• Postado por Tiago

O jardim secreto

O primeiro jardim era pequeno, semelhante a todos os outros; o seu diferencial era o portão de ferro a separá-lo do segundo jardim. Aos meus olhos de criança, transpor aquele portão era penetrar num mundo mágico, com caminhos estreitos entre canteiros de flores. Parecia-me que algo misterioso estava prestes a acontecer ali, algum tipo de revelação ou acontecimento.

Como se, de repente, um passo em falso, uma risada mais alta pudesse precipitar as coisas. Por isso, caminhava com cuidado entre os canteiros, sem me desviar do traçado permitido e sem perscrutar muito o entorno, receosa da descoberta.

Na vida, às vezes, o inusitado acontece, e quando a gente se dá conta já atravessou o portão. Num segundo, a paisagem mudou e o conhecido, o lugar seguro, ficou para trás. Não deixou de existir, apenas ficou para trás, porque esse portão fecha, no momento em que é transposto, e quem sabe é essa a mágica.

Embarquei no Expresso Noturno, nome do programa dirigido pelo radialista Sérgio Correa, na Rádio Universidade, às 22h dos sábados. A intenção era comentar algumas crônicas do livro Fazer o quê? _ de minha autoria – recém lançado em Pelotas. O programa inclui perguntas dos ouvintes, que participam ativamente. Pois, nessa noite, sem aviso prévio, alguns deficientes visuais, ligados à escola Louis Braille, entraram no Expresso. Se a proposta era discutir os temas do livro, também gostariam de conhecê-lo, falaram, requisitando o seu direito à informação. Pego de surpresa, o “maquinista” sugeriu uma pequena edição em Braille, desde que os interessados conhecessem alguém capaz de traduzir cada crônica para a linguagem especial. A sugestão não despertou o entusiasmo esperado, pela justificativa de que poucos deficientes visuais têm familiaridade com o Braille. A preferência seria pela confecção de um cd com as crônicas, argumentaram. Enquanto prós e contra, facilidades e empecilhos eram debatidos, o Expresso avançava na escuridão, rumo à meia-noite. Em alguma estação, o farol vislumbrou a ideia luminosa: as crônicas poderiam ser lidas e comentadas, uma ou duas de cada vez, na própria escola, por voluntários. Simples como a mais singela das ideias, fácil como aproveitar o portão aberto e entrar no jardim secreto.

Combinar dia e hora adequados, emprestar os olhos, penetrar no universo de quem, privado da visão, se obriga a descobrir outros caminhos e maneiras diferentes de fazer as coisas corriqueiras.

Antes que fosse feito contato com a escola Louis Braille, para saber do interesse ou receptividade, prontamente algumas pessoas se declararam dispostas a assumir a tarefa. Foi abrir o portão, dar o passo à frente e enxergar. Comprovar a importância do rádio, para os deficientes visuais: um mundo que não os segrega. Absorver a ideia de que há grande número de pessoas nessas condições, todas desejosas de participar, confraternizar, serem aceitas e entendidas em suas necessidades e dificuldades. E que nem é preciso ir até uma escola especial para proporcionar uma leitura agradável, pode-se fazer isso em casa, para o velho que perdeu o interesse pela leitura, mas gostará de ouvir o som da voz que se importa com ele. Nem sequer precisa ser determinado livro, poderá ser qualquer um que lhe desperte a curiosidade.

De repente, o jardim perdeu o mistério. Já não metem medo os mundos além do portão de ferro. A mágica é que eles se mostram, quando decidimos enxergá-los.

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