• Postado por Tiago

Novo ano

Algumas pessoas são boas companhias para festas e para quaisquer momentos alegres. Podem ser chamadas à última hora, que se apresentam na maior animação. Não contem com elas para acompanhar um ente querido em longas enfermidades ou para enfrentar a vigília de um velório. Por sensíveis ou por comodistas, parecem se afligir mais que os íntimos, por isso se protegem, evitando esse tipo de situação.

Outras, ao contrário, parceiras em momentos penosos, fogem das comemorações festivas, dos aniversários alegremente lembrados, das formaturas. Reservam-se para as horas difíceis, quando se armam com a expressão do maior pesar para expressar o seu carinho e transmitir o seu apoio.

Cada um tem sua maneira de reagir aos acontecimentos e seu jeito próprio de expressar carinho. Também nós inúmeras vezes não correspondemos às expectativas alheias (há dias em que eu, por exemplo, não correspondo nem às minhas), por isso ninguém está aqui para atirar a primeira pedra. Na juventude, costumamos cobrar dos outros as reações que nos surpreendem ou desagradam; pretendemos medir a amizade pelo apoio ou a falta dele, tanto nos momentos tristes como nos festivos. Com a maturidade, aprendemos a aceitar os outros do jeito que são, valorizando principalmente as qualidades, e passamos a nos incomodar mais com as nossas próprias falhas.

Era o que acontecia naquela família, em relação à velha tia, sempre muito prestigiada. Embora fosse pessoa boa e preocupada com os seus, ela não cultivava o hábito de fazer visitas, como era usual em tempos idos, antes que o horário das novelas bagunçasse a vida social de toda a gente. Na verdade, não é que ela nunca visitasse ninguém, ela apenas se reservava para os momentos mais significativos, em geral quando a pessoa já estava moribunda, no leito de morte, pres tes a dar o último suspiro. Nesse momento, costumava aparecer, com toda a pompa e circunstância, vestida de preto, com o ar compungido que o momento exigia.

A família aceitava o seu jeito de ser. No início, é óbvio que o comportamento causava estranheza, mas com o tempo passou a ser aceito com naturalidade. Surpreenderia se ela aparecesse numa festa de formatura ou de casamento. Contudo, para contrabalançar, em velórios e enterros a sua presença era garantida.

Certo dia, contudo, uma sobri nha foi visitar outra velha tia, prima da primeira, que se encontrava acamada. No meio da visita, sem muito assunto, dadas as circunstâncias, a sobrinha disse: “A tia disse que vem lhe visitar amanhã”.

Para surpresa da sobrinha, a doente ergueu meio corpo na cama e começou a gritar, chamando os filhos e netos para se despedirem. Acabara de descobrir que estava muito mal e teria pouco tempo de vida, pela anunciada visita da ve lha prima, que só aparecia quando o caso não tinha mais volta, como era sabido.

Dessa forma, a importante visita, em lugar de ser prazerosa e aguardada com alegria, quase apressou o final da doente.

Seja essa a mensagem, no ano que inicia: não deixemos para amanhã as obras e os gestos gentis que podemos realizar hoje. Sequer deixemos de nos presentear com momentos alegres e com a companhia daqueles a quem queremos bem ou que nos fazem bem. Amanhã poderá ser tarde demais.

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