• Postado por Tiago

Comparações

Na infância, cresci rapidamente, ao ponto de aparentar mais idade que a real. Achando-me demasiado alta e desengonçada, procurava me encurvar, atitude logo desencorajada por mamãe, que tratou de colocar um livro na minha cabeça e me mandar circular, deixasse de ser boba.

Meu ideal de beleza era a colega loira, miudinha, de olhos azuis. Mas era feliz, à minha maneira, participando de brincadeiras violentas com os irmãos, entreverando-me em brigas em que rolava pelo chão, esfalfando-me em corridas pelo pátio, dando e recebendo tiros imaginários dos revólveres de brinquedo, naquela época brinquedos adequados, ou me digladiando em lutas de espadas, após as sessões no Cine Capitólio. Cheia de vida e alegria de viver, aceitava a parte que me cabia, sem maiores questionamentos, em qualquer distribuição. A parte do elogio que me tocava, por exemplo.

A cena era clássica: perante a visita, amiga de nossas mães, que há muito não nos via, chegávamos a prima e eu, juntas, como de costume. Diante da prima, a visita, encantada, não continha a exclamação: “Como está bonita”! Logo se dava conta da minha presença e completava, a emenda pior que o soneto: e a Marta, cresce mais que um jerivá!

O elogio à prima não me incomodava, por sabê-lo justo, o chato era a obrigação de me enxergar e falar algo. Quando ouvia o elogio, eu já ficava esperando a continuação, o indefectível jerivá. Para piorar as coisas, não sabia o que a palavra significava e naquele tempo ainda não criara o hábito de correr ao dicionário à primeira dúvida. Na minha percepção, jerivá devia ser girafa e era assim que me sentia, comprida e deslocada, fora de contexto.

Com a repetição da cena, passei a me divertir com ela e com a saia-justa em que a visita se colocava. Com o tempo, deixei de me destacar pela altura, e de ser comparada ao jerivá, que afinal é apenas uma palmeira solitária.

Comparações fazem parte do dia-a-dia. Comparamos tudo, quase sem pensar. Pior, comparamos pessoas: irmãos, amigos, alunos, professores, funcionários. Esse é mais bonito, aquele mais inteligente, esse se porta melhor, aquele nunca nos deixa na mão. Pela comparação impensada, ainda que sem intenção malévola, algumas vezes colocamos as pessoas em campos adversários, levadas a também se compararem, cada uma buscando justificativas para a sua atuação ou desempenho, tentando diminuir o valor da outra, a fim de que o seu possa sobressair. Contingências de quem se vê exposto, colocado no pódio, mesmo à revelia. Sem que tenha solicitado nota para a sua atuação – na vida, na escola, em qualquer lugar – de repente o sujeito é rotulado, comparado e cobrado.

Cada um é o que é, que bom quando se compreende e se aceita isso, sem comparações, sentimentos de inferioridade ou tentativas de se mostrar superior. Quando cada um consegue se olhar no espelho e aceitar a figura ali refletida, essa é a parte válida. Por isso o livro na cabeça perdeu a função: caminhamos altaneiros pela vida, quando paramos de nos preocupar com as expectativas alheias.

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