• Postado por Tiago

ACOMODAÇÃO

O casamento vai mal. Aliás, sempre esteve de mal a pior. Pensando em consertar, ela teve filhos. Só piorou. Mas os dois seguem juntos, ele cultivando a úlcera e dando as suas escapadas, ela se entupindo de soníferos para enfrentar o silêncio da noite, a fim de não escutar as cobranças do seu coração.

O relacionamento de outra também não é lá essas coisas, mas tá difícil arrumar namorado, sabe? Assim, continua com o que lhe apareceu, iludindo a si mesma e ao parceiro, a quem não é dado saber que não está agradando.

O funcionário está longe de atender às necessidades mínimas. Falta ao serviço, não se organiza o suficiente, perde tempo na internet. Só não é despedido porque “ruim com ele, pior sem ele”.

A empregada doméstica, então, essa nem se fala. Um verdadeiro caos. Na cozinha, nada funciona sem a presença da patroa. A arrumação da casa se prolonga, sem nunca se saber o que já foi realizado. As roupas até que lava bem, pena que não saiba passar, ainda que viva pedindo e conseguindo outro tipo de ferro elétrico, como se o problema estivesse nele. Mas onde achar outra melhor? “Tá tão difícil…”, por isso ela conserva o seu emprego, até o dia em que tome a iniciativa de sair.

Amigos também incomodam, quando não correspondem às necessidades ou às expectativas. Quando optam por puxar o tapete, disfarçadamente. Quando criticam pelas costas, são interesseiros, abusam da confiança, bebem demais, causam problemas nas festas, constrangem Mas a gente precisa de companhia pra sair, né? Por isso a gente aguenta.

Sobram lamúrias, nos relacionamentos insatisfatórios. Prolongam-se as queixas, é provável que à espera de alguma intercessão divina, pois isso é o que se pode imaginar quando alguém opta por reclamar, em lugar de se esforçar para modificar aquilo que não o satisfaz.

Felicidade é um sentimento ou estado de espírito, não sei bem, que depende de correr atrás. Não é algo que aconteça num estalar de dedos, embora a gente até se engane, quando tem uma amostra e pensa que ela veio pra ficar. Num instante, está tudo perfeito como na mais linda história; de repente, degringola.

Mas há vários tipos de felicidade: há aquela, esplendorosa, que nos toma de sopetão e pode fugir a qualquer momento e a outra, construída por nós mesmos, palmo a palmo. A primeira independe de nós e se alimenta de acontecimentos aleatórios e ocasionais, como os momentos felizes com que somos presenteados, de vez em quando. É ótimo usufruí-los, mas o bom-senso manda que não esperemos grande continuidade deles. A segunda, sinônimo de paz de espírito, é trabalho suado nos bastidores da vida, questão de se preparar, organizar e não condescender mais que o suportável. Lembra o ajeitar das almofadas para proporcionar conforto, o baixar as venezianas para o quarto se conservar agradável, o preparar-se para enfrentar os imprevistos. Quero dizer, felicidade que se preze é conquista, trabalho duro para a vida toda. Essa, como se vê, não combina com acomodação.

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