o príncipe não sabia como se podem possuir as estrelas, mas ele disse que, se elas não são de ninguém, logo, são dele. E ele as administra, conta e reconta, é um trabalho difícil, mas ele era um homem sério. E o príncipe explicou que, se tivesse uma flor, ele poderia colhê-la e levá-la consigo, mas ele não podia colher as estrelas. E concluiu que ele era útil aos vulcões e à flor que possuía, mas o homem de negócios não era útil às estrelas. Mas o homem de negócios disse que podia colocá-las num banco, escrevendo num papel o número de estrelas e trancando-o numa gaveta. Mas o príncipe tinha “ideias muito diversas das ideias das pessoas grandes.”

Estes são os homens do nosso tempo. Homens de negócios que acreditam que são “homens sérios”, não têm tempo para se envolver com “ninharias” pois precisam acumular suas “estrelas”, possuir uma gorda conta bancária que lhes dará segurança, não importa se o resultado será útil para manter a felicidade dos seus familiares e dos amigos mais caros. Presentes valiosos são mais importantes do que dedicação, carinho, atenção, sentimentos que gratificam e acalentam o coração.

Marlene Rothbarth

* pedagoga, escritora, membro fundador da Academia Itajaiense de Letras, ex-diretora do Museu Histórico de Itajaí

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