• Postado por Tiago

Se alguém se preocupar

No estabelecimento de ensino, entidade filantrópica, dedicada a formar meninos e meninas pertencentes a famílias de baixa renda, a voluntária transmitia noções de Moral e Cívica, de maneira informal, utilizando elementos da realidade próxima, na intenção de ser compreendida.

Dificilmente a mensagem atingiria ao público visado, se usasse termos rebuscados ou falasse de lugares nunca visitados.

Assim, em voz tranqüila, transportou-os, em pensamento, até a praça em frente à Catedral. Lembrou como a praça estivera feia e mal cuidada, até que um grupo de pessoas assumisse o compromisso de transformá-la. Primeiro, após muitas combinações, fizeram um projeto, pois não se pode construir sem saber o que se deseja realizar – explicou. Pronto o projeto, como precisassem de dinheiro para executá-lo, empenharam-se em conseguir a importância: pediram aos amigos, fizeram chás e almoços beneficentes, tiveram que vender as entradas e organizar os eventos. Deu trabalho, mas a turma estava contente, pensando em como a praça ficaria bonita e seria um cartão de visitas para valorizar a cidade. Sabem como é, um sinal de que os cidadãos se importam.

Após algum tempo – a voluntária contou às crianças, muito interessadas na história – a praça ficou pronta, com bancos novos, canteiros arrumados, piso reformado; uma beleza. Todos os envolvidos no projeto ficaram felizes; até as pessoas que não tinham se dado conta da importância de ter a praça arrumada ficaram contentes. Como quando a mãe se esforça para arrumar a casa, ninguém ajuda, mas depois todos apreciam o resultado.

Contudo, certa noite, aproveitando que todos dormiam, um grupo de vândalos quebrou os bancos e as luminárias, arrancou as plantas, pisoteou os canteiros. Pela manhã, quando as pessoas passaram a caminho do trabalho ou da escola, a praça estava destruída.

Nesse ponto da história – é preciso que se diga – um ar de consternação surgiu nos rostos das crianças, que ouviam atentas. “Quem fez isso?” – a menina perguntou. “Foi gente lá do bairro?” – quis saber o menino, indo direto ao ponto da sua preocupação.

– Não se sabe quem foi – respondeu a voluntária. Mas nada indica que tenha sido gente do seu bairro. É provável que tenham sido jovens desocupados, quem sabe até de famílias com posses, jovens que não respeitam o trabalho nem a propriedade dos outros, porque ninguém nunca conversou com eles como estou conversando com vocês. Jovens que não receberam educação e a quem não foram impostos limites, por isso acham engraçado destruir. São os mesmos que riscam as casas que os donos, com esforço, recém pintaram, e depois se divertem maltratando mendigos e fazendo brincadeiras com negros e gays, como se causar constrangimento aos outros fosse piada. Tudo isso porque não sabem fazer coisa melhor, ninguém os ensinou a construir, assim eles têm raiva de quem sabe.

As crianças ouviram em silêncio, como se estivessem armazenando dados em seu computador interno. Pertencentes a famílias consideradas de alta vulnerabilidade em relação ao álcool e às drogas, recebem noções de bons princípios e cidadania, na entidade assistencial. Como esses ensinamentos são transmitidos com carinho, firmeza e perseverança, é provável que representem o seu passaporte para uma realidade diferente.

Se, em cada lar e em cada escola de todas as cidades, alguém se preocupar em seguir o exemplo dessa educadora – que por acaso alguém presenciou – com certeza um país melhor estará sendo construído.

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